Clarice Lispector: - Vê, meu amor, vê como por medo já...

- Vê, meu amor, vê como por medo já estou organizando, vê como ainda
não consigo mexer nesses elementos primários do laboratório sem logo querer
organizar a esperança. É que por enquanto a metamorfose de mim em mim
mesma não faz nenhum sentido. É uma metamorfose em que perco tudo o que eu
tinha, e o que eu tinha era eu - só tenho o que sou. E agora o que sou? Sou: estar
de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender,
o material do mundo me assusta, com os seus planetas e baratas.
Eu, que antes vivera de palavras de caridade ou orgulho ou de qualquer
coisa. Mas que abismo entre a palavra e o que ela tentava, que abismo entre a
palavra amor e o amor que não tem sequer sentido humano - porque - porque
amor é a matéria viva. Amor é a matéria viva?

GH 67

Inserida por eduardarocha