Amanda Sanches: Fico pensando o quanto as aparências...

Fico pensando o quanto as aparências enganam e o quanto eu engano as pessoas. Fico pensando o que os outros acham de mim, todos os tipos de rótulos e todas as vezes que fui taxada por algo que eu não sou, mas demonstro ser. Porque ninguém vê o nosso interior, ninguém consegue ler nossos pensamentos, tampouco saber o que se passa nos nossos corações. E mais uma vez, lá estou eu em alguma festa, rodeada de amigos, saia curta, bolsa da moda, em cima de um salto tão grande quanto o meu desespero. Mais uma vez estou eu, enganando os outros, e tentando me enganar. E mais uma vez me pego pensando se por um acaso meus amigos sabem da loucura que se passa dentro de mim, se por um acaso eles não desconfiam que eu vivo em cima de uma corda bamba, tentando me equilibrar para parecer o mais normal possível, sendo que na verdade tudo o que eu mais quero é pirar de vez. Ninguém suspeita que se eu morro de rir agora numa mesa de bar, provavelmente eu vou morrer de chorar mais tarde na minha cama triste e sozinha. E essa montanha-russa-de-emoções é quase todo dia, eu sempre desço bem mais rápido em relação ao tempo que demoro para subir e me achar completamente foda por um minuto apenas, porque como eu já disse, não demora muito para a descida começar. Mas meus amigos nem imaginam, acham que eu sou feliz, ligada na tomada, com uma história engraçada na ponta da língua pronta para ser contada, 24 horas por dia. Acho que nunca passou pela cabeça deles o quanto triste e emocional eu sou, sempre tão acostumados a me ver fazendo piada com tudo. Meus amigos me adoram, mas será que eles sabem que a minha risada sempre tão espontânea não passa de um truque para esconder o meu medo da vida e do futuro incerto? Será que eles sabem que passo a maior parte do meu tempo sentindo saudade de algo que nem eu mesma sei direito o que é? Saudade de mim, de quem eu era, de quem um dia eu fui. Saudade de algum amor que eu tive no passado. Saudade de algum amor que eu inventei para dar um rosto a minha saudade. Minha melhor amiga me adora, mas eu sinto uma disputa invisível e desnecessária entre a gente. Minha irmã me ama, mas quando ela não ta sentindo pena da minha infelicidade, ela ta tentando me converter em santa ou algo do tipo. Meu melhor amigo me adora, mas se pudesse transaria comigo a noite toda, e contaria vantagem aos amigos dele no dia seguinte. O carinha que conheci semana passada ta super curtindo ficar comigo, mas não consegue tirar os olhos do meu decote enquanto eu falo com ele. E tem aquele outro lá, que eu passei um final de tarde inesquecível, mas uma semana depois vi ele com outra. To cansada dos pré-julgamentos, to cansada de quem vai embora antes mesmo de me conhecer melhor. Tenho preguiça de quem se aproxima de mim pelo motivo errado, de quem vê atrativo no meu decote ou no tamanho da minha saia, mas não se atrai pelo o que tenho a dizer ou por quem eu sou por trás de toda a maquiagem e toda felicidade falsa. Tenho raiva de mim por enganar à todos fingindo ser a mulher-poderosa-independente-e-desapegada. Morro de preguiça de mim por na verdade eu ser uma garotinha-emocional-sentimental-e-chorona. No final bruto, amargo e silencioso, eu não passo de uma mentirosa, não sou nada mais que um cordeiro em pele de lobo.

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Inserida por amandasanchees