Bis Cezário Lourenço: O Dia em que o mundo Descoloriu-se Certa...

O Dia em que o mundo
Descoloriu-se


Certa manhã, no instante em que meus olhos encontraram-se com os primeiros raios de sol do dia, deparei-me com uma imensidão incrivelmente fantástica de cores.

Vesti-me com tal “vestido de nuances” e enfeitei-me com um sorriso desigual, pois o colorido irradiava minha alma.

Saí caminhando pelas ruas com determinado brilho no olhar que emanava bons pensamentos a tudo e a todos, observando sobre mim o balé saudoso das nuvens e o cantar das árvores: tudo estava magnificamente diferente, em uma proporção gigantescamente agradável.

Cheguei a meu destino e as cores pairavam no ar e eu rodopiava por entre elas e sentia meu coração flutuar... como se você estivesse por perto!...
Os perfumes eram coloridos...
Os sons eram coloridos...
Os sorrisos eram coloridos...
As esperanças, coloridas...
Cores, cores e mais cores...

Subitamente, vem-me um branco à mente, um frenesi incontrolável, inexplicável...

Quando volto à realidade percebo uma desilusão de óptica: as cores esvaindo-se gradativamente!...

Uma despersonificação intrínseca dominando minha razão – ou emoção – e os perfumes, sons, os sorrisos vão-se com as esperanças, esfacelando-se pelo universo vão.

Minha consciência rodopia em sentido anti-horário em busca das nuances, mas tudo que encontro limita-se a um desbotamento mais intenso.

O radiante sol que predominava cedia às nimbos revoltosas, que encobriam o azul celestial, tornando-se-lhe cinza.


Um pânico sombrio domina pensamentos meus e uma galhofa intrépida apossa-se do ar.

E, enquanto aquela ausência de tons ia tornando-se natural, eis que um curioso “amarelo” atrás de mim, iluminando meu coração – talvez fosse uma lembrança tua, talvez fosse um vestígio de seus gestos que persistiu em mim... talvez fosse... talvez...

Mas como todas as outras, essa esperança amarelada e doce tornou a se melancolizar, levando consigo tua lembrança.

Saio novamente e encontro as nimbos anunciando uma possível procela: cinza.
Tudo cinza, tudo cinza...
As primeiras grossas gotas começam a brotar dos céus e vão cobrindo as ruas cinzas com um transparente véu reluzente, tornando assim, as ruas cinzas em cinzas ruas reluzentes.

E uma sinfonia orquestral ia se propagando: gotas nas folhas, folhas e gotas no chão, meus passos sobre as gotas, agora não mais gotas, e sim poças, que se empoçavam pelo chão.

Chão cinza que se enxergava em mim. Cinza como tudo, a essa altura do dia.

Eu, deixando que as ruas me levassem para onde as gotas, goticulando escorriam: cinzas, insípidas e monocórdias.

Esgueirando-me diante de poças e linhas que cortavam aquela acinzentada superfície fria, surge outro feixe douradamente amarelo que me enlouquece e traz você!... Ia contemplando aquele doce mel daquela doce cor, quando, de repente, o cinza volta a reinar, e volto a me equilibrar por entre as linhas feito um bêbado a dançar.

Foi num dos momentos em que mais perdida estava naquele tenebroso universo monocromático que avistei o azul. Sim, o azul, tal azul que inicialmente me trouxe euforia e até alegria. Mal sabia eu que tal azul era o azul do qual eu tanto fugia!...

Senti o ar abandonar meus pulmões, as batidas de meu coração perturbarem-se e a adrenalina espalhando-se por minhas veias.

Envolvi-me no azul e vi-me asfixiada, induzida e angustiada por este... Andava, andava e o azul em mim continuava... Estava em toda minha volta, mas não estava em mim – o azul, indubitavelmente, não estava em mim – não, não estava.

De repente, o cinza retorna mais forte que todos os outros cinzas.

Voltou mais insípido, monocromático e sombrio: voltou cinza... esfumaçadamente cinza, pois agora, além das cores, sumiam os traços.

Talvez o cinza estivesse em mim; talvez o cinza fizesse parte de mim; talvez o cinza fosse eu; seria eu o cinza?

Talvez fosse... talvez...

19/10/2009

Inserida por Ibisphi