Carolina Pires: E de lágrimas definharei, pois nada...

E de lágrimas definharei, pois nada terei para hidratar-me senão minha própria gota salgada. A ti que tanto pertenço, desvaneço como um raio em lampejos de azul e branco, em que o branco és tu e o azul ainda não tem nome, entre a tempestade nesse bosque escuro onde me sinto só. Eu tenho medo do escuro. Sem ter outro remédio percebi que minha vaga existência sempre se resumiu a simples ideia de nãoprecisardeninguém e é incrível como com o passar do tempo tudo isso começa a me perturbar, involuntariamente. Quantas gotas escorrem pela janela; eu sou uma delas: chuva fina e gelada que arrasta consigo todos os problemas do mundo, mas eu ainda fico, enraizei aqui para atormentar-te, ainda sofrerás muito por minha causa, meu bem. E não é porque quero, apenas o faço e quando menos percebo, estou a perfurar-te com minha adaga que acabei de afiar. Meus pés giram e saltitam por aí. De pele escura, para pele escura, não faço mais contraste. Do que me foi branco, só quero o sonho, do que me é escuro, quero os olhos abertos, bem abertos. Mas não é, nada é, esses são apenas os pensamentos que vão e veem, aniquilando-me. Quero que permaneça em ti, aquele meu velho perfume suave, aquele qual aromatizou todos os seus lençóis e fronhas de travesseiro; aquele perfume acabou e não é metáfora, infelizmente. Hoje sou de outros aromas, mais intensos, e eles andam residindo em outras fronhas, mas é tudo por acaso e sabes que o acaso sempre me foi de grande agrado. O acaso e o ocaso - devo confessar. Você que nada de poesias apreciou, hoje de técnicos escritos vive, mas aviso que Vinícius de Moraes tem dormido em minha cabeceira todas as noites e tem sido uma ótima companhia. Meus últimos versos são cruéis, eu sei, mas já era hora e eu espero não acordar amanhã arrependida. Teu sorriso e teus braços ainda me sustentam, és minha base e se daqui saíres, de mim não sei o que será. Tua pele clara, não se encontra mais arranhada por minhas unhas carcomidas pelo meu nervosismo irrefreável, encontra-se lisa e eu, crespa.

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