Clarice Lispector: Eu quero a verdade que só me é dada...

Eu quero a verdade que só me é dada através do seu
oposto, de sua inverdade. E não agüento o cotidiano. Deve ser por isso
que escrevo. Minha vida é um único dia. E é assim que o passado me é
presente e futuro. Tudo numa só vertigem. E a doçura é tanta que faz
insuportável cócega na alma. Viver é mágico e inteiramente inexplicável.
Eu compreendo melhor a morte. Ser cotidiano é um vício. O que é que eu
sou? sou um pensamento. Tenho em mim o sopro? tenho? mas quem é
esse que tem? quem é que fala por mim? tenho um corpo e um espírito?
eu sou um eu? "É exatamente isto, você é um eu", responde-me o mundo
terrivelmente. E fico horrorizado. Deus não deve ser pensado jamais senão
Ele foge ou eu fujo. Deus deve ser ignorado e sentido. Então Ele age. Pergunto-
me: por que Deus pede tanto que seja amado por nós? resposta
possível: porque assim nós amamos a nós mesmos e em nos amando, nós
nos perdoamos. E como precisamos de perdão. Porque a própria vida já vem mesclada ao erro.

in UM SOPRO DE VIDA

Inserida por eduardarocha