Gabriel Chalita

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Luz, câmera... E ação!
No cultuado filme Ao mestre com carinho, temos uma análise sensibilíssima da influência do educador na vida de aprendizes com comportamentos agressivos e arredios. Jovens marginalizados, marcados pela realidade dura das regiões vulneráveis, dos guetos. Ambientes que imprimem em seus corpos e almas as insígnias da exclusão social, da carência de recursos, da ausência de opções de estudos, de trabalho e de lazer. O clássico, protagonizado pelo ator Sidney Poitier, nos mostra a situação limite vivenciada pelos adolescentes pertencentes às camadas desfavorecidas da população. Jovens descrentes, rebeldes e desestimulados justamente porque vêem à sua frente paisagens áridas, sem cor, caracterizadas pela projeção contínua de cenas nada animadoras. Imagens que revelam uma seqüência ininterrupta de destinos tristes, desprovidos de perspectivas positivas. Heranças que vêm, geralmente, de famílias desestruradas, lares destruídos, infâncias traumáticas. São experiências extremas, eficazes para minar as expectativas de quem deveria trazer no sangue a seiva do viço, da energia, da disposição. Rapazes e moças que dispõem, inclusive, do tempo como aliado. Tempo que pode ser um fardo para quem tem o histórico dramático desses adolescentes retratados pelo filme - ícones que representam os jovens que vivem a dor de serem vistos como párias. Nesse cenário repleto de desencanto, a missão de Mark, professor interpretado por Poitier, era despertar nesses alunos o que tinham de mais precioso e desconhecido: a capacidade de sonhar, de transformar, de acreditar em si mesmos, de se reconhecerem como escritores habilidosos da história de suas próprias vidas. Outras produções cinematográficas trouxeram à tona dramas semelhantes, que enfocavam a saga de educadores-redentores, homens e mulheres movidos a entusiasmo e a esperança, como a professora interpretada por Michelle Pfeiffer em Mentes Perigosas ou o professor vivido pelo excelente Morgan Freeman em Meu mestre, minha vida. Portadores do gene sonhador de Quixote, esses educadores nos emocionam e nos fazem refletir sobre o quanto ainda é possível fazer pelos nossos aprendizes. Crianças e jovens espalhados por todos os rincões do Brasil. Aprendizes como os meninos e meninas da Febem. Adolescentes à espera de afeto, atenção... Sedentos por oportunidades que lhes possibilitem o conhecimento de seus potenciais e talentos adormecidos. O governo do Estado de São Paulo, na figura do governador Geraldo Alckmin, já está atento para essas necessidades. Prova disso é que acaba de autorizar a contratação de 2.000 estagiários oriundos da Febem, que serão treinados por um pool de empresas e instituições, entre elas Fundação Bradesco, Centro Paula Souza, Senac, Senai e Canal Futura. Os jovens irão atuar como monitores de informática e de bibliotecas nas escolas da rede pública de ensino. As vagas representam a liberação de cerca de 40% do total de internos da Febem, hoje em torno de 5.500 adolescentes. É um passo importante, mas esperamos que seja apenas o primeiro rumo a um futuro mais promissor para esses jovens. Em breve, esperamos vê-los atuando nos mais variados setores do mercado. Empresas privadas, rede de hotéis, restaurantes, grandes magazines, shoppings centers e demais organizações poderão oferecer a esses adolescentes a chance de sonhar e de viver uma história diferente, com enredos e cores muito mais vibrantes e propícios a uma atuação verdadeiramente heróica. Será a confirmação de que a sociedade, como um todo, participará de forma pró-ativa na criação de um novo tempo. É isso. É preciso olhar esses aprendizes com olhos de educadores. Olhos de quem jamais perde a esperança. Olhos de quem acredita que é possível mudar, sempre, para melhor. A Febem tem um roteiro complexo, marcado por problemas que não podem ser vencidos de uma hora para outra. Não há milagre. Educação é processo. Temos um enorme desafio, mas estamos dispostos a enfrentá-lo e a transformar esse filme num espetáculo tão bonito quanto o da peça Dom Quixote - Num lugar de la Mancha, protagonizada - vejam só que maravilha! - pelos atores da Oficina de Artes da Febem. Jovens que nos ensinam ser possível transformar sonhos, mesmo que pareçam quixotescos, em realidade. Se todos assumirmos o compromisso de olhar e de agir como educadores, poderemos dar, diretores que seremos, um final muito mais belo para essa história. E, às platéias do futuro, restará aplaudir de pé, orgulhosas pelo modo corajoso e competente com que praticamos essa AÇÃO.


Publicado no Diário de S. Paulo

Gabriel Chalita
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O poder de fogo da educação


Algumas palavras têm o poder de trazer consigo uma imensa carga de sentimentos, emoções, expectativas, sonhos, desejos e quereres. São, a um só tempo, misto de poesia, de filosofia, de arte... Expressá-las e professá-las pode significar a mudança, a transformação, a transcendência. A junção de suas sílabas tem uma força capaz de mudar o mundo e, em casos extremos, funciona como um artifício bélico do bem, utilizado pelos desbravadores de novos tempos e pelos descobridores de novos caminhos. São armas que injetam ânimo, coragem, sensibilidade, talento. Dessa forma, podemos definir o amplo leque de sentidos e potencialidades da palavra educação, cuja beleza está em desvendar novos amanhãs e promissores horizontes. A todos nós, educadores, foi concedida a oportunidade de contribuir para promovê-la, transmitindo e propagando o desejo pelo conhecimento. Colaboramos para a criação de realidades mais belas e mais condizentes com os nossos sonhos. Faz parte da natureza humana querer sempre o melhor. Buscar a evolução, o desafio, a superação de limites. Façanhas impossíveis sem a educação como fundamento e passaporte. Ciente da grandiosidade dessa missão e de tudo o que ela pode proporcionar, o governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Estado da Educação, tem trabalhado para fazer da rede estadual de ensino uma ponte capaz de levar nossos 6 milhões de alunos à aquisição de saberes, de competências e de habilidades capazes de torná-los cidadãos críticos e conscientes, aptos à construção de um futuro erguido sobre os pilares da infinita capacidade humana (que deve ser desenvolvida, incentivada e constantemente aguçada). Nossos programas, projetos e ações têm o objetivo primeiro de despertar mentes e corações para o prazer do aprendizado, da revelação, da epifania que caracterizam o fascinante processo da descoberta. Está sob nossa responsabilidade formar atores sociais talentosos, com maturidade intelectual e emocional suficiente para alcançar não apenas o sucesso profissional, mas a felicidade plena, em todos os aspectos de suas vidas. Todos os nossos alunos compõem um complexo contingente educacional, mas, ao mesmo tempo em que formam um grupo, uma coletividade, são também seres únicos, dotados de histórias de vida singulares, ricas e de natureza incomparável. São meninos e meninas, crianças e jovens provenientes das mais diversas realidades e origens. Muitos vivenciam uma infância e uma adolescência repleta de amor, de cuidado, de atenção e de incentivo de suas famílias. Outros, no entanto, sobrevivem a duras penas numa atmosfera densa, pesada, em nada parecida com o que deveria ser o aconchego e a proteção de um lar estruturado. São desprovidos dos referenciais mais básicos e têm por alimento da alma apenas a esperança depositada em dias melhores. Felizes ou apenas esperançosos têm, como todos nós, carências, problemas, alegrias, vontades, medos, posturas e os mais heterogêneos sonhos. Some-se a isso o fato de estarem atravessando uma fase de formação, de intenso aprendizado, de dúvidas, de questionamentos, de buscas incansáveis... Têm o privilégio, e também a grande responsabilidade, de ter todo um futuro pela frente. Nesse sentido, nossas políticas públicas educacionais levam em consideração, em primeiro lugar, as necessidades mais básicas desses cidadãos do futuro: a compreensão, o respeito por suas diferenças, por seus valores e pela história pessoal de cada um.O desempenho, o sucesso e a ampliação do potencial dos aprendizes dependem de nossa sensibilidade para vê-los como seres humanos e não apenas como números registrados nas listas de chamada. Por meio dessa prática, nós, educadores, poderemos ter a chance de ir além e de também aprender com nossos educandos. Sem essa troca essencial, estamos condenados a perder o brilho, a seiva, o norte... Educar é, sobretudo, nunca deixar de aprender e de acreditar. O primeiro passo para fazer da educação uma possibilidade real para todos já foi dado na medida em que promovemos a universalização do ensino. Os números mais recentes apontam um total de 99% de crianças freqüentando a escola no Estado de São Paulo. Uma vez garantido o acesso aos bancos escolares, nossos esforços convergem diretamente para as melhorias nas condições de aprendizagem - decorrentes do reflexo direto da mudança de filosofia da cultura escolar. Agora, singramos os mares de forma mais habilidosa porque navegamos com um lema comum a todas as nossas rotas: "todo professor é capaz de ensinar, todo aluno é capaz de aprender". E o inverso é absolutamente verdadeiro. Um lema que nos faz respeitar, por exemplo, o ritmo próprio de aprendizado e de assimilação de conteúdos de cada estudante. Um direito do indivíduo que vinha sendo relegado, mas que ganhou força com a implantação, em janeiro de 98, do regime de progressão continuada da aprendizagem, que possibilita o avanço contínuo dos alunos ao longo do percurso escolar, organizando o Ensino Fundamental em dois ciclos de quatro anos cada. Para ampliar os benefícios dessa prática aos estudantes de níveis mais avançados, adotamos a flexibilização do currículo no ensino médio, permitindo a matrícula por disciplina e evitando que o aluno refaça componentes nos quais foi bem-sucedido. Nessa viagem de importância histórica, a sociedade civil organizada tem sido nossa grande companheira. Empresas, igrejas, ONGs, universidades, entidades e associações variadas têm contribuído para que nossos alunos e professores desfrutem uma formação intelectual, física e emocional sólida, com direito ao esporte, à cultura, ao lazer, à arte, à profissionalização, à saúde e, enfim, à conquista de uma vida melhor. Juntos, temos viabilizado a capacitação constante dos educadores por meio de cursos, palestras, teleconferências e congressos. Em dezembro, por exemplo, presenciamos a formatura de 7 mil professores pelo programa PEC - Formação Universitária , programa de educação continuada, cujo objetivo é fornecer aos professores efetivos no ensino da 1ª à 4ª série, com formação de nível médio, de mais de 2 mil escolas de ensino fundamental do Estado, a oportunidade de formação em nível superior fornecida pela USP, Unesp e PUC-SP. Em todas as capacitações, encontros, visitas às escolas e conversas com os representantes da categoria, sempre ressaltamos a importância da aliança entre o aperfeiçoamento técnico do professor e a solidificação de uma postura afetiva em sala de aula. Queremos que nossos aprendizes enxerguem no mestre um exemplo a ser seguido, um amigo com quem possam contar e não uma autoridade acima do bem e do mal. Nas escolas, muitos programas e projetos têm favorecido essa prática mais afetiva e integrada. Os alunos sentem-se incentivados a participar, a descobrir e a mostrar seus talentos. Por isso, é fundamental que a comunidade do entorno escolar e da sociedade como um todo prestigie os eventos constantemente promovidos pelos estabelecimentos de ensino. Foi o que a secretaria - juntamente com a população que transitava pelo Centro de São Paulo - fez durante o mês de dezembro de 2002. Nossos funcionários uniam-se aos populares, sempre ao meio-dia, na Praça da República, para prestigiar os corais natalinos de dezenas de escolas estaduais provenientes das mais diversas regiões do Estado. O programa dos corais nas escolas, bem como aqueles ligados à música clássica, ao teatro, ao cinema, à criação de bandas e fanfarras, à preservação do meio ambiente, ao exercício dos direitos e deveres do cidadão - fortalecimento e reativação dos grêmios, campanhas comunitárias, combate às drogas e à violência, etc. - têm propiciado uma revolução verdadeiramente positiva na vida dos estudantes. Programas como Parceiros do Futuro, Comunidade Presente, Prevenção Também se Ensina, Escola em Parceria, Mutirão da Cidadania e Programa Profissão estão, na verdade, plantando sementes e oferecendo não só para São Paulo, mas para todo o Brasil, a chance de ter, num futuro breve, uma colheita digna dos anseios e do trabalho de todo o seu povo. Que as nossas palavras, corroboradas - e impregnadas - pela verdade impressa em nossas ações, possam colaborar para a discussão, para o debate e para a reflexão em torno dessa educação afetiva e eficaz. Uma educação que privilegia a criação de gerações mais capacitadas, tanto para contribuir para o desenvolvimento e o progresso da ciência quanto para desfrutar todos os seus benefícios. Uma educação que oriente e funcione como a bússola que desvenda as infinitas maneiras de navegar, com sucesso, pelos mares da vida.


Publicado na Gazeta Lemense

Gabriel Chalita
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Febem - Um desafio possível

Paulo Lins, autor do romance Cidade de Deus - sucesso adaptado com genialidade por Fernando Meirelles para as telas do cinema -, captou com maestria a realidade cruel e dolorosa de crianças e jovens que, corrompidos pelo meio (leia-se ausência total de oportunidades, incentivo, educação e estruturação familiar), ingressaram no universo da marginalidade e da violência. O mesmo teria acontecido, provavelmente, à pequena e indefesa "Negrinha", personagem imortalizada pelo conto homônimo de Monteiro Lobato, caso a menina tivesse nascido no final do século 20, longe dos resquícios da escravidão das fazendas, mas próximo à escravidão social dos ambientes urbanos. Mais uma vez, a ficção - seja literária, seja cinematográfica - nos dá uma lição de vida imprescindível: ou a sociedade compreende a necessidade premente de romper o ciclo vicioso da criminalidade ou estaremos condenando o futuro do Brasil e do mundo de forma irreversível. Somente a mobilização social, por meio da união de esforços entre governos e demais instituições da sociedade civil organizada, pode reverter o rumo caótico que os acontecimentos vêm tomando. Em todo o mundo, os altos índices de violência, que agora se expandem em ritmo acelerado das metrópoles em direção às cidades do interior, compõem um quadro dramático cujos desenhos dantescos nos convidam à tomada de ações imediatas. Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin demonstrou total sintonia com a urgência dessa situação. Por meio de uma atitude corajosa e inovadora, integrou a Febem aos quadros da Secretaria de Estado da Educação, uma iniciativa fundamentada sobre os pilares de um conceito básico para a recuperação dos adolescentes em conflito com a lei: a ressocialização via aprendizado, preparo psicológico, acesso à informação, à cultura, ao esporte e ao lazer. Um método que resulta na aquisição da auto-estima e da autoconfiança, provenientes da descoberta gradativa dos talentos e das potencialidades dos educandos - da mesma forma que deve ocorrer com os alunos do ensino regular, nas escolas. Assim é que se adquire consciência crítica, capacidade de discernimento e, enfim, se constrói a cidadania. É essa a nova proposta da Febem, totalmente condizente com os projetos e ações da Secretaria de Estado da Educação. Temos um enorme desafio pela frente. E, para que possamos superá-lo de forma eficaz, precisaremos do apoio, do incentivo e da colaboração de todos os segmentos sociais. Nesse sentido, gostaríamos de convidar empresas, ONGs, igrejas, universidades e demais instituições para nos auxiliar na missão instigante que é reescrever o roteiro desse filme grandioso e, por isso mesmo, complexo em toda a sua estrutura. Se assumirmos os papéis de diretores, cenógrafos e produtores que essa grande obra requer, poderemos mudar a história de milhares de jovens atores que necessitam de uma orientação mais cuidadosa na concepção, na criação e, finalmente, na concretização de cenas que viabilizem finais mais felizes para suas vidas reais. A ampliação dos programas de liberdade assistida e a construção de unidades menores da Febem, tanto na Capital quanto no Interior, privilegia essa nova realidade e tem possibilitado às equipes da instituição a realização de um trabalho mais produtivo e bem-sucedido, capacitando esses jovens e transformando-os em protagonistas aptos a exercerem sua plena cidadania. Milhares de jovens atores estão aprimorando suas habilidades por meio de aulas do ensino regular e profissionalizante, diversas oficinas de arte, cultura (teatro, dança, artesanato) e, ainda, 32 modalidades esportivas que abrangem do futebol ao xadrez. E isso é só o começo. De nossa parte, garantimos total dedicação e empenho para dar a este enredo um desfecho verdadeiramente alegre, bem diferente dos finais da maioria dos personagens da obra de Paulo Lins e da protagonista do conto de Lobato. Acreditar que é possível é essencial. Vamos seguir à risca a cartilha de Victor Hugo - outro grande ficcionista que retratou em seus livros as injustiças e problemas sociais de seu tempo - que já alertava: "Nada melhor do que um sonho para criar o futuro".


Publicado no jornal Diário de S.Paulo

Gabriel Chalita
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Volta às aulas: aprendizagem, ficção e vida real

Aos sete anos de idade, o menino está tenso, preocupado e repleto de expectativas sobre o seu primeiro dia de aula. A recepção na escola não é das melhores, porém, as sensações da má experiência vivenciada pelo garoto Moncho conseguem ser rapidamente dissipadas graças à habilidade, à generosidade e à extrema dedicação de seu professor, o velho mestre Don Gregorio. Os dois personagens protagonizam o belíssimo drama espanhol A Língua das Mariposas (1999), filme dirigido por José Luís Cuerda, que narra de maneira delicada as fascinantes possibilidades do processo ensino/aprendizagem, com ênfase na cumplicidade entre professor e aluno. A trama tem como pano de fundo a ascensão do regime militar espanhol e as conseqüências desse processo em uma pequena cidade daquele país, representada por uma população atemorizada e desprovida de mecanismos para exercer e/ou apoiar a resistência então praticada por um pequeno grupo de opositores ao sistema opressor, do qual fazia parte o professor Don Gregorio. O cinema, mais uma vez, nos oferece condições para que possamos refletir e analisar a nossa própria realidade, independentemente das diferenças históricas e culturais experimentadas pelos espectadores em seus países de origem. A essência das relações humanas, os sentimentos, os temores, os erros e acertos das personagens da trama sempre nos ensinam algo. No caso da obra em questão, tentaremos, aqui no Estado de São Paulo, reproduzir, neste dia 10 de fevereiro, primeiro dia de aula na rede estadual de ensino, um pouco da poesia e da beleza transmitidas pelo filme de Cuerda no que diz respeito à prática educativa e à relação educador/educando. Realizaremos uma experiência singular, que pretende fortalecer significativamente a parceria entre escola e comunidade, uma das principais metas da Secretaria de Estado da Educação para 2003. Neste primeiro dia de aula, pais, mães, irmãos e amigos dos estudantes são os nossos convidados para essa verdadeira festa educacional, que reúne cerca de seis milhões de alunos, em mais de seis mil estabelecimentos de ensino. Pensando na grandiosidade que envolve esse evento, as escolas organizaram uma recepção calorosa, cujo objetivo é tornar esta data uma experiência positivamente inesquecível para educadores, educandos e comunidade. O roteiro inovador dessa nova história da educação será escrito de forma concomitante por educadores, funcionários das unidades educacionais, alunos e toda a população que vive no entorno das escolas. Nossos convidados poderão conhecer as instalações dos prédios escolares, seus profissionais e o projeto pedagógico adotado nas unidades. A programação inclui ainda atividades como vivências e sensibilizações. A idéia é reforçar em todos os participantes a consciência de que a escola é um centro de luz, um lugar que recebe e que propaga saberes, conhecimentos, aprendizados, descobertas... O século 21 exige uma escola em constante transformação, como é a própria vida. Uma escola pulsante, que instigue o aluno a ser um desbravador, um criador, um inventor do seu próprio caminho. Nesse contexto, a participação ativa da sociedade na escola é essencial. Ela será o elo entre os educandos e o mundo à sua volta, auxiliando na criação de um ensino cada vez mais comprometido com a resolução dos problemas enfrentados pela comunidade. Assim, os alunos poderão exercer papéis sociais de destaque enquanto ainda estiverem em processo de formação, o que contribuirá para o seu crescimento emocional e intelectual, originando gerações muito mais críticas e conscientes de sua cidadania. Governo e sociedade devem unir esforços no sentido de oferecer um ensino de qualidade às crianças e jovens que representarão o capital intelectual do país e que fortalecerão, cada vez mais, o espírito democrático e todos os seus valores. Em seu livro Gramática da Fantasia, o educador italiano Gianni Rodari nos oferece uma síntese perfeita da importância dessa questão, quando nos lembra que a principal disciplina em todas as escolas deveria ser justamente "a realidade, abordada por todos os pontos de vista, a começar da realidade primeira, a comunidade escolar (...). Em uma escola desse tipo, a criança não é mais uma 'consumidora' de cultura e de valores, mas uma criadora e produtora de valores e cultura". Que nesse retorno às aulas todos possamos refletir sobre isso e, mais importante, contribuir para tornar esse conceito uma realidade. Nesse sentido, estamos esperando a presença de todos vocês, pais, mães, irmãos, amigos e demais representantes da comunidade na escola neste dia 10, dando início a um novo e instigante aprendizado para todos.


Publicado na Folha de S.Paulo

Gabriel Chalita
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Leitura: uma odisséia rumo à descoberta

É impressionante como o mar e a leitura estão ligados de forma indelével há milhares de anos. O escritor argentino Jorge Luis Borges - amante inveterado dos livros - dizia uma frase que sintetiza bem esse conceito: "Toda a literatura declina de Homero". A afirmação impactante do autor de Ficções expõe a importância do poeta grego, cujas obras Ilíada e Odisséia podem ser consideradas verdadeiros marcos da literatura ocidental. Ambos são belíssimos, mas, em Odisséia, Homero criou uma das mais belas e instigantes histórias já escritas e na qual o mar exerce um papel fundamental no desenvolvimento de seu enredo. Afinal, o que seria de Ulisses (ou Odisseu) sem o mar como pano de fundo para suas aventuras? Da mesma forma, Luís de Camões e Fernando Pessoa - para citar apenas dois ícones da literatura de língua portuguesa - muitas vezes fizeram uso da pena para versificar sobre o mar, sua grandiosidade, sua imponência, sua beleza e sua relevância crucial para o progresso da civilização (grandes descobrimentos, novas rotas de navegação, possibilidade de expansão econômica, comercial etc.) Por meio da História e da Literatura, percebemos que o mar sempre foi palco de grandes aventuras, conquistas e numerosos feitos heróicos da humanidade. Esse mesmo sentimento de descoberta, de desbravamento e de heroísmo presente no espírito dos grandes navegadores também se apodera de todos os personagens reais da vida quando se envolvem, se entregam e se deixam levar pela fascinante viagem proporcionada pela leitura. Quando nos tornamos leitores e passamos a apreciar e valorizar devidamente essa condição, percebemos o quão maravilhoso é poder desvendar o universo e cruzar suas fronteiras de forma ilimitada. Em outras palavras, ler é singrar os mares em direção à esplêndida aventura do conhecimento e do aprendizado. Temos nos livros uma espécie de bússola que nos orienta - piratas e vikings curiosos e sedentos de experiências diversas - na direção exata de um tesouro singular: o saber. Passaporte imprescindível para quem deseja realizar a verdadeira viagem da vida. Neste novo tempo em que o verbo "navegar" ganhou conotações cibernéticas devido às novas ferramentas tecnológicas que nos auxiliam na busca contínua do entretenimento e da informação (leia-se internet), é preciso deixar claro: nada substitui o prazer e os ganhos proporcionados pela leitura de um bom livro. Sem uma sólida formação cultural, acabamos por subutilizar tanto a rede mundial de computadores como todas as demais criações tecnológicas, recebendo suas informações de forma fragmentada e descontextualizada. A leitura nos fornece as condições necessárias para ampliarmos nossos horizontes ao infinito. Aumentamos nossa capacidade crítica, nosso poder de argumentação, de discernimento, de persuasão... Adquirimos a força, a coragem, o entusiasmo, o dinamismo e o espírito adequado para enfrentar as grande tempestades, turbulências e desafios da jornada. Os livros nos credenciam para empreender com sucesso as expedições mais variadas, traçando o rumo de nosso próprio destino com talento, sabedoria e confiança. Em seu poema O Livro e a América, o poeta brasileiro Castro Alves mescla com maestria a relação metafórica mais do que pertinente entre o livro e o mar. Uma visão magistral e que, certamente, irá nos inspirar para que prossigamos esta reflexão que apenas iniciamos : "Oh, Bendito o que semeia / Livros... livros à mão cheia... / E manda o povo pensar! / O livro caindo n'alma / É gérmen - que faz a palma, / É chuva - que faz o mar".


Publicado na Revista E - Sesc SP

Gabriel Chalita
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Aprendizes eternos

"Mestre não é só quem ensina; mas quem, de repente, aprende." A frase lapidar de Guimarães Rosa é perfeita para ilustrar este momento histórico da educação paulista. Em dezembro, sete mil e quinhentos professores da rede estadual de ensino realizaram um sonho e conquistaram uma vitória inédita em suas vidas. Os docentes concluíram sua participação no PEC - Formação Universitária, programa de educação continuada cujo objetivo é fornecer aos professores efetivos no ensino da 1ª à 4ª série, com formação de nível médio, de mais de 2.000 escolas de ensino fundamental do Estado, a oportunidade de formação em nível superior fornecida pela USP, Unesp e PUC-SP. Esses profissionais deram um salto qualitativo sem precedentes em suas carreiras na medida em que vivenciaram e venceram os desafios impostos pelo mundo acadêmico, ampliando seus horizontes pessoais e profissionais. A universidade propicia a aquisição de saberes variados, edificados por meio das reflexões, das contestações, das discussões e dos debates inerentes à formação superior. Essa experiência forneceu aos educadores a chance de estabelecer contato com as mais modernas tecnologias interativas voltadas para o ensino, o que surtirá efeitos bastante positivos na prática docente. O processo de atualização ininterrupta dos professores é fundamental para o aumento da qualidade de ensino nas escolas estaduais. É importante que os educadores adquiram uma visão ampla do processo educacional, analisando e avaliando as novas tendências da educação do século 21, bem como a consciência sobre o papel crucial que desenvolvem na formação de uma geração mais crítica, participativa e cidadã. O reflexo dessas percepções é imediato. As aulas tornam-se mais dinâmicas e produtivas, instigando a participação dos alunos e colaborando para o sucesso do binômio ensino-aprendizado. Se há uma integração positiva entre mestres e aprendizes, o professor passa a ser um referencial efetivo para o aluno, que, por sua vez, absorve os ensinamentos e transforma-se em agente multiplicador desses conhecimentos em sua comunidade de origem. É o início de modificações significativas que se expandem em todos os níveis da pirâmide social. A educação é uma prioridade para o governo Geraldo Alckmin, cuja gestão é alicerçada pelos ideais verdadeiramente democráticos. Nas palavras do grande educador brasileiro Anísio Teixeira: "Nascemos desiguais e nascemos ignorantes, isto é, escravos. A educação faz-nos livres pelo conhecimento e pelo saber e iguais pela capacidade de desenvolver ao máximo os nossos poderes inatos. (...) Democracia é, literalmente, educação". Acreditamos nesse conceito e, por isso, não estamos medindo esforços para a valorização dos professores e para a melhoria gradativa das unidades escolares. Prova disso é que, assim como o PEC, dezenas de outros programas estão causando uma revolução fantástica no dia-a-dia da educação de São Paulo. Nosso próximo passo é viabilizar o programa Bolsa-Mestrado, que prevê financiamento dos cursos de mestrado para os professores da rede. Outra coisa importante e que já está sendo feita é a transformação das 89 diretorias regionais de ensino em núcleos de capacitação permanente para os professores da rede, proporcionando treinamento para os docentes de suas respectivas regiões. Essa medida vai agilizar todos os processos relativos à educação continuada dos educadores. Nosso desejo é implementar uma formação de excelência, pautada no diálogo franco e aberto com os profissionais da área educacional e na concretização de parcerias com empresas, ONGs e demais instituições sociais. Estamos realizando debates frutíferos sobre o tema, como ocorreu na Semana de Estudos "A Escola dos Nossos Sonhos", realizada em novembro e que deu origem ao Fórum Permanente "A escola dos nossos sonhos" e ao Fórum Regional "Parceiros da Escola". Todas essas iniciativas, aliadas ao nosso entusiasmo em dar prosseguimento a elas, nos dão a certeza de que o ano de 2003 será decisivo na solidificação dessa proposta de uma educação de ponta, voltada à formação integral do ser e à construção de uma realidade mais justa, fraterna e igualitária. E os professores são, sem dúvida, os grandes executores dessa nova política educacional. Semeadores incansáveis cuja missão é fazer germinar no coração dos aprendizes o amor pelo saber - esse parceiro inseparável na jornada rumo à felicidade.


Publicado no Jornal A Tribuna - Santos

Gabriel Chalita
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A revolução da rede

"A boa educação é moeda de ouro, em toda parte tem valor." A afirmação, proferida há séculos pelo padre Antônio Vieira, parece adquirir, a cada dia, um significado ainda mais contundente e atual. Isso se deve ao fato de estarmos vivenciando uma época sem precedentes na História. Um período tão complexo quanto fascinante porque oferece - na mesma proporção - um sem-número de possibilidades e de incertezas. Em meio a esse quadro inacabado que esboça um futuro nebuloso, quem não dispõe de um ensino de qualidade torna-se um sério candidato à exclusão social gradativa. Explica-se: não há mais lugar para amadores na galeria do século 21. Nesse sentido, é papel das três esferas do Governo e de todos os segmentos da sociedade civil organizada mobilizarem-se para propiciar uma educação de excelência às nossas crianças e jovens. Para que isso ocorra, os investimentos no setor precisam ter caráter prioritário e, em paralelo, deve haver a ampliação e o aprimoramento de parcerias entre escolas, empresas, fundações, ONGs e outras instituições. A participação efetiva dos pais e da comunidade do entorno escolar nas unidades educacionais é outro ponto importante desse processo, bem como a concentração de esforços por parte dos educadores e demais atores sociais em torno da concepção e da implementação dessa educação eficaz e cidadã. Juntas, essas ações irão possibilitar a devida formação do capital intelectual brasileiro, constituído pelas novas gerações a partir do desenvolvimento de suas habilidades cognitivas, sociais e emocionais. Trata-se de instrumentalizar esses jovens para que elevem o Brasil a uma posição de destaque no cenário competitivo e globalizado do novo milênio. Trata-se de orientá-los para o resgate dos valores essenciais à vida em sociedade, de forma que a paz e a fraternidade imperem no lugar da violência, da intolerância e dos conflitos generalizados. Trata-se de capacitá-los para o exercício pleno de sua consciência crítica. Por tudo isso, a Secretaria de Estado da Educação tem organizado uma série de ações, projetos e programas que viabilizam a discussão, o debate e a reflexão sobre os mecanismos que irão estruturar esta educação modelar que desejamos instituir em todas as escolas da rede estadual de ensino. Um exemplo ocorreu entre os dias 26 e 29 de novembro, quando reunimos vários setores da sociedade no evento denominado Semana de Estudos "A Escola de Nossos Sonhos". Esse debate inicial deu origem ao Fórum Permanente "A Escola de Nossos Sonhos" e ao Fórum Regional "Parceiros da Escola". O primeiro pretende aglutinar, num único espaço, setores da sociedade que possam colaborar para a reflexão relativa ao aprimoramento da escola pública, o segundo ficará a cargo das regiões administrativas do Estado, juntamente com as 89 diretorias regionais de ensino. A intenção é que seja produzido um documento com propostas e análises das ações da Secretaria de Estado da Educação e que apontem soluções concretas para a construção dessa Escola-Cidadã. O primeiro passo para esse processo de discussão conjunta foi dado por meio das palestras, teleconferências e encontros que já vêm sendo realizados pela Secretaria com o objetivo de lançar um olhar crítico para o setor e buscar alternativas para os problemas de uma rede com mais de 6 milhões de alunos. Temos pela frente um grande desafio: fazer do Brasil uma nação ainda mais soberana e condizente com a fortaleza que é o seu povo. São Paulo, como sempre, pode e deve ser a locomotiva que nos conduzirá em direção a esse novo horizonte que se descortina. Nossa filosofia de trabalho é pautada no diálogo, na troca de experiências e na constante avaliação e análise de nossas ações pela sociedade. Cremos ser essa postura não apenas uma exigência, mas um benefício proporcionado pelo exercício democrático. O Governo Geraldo Alckmin defende esses princípios e os solidifica na medida em que assumiu um compromisso fundamentado nos pilares do desenvolvimento, da educação, da prestação de serviço e da solidariedade. Convidamos toda a sociedade a participar ativamente dessa proposta imprescindível ao crescimento de São Paulo e do Brasil. Vamos dar o exemplo e unir forças. Esse é o melhor ensinamento que podemos deixar aos que irão nos suceder. Sêneca, o filósofo, já atentava para isso quando disse: "Longo é o caminho do ensino por meio de teorias; breve e eficaz por meio de exemplos". Que todos tenhamos a sabedoria para apreender a grandeza dessa lição.


Publicado no Diário do Grande ABC

Gabriel Chalita
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Aprendizes, cavaleiros e líderes
Mircea Eliade, estudioso que dedicou a vida à pesquisa das religiões, afirma que São Francisco de Assis, durante a juventude, devorava os romances franceses de cavalaria, admirando, sobretudo, a perfeição moral de Percival e Galaad, dois dos doze cavaleiros do Rei Arthur. Pouco depois, Francisco de Assis tornou-se também uma espécie de cavaleiro de Cristo, tomando para si a missão de propagar os ensinamentos cristãos por meio do despojamento de bens materiais e da dedicação exclusiva aos necessitados. Era um líder nato e, assim como Jesus de Nazaré, Gandhi, Martin Luther King e Madre Teresa de Calcutá, jamais precisou se impor por meio da força física, das armas ou de qualquer outro recurso bélico. Essas personalidades construíram suas obras e ascenderam à categoria de líderes, dispondo da inteligência, do espírito reto, da solidariedade e da habilidade com as palavras. O passado da humanidade está repleto de exemplos dessa natureza. Exemplos de como a literatura, a religião, a história e o conhecimento, de modo geral, nos oferecem subsídios, parâmetros e modelos para que possamos compor, aos poucos, a nossa própria verdade interior. Uma formação adequada - tenhamos ou não consciência disso - deriva do acúmulo de saberes provenientes da educação formal, da tradição oral e de uma espécie de biblioteca universal cujas obras narram a saga das principais personagens de todos os tempos. Líderes espirituais, sociais e artísticos, que souberam agregar adeptos em torno de ideais revolucionários que subverteram a ordem das coisas no seu tempo e espaço, criando novas concepções sobre o mundo e sobre a vida. Mas, neste início de milênio - período marcado pela brutal inversão de valores e pelos magníficos avanços da ciência e da tecnologia - como se formam os novos líderes? Como executar essa tarefa desafiadora de unir indivíduos singulares, de histórias e origens diversas em função de um único objetivo? A resposta para essas questões está na educação de excelência, que viabiliza o desenvolvimento de talentos e potenciais variados. O espírito de liderança - força motriz que impulsiona a coletividade em direção às conquistas - é desenvolvido por meio do estímulo e do incentivo de habilidades e competências. Escolas e educadores, governos e demais instituições sociais têm de se unir para priorizar a formação de uma geração mais crítica, questionadora, contestadora, participante e devidamente consciente de seus direitos e deveres. É dessa liderança que o Brasil e o mundo precisam. Uma liderança capaz de construir uma sociedade livre da violência, do preconceito, da intolerância e dos conflitos generalizados que vêm dando o tom da dinâmica das relações em todo o planeta. Os líderes do século 21 têm de ter a paz, a conquista da cidadania, a preservação do meio ambiente e o respeito às diferenças como metas prioritárias. Cabe às escolas, aos educadores e aos demais agentes de transformação social propiciar às crianças e jovens o acesso às informações, à discussão, ao debate e à reflexão - ferramentas essenciais para a formação desses novos artífices que elevarão o Brasil a uma posição privilegiada no cenário internacional. A apreensão de saberes diversos é a garantia de que poderemos traçar rotas singulares que, juntas, contribuirão para formar o mapa que apontará os caminhos e delimitará as fronteiras da vida em sociedade. Que os representantes desse novo tempo compreendam que a verdadeira liderança pode e deve ser exercida com sensibilidade e amor - ingredientes essenciais à construção do futuro sonhado por todos nós.


Publicado na Revista Conjuntura Econômica

Gabriel Chalita
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A descendência de Cervantes


Professor. Uma palavra de traduções diversas que encerra significados tão numerosos quanto belos. Um termo apropriado àqueles que acreditam na grandiosidade da doação, do altruísmo e da capacidade de despertar outros seres humanos para a aventura ímpar do aprendizado e da transcendência. Neste dia 15 de outubro, é importante refletir sobre esse profissional, que dedica sua vida à propagação de saberes. Saberes que possibilitam aos aprendizes ultrapassar fronteiras, superar obstáculos e articular estratégias que os conduzem em direção à realização de seus sonhos. Cheios de uma poesia própria, ousam desafiar o renomado poeta Vinícius de Moraes, na medida em que vivem e preconizam um amor imortal - posto que não é chama, contrariando o famoso verso do "Soneto da Fidelidade". Quantos milhões de professores terão o Brasil e o mundo? O que seria da sociedade sem a participação efetiva e compromissada desses homens e mulheres? Educadores que, todos os dias, somam, multiplicam e dividem tudo o que têm de mais precioso com centenas de crianças e jovens. Discípulos que assimilam, às vezes sem se dar conta, a essência do verbo compartilhar. Nas salas de aula do mundo, mestres e aprendizes ensaiam um balé sincrônico e ritmado, embalados pela musicalidade do amor, do conhecimento, do afeto, do respeito, dos sorrisos e dos olhares de confiança mútua. Educandos devem nutrir por seus professores um sentimento de admiração que inspire o respeito. Nessa relação, não deve haver lugar para o autoritarismo e para o medo, coreografias incompatíveis com o espetáculo majestoso da vida. Educadores... Como recompensá-los por tudo que nos proporcionam? Como agradecer-lhes da forma que merecem? E, principalmente: como retribuir sua força e seu exemplo seguro e altivo nos momentos em que fraquejamos e pensamos em desistir de tudo? Como resgatar sua auto-estima, cada vez mais abalada por este mundo que privilegia os bens materiais em detrimento de valores como a ética, a fraternidade, a justiça e o amor ao próximo? Como devolver aos professores o seu lugar de destaque na sociedade? Sejamos sinceros: não temos todas as respostas e nem tampouco pretendemos posar de donos da verdade, mas esta homenagem tem o intuito de propiciar aos leitores uma reflexão sobre essas pessoas iluminadas que nos presentearam com as condições para obter o alimento do corpo e do espírito. Uma reflexão sobre os nossos mestres e o papel imprescindível que desempenham em nossas vidas. Seres raros que vivem sob os signos diversos, mas complementares, da paixão e da razão. Exemplos de vida que nos transmitem lições essenciais à construção de nossas histórias. É esse o perfil da grande maioria dos educadores - crianças crescidas que, tal qual Peter Pan, se recusam a deixar de sonhar. E prosseguem incansáveis, dia após dia, capacitando seus alunos rumo à descoberta de suas potencialidades e talentos. Dia após dia, contribuindo para formação de personalidades e de cidadãos que transitem apenas pelo caminho do bem. Espécies encantadas como foi um dos mestres que tive na vida: professor André Franco Montoro, um jovem eterno que, mesmo tendo completado 60 anos de magistério, entrava para dar aula com o entusiasmo de um iniciante. A paixão de Franco Montoro era conhecida por muitos. A maioria de nossos educadores é constituída por heróis anônimos que lutam, muitas vezes, empunhando apenas o giz e a boa vontade. Heróis que atravessam a seca, os igarapés ou mesmo o trânsito alucinante das metrópoles com o objetivo único de semear idéias, honestidade, honradez, boa vontade, oportunidades, ideais, criatividade e autoconfiança. Professores são descendentes diretos da linhagem onírica criada por Cervantes em seu Dom Quixote. Sonhadores e idealistas que pairam muito acima de ideologias políticas, filosóficas ou religiosas. Preferem se ocupar com questões maiores: levam a vida a professar a educação e tudo de positivo que ela representa. Que, nesta data comemorativa e sempre, saibamos reconhecer seu valor e devolver-lhe a dignidade luzidia de um passado recente, mas que já traz muitas saudades.


Publicado na Folha de S.Paulo

Gabriel Chalita
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Escola Solidária - Um sonho possível

Diversas são as formas, as cores e as intensidades da dor e da miséria humanas. É muito difícil compreendê-las e, principalmente, vivenciá-las. É tarefa árdua também concebê-las e desenvolvê-las por meio da ficção. Missão possível apenas aos grandes gênios da arte. Na literatura, temos exemplos magníficos de escritores que fizeram uso da pena para nos comover de forma arrebatadora, transportando-nos a universos paralelos aos quais, na maioria das vezes, só poderíamos ter acesso graças às tramas e às personagens de seus clássicos. Émile Zola, com Germinal, Victor Hugo, com Os Miseráveis, José Saramago, com Levantado do Chão e Graciliano Ramos, com Vidas Secas, são alguns dos mestres capazes de nos conduzir de forma eficaz rumo a essas experiências de pura transcendência. Lendo essas obras, aprendemos mais sobre a vida na medida em que saímos da zona de conforto em direção ao desconhecido. É quando despertamos de fato. Nisso residem a grandeza e a beleza da arte. Entretanto, na época em que vivemos, a dor e o sofrimento estão cada dia mais explícitos, mais "naturais" e menos literários. E, como a grande maioria das pessoas não têm a genialidade dos grandes artistas para purgar as tristezas do mundo, criando obras-primas, precisamos encontrar caminhos alternativos para amenizá-las ao máximo. E a solidariedade é um deles. Sendo assim, é essencial sabermos que a solidariedade está fazendo escola no Brasil. Dados da ONU revelam que o País já possui um exército de 14 milhões de trabalhadores voluntários. Em sua maioria, esses brasileiros dedicam em média um dia e meio por semana ao voluntariado. Os trabalhos voltados à educação correspondem a 16% do total dessas ações. O número de jovens envolvidos com essas atividades cresceu de 7% para 34%. A Secretaria de Estado da Educação de São Paulo acredita que a escola, por meio de uma educação voltada à cidadania, pode ampliar ainda mais o número de pessoas ligadas a essas atividades. O trabalho pedagógico direcionado à conscientização dos estudantes em relação à solidariedade e às diversas formas de a manifestar pode atingir um enorme contingente populacional, conforme esses alunos se tornam agentes multiplicadores desses conceitos. A escola é um centro de luz e, como tal, precisa gerar mecanismos capazes de iluminar os caminhos e o futuro da sociedade. Temos de dar aos nossos aprendizes a possibilidade de serem os refletores e os condutores de novos e melhores tempos. Nesse sentido, nosso grande desafio é aproximar, cada dia mais, a comunidade da escola, estimulando a interação democrática entre alunos, pais, funcionários e toda a população de seu entorno. Dessa forma, o aluno poderá se envolver na concepção e no desdobramento de numerosos projetos, por meio de um comportamento pró-ativo, responsável e cooperativo. Esse é motivo pelo qual daremos início à abertura gradativa das escolas da rede estadual de ensino nos finais de semana, de maneira que os moradores da região tenham acesso aos conceitos implementados pelas escolas cidadãs. Os primeiros passos para a concretização dessa realidade já foram dados, com o projeto Parceiros do Futuro e com a recente assinatura do termo de parceria entre a Secretaria de Estado da Educação e o Instituto Brasil Voluntário - Faça Parte. O acordo visa instituir o programa estadual Jovem Voluntário-Escola Solidária em toda a rede. A iniciativa tem como alvo os alunos da educação básica e objetiva estimular projetos e ações voluntárias nas escolas. Para atingir essa meta, várias ações serão desencadeadas, como a articulação de alianças com organizações sociais que já atuam ou possam colaborar com a implementação, divulgação e viabilização do programa; mobilização da opinião pública para a importância da escola como espaço privilegiado para promover o protagonismo juvenil e ampliação de oportunidades e estratégias que facilitem a inserção voluntária e responsável dos jovens em atividades socioculturais na própria escola e também em outras instituições de sua região. Assim deve ser encarada a educação: como um milagre que possibilita a concretização dos sonhos. Nosso trabalho e a determinação em exercê-lo são frutos da crença de os poder tornar realidade.


Publicado no jornal Folha de S. Paulo

Gabriel Chalita
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O resgate da cidadania


Resgatar o conceito de cidadania nas crianças e adolescentes brasileiros é um desafio e, por isso mesmo, o principal objetivo do programa Mutirão da Cidadania - lançado pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. O objetivo é trazer à tona o sentimento de nação, de civismo, de solidariedade, de união e de amor aos valores dignificantes que têm sido cada vez menos apreendidos pelas novas gerações. O Mutirão será composto por diversas ações que visam ampliar nos estudantes da rede estadual de ensino a compreensão sobre questões essenciais à sua formação pessoal e profissional. A ética, a nobreza de caráter, o espírito de equipe, o respeito ao próximo e às suas diferenças de gênero, raça, credo e classe social, a preservação do meio ambiente - a começar pelo cuidado e valorização do espaço da própria escola -, o incentivo ao voluntariado e os estudos dos símbolos nacionais constituem as bases principais do programa. Uma das medidas que adotadas para a conquista desses objetivos é o hasteamento da Bandeira e a execução do Hino Nacional nas unidades de ensino, todas as segundas-feiras. A idéia é estimular a criação de espaços voltados ao resgate de valores ligados à vivência da cidadania, ao mesmo tempo em que a utilização da linguagem musical é otimizada como forma de expressão, comunicação e convivência. O programa será desenvolvido por meio de parcerias com as secretarias da Justiça, da Cultura, do Meio Ambiente e da Juventude, Esporte e Lazer, além de instituições como a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o Procon e o Faça Parte. Juntas, essas entidades trabalharão a consciência cidadã dos alunos, incentivando a participação ativa dos jovens tanto na escola quanto na comunidade. Elas fornecerão orientações sobre a formação e administração de grêmios estudantis, a realização da coleta seletiva de lixo nas escolas - ressaltando a importância dessa ação para o ecossistema -, a criação de Bandas da Juventude nos estabelecimentos de ensino, a conscientização dos direitos e deveres do consumidor e o estímulo ao voluntariado, que se constituirá em exercício efetivo de solidariedade. Acreditamos que a prática dessas ações será fundamental para a formação de cidadãos críticos que possam ocupar, definitivamente, um lugar de destaque nos cenários político, econômico, social e cultural do Brasil. Vivemos numa sociedade mutante, diversa e repleta de peculiaridades. Independentemente disso, o mundo todo atravessa um período de mudanças radicais que alteram o comportamento das pessoas provocando fenômenos sem precedentes na história da humanidade. Basta lembrarmos o quanto a família se modificou adquirindo novos modelos de estruturação - o que não quer dizer que está mais presente na vida das crianças e jovens. Ao contrário, paralelo às mudanças na estrutura familiar, o mercado de trabalho tem exigido cada vez mais de todos, tornando o tempo que os pais dedicam aos filhos mais escasso quantitativa e qualitativamente. A carência afetiva é a porta de entrada para o recebimento de influências negativas do meio e da mídia - essas últimas por meio da exposição exagerada à televisão e ao computador, sem nenhum critério seletivo. O resultado desse processo é evidente quando observamos a inversão de valores fundamentais à vida em sociedade, favorecendo o consumismo exacerbado, o culto exagerado ao corpo, da superficialidade das relações e a ascensão acelerada da violência e das drogas. Com isso, o papel da escola hoje é muito mais amplo e complexo do que há algumas décadas. Cabe a ela não só ensinar, mas auxiliar a formar o cidadão. Outro fator importante de mudança está na universalização do ensino, que trouxe aos bancos escolares pessoas extremamente diferentes, muitas vezes provenientes de famílias desestruturadas e/ou com situação econômica precária. Essas crianças, até há pouco tempo excluídas do ambiente educacional, necessitam de cuidados e atenções redobradas dos professores. Com a política da escola pública para todos, a rede oficial precisou reestruturar a proposta pedagógica para acolher os mais variados perfis estudantis. Nesse sentido, O Mutirão de Cidadania é uma ferramenta mais do que importante para garantir aos alunos uma formação mais adequada aos desafios impostos pelo século XXI. Machado de Assis, o grande mestre da literatura brasileira, nos forneceu um alento para as adversidades quando disse: "Defeitos não fazem mal, quando há vontade e poder de os corrigir." Se depender de nossa vontade e de nosso esforço, a educação conseguirá, sim, cumprir sua função: ser a bússola para mostrar um norte, um caminho seguro em direção ao futuro.


Publicado no Diário do Grande ABC

Gabriel Chalita
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Pessoas mais do que especiais


O filme Meu Pé Esquerdo, de 1989, retratou magistralmente a infância e a adolescência do jovem Christy Brown, talentoso e perseverante artista irlandês, portador de paralisia cerebral. Em decorrência da doença, a única parte do corpo que ele podia controlar com precisão era, justamente, o seu pé esquerdo. Com uma interpretação magnífica de Daniel Day-Lewis - vencedor do Oscar de melhor ator pela sua atuação como Brown - a trama conseguiu adentrar no universo grandioso desse homem brilhante que se tornou pintor, escritor e poeta de sucesso, a despeito de suas limitações motoras e de sua origem humilde. Exemplos como esse não são raros, mas, infelizmente, nem todos rendem filmes, documentários, reportagens e outras formas de divulgação de massa. No Brasil e no mundo, milhões de portadores de necessidades especiais constantemente nos surpreendem com seu talento, sua criatividade e sua determinação em superar obstáculos de graus e naturezas as mais diversas, conquistando o sucesso, o respeito e a admiração de todos. No esporte, nas artes e nas mais variadas áreas de atuação, temos representantes dessa comunidade especial que, de acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde, somam 10% da população do globo. Desde sempre, seus representantes fizeram história ao provar ao mundo sua competência e imensa capacidade. Basta lembrarmos do gênio da música clássica Ludwig van Beethoven que, mesmo perdendo gradualmente sua acuidade auditiva até a surdez, prosseguiu sua bem-sucedida carreira como compositor, deixando uma obra grandiosa, em todos os sentidos. Atualmente, temos no cenário mais popular, exemplos como o de Ray Charles e Steve Wonder, compositores e intérpretes que superaram a ausência total de visão e tornaram-se astros da música devido a uma mistura imbatível de talento, garra e sensibilidade. No Brasil, um dos mais conhecidos fenômenos de expressão artística ocorreu no século XVIII, época que teve o privilégio de ver nascer o escultor Antonio Francisco Lisboa. O artista - expoente maior do barraco mineiro - foi acometido, aos 47 anos, por uma doença que o privou de grande parte de seus movimentos, deformando-lhe os pés e as mãos. O fato serviu como inspiração para que o povo criasse o triste apelido com que Lisboa passou à história: Aleijadinho. Hoje, se pensarmos no contingente habitacional do Planeta Terra, calculado em 6 bilhões de habitantes, temos então 10% dessa população caracterizada como portadora de algum tipo de necessidade especial. São cidadãos que, como todos os outros, merecem respeito e igualdade de oportunidades. No Brasil, a Constituição Federal, em seu capítulo I - que discorre sobre os direitos e deveres individuais e coletivos - mais precisamente no artigo 5º, determina: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (...)". Nesse sentido, cabe à sociedade civil organizada, por meio de suas instituições nas esferas municipal, estadual e federal, bem como as demais entidades representativas que a compõem, trabalhar para fazer valer essa garantia constitucional e que é, também, um direito universal das pessoas. Um direito que deve começar a vigorar no momento de seu nascimento e prosseguir por toda a sua vida, com ênfase ainda mais especial durante a infância - período em que somos mais vulneráveis. Por isso, é nosso dever proporcionar às crianças as condições necessárias ao seu pleno desenvolvimento físico, emocional e intelectual - sejam elas portadoras de necessidades especiais ou não. Essa filosofia pauta nosso trabalho na Secretaria de Estado da Educação e nos faz buscar e/ou criar mecanismos que possibilitem sua execução. Um exemplo disso é o Centro de Apoio Pedagógico Especial (Cape), inaugurado em novembro do ano passado. O Centro, que gerencia as ações especiais da Secretaria Estadual de Educação, realiza o treinamento e a capacitação dos professores da rede para o atendimento ao aluno portador de necessidades educacionais especiais e a produção de material didático-pedagógico para esses estudantes. As atividades do Centro se concentram em três eixos principais: pesquisa, produção de recursos e formação continuada dos professores da rede. O objetivo principal do Cape é proporcionar a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais no ensino regular. A igualdade de condições começa no próprio prédio do Centro, que foi completamente reformado para garantir a acessibilidade aos portadores de necessidades especiais. Temos certeza de que ações dessa natureza capacitam as novas gerações, a partir do momento em que ajudam a desenvolver, hoje, o seu enorme potencial. A humanidade, sem dúvida, agradecerá a colaboração desses novos artesãos da vida. Pessoas que, freqüentemente, ignoram todos os tipos de limitações e moldam com maestria suas próprias vitórias e conquistas.

Publicado no Correio Popular

Gabriel Chalita
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A importância do professor

Valorizar o professor. Capacitá-lo para o exercício pleno de suas atividades como educador. Proporcionar-lhe os instrumentos necessários à sua função primordial: lapidar diamantes. Hoje, esses são os objetivos principais da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Em outras palavras: entendemos o professor como a figura mais importante do processo educativo, em todas as suas esferas. Cabe ao mestre a incumbência de ensinar, orientar, estimular e incentivar crianças e jovens a descobrir suas potencialidades. É uma tarefa nobre e gratificante, mas que exige um esforço e um empenho ininterruptos. Sem o educador seria impossível conceber a sociedade e sua contínua evolução cultural e científica. Afinal, todas as áreas do conhecimento humano dependem do professor para serem apreendidas com eficácia e colocadas em prática com competência e habilidade. A palavra professor vem do latim professore, cujo significado é: aquele que professa ou ensina uma ciência, uma arte, uma técnica, uma disciplina. Mas para que isso aconteça, o professor deve instigar o aluno. Levá-lo à dúvida, à inquietação, à contestação, ao questionamento. A transmissão do saber precisa ser estimulante e prazerosa. Há que se estabelecer entre os mestres e seus aprendizes uma relação de troca porque ensinar também é, antes de tudo, aprender. Educar é um missão que guarda em si um mundo repleto de possibilidades. Entre elas, a capacidade de despertar no outro um sem-número de qualidades adormecidas. Na Grécia Antiga, Sócrates já nos mostrou o caminho com a sua maiêutica. Sem a provocação, sem o questionamento, sem a inquietação, sem as perguntas incessantes do mestre não ocorrerá esse processo pedagógico socrático em que se multiplicam as perguntas a fim de obter um conceito a respeito do objeto em questão. Sem a maiêutica não é possível haver a parturição das idéias. Não se adquire o conhecimento, a sabedoria. Machado de Assis, no clássico Dom Casmurro, mais precisamente no Capítulo 9, nos brinda com sua poesia, ironia e irreverência quando compara a vida e os personagens que a compõem a uma ópera. Vamos pedir licença ao grande gênio da nossa Literatura para utilizar essa metáfora no universo específico da sala de aula. Quem dentre os alunos será o maestro que irá reger os personagens do espetáculo da existência? Quem será barítono, soprano, contralto, tenor? Quem irá optar por conceber a cenografia? Quem será o diretor? Quem será o figurinista? Quem irá compor o coro? Quem serão os bailarinos? Bem, o professor pode até imaginar os rumos que serão seguidos pelos seus alunos, mas isso não é sua tarefa principal. Cabe aos educadores conceder às crianças e jovens o direito de escolha, a partir do momento em que aprenderão sobre a importância de todos os personagens da ópera, inclusive os que optam por ficar nos bastidores. A nobreza do magistério reside justamente na capacidade de transmitir aos aprendizes a beleza e a grandiosidade dessa magnífica experiência que é a vida. Temos por meta preparar o professor para o exercício de uma profissão cada vez mais essencial à formação do ser humano. Por isso estamos realizando capacitações, palestras, teleconferências e seminários. No último mês de maio, por exemplo, reunimos cerca de mil educadores das 89 regionais de ensino do Estado em capacitação realizada no Interior de São Paulo. A idéia é transformá-los em multiplicadores de informação em suas localidades de origem. Acreditamos ser possível conceder ao educador o que lhe é de direito: o respeito de todos e o orgulho por ser quem traz à tona o que as pessoas têm de mais sublime. O professor, para nós, é a alma da educação e a espinha dorsal da sociedade. Sem ela, torna-se impossível adquirir o equilíbrio, a força e a vitalidade necessária para fazer do Brasil um país comprometido com a formação de seus cidadãos. Um país cuja nação será consciente e intelectualmente capaz de construir as bases sólidas que sustentarão os sonhos das novas gerações.


Publicado no Jornal A Tribuna

Gabriel Chalita
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Incentivar a Leitura

O maior acontecimento de minha vida foi, sem sombra de dúvida, a biblioteca de meu pai". A frase impactante e, ao mesmo tempo, grandiosa, por tudo o que traz implícita, foi proferida pelo escritor argentino Jorge Luis Borges. Sua paixão pelos livros seguiu avassaladora até o final de sua vida, quando já estava cego e dependente de amigos ou familiares que liam para ele todos os dias. Borges sofria de um problema congênito na visão, proveniente de seus ascendentes paternos. Mesmo assim, isso não foi empecilho para que ele se tornasse um dos maiores escritores de todos os tempos, autor de preciosidades como "Ficções" e "O Aleph". Todavia, sua história poderia ter sido outra se, desde menino, não tivesse tido acesso ao maravilhoso e encantado mundo dos livros. Clássicos como "As mil e uma noites" ajudaram a fazer com que o menino tímido e retraído da Buenos Aires romântica do início do século 20 pudesse dar asas a uma imaginação já privilegiada, originando o escritor fenomenal em que se transformaria mais tarde. Mudemos, agora, de cenário. Brasil. Recife. No conto "Felicidade Clandestina", Clarice Lispector narra, de forma primorosa, o sofrimento de uma menina pobre cujo sonho era ler "Reinações de Narizinho", clássico de Monteiro Lobato. No final da narrativa, após ter conseguido seu tão desejado exemplar, a menina permanece abraçada ao livro, em êxtase, sem abri-lo por um bom tempo, tamanho é o seu respeito e admiração pelo tesouro recém-adquirido. Entre os grandes escritores, o que não faltam são histórias relatando o amor que devotavam aos livros, ao conhecimento, ao aprendizado... O que seria desses homens e mulheres das letras não fosse o contato precoce com a literatura? Teriam eles seguido rumos diferentes? Teriam se tornado os grandes mestres que conhecemos? Possivelmente, não. Daí a importância crucial de as escolas incentivarem a leitura e a familiarização dos estudantes com o espaço fantástico que são as bibliotecas. Cabe aos diretores e professores organizarem visitas das classes a esses centros do saber em suas escolas. A prática, com certeza, fará toda a diferença na vida das crianças e adolescentes. Para os mais novos, podem ser organizados leituras de histórias em rodas, com direito a interatividade e atividades que, já em sala de aula, complementem o trabalho iniciado na biblioteca. Quando o assunto é o estímulo à leitura, a criação de programas de incentivo é fundamental. Programas como o "Leia Mais" e campanhas como Tempo de Leitura são exemplos bem-sucedidos. Só o "Leia Mais" atendeu mais de 2 milhões de alunos do ensino médio com 3 milhões de livros de literatura. Foram investidos 20 milhões de reais com o envolvimento de 1.245 escritores e 1.934 títulos diferentes para a escolha das próprias escolas. Já a campanha "Tempo de Leitura" teve como palavra-chave o compartilhamento. Mais de 8,5 milhões de alunos do Brasil inteiro, de 4ª e 5ª séries do Ensino Fundamental, levaram para casa uma das seis coleções compostas de cinco volumes do projeto "Literatura em Minha Casa", do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). O PNBE está disponibilizando 30 títulos literários diferentes, contabilizando um total de 12,18 milhões de coleções. Livros de Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Ângela Lago. Luís Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Oscar Wilde, Mark Twain, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e outros escritores e poetas nacionais e internacionais vão fazer parte da biblioteca particular dos alunos. Parafraseando Monteiro Lobato: um país se faz com homens e com livros. É assim que se constrói o futuro e se garante às novas gerações, uma sociedade e um mundo mais condizente com o sonho de todos os grandes escritores e poetas. O verdadeiro educador deve trabalhar em seus aprendizes o desenvolvimento desses valores. Este texto tem como objetivo ser um convite para que reflitamos sobre livros, bibliotecas, sonhos e o quanto eles podem ser fundamentais na vida de todos nós. E para salientar esse conceito, nada mais adequado do que lembrar um trecho do poema O Livro e a América, de Castro Alves: "Oh, Bendito o que semeia/Livros... livros à mão cheia.../E mando o povo pensar!/O livro caindo n alma/É gérmen que faz a palma,/É chuva que faz o mar".


Publicado no Jornal Vale Paraibano

Gabriel Chalita
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Escola para todos
Ele era negro, epiléptico e pobre. Para complicar ainda mais sua trajetória de vida, nasceu no século XIX, em meio à sociedade marcadamente preconceituosa da época. Filho de uma lavadeira açoriana e de um pintor mulato, passou a infância no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Órfão, foi criado pela madrasta. Freqüentou o curso primário numa escola pública e aprendeu Francês e Latim com amigos da família e com um padre. O mais impressionante nessa história é que, mesmo sob o signo de tamanha dificuldade, reluziu a estrela maior de nossa literatura. Falamos do escritor Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). Como vimos, o grande mestre das letras nacionais, autor de clássicos como Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, cursou apenas o primário. Na verdade, até bem pouco tempo, era essa a realidade da maioria das crianças nascidas nas classes menos favorecidas economicamente. A história já nos provou que, em nosso país, muitas vezes, a conquista do aprendizado entre nossos escritores geralmente se deveu à figura de um padre ou de um fidalgo que vinham em socorro dos grandes artistas de origem humilde. Foi assim não só com Machado de Assis, mas com outros grandiosos representantes da literatura, para ficarmos apenas na seara das letras. O poeta Cruz e Sousa, filho de escravos, foi acolhido por uma família rica que resolveu educá-lo. Foi quando encontrou os conhecimentos necessários à expressão de sua arte. Lima Barreto, por sua vez, teve auxílio de seu padrinho - um visconde - que o ajudou a concluir o segundo grau. Hoje, o Brasil vive uma outra realidade, muito mais positiva em relação ao acesso das comunidades carentes à escola. Os números divulgados pelo último censo comprovam: os avanços relativos à universalização da educação em nosso país destacam a evolução de toda a rede pública do Brasil. Atualmente, 95% das crianças de 7 a 14 anos estão na escola, diferentemente do que tínhamos em 1991, quando uma em cada quatro crianças pobres estava fora dos estabelecimentos de ensino. Já a taxa de escolarização entre os jovens de 15 a 17 anos passou de 55,3% para 78,8%. Em São Paulo, isso fica ainda mais evidente: 99% das crianças entre 7 e 14 anos de idade estão na escola e o índice de evasão caiu diminuiu brutalmente, permitindo que as crianças e jovens permaneçam nas escolas. Em 1994 a evasão paulista era de 9% para o ensino fundamental e 19% para o médio. Em 2000 caiu para 4,5% e 12% respectivamente, os índices mais baixos do país. De acordo com o CENSO MEC 2001, a evasão caiu ainda mais, isto é, 3,1% para o ensino fundamental e 8,9% para o ensino médio. Os números deixam claro: a escola é, agora, uma possibilidade acessível à maioria esmagadora de nossas crianças, independentemente de cor, gênero, raça, credo ou classe social. É certo que ainda há muito a ser conquistado, mas o primeiro passo já foi dado: a garantia constitucional do direito à educação para todos. Uma das nossas metas é, justamente, seguir à risca o texto que compõe o artigo 205 da Constituição Federal: . A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. A seqüência de nosso projeto educacional será, cada vez mais, aliar quantidade à qualidade, proporcionando a todas as crianças da rede pública de ensino a capacidade necessária ao pleno sucesso de sua vida pessoal e profissional. Temos certeza de que esse é o sonho de todos nós, educadores. Mas, para realizá-lo, é importante lembrarmos que ele se constrói um pouco a cada dia, em cada nova aula, em cada pequeno gesto de respeito e consideração aos educandos. O amor ao que fazemos, seja qual for nossa área de atuação, é o grande responsável pela grandeza de nossa obra e pela beleza de nossa história. O entusiasmo é essencial, sempre. Recordemos as palavras sábias de Balzac, outro mestre da literatura: "O homem começa a morrer na idade em que perde o entusiasmo". Boa semana a todos!


Publicado no Jornal A Tribuna

Gabriel Chalita
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A construção de um novo Brasil

Educar é conceder ao outro a possibilidade de sonhar, transcender, superar limites e desbravar novos horizontes em direção à sua própria história e à cidadania plena. Quem realmente educa colabora para a formação de uma sociedade culturalmente mais preparada, mais consciente, mais capacitada para criar e vivenciar experiências positivas e, por vezes, revolucionárias. A boa educação deve vir acompanhada de doses maciças de afeto, de compreensão e, sobretudo, do entendimento de que o educando é um indivíduo único, peculiar, dono de um universo rico e, por vezes, pouco explorado. Cabe ao educador, primeiramente, orientá-lo na busca incessante de toda essa riqueza interior para, só então, libertá-lo para vôos mais altos. Mais precisamente, o vôo infinito do aprendizado. Podemos sustentar a educação sobre três pilares: as habilidades cognitiva, social e emocional. A primeira delas corresponde à seleção de informações técnicas relativas a determinados temas. Demanda aprimoramento constante e capacita o indivíduo para o exercício pleno de uma profissão, por exemplo. A segunda habilidade, a social, tem sido cada vez mais exigida no mundo em que vivemos. Ela implica saber relacionar-se da melhor forma possível. Falar, ouvir, expressar-se com competência, ter capacidade para entender os problemas e as dores alheias... Saber, como diria Che Guevara: "Endurecer sem perder a ternura". Na habilidade social, o respeito pelo o outro é um requisito fundamental. Vivemos em uma sociedade plural, multicultural, divergente, marcada pelas diferenças sociais, políticas e, principalmente, econômicas. As relações são difíceis e complexas mas, mesmo assim, ninguém arrisca viver sem a presença do outro. Ser só é algo contrário à natureza humana. Por isso, transitar entre grupos variados e de realidades diversas de forma hábil é uma vantagem, um diferencial. No caso específico da educação e do universo que a compõe, podemos citar o comportamento do professor na sala de aula como exemplo de habilidade social. É preciso que ele esteja em total sintonia com os alunos e suas necessidades, evitando posturas autoritárias e repentes de superioridade. Tem de haver integração e um infinito respeito pela história pessoal de cada aprendiz. Já a habilidade emocional se constitui no principal elemento capaz de desenvolver o processo educativo. Ela visa à busca do nosso eu interior, do equilíbrio e do autoconhecimento. Por meio dela, as pessoas são capazes de acessar suas potencialidades, autoconfiança e energia para lutar sempre que for necessário. Não se intimidam frente às derrotas. Ao contrário, servem-se das experiências negativas para se fortalecerem e mudarem o rumo das coisas para melhor. A afetuosidade, apesar de ser condição imprescindível para uma boa educação, esbarra na necessidade de melhorarmos ainda mais o setor educacional no Brasil. O fato de sermos um país continental nos impõe desafios ininterruptos em diversas áreas, e a educação é uma delas. Temos colecionado avanços significativos nos últimos anos. Entre eles, destacam-se os programas de incentivo à leitura, a complementação de renda para as famílias carentes com filhos em idade escolar, a construção de novas escolas, o crescimento das taxas de escolarização, a redução dos índices de analfabetismo, a rápida expansão do ensino médio, a elaboração de diretrizes e parâmetros curriculares e a implantação de um sistema efetivo de informações, cujas avaliações e levantamentos estatísticos funcionam como instrumentos para planejar e monitorar as políticas públicas do setor, colaborando para melhoria da qualidade da educação. Mesmo assim, ainda temos muito a fazer. Afinal, a educação é um processo contínuo que transcende os lares e os muros das escolas. Educar é dar oportunidades para as crianças e jovens expressarem sua criatividade, brincarem, ousarem... Vivemos uma época ímpar. A era da informação, da tecnologia, da rapidez dos processos. Presenciamos mudanças e revoluções diárias. O novo invade nossos lares e nos faz aprender a cada dia. Como educar crianças e jovens nessa roda-viva? Qual a melhor maneira de fazê-lo? Como prender sua atenção? Conquistar seus olhares curiosos que demonstram sede de conhecimento? As salas de aula serão páreo para a rapidez e as cores do games virtuais, dos computadores, dos programas televisivos? Encontrar as respostas para todas essas questões não será tarefa fácil, mas, certamente, teremos uma busca menos árdua se tivermos em mãos o mapa que nos levará a elas. Um mapa precioso que indica com riqueza de detalhes o caminho do afeto. Só o conhecendo é possível sonhar e realizar uma educação mais eficaz e global. Todos ganharemos com isso, como sinalizou o educador brasileiro Paulo Freire em suas belas palavras: "A grande generosidade está em lutar para que, cada vez mais, essas mãos, sejam de homens ou de povos, se estendam menos, em gestos de súplica. Súplica de humildes a poderosos. E se vão fazendo, cada vez mais, mãos humanas, que trabalhem e transformem o mundo."

Jornal A Tribuna

Gabriel Chalita
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Prática esportiva como metáfora para a vida

A glória é tanto mais tardia quanto mais duradoura há de ser, porque todo fruto delicioso amadurece lentamente.
Arthur Schöpenhauer


O filósofo Sócrates, na Grécia antiga, já afirmava: "As duas grandes habilidades necessárias ao desenvolvimento e à formação do ser humano são a arte e o esporte". Os gregos sabiam da importância da boa forma física para uma saúde perfeita. Era a filosofia mens sana in corpore sano. O bem-estar físico era um dos caminhos para que o intelecto pudesse fluir livremente, ultrapassando fronteiras limitantes para qualquer aprendizado. Os ginásios - edifícios monumentais destinados não só ao desenvolvimento do corpo, mas ao cultivo da inteligência - tornavam-se centros de pesquisas, debates e discussões. A própria metodologia do ensino nas academias atenienses já compactuava com essa mentalidade na medida em que os professores davam suas aulas em bosques, ao ar livre, fazendo caminhadas com os alunos enquanto transmitiam informações sobre botânica, matemática, zoologia e toda a série de disciplinas que formaram os grandes filósofos e gênios da época. A criação das Olimpíadas, em 776 a.C., é a prova máxima da importância que os antigos conferiam à prática esportiva. Vencer significava a glória, os louros, o reconhecimento por parte dos imperadores. Era um ritual mágico que simbolizava a conquista, a superação de obstáculos, a transposição de limites. Hoje, a mentalidade grega, no que diz respeito às práticas esportivas, encontra ecos em poucos países que, sabiamente, ainda incentivam seus jovens a praticar atividades físicas desde tenra idade. Procedimentos como esse facilitam o surgimento de campeões que se superam a cada geração, batendo recordes e entrando para a História. Tem sido assim a cada quatro anos, quando assistimos, boquiabertos, às delegações dos EUA, Canadá, China, Rússia e Coréia conquistarem a maioria das medalhas de ouro nos jogos olímpicos. No Brasil, em contrapartida, o apoio ao esporte ainda é insuficiente para resultados mais assertivos em competições ou mesmo para o desenvolvimento educacional completo dos jovens. Muitas empresas de grande porte ainda não acordaram para os benefícios de ter sua marca associada ao esporte. Já o Governo, apesar da boa vontade demonstrada nos últimos anos, ainda engatinha quando o assunto é a política pública de ponta para o setor. Muitos de nossos atletas, por exemplo, optam por viver fora do país, graças aos incentivos técnicos e financeiros que recebem no exterior. Bolsa de estudos nas grandes universidades, moradia gratuita, treinamento com equipamentos de última geração e acompanhamento médico adequado compõem um rol de ofertas tentadoras para os jovens competidores. Enquanto isso, em nosso País, mesmo os esportistas de primeira linha enfrentam, constantemente, inúmeras adversidades pela falta de patrocínio. Em casos extremos, muitos desistem do sonho por não dispor, muitas vezes, do dinheiro para a condução que os levaria ao treino. Todas as grandes vitórias olímpicas dos atletas brasileiros se devem, salvo exceções, ao empenho e à dedicação solitária do atleta, de sua família e do seu treinador. Em São Paulo, essa história já está sendo modificada, pelo menos para cinco mil jovens que passaram a praticar esportes nos principais clubes da cidade por meio do Projeto Clube Cidadão. Os adolescentes recebem uma bolsa no valor de R$ 120,00 por mês, desde que comprovem que freqüentam a escola. Quando a sociedade não valoriza o esporte, acaba se tornando vulnerável em vários aspectos. A prática esportiva distancia o jovem da violência, do individualismo exacerbado, do comodismo e da baixa auto-estima. Por outro lado, o esporte desenvolve as potencialidades dos seus praticantes na medida em que os torna confiantes, decididos, equilibrados, emocionalmente estáveis e preparados para os desafios impostos pela vida. A vitória e a derrota passam a fazer parte do seu dia-a-dia, capacitando-os para o mundo complexo em que vivemos. Saber ganhar e saber perder são elementos fundamentais, sobretudo, para quem vive na civilização ocidental a qual, ao mesmo tempo que respira competitividade por todos os poros, não prepara seus "atletas" da forma como deveria. Ao contrário, nessa arena pós-moderna, conquista o pódio quem digladia pela busca do sucesso fácil e rápido. Obtê-lo a qualquer custo transformou-se em lei. De nada vale a grandeza de competir, por si só. É a inversão completa dos valores básicos do esporte. Embora as atividades esportivas, cada vez mais, despertem o interesse do grande público, pouco tem sido feito para melhorar a prática da educação física nas escolas, no ensino superior e na comunidade. Faz-se necessário garantir a educação física e os esportes para todos como uma política prioritária para o desenvolvimento físico, intelectual e moral de milhões de jovens. Mais do que nunca, devemos trabalhar para reduzir a distância entre os esportes competitivos de elite e o esporte para todos. Nunca é demais repetir a frase "o importante não é vencer, é competir", atribuída ao responsável pelo resgate dos jogos olímpicos para os dia de hoje, o parisiense Pierre de Fredy, conhecido como Barão de Coubertin (1863-1937). Para ele, a tradição olímpica tinha como objetivo principal incentivar o esporte e, quem sabe, ajudar na união dos povos. Que essa meta seja de todos nós.


Publicado no Jornal A Tribuna - Santos

Gabriel Chalita
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Um novo tempo

Estamos no início do ano letivo. Nas universidades, milhares de jovens darão início a uma nova fase em suas vidas. Quem não se recorda da imensa expectativa existente no primeiro dia de aula na faculdade? As dúvidas, os medos, os anseios em relação a profissão escolhida, os novos amigos e professores, as incertezas sobre a futura profissão e o sonhado reconhecimento no cada vez mais competitivo mercado de trabalho? É uma realidade cheia de apreensão e de temores e o jovem, nessa hora, assemelha-se a um vulcão pronto para entrar em erupção e espalhar sua lava incandescente ao seu redor. Tudo isso, logo depois de ter sobrevivido (sim, é essa a palavra) a um outro momento de turbulência sem igual: o vestibular. Para a maioria, a grande prova de fogo da juventude. A grande concorrência, a expectativa da família, o drama em escolher a profissão certa em uma idade ainda carente de maturidade e experiência de vida suficientes para uma decisão tão delicada... É como um rito de passagem cercado de desafios envolvendo coragem, perseverança, paciência, técnica, rapidez de raciocínio lógico e abstrato, fluência verbal e tantas outras habilidades essenciais a um guerreiro. Cabe aos pais, mais uma vez, servir de fortaleza e amparar seus filhos em época tão importante para o seu futuro. Pressões e cobranças só tendem a piorar o estado de espírito desses novos desbravadores que sonham em conquistar o mundo e trazem em si uma força e uma garra sem tamanho. São eles, os jovens, os respiradouros do mundo. Neles se concentram todos os raios de luz dos milhares de amanheceres que ainda temos pelo frente. Muitos encontrarão seu caminho de forma mais suave e menos traumática, porque tiveram na infância e na adolescência todas as oportunidades possíveis. Outros, pelo contrário, precisarão ser os arquitetos responsáveis por todos os traçados que delineiam seus projetos de vida, sem incentivo, apoio ou orientação de mais ninguém. Ambos, no entanto, têm em comum a capacidade de mudar as coisas e de transformá-las, sempre, para melhor. Afinal, eles têm como aliado, aquele que é o grande senhor de todos os dias de nossas vidas: o tempo. Poder olhar para frente e saber-se muito jovem é, sem dúvida, um grande antídoto contra a apatia e o desânimo para lutar. Além disso, há também o vigor físico e toda a energia proveniente dele. Por tudo isso, devemos respeitá-lo ao máximo e colaborar com nossa experiência de vida no momento único que é o ingresso na universidade. Afinal, ele é o primeiro passo para uma longa jornada. Uma jornada repleta de alegrias, conquistas e descobertas. É claro que há, também, algumas frustrações, mas todas elas, sem dúvida, fundamentais para a aquisição de autoconhecimento e crescimento interior. Como seria bom se todos os dias pudéssemos novamente despertar em nós essa sensação original e renovadora. A juventude determina, de maneira veemente, o ritmo da história. Desde sempre os jovens estão na vanguarda apontando novos caminhos e traçando rumos muito mais ousados e originais para as mais diversas épocas. Os primeiros movimentos de juventude seriam datados de 100 a.C., quando Marco Túlio Cícero foi obrigado a lidar com os protestos organizados pelos jovens que, na verdade, retratavam as visões da sociedade em geral. Vários governantes, muitos deles, de forma cruel, utilizaram-se dos jovens na tentativa de adquirir uma frente de batalha poderosa para implantar e disseminar os seus pensamentos e doutrinas de toda a ordem. Foi assim com Adolf Hitler, por exemplo. Tem sido assim com inúmeros movimentos sociais, não importando a linha a que pertencem. É sempre o jovem que está exposto na dianteira, para o bem ou para o mal. É relativamente fácil seduzi-los pois buscam de forma constante o novo e têm verdadeira aversão pelos padrões previamente estabelecidos. Amam a possibilidade de contestar, reivindicar, lutar e sonhar. E é na universidade que eles possivelmente desenvolverão muitas de suas inúmeras potencialidades para a batalha da vida. Os bancos escolares, como sabemos, não oferecem as respostas, mas apontam os caminhos para que possamos descobri-las. Por isso, a todos os jovens novos universitários: sejam bem-vindos a um novo tempo.


Publicado no Jornal Vale Paraibano

Gabriel Chalita
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23 de outubro de 2006


Desafios da educação

É oportuno, neste momento de comemorações do Dia do Professor, compartilhar algumas reflexões sobre a educação.

Houve tempo em que estudar era ser posto à prova, era enfrentar vicissitudes para temperar o espírito, segundo os paradigmas da época. Tratava-se de um combate, que evitava o prazer e valorizava o sacrifício. Todos nos lembramos do relato de Raul Pompéia: "Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta." Também nos lembramos do chefe timbira, de Gonçalves Dias, que diz ao filho: "Coragem, meu filho, que a vida, é luta renhida, viver é lutar."

Provação. Era disto que se tratava a vida e a escola.

Mas a pedagogia avançou. Hoje sabemos que viver é enfrentar, mas não é amargurar; que estudar é buscar, superar, mas não é desesperar. O aprendizado deve ser prazeroso, e este pode ser o desafio mais importante do profissional de educação. Talvez tenha sido Cecília Meirelles quem fez a síntese mais poética do que seja ensinar. Para a doce poeta e educadora, ensinar é "acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante."

E aí está em que se baseia a educação: afeto e solidariedade. E compreensão. Até para o erro. Edgar Morin costuma dizer que todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. Para ele, "o maior erro seria subestimar o problema do erro; a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão."

Em meu livro Educação: a solução está no afeto, falo das três habilidades que acredito que precisam ser desenvolvidas no aprendiz: cognitiva, emocional e social. Quando um aluno erra, o professor preparado corrige, mas não censura, disciplina, mas não ridiculariza, repara, mas não condena. O educador não pode mais assumir o papel de detentor absoluto do conhecimento, embora deva se manter em contínua capacitação. Deve ser mais do que apenas o facilitador da busca do conhecimento pelo aprendiz. Deve ser um instigador. O professor que faz jus ao título de educador estimula a cooperação, porque a palavra que sintetiza o conceito da educação contemporânea é a reciprocidade. Estimula a vivência, a comparação, a análise crítica, o intercâmbio de idéias e de experiências. Tem ou desenvolve habilidade para fazer com que os talentos sejam exteriorizados. E desse modo descobre capacidades e orienta realizações.



Triste é o educador que já não acredita mais na capacidade de aprendizado, que não se debruça para examinar melhor a peculiaridade de cada aprendiz. Este não ensina nem aprende. Porque a educação não é pesar, é prazer.

Em resumo: trabalhar em equipe, resolver problemas, saber ensinar e aprender a ser solidário. Eis o que é ensinar! O mundo da competitividade é o mundo da heterogeneidade. Comparar pessoas diferentes - e não há pessoas iguais - é desestimular a criatividade e a autonomia.

"A melhor aprendizagem ocorre quando o aprendiz assume o comando de seu próprio desenvolvimento em atividades que sejam significativas e lhe despertem o prazer". A frase é do sul-africano Seymour Papert, matemático, professor do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT) e pai da Inteligência artificial, um dos maiores visionários do uso da tecnologia na educação. Em 1960 já dizia que toda criança deveria ter um computador em sala de aula. Mas a tecnologia sozinha não representa evolução na forma de educar. O computador é ferramenta, é apoio, é máquina, e máquina alguma substitui o professor - este sim, a alma da educação. O professor não pode ser como um disco de memória de computador, apenas um depósito de informação.

Há muitas formas de desenvolver conhecimento, mas o ato de educar só se dá com afeto, só se completa com amor. E a educação se realiza porque, junto com o amor, surge compromisso, respeito, a necessidade de continuar a estudar sempre, de preparar aulas mais participativas.

A educação é, em todas as suas dimensões, um grande desafio. Um desafio que depende em sua maior parte do professor, a quem venho reverenciar nesta data comemorativa. É o professor que fará, com dignidade e respeito - que são, afinal, formas de amor - com que a educação se transforme em puro prazer de viver.



Jornal O Estado de Minas, 09 de outubro de 2006

Gabriel Chalita
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Mínimos e Máximas

Pequenas lembranças.
Carinho, caminho.
Atalhos não há.
Coragem.
Lá de cima tudo fica mais nítido.

Gabriel Chalita
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Vertigo

Tinha uma certa vertigem.
Por isso não gostava de altura.
Sentou-se.
Chorou.
Não viu nada.
Mentiu.

Gabriel Chalita
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A Morte dos Girassóis

A morte dos girassóis se dá efetivamente
quando eles se convencem de que o sol
nunca mais voltará para o seu girar.

Padecem de ignorância os girassóis,
porque o sol sempre volta.

Gabriel Chalita
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Coitado

Falava em primeira pessoa.
Pensava em primeira pessoa.
Sonhava em primeira pessoa.

Gabriel Chalita
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Poeira de Ternura

Pedaços vão
caindo de mim
e
espalhando
espalhando
espalhando...

Gabriel Chalita
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Pequena Hesitação

Já quis desistir.
Chorei dias e noites.

Hoje acordei
e me lambuzei de amor
em pote de mim mesmo
e decidi.

Gabriel Chalita
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