Lou Bertoni: INVASOR Não, não toque aí. Minha alma...

INVASOR

Não, não toque aí.
Minha alma é como panos leves.
Rasga-se diante das meias verdades.

Quando eu disse que podia entrar,
falava de poder ouvir o tapete pisado,
o chão da sala marcado,
contra luz,
você trazendo desenhos
do tempo que sonhava com guitarras,
arranhava resenhas e gostava de gente.
Achei que vinha só você,
vestido de projetos,
escorregando idéias pelos cabelos chuvados,
que diria bobagens risonhas,
molharia-me por dentro,
inventaria uma peça, um passeio no parque,
aquele móvel que abre, um danado de pato assado.
Inundando, ainda que divergindo.
Transformando, marinando ou preferindo.
Multiplicando, mas, por vezes,
dividindo.

Não pensei,
quando eu disse que podia entrar,
que eu fosse ter, depois,
saudade dos sinceros.

Inserida por kasulo