Roberto dos Santos Vaz: FOREST GUMP; também sou ele ! Quando eu...

FOREST GUMP; também sou ele !

Quando eu era criança acreditava em coisas que hoje vejo quase impossíveis, mas hoje sei o quanto fui feliz.
Era como se nada fosse impossível.
Nasci na década de 50, onde a população pós-guerra estava começando a construir o Brasil de hoje; onde o meu pai, fazia-me usar brilhantina e a tirar fotos vestido de terno nos finais de ano, para enviar aos parentes.
As vezes me acho um Forrest Gump, pois já fui fotografado no colo do Jânio; no colo do meu pai andamos ao lado do Prefeito Prestes Maia; fui testemunha de um ataque da famigerada OBAN (Operação Bandeirantes - organização paramilitar de caça aos subversivos), com direito a rajadas, estouro de granadas e mortes.
Vi o Corinthians quebrar um tabu de anos, quando ganhou do Santos do Pelé.
Vivi o nascimento da tropicália, com Caetano, Gil, Novos Bahianos, Bethania e etc...
Vi a melhor seleção da história, a de 70.
Em 72 fui à primeira corrida de Fórmula 1 do Brasil.
Versávamos em política e em esperança.
Sobrevivi ao antrax, à meningite e ao tifo.
Nossos professores do colégio estadual eram egressos da USP. Não me esqueço que aprendi análise sintática tendo músicas do Chico Buarque como nossos temas.
Tivemos a oportunidade de sermos melhores que os aparelhos de repressão, pelo nosso conhecimento e desenvoltura e busca incansável da cultura.
Todos jogavam futebol e todos eram hábeis, pois talvez fosse um dos únicos esportes da época.
Vi amigos caros morrerem assassinados, pela repressão e pelo banditismo.
Estive presente na premiação dos Campeões de 70, no Ibirapuera, dos famigerados fuscas verdes saídos dos cofres públicos, uma das primeiras mostras de demagogia de um novo personagem que aparecia - PAULO MAFUF.
Assisti vários fatos que se tornariam históricos através da televisão. A luta do século de Mohamed Ali x George Foreman; o primeiro homem na lua; a declaração em 70 de um terrorista arrependido, Massafumi Hiochinaga.
Nos anos 70 tornei-me universitário, onde os sonhos aumentariam mais ainda.
Nos 80 casei-me e vivi na pior década da história, onde a recessão interminável acabou com o sonho de muitos da minha época.
Comandei um grupo das diretas já, como militante na rua, tomando novamente borrachadas da truculenta repressão.
Um dia, sem perceber, tive o Presidente Figueiredo almoçando ao meu lado, em uma mesa cercada de políticos e gorilas truculentos, no extinto restaurante CEASA. Se soubessem que eu trabalhava pelas diretas nas ruas, com certeza não teria terminado meu almoço.
Vi o autoritarismo militar cair e dar acesso à sonhada democracia, a qual imaginávamos que seria a solução para todos os males.
Sofremos na mão de políticos repatriados, herois exilados, que viam a oportunidade de enriquecer e matar sonhos a despeito de tudo que haviam pregado.
Trabalhei e trabalho muito, pois sempre acreditei que somente fazendo as coisas acontecerem é que poderiamos alterar o rumo das coisas.
Vi meu pai morrer, em seguida minha mulher e fui sentindo na carne que o tempo passa e que as coisas boas um dia acabam dando espaço à saudade.
Como o Forrest Gump, sempre, de uma forma ou outra, continuei junto aos fatos marcantes.
Na época, representei minha empresa no enterro do Airton Senna, um dos maiores ídolos de todos os tempos. Estava eu lá, no cemitério do Morumby, vendo ser cerrada uma das trajetórias mais vencedoras de um brasileiro em um túmulo sob o gramado.
Viajei por todo o Brasil, aproximando-me das culturas, das experiências de cada canto; dos sorrisos nordestinos; da tenacidade sulista...
Tenho muitos amigos e muitas estórias para contar.
E elas continuam dia a dia.... lembram-se do cerco do PCC a São Paulo; sem dúvida mais um fato histórico.
Sofri muito também; mas não posso negar que sempre fui feliz.
Jamais deixarei de acreditar no homem e nos valores, pois é tudo isso, até agora, que me fez chegar vivo até aqui.
Fui um Marxista diferente, pois acreditava em Deus e desconfiava da igualdade imposta aos homens pelo socialismo. Eu reparava que na União Soviética, somente os camaradas trabalhadores moravam em guetos urbanos. Os burocratas do partido e seus líderes em suntuosas moradias.
Nos momentos mais difíceis eu sempre recebi forças do céu.
Ensino aos que não tiveram a riqueza de vida que me foi dada, um pouco da minha experiência, minha crença e minha vontade de ver transformar as condições de vida.
Gostaria muito de poder agradar a todos, mas não consigo.
Talvez a minha volúpia em ver as coisas andarem rápidas, me fizeram no passado, pessoa quase que insuportável, pois era difícil pessoas com vida passo a passo, ver um jovem correr, correr e correr.
Jovem que se preza é atirado, voluntarioso e destemido, é inquebrável e apaixonadamente louco.
Homem maduro também que se arrisca é sacudido; avança!
A soma de tudo isto choca pessoas.... comigo foi assim e continua sendo; talvez eu venha causar polêmica até no meu enterro.
E as coisas continuam a acontecer.
Orgulho-me das coisas boas que fiz e sinto não ter podido tê-las feito melhor.
Espero ter mais anos de vida, para que continue somando com o meu trabalho e dedicação um pouco ao mundo; àqueles que estão vindo, receberão um mundo um pouquinho melhor, que com o meu esforço estou construindo, naquele espacinho que me foi dado a representar.
Foram poucos os relatos, mas tive inúmeras outras situações e pessoas que fazem parte da estória, da minha estória.
Talvez se as contasse, seria tal e qual ao Forrest, com certeza.

Inserida por ROBERTOVAZ