Clarice Lispector: Eu fora obrigada a entrar no deserto...

Eu fora obrigada a entrar no deserto para saber com horror que o deserto é
vivo, para saber que uma barata é a vida. Havia recuado até saber que em mim a
vida mais profunda é antes do humano - e para isso eu tivera a coragem diabólica
de largar os sentimentos. Eu tivera que não dar valor humano à vida para poder
entender a largueza, muito mais que humana, do Deus. Havia eu pedido a coisa
mais perigosa e proibida? arriscando a minha alma, teria eu ousadamente exigido
ver Deus?
E agora eu estava como diante Dele e não entendia - estava inutilmente de
pé diante Dele, e era de novo diante do nada. A mim, como a todo o mundo, me
fora dado tudo, mas eu quisera mais: quisera saber desse tudo. E vendera a
minha alma para saber. Mas agora eu entendia que não a vendera ao demônio,
mas muito mais perigosamente: a Deus. Que me deixara ver. Pois Ele sabia que
eu não saberia ver o que visse: a explicação de um enigma é a repetição do
enigma. O que És? e a resposta é: És. O que existes? e a resposta é: o que
existes. Eu tinha a capacidade da pergunta, mas não a de ouvir a resposta.

in A Paixão Segundo GH. pág 134

Inserida por eduardarocha