Clarice Lispector: Não tenho uma palavra a dizer. Por que...

Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu
não forçar a palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a
forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.
E se estou adiando começar é também porque não tenho guia. O relato de
outros viajantes poucos fatos me oferecem a respeito da viagem: todas as
informações são terrivelmente incompletas.
Sinto que uma primeira liberdade está pouco a pouco me tomando... Pois
nunca até hoje temi tão pouco a falta de bom-gosto: escrevi “vagalhões de
mudez”, o que antes eu não diria porque sempre respeitei a beleza e a sua
moderação intrínseca. Disse “vagalhões de mudez”, meu coração se inclina
humilde, e eu aceito. Terei enfim perdido todo um sistema de bom Mas será este o
meu ganho único? Quanto eu devia ter vivido presa para sentir-me agora mais
livre somente por não recear mais a falta de estética... Ainda não pressinto o que
mais terei ganho. Aos poucos, quem sabe, irei percebendo. Por enquanto o
primeiro prazer tímido que estou tendo é o de constatar que perdi o medo do feio.
E essa perda é de uma tal bondade. É uma doçura.

A paixão segundo gh pág 20/21

Inserida por eduardarocha