Textos de Gabriel Chalita

Cerca de 90 textos de Gabriel Chalita

Amigo é antes de tudo "certeza" seu modo de agir é seguro e sua esperança trnaquiliza. Ele não apenas traz segurança. Ele é um pouco do que somos e, por isso mesmo, nos assegura que nunca estamos sem apoio. Amigo não concorda em tudo eles dizem verdades que doem mas também dizem verdades que curam! Corre risco de perder uma amizade, mas não deixa de sempre dizer a VERDADE!
As mais bonitas sementes de uma amizade são plantadas em um coração puro onde horizontes não possuem barreiras e o infinito e apenas o começo!
Muitos dizem que quem encontrou um amigo encontrou um tesouro, muitos dizem que amizade verdadeira duram para sempre, as amizades nascem do acaso ou de alguma força que faz de uma simples brincadeira unir duas pessoas, e a cumplicidade vai ganhando corpo é o desejo de está junto vai aumentando e com ele a sensação sempre boa do poder partilhar e de doar!
A muitos se diz que o amigo verdadeiro que se faz presentes nos momentos mais difíceis da vida, na aqueles momentos em que a dor parece querer superar o desejo de viver, amizade maior é aquela que o amigo seja capaz de esta ao lado do outro no momento de glória!

Gabriel Chalita

"Aos velhos e jovens professores,aos mestres de todos os tempos que foram agraciados pelos céus por essa missão tão digna e feliz.Ser professor é um privilégio. Ser professor é semear em terreno sempre fértil e se encantar com a colheita. Ser professor é ser condutor de almas e de sonhos, é lapidar diamantes"

Gabriel Chalita

(...)Os Educadores-sonhadores jamais desistem de suas sementes,mesmo que não germinem no tempo certo...Mesmo que pareçam frágeisl frente às intempéries...Mesmo que não sejam viçosas e que não exalem o perfume que se espera delas.O espírito de um meste nunca se deixa abater pelas dificuldades.Ao contrário,esses educadores entendem experiências difíceis com desafios a serem vencidos.(...)

Gabriel Chalita

Eu amo, sem economias.
Eu amo, apesar das suas dúvidas.
Sei que você não é o que os outros dizem,
tampouco o que aparenta ser.

Tanta maquiagem nas suas ações...
Tantos Gritos de socorro escondidos em amargura
ou revelados em palavras ríspidas...

Nada disso combina com a luz escondida em você.

Gabriel Chalita

HARMONIA DO AMBIENTE ESCOLAR

Cecília Meirelles, em sua saborosa poética, assim escreve: "Ensinar é acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética, afetuosa e participante."
Quando se lê a educação com esse olhar de Cecília, parece que o dia-a-dia na relação professor-aluno é encantado. Muitos dirão que essa elevação afetiva só funciona no plano das idéias e que na prática se assiste a um aviltante processo de destruição das relações humanas.
A violência nas escolas se materializa em agressões verbais e físicas. O professor se sente vítima de um sistema que não o valoriza, portanto não o entende bem, nem o protege. Os alunos parecem prontos para a batalha. Padecem de amor e de limites. A ausência familiar se faz sentir na postura agressiva ou apatia em sala de aula.
Além disso, e talvez por isso, tentam disputar poder com os professores que, por sua vez, se deixam levar em um debate desnecessário. Há um axioma essencial na relação entre professor e aluno: autoridade harmonizada pelo afeto. O aluno precisa de limite e precisa compreender o papel do educador. O educador não pode impor sua autoridade, mas deve conquistá-la. Sem brigas nem ameaças. Sem histeria nem parcimônia. Com o respeito de quem sabe ensinar e aprender e de quem harmoniza as relações.
Há algumas dicas para essa relação harmoniosa. Evidentemente, são a experiência e a disposição do professor que farão com que ele toque na alma do seu aluno - sem isso não há educação. Entre essas dicas, algumas proibições. A primeira delas é que professor não pode brigar com aluno, mesmo que tenha razão. Se isso acontecer, parte da sala torcerá pelo aluno e a outra pelo professor, assim, ele deixa de ser referencial. A segunda: professor não pode colocar apelido em aluno. Terceira: não deve comparar um com o outro - é preciso lembrar que não há homogeneidade no processo educativo, mas heterogeneidade. Quarta: professor não pode se mostrar arrogante nem subserviente. O meio termo é amoroso.
E aí voltamos a Cecília Meirelles. A harmonia no ambiente escolar há de ocorrer quando se consegue quebrar a carcaça que envolve alguns alunos, pela falta de algo que deveria ter vindo antes. É esse sonambulismo, essa postura incorreta frente à vida e frente a si mesmo.
Trata-se de ajudá-lo a viver essa contemplação poética, ou, em termos aristotélicos, a buscar uma aspiração para a vida. Ou ainda em Paulo Freire, ajudá-los a desenvolver autonomia para sonhar.
Aí sim, o professor mostrará autoridade. Autoridade generosa de quem confia e cobra. De quem contrata no melhor sentido da palavra. E é nesse bom caminho que entra o afeto como instrumento de poder e participação. É do olhar do mestre que saem essas virtudes. O olhar que acolhe e que constrange quando necessário. O olhar que se faz cúmplice nas boas conquistas e que lamenta docemente pelo que se perdeu. O olhar que mantém o silêncio na sala de aula, sem gritos ou lamentações, mas que é capaz de chorar pela emoção de mais um aprendiz que encontrou seu caminho.
A harmonia no ambiente escolar não é uma utopia. É talvez uma tarefa complexa que exige o que de melhor podem dar os educadores: competência, coragem e muito, muito amor!


Revista Educacional, edição de setembro de 2007

Gabriel Chalita

Não há Amor roubado, Amor decidido isoladamente. Lutas de Amor sem Amor são inglórias. Pedaços de tecidos arrancados de forma humilhante não aquecem,migalhas pedidas com suplicação não espantam a fome.E ai é necessário convidar o tempo,não para buscar o Amor que consuma o tempo da gente,mais para compreender um Amor consumido por nunca ter existido.

Gabriel Chalita

Amores doídos, os não correspondidos. Histórias de ausências, de lágrimas, de quem deu e não recebeu. Não deveria ser gratuito o sentimento daquele que ama? Não é gratuita a chuva que cai abundantemente? A vida, toda ela é uma graça. Bem, mas os homens não são deuses. E poucos sãos aqueles que conseguem dar sem exigir, sem projetar.

Gabriel Chalita

ÉTICA PASSADA A LIMPO

Muito se fala sobre ética nos dias atuais. O tema está na ordem do dia, tanto no meio acadêmico como nas ruas, em que se trata de temas cotidianos como a corrupção na política e a violência. Nas universidades busca-se entender as razões pelas quais o ser humano é correto ou não; busca-se viajar pelas sendas da filosofia, onde pensadores de épocas diferentes tentaram responder se o ser humano é naturalmente bom ou não. Há uma angústia recorrente dos filósofos em construir conceitos que ajudam a sociedade a viver melhor.
Protágoras, pensador grego que viveu entre 487 e 420 antes de Cristo, achava que ética era uma coisa empírica. Cada pessoa, segundo ele, adotaria a conduta mais conveniente à sua própria escala de valores. Para o pensador, o certo e o errado deveriam ser avaliados em função das necessidades do homem, e, portanto, os critérios de avaliação variariam de sujeito para sujeito. Posição parecida, mas ampliada, adotaram dois sociólogos franceses, Durkheim e Bouglé, no século 19, que consideravam que os valores éticos (o certo, bom, justo, verdadeiro) são obtidos por apreciação coletiva, e, portanto, variam conforme o grupo focalizado.
Mas antes deles alguém definiu, com mais precisão, o sentido da palavra ética. Foi Aristóteles, que afirmava existir um valor supremo, que norteia a vida das sociedades. Esse valor é a felicidade. Felicidade, em grego, é a junção de eu (bom) e demonia (espírito). A corrente foi enriquecida, mais tarde, por outros filósofos que consideravam que a felicidade era o fim, o objetivo, e que a virtude era o meio, a ferramenta, para se alcançar a felicidade.
No meu livro Os dez mandamentos da ética, faço uma reflexão sobre a genial obra "Ética a Nicômaco", de Aristóteles. Apresento os passos para que a ética seja vivenciada.

O primeiro é fazer o bem.
O segundo é agir com moderação, buscando o equilíbrio, eliminando os excessos.
O terceiro é saber escolher, e aí está implícito o favor de subjetividade que é preciso existir em cada conceito, porque cada ser humano é diferente do outro, e carrega sua experiência, sua cultura, que o torna único. A questão, envolvida na escolha, é que a decisão, para ser boa, precisa levar em conta, necessariamente, os dois passos anteriores: fazer o bem e agir com moderação.
O quarto passo é praticar as virtudes. Uma atitude essencial, porque não basta fazer o bem, agir com moderação e saber escolher, se a pessoa não se dedicar a praticar os valores que adquiriu.
Com isso, o quinto passo é praticamente automático: viver a justiça. Quem segue os quatro primeiros passos aprende, incorpora o sentido de fazer as boas coisas olhando para o outro e para as necessidades do outro, sem esquecer de si mesmo. Isto é a base da justiça.
O sexto passo é valer-se da razão, ou seja, da consciência, do pensamento analítico. Está intimamente ligado ao sétimo passo, que é valer-se do coração. Duas orientações que se complementam: a pessoa deve usar uma balança em que se equilibrem, com peso equivalente, o racional e o emocional. As chances de que as escolhas sejam acertadas, agindo assim, são grandes.
O oitavo passo é ser amigo. Quem é amigo aplica todos os conceitos que acabamos de ver, sem dificuldade.

O nono passo (cultivar o amor) é quase um corolário para o décimo (ser feliz).

Aí está, portanto, um rosário de recomendações que retira o aspecto generalista dos conceitos que historicamente acompanham as discussões sobre ética. Norberto Bobbio, um dos grandes pensadores contemporâneos, por exemplo, aponta a honestidade como uma virtude válida para todos os homens, mas que, ao mesmo tempo, é uma atitude unida à conduta correta de uma pessoa no exercício da sua profissão. Ou seja, o homem tem que ser honesto, mas o médico também tem que ser um profissional honesto. É isso o que se diz nas ruas e em todos os lugares.
Este tema é fundamental na escola. Um dos tantos objetivos da educação é ensinar a conviver. E o convívio significa respeito, cooperação, ternura, enfim. E isso é a ética. A ética se aprende nos livros, nas lições dos grandes mestres. E se aprende no cotidiano, no exercício de ser correto.
Bom seria se os pais dessem o exemplo primeiro. Os filhos precisam de referências. Que os políticos e as pessoas de alguma visibilidade também se preocupassem em viver de maneira correta e que na escola professores e alunos interagissem de modo a construir relações éticas que gerassem um clima de confraternização e cooperação. E esse aluno-cidadão será um profissional-cidadão. E portanto ético e portanto feliz.
Aliás, esse é o conceito já presente em Aristóteles: nascemos para ser felizes e para fazer os outros felizes. Isto é a ética.

(Artigo publicado na Revista Profissão Mestre, edição de novembro de 2007)

Gabriel Chalita

POIS É

A verdade pode durar uma vida inteira, perseguir uma mulher madura, assaltada de lembranças provocadas por uma amiga que mexe com uma varinha "o fundo lodoso da memória". E, de repente, a avó percebe uma convulsão na sua realidade, porque de repente outra verdade se sobrepõe. Explica. Reduz. E ao mesmo tempo amplia. Pois é. A verdade, em Lygia Fagundes Telles, é tão crua quanto esclarecedora. O que está em seus contos é a vida, sua própria e de outros, tão real e tátil como o chão áspero de cimento.
Reli, com assombro renovado, seu Papoulas em feltro negro, que ela incluiu no livro "Meus contos preferidos". Em onze páginas, Lygia roteiriza, organiza, sumariza, romantiza, anarquiza e enfim suaviza e cicatriza uma vida inteira.
Ojeriza.
Fuga.
Medo.
Ansiedade.
Mentira.
Não foi sem intenção que a narrativa das memórias suscitadas por um telefonema se concentre na latrina do colégio. Era o ponto da tangência. O ponto da fuga. A casinha fedorenta era melhor do que a sala de aula, com aquela presença esmagadora, opressora da professora castradora. Mentira! Tão bem dissimulada que pareceu verdade, por cinqüenta anos. E a verdade, um dia, lhe atinge a face como a aba de um chapéu de feltro, ornado de papoulas desmaiadas.
A memória é sinestésica. E os elementos formais estão ali, polvilhados no conto de Lygia, a declarar a ação dos sentidos. O tato da memória traz a aspereza do giz, o suor das mãos, o pé que esfrega a mancha queimada de cigarro no tapete. A audição da memória pede que se repita a Valsa dos Patinadores, como se repetiu a lembrança pela voz da companheira sessenta e oito, da escola primária. Mas o cheiro da memória remete, primeiro, a urina. A latrina escura. E eis a visão da memória a denunciar a obliteração. Negro quadro-negro. Trança negra. Saia negra. Feltro negro.
No meio do negrume, o sol reflete o seu fulgor majestoso na vidraça. É o esplendor do flagrante descobrimento. "O sol incendiava os vidros e ainda assim adivinhei em meio do fogaréu da vidraça a sombra cravada em mim." Dissimulação - mesmo em meio a tanta luz, há uma sombra. É uma sombra que persegue a personagem até o reencontro com a professora. Sombra, por definição, é uma imagem sem contornos nítidos, sem clareza. Como a professora, morta-viva, "invadindo os outros, todos transparentes, meu Deus!" E Deus, que sombra é esta a que chamamos Deus?
Pois é. Neste conto de Lygia, o gosto da memória, ou a memória do gosto, está ausente. Não se manifesta o sabor. Por que não se manifestou o saber, é por isso?
O conto é partícula de vida. É meio primo da História. Mais do que eventos, registra caráter, caracteres, costumes, clima, ambiente, formas, cores, preferências, gostos. O conto é uma das modalidades da história feita arquivo. Por isso conto, contas, contamos. O conto oral é o livro em potência, a história em potência. Ambos pertencem a quem os usa, e a quem de seus exemplos faz uso.
A escola deve ensinar a ler. Mas também deve ensinar a ouvir. Por isso, também na escola, que é um complemento da família, é preciso haver quem conte histórias. Como Lygia, que nos faz lembrar que é preciso haver a lembrança de uma infância vivida, o acalanto de uma voz querida, contando histórias, ilustrando a vida.
Lygia é de uma franqueza pontiaguda.
Este conto, em especial, é uma escancarada confissão de humanidade. A personagem é Lygia, ou qualquer um de nós. A personagem é frágil. Conquanto pensasse, a vida inteira, que era forte. Imaginava-se executora. Conquanto pensasse, a vida inteira, que era executada. Humana, enfim. Eis a verdade. Eis Lygia. Pois é.



Jornal das Letras, edição de agosto de 2007

Gabriel Chalita

A progressão continuada e autoconfiança do aprendiz

Os modelos ultrapassados de ensino não têm mais lugar na sociedade competitiva e individualista do século XXI. A Era da Informação e do Conhecimento não condiz com a massacrante e antiquada educação elitista que promovia alunos "intelectualmente mais capazes" e excluía estudantes tachados como "problemáticos" por meio das repetências contínuas. Era um sistema castrador que eximia de si a responsabilidade de formar indivíduos de forma igualitária e condizente com a realidade democrática vigente. O acesso à educação é um direito constitucional e vinha sendo negado e negligenciado por meio da evasão escolar provocada pela multirrepetência existente no país até há poucos anos. Paulo Freire já dizia uma verdade na qual também nos pautamos em nosso trabalho: "Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo. Por isso, aprendemos sempre." A instituição do Sistema de Progressão Continuada prevista pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB-1996) objetiva justamente a aplicação de metodologias diferenciadas que garantam ao aluno o direito ao aprendizado, a construção de sua auto-estima e o respeito pela sua maneira peculiar de assimilação de conteúdos. Por intermédio da implementação dessa mudança, alunos e professores tornaram-se as figuras centrais do processo educativo. Agora, o sucesso de ambos é interdependente. As formas de aplicação dessa nova iniciativa de maneira bem-sucedida também estão presentes no texto da nova LDB. São elas: ampliação da jornada escolar, a recuperação paralela e contínua dos alunos com dificuldades de aprendizagem, as horas de trabalho coletivo remunerado do professor para avaliação e capacitação; a proposta de esquemas de aceleração de aprendizagem para alunos multirrepetentes com grande defasagem idade/série; além do direito à reclassificação de estudos para todos aqueles que conseguiram aprender, independentemente da freqüência às escolas. É uma proposta revolucionária uma vez que implica a atuação comprometida do corpo docente em relação aos estudantes, por meio de um sistema de avaliação detalhado e criterioso. Hoje, professores, diretores e coordenadores pedagógicos assumem uma postura responsável em relação ao sucesso ou fracasso do aluno. O acompanhamento é realizado durante todo o ano, evitando que a evolução do aprendiz seja prejudicada. Antes, apenas o aluno sofria a cobrança pelo seu mau desempenho nos bancos escolares. As avaliações eram deficientes. Muitas vezes, a criança chegava a ser penalizada com a repetência por conta de um décimo em determinada disciplina. Cabia ao estudante refazer a série novamente, mesmo que tivesse se saído bem em todas as outras matérias. Hoje a situação é outra. A criação das medidas decorrentes da progressão continuada já provocou uma mudança significativa no tangente à redução das taxas de evasão escolar. Desde a década de 50, os índices de desistência chegavam a atingir 50% da população escolar. Um número absurdo mas, ao mesmo tempo, ignorado pelas autoridades, que nada faziam para reverter o quadro. O abandono acontecia após anos de permanência da criança na mesma série. Ninguém parecia importar-se com esses alunos. Qual era a lógica dessa sistemática? A resposta possivelmente estava em uma palavra: comodismo. Um comodismo oneroso que levou ao desperdício de milhões para os cofres públicos uma vez que produziu gerações despreparadas para o mercado de trabalho e para a vida em sociedade de maneira geral. Há tempos o sistema educacional brasileiro carecia ser revisto. A proposta de democratização do saber ganhou força desde a Revolução Francesa e a partir das mudanças ocorridas no século XX fez-se ainda mais necessária e urgente. A pedagogia moderna deve assegurar, em primeira instância, a formação de cidadãos dotados de visão crítica, de criatividade, de capacidade de contestação e argumentação. Pessoas intelectual e emocionalmente capazes de atuarem como agentes sociais competentes e participantes. Não podemos retroceder. Na maioria dos países tidos como desenvolvidos, a escola já abandonou o velho ranço autoritário desde os anos 50, após o advento da Segunda Guerra Mundial. Nesse período, a progressão continuada já era aplicada objetivando respeitar uma característica natural do ser humano: desenvolver-se no seu tempo e ritmo próprios. Sabemos que ainda há ajustes a serem feitos. Grandes mudanças e transições não se dão de um dia para o outro. Mas temos certeza de que estamos trilhando o caminho certo: o caminho da educação como condição primordial para o desenvolvimento do ser humano. Passo a passo construiremos uma nova história. Temos o aval de Clarice Lispector quando disse: "Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade."


Publicado no Jornal Vale Paraibano

Gabriel Chalita

Bullying, o crime do desamor

O motorista que, no trânsito, por estar a bordo de um carro novo e possante, encosta no veículo da frente e exige passagem, deseducadamente, piscando os faróis, buzinando, pressionando, está praticando um ato de violência. O político que se acha mais importante do que o resto do mundo e trata as pessoas com arrogância, está sendo, de algum modo, violento. Podemos dizer o mesmo do empresário que humilha seus funcionários, só porque lhes paga salário. Essas pessoas, com atitudes que agridem ou intimidam, estão praticando o que possivelmente já praticaram em outros ambientes, inclusive na escola: o bullying. A palavra vem do adjetivo bully, que em inglês significa valentão. Quem é mais forte tiraniza, ameaça, oprime, amedronta e intimida os mais fracos. Na escola, essa atitude pode ter resultados drásticos, porque leva a vítima, muitas vezes, ao isolamento e até ao abandono. O bullying agride a alma do indivíduo, o apequena pelo medo ou pela vergonha, pela dor física ou moral.

Esse comportamento agressivo tem sido observado nas escolas, e por isso mesmo é motivo de preocupação de pais e educadores, já há algum tempo, porque demonstra que está faltando afeto nas relações entre crianças e adolescentes, possivelmente em razão de problemas familiares. A falta de diálogo e de respeito parece ser a origem da agressividade infantil e juvenil, um problema que começa a ser discutido com mais intensidade diante do aumento da violência escolar no mundo inteiro.

Em Portugal, por exemplo, pesquisa feita com sete mil alunos revelou que um em cada cinco alunos já foi vítima desse tipo de agressão. Na Espanha, o nível de incidência também já chega a 20% entre os alunos. Na Grã-Bretanha, terra dos hoolligans, aqueles torcedores que saem em grupo pelas ruas, procurando brigas e agredindo pessoas, há mais motivos ainda para apreensão: foi apurado, em pesquisa, que 37% dos alunos do primeiro grau das escolas britânicas admitiram que sofrem bullying pelo menos uma vez por semana. Nos Estados Unidos, o fenômeno atinge também um percentual muito alto - estima-se que até 35% das crianças em idade escolar estão envolvidas em alguma forma de agressão e de violência na escola. Foi nesse país, no estado do Colorado, que recentemente dois adolescentes do ensino médio usaram armas de fogo para matar treze pessoas e ferir dezenas de outras. Depois do ataque, cometeram suicídio. Descobriu-se, mais tarde, que os agressores sofriam constantes humilhações dos colegas de escola.

No Brasil, um estudo feito pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia), em 2002, no Rio de Janeiro, com 5.875 estudantes de 5ª a 8ª séries, de onze escolas fluminenses, revelou que 40,5% dos entrevistados confessaram o envolvimento direto em atos como a humilhação por causa de defeitos físicos, obesidade, cor da pele, que ocasionam seqüelas emocionais nas vítimas e contribuem para que elas não atinjam plenamente o seu desenvolvimento educacional. Como efeito, observa-se a redução do rendimento escolar, e a conseqüência mais nefasta: a vítima de bullying pode se tornar agressiva ou até mesmo passar a reproduzir essas práticas horríveis contra a pessoa e sua dignidade.

Como identificar esse tipo de desvio social?

É fundamental que, tanto em casa quanto na escola, a criança tenha liberdade para dizer o que pensa e o que sofre. O diálogo ajuda a entender o cotidiano do aprendiz. O principal sinal de perigo está naquele aluno que vai ficando apático, e que se tranca na sua dor, sem revelar os sentimentos.

E qual é a saída para corrigir o problema?

Primeiro, é fundamental desenvolver nas escolas ações de solidariedade e de resgate de valores de cidadania, tolerância, respeito mútuo entre alunos e docentes. Estimular e valorizar as individualidades do aluno. Potencializar eventuais diferenças, canalizando-as para aspectos positivos que resultem na melhoria da auto-estima do estudante.



Com toda a certeza, se a escola formar indivíduos melhores, teremos motoristas melhores, políticos melhores, empresários melhores. E cidadãos melhores.

Gabriel Chalita

Magister in libris


O escritor é, por definição de sua própria ocupação, do seu próprio fazer, um praticante do magistério. Desempenha essas duas ocupações de maneira tão complementar que é comum observar, em obras literárias, a presença de mestres-personagens. De certa maneira, uma espécie de projeção, em muitos casos. Arnaldo Niskier, por exemplo, é um professor na vocação e um escritor na convicção. Um papel que Gabriela Mistral assumiu, na vida e na arte, com maestria - para usar uma licença poética.
Alguns professores são quase icônicos, na literatura. A professora no magistral conto de Lygia Fagundes Telles, em "Papoulas em feltro negro", por exemplo. Todo o seu caráter e a sua dedicação profissional nos são apresentados pela narradora, perdida nas suas memórias e questionamentos de mocinha insegura. Mas há outra professora, na literatura brasileira, que chama a atenção, principalmente pelo que foi impedida de realizar.
No denso romance "São Bernardo", Graciliano Ramos põe o personagem Paulo Honório a narrar a sua vida em perspectiva. Começou a vida como guia de cego e, à custa de desonestidade e de uma solidão absoluta, torna-se o dono da Fazenda São Bernardo. A obra trata, por vias tortas, de felicidade. Justamente pelo oposto. Paulo Honório é um homem infeliz. A certa altura da vida ele só queria um herdeiro, e acaba escolhendo, para exercer o papel de mãe, a loura professora Madalena. O fazendeiro sombrio imagina poder subjugar Madalena, mas a moça tem os apanágios da profissão: é solidária, humanitária, e caridosa. Ela não concorda com a exploração a que o marido submete os empregados, humilhando-os pela força e pela opressão financeira. Madalena nunca se rendeu à dominação de Paulo Honório, a tal ponto que prefere a morte a colaborar com a posição desumana do marido. Este, no fim da vida, ao lembrar a perda da mulher que amava, mas que não respeitava, diria: "A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste." E isto era o que Madalena, a professora tinha de sobra: alma.
Madalena viveu como professora. E, a despeito de ter sido uma personagem criada em 1934, traz os fundamentos da pedagogia contemporânea. Ensinou pelo exemplo, estudou, buscou, contestou. Superou as vicissitudes pela transcendência simbólica da morte. E deixou legado, mesmo a pessoas que não foram formalmente aprendizes seus. Tanto que, depois de sua morte, os empregados assumem a sua posição revolucionária e vão abandonar Paulo Honório, que enfim enfrenta a decadência, ele que não aprendeu a viver. Não conheceu o prazer de aprender.
Cecília Meirelles, ela também uma professora nos escritos, sintetizou numa frase o pensamento da moderna pedagogia: "Ensinar é acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante."
E voltamos ao princípio basilar do magistério na literatura. O escritor e o professor trabalham com três premissas: afeto, solidariedade e compreensão. Há muitas formas de desenvolver conhecimento, mas o ato de educar só se dá com afeto, só se completa com amor. A educação se realiza na sala de aula, em casa, na rua, em qualquer lugar onde haja convívio, principalmente quando se consegue fazer a intertextualidade das cenas da vida com as cenas trabalhadas na literatura. Os professores do cotidiano têm desafios enormes. Têm de conhecer a matéria que terão de trabalhar com maestria e inovação. Isto porque o aluno mudou e já não aceita ser a parte passiva da relação ensino-aprendizagem. Os alunos estão mais inquietos e menos concentrados. O desafio, assim, é ser um problematizador, não um facilitador do processo de aprendizagem. Mas, além da nova didática, o professor precisa de outro conhecimento - o conjunto dos sonhos, aspirações, traumas e bloqueios do seu aluno.
O professor disputa com a família desagregada, que não educa e que muitas vezes nem tem essa preocupação. Eis que educar não é fácil; mas é um trabalho que, bem feito, dignifica.
Há premissas indispensáveis que devem ser observadas pelo professor: o aluno não é mau, embora possa ser ou estar disperso ou indisciplinado; o aluno não é uma tabula rasa; o conhecimento é prazeroso. Ele, o professor, é o líder desse processo. Seja nas páginas da literatura, nas ruas ou nas salas de aula deste gigantesco Brasil. Nossa homenagem aos mestres de ontem, de hoje e de sempre. Oxalá o Brasil volte a valorizar seus professores. A geração que virá depois agradece.

(Artigo publicado no Jornal de Letras, edição de novembro de 2007)

Gabriel Chalita

Qual a melhor escola para o meu filho?

A educação é o grande legado que os pais deixam para os seus filhos. Foi o que disse, com grande perspicácia, a autora dos sublimes Poemas dos Becos de Goiás, Cora Coralina, numa frase inspirada: Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. Disse isto, segundo Olympia Salete Rodrigues, uma de suas biógrafas, quando tinha já o rosto enrugado, o corpo alquebrado e maltratado pela vida, mas tinha a alma lisa e pura. Com essa longa experiência, Cora sabia, ao conceber essa frase, que a primeira etapa da educação se dá em casa, e não importa a idade de quem assume a tarefa de educar. E é em casa que os filhos começam a absorver as virtudes e os vícios dos pais ou avós. Porque, mais do que as palavras, as atitudes calam alto na história das crianças.
Depois vem a escola. E nesse momento surgem numerosas dúvidas para que se consiga escolher a melhor escola. Alguns pais não se interessam tanto e relegam essa tarefa para terceiros. Outros até exageram, perguntando a todo tipo de especialista ou a qualquer outra pessoa, em que escola devem matricular os seus filhos.
Hoje, é comum a mídia oferecer, com base em alguma pesquisa ou avaliação, um ranking com as melhores e as piores escolas. Não acho que esse seja um critério interessante para se basear no momento da escolha, até porque esses critérios são muitas vezes duvidosos e nem sempre conseguem mostrar o que é uma escola de qualidade.
Há alguns aspectos, entretanto que podem ser observados e que ajudam na escolha:

1 - Os pais devem visitar a escola com os filhos e perceberem o seu ambiente. É fundamental que a criança goste da escola em que estuda.

2- O aspecto físico é importante. Salas de aula agradáveis, biblioteca, espaço de cultura, lazer, esporte. Não é necessário que o prédio seja luxuoso, mas que seja limpo e digno de um espaço em que se educa.

3 - É importante avaliar o quanto a escola investe na formação de seus professores, que são a alma da escola. Se o espaço físico for suntuoso, mas o corpo docente despreparado e desmotivado é preferível procurar outra escola.

4 - Mesmo que os pais você não sejam especialistas em educação, é recomendável saber a linha pedagógica da escola, o seu projeto de ensino-aprendizagem e formas de avaliação.
5 - Deve-se analisar o currículo da escola, cuidadosamente, para verificar se há preocupação com temas do cotidiano como ética, cidadania, respeito ao meio ambiente, diversidade cultural, entre outros. Os pais não devem ter vergonha de perguntar tudo ao orientador que os receberem na escola. E, durante a conversa, é possível reparar no preparo dele, ao dar as respostas.

6 - Os pais devem observar os funcionários, e se possível, o diretor da escola. Uma regra básica é que todo o educador deve ser educado. Uma escola que preza por esse valor investe na capacitação de todas as pessoas que nela trabalham.

7 - Um aspecto essencial a ser observado é se a escola prepara para a cooperação ou apenas para a competição. Cuidado. Pode ser que os pais queiram apenas que o filho ingresse depois em uma faculdade, sendo aprovado no exame vestibular. Isso é importante, mas a escola tem que preparar para a vida toda, e não apenas para um exame.

8 - Uma alternativa interessante é questionar alguns pais que freqüentam a escola para ver se o discurso dos educadores é condizente com a prática.

9 - Os pais devem avaliar se o preço é compatível com o seu salário. A mesma avaliação deve ser feita em relação à localização, para que não vire um transtorno, o caminho de ir e vir.

10 - Os pais devem decidir junto com o seu filho, não importa qual seja a idade dele. É importante que ele sinta que ajudou a escolher a escola em que estuda.

Essas são algumas dicas. Há outras. O mais importante é que o pai, a mãe, o avô ou a avó, levem a sério a educação da criança. Em casa, na escola, na vida.

Outra dica: por melhor que seja uma escola, ela nunca vai suprir a carência de uma família ausente. Portanto, a família deve participar de verdade do processo educativo de seus filhos. Esta nem é uma dica minha. É de Cora Coralina, quando, na sua grande sabedoria, disse isto: Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.

Artigo publicado no jornal O Popular, Goiânia (28/10/2007)

Gabriel Chalita

São Paulo, que mora em mim.

A primeira impressão do menino de interior chegando a uma floresta
de edifícios. Senti-me soterrado, assombrado pelo colosso que é essa
cidade altiva. Fiquei atônito com a quantidade e diversidade de
restaurantes, bares, hotéis, padarias, cafés, cinemas, lojas,
vitrines. Mas foi um momento mágico, e o esmagamento transmutou-se em
encantamento. Hoje não tenho medo, não tenho assombro. Tenho loucura,
a mesma loucura de Mário de Andrade: sou um desvairado pela
Paulicéia".

"Tenho vontade de ver essa cidade mais bonita, mais limpa,
valorizando mais - e principalmente - a região central. Quiçá
transformando pichadores em artistas, valorizando a força poética
desse povo. São Paulo mora dentro de mim. É parte de meu sistema
nervoso central, formado por um conjunto de um milhão de motivos
amorosos".

"São Paulo me ilumina, por dentro, com suas cores. A variedade
cromática dos seus parques, Ibirapuera, Carmo, Juventude, Aclimação,
Trianon, Campestre. A variedade dimensional das suas arquiteturas de
granito, pedra sabão, mármore, ferro, concreto, aço, tijolos,
azulejos e vitrais, em prédios, bangalôs, varandas, sacadas, igrejas,
capelas, caixotes e tendas. A variedade sagrada de suas flores,
floreiras, vasos, bancas, vitrines, esquinas. A variedade tremulante
das suas aves, das suas bandeiras, seus lençóis e bandeirolas. A
variedade gastronômica dos seus orientais, regionais, mediterrâneos,
contemporâneos. São Paulo se derrama em mim, pelas minhas veias. Cada
gota uma nacionalidade, trezentos pedaços de glórias e de histórias.
Sua geografia arterial reproduz o caminho de minhas safenas, cavas,
subclávias e aortas, em avenidas corpóreas como a 23 de maio,
Paulista, Consolação, Ipiranga e Liberdade.".

"São Paulo do charmoso bairro em que vivo Higienópolis. Das Praças
Vila Boim e Buenos Aires, de amigos fascinantes, das múltiplas
tribos. São Paulo é o coroamento de raças, etnias e credos. É a
epopéia da heterogeneidade, se move, se alteia, se levanta, não pára,
dentro de mim.
Eu moro em São Paulo. Mas, antes disso, São Paulo mora
em mim".

Gabriel Chalita

A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE JUSTIÇA

"Então a justiça neste sentido é a excelência moral perfeita, embora não o seja de modo irrestrito, mas em relação ao próximo. Portanto, a justiça é freqüentemente considerada a mais elevada forma de excelência moral, e 'nem a estrela vespertina nem a matutina é tão maravilhosa'; e também se diz proverbialmente que 'na justiça se resume toda a excelência".

Aristóteles, Ética a Nicômaco, Livro V

A justiça, o conceito de justiça, o anseio por justiça, é um dos mais antigos e presentes temas a percorrer as instâncias do pensamento humano. Podemos encontrar esse clamor nos grandes épicos, fundadores da literatura ocidental, alguns dos primeiros registros e mapas da alma e dos desejos humanos. É por considerar-se injustiçado que Aquiles se retira da luta em que os pegos se opõem aos troianos. Também é para punir a morte de Pátroclo e, no seu ponto de vista, restaurar a justiça que Aquiles resolve voltar à luta e enfrentar Heitor. É com ânsia justiceira que Ulisses desafia os pretendentes à sua esposa e ao seu trono, assim que retorna a Ítaca, depois de dez anos de combate contra os perigos no mar.

O longo caminho entre esse conceito de justiça pessoal, feita com as próprias mãos, os conceitos clássicos e as instituições jurídicas da sociedade contemporânea, que buscam garantir uma justiça isenta e cada vez mais abrangente, é o que gostaríamos de esboçar neste artigo. Não pretendemos oferecer novidades revolucionárias sobre o tema, tampouco criar novos conceitos, mas fazer uma sintética reflexão sobre as variadas formas com que o pensamento humano, ao longo dos séculos, se debruçou sobre o assunto.
Gostaríamos ainda de lembrar que uma reflexão sobre justiça é, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre Direito e poesia, sobre aspirações cotidianas e sonhos, sobre doutrina, jurisprudência e utopia. A justiça é uma espécie de caminho permanente para a utopia, que não poderá nunca ser descartada do horizonte dos objetivos humanos. O que seria da humanidade se abrisse mão de seus objetivos utópicos?
Já que justiça e Direito são áreas contíguas, associadas, comecemos pelo Direito as nossas reflexões. O profissional do Direito ganhou um destaque e uma valorização excepcionais nestes nossos tempos. Muitos pais aconselham a seus filhos o ingresso nessa área de estudo, pois a partir da formação como advogado abre-se variadas possibilidades de carreira: juízes, promotores, delegados, diplomatas, procuradores, professores em áreas diversas. Muitos dos representantes legislativos, em suas diversas instâncias, fizeram da formação em Direito sua base intelectual. É a prática da globalização e da universalidade - Direito civil, penal, trabalhista, previdenciário, constitucional, comercial, tributário, empresarial, ambiental, do consumidor, da informática, da bioética, da criança e do adolescente, da mulher e do homem do século XXI - em uma única profissão. E isso não é o ponto de chegada. O Direito não é uma ciência estática, evolui como evolui a pessoa humana.
Também é preciso mencionar, para que não fique uma impressão de demasiado otimismo, as polêmicas e controvérsias que percorrem a área. Se há profissionais que se destacam por sua atuação veemente em defesa da justiça, da defesa da dignidade da pessoa humana e do exercício da ética, há outros, maus profissionais, que se corrompe que usam o diploma, a carteira da OAB, o ingresso numa carreira pública para cometer atos desprovidos de moral, banalizando seus valores, se distanciando da prática da ética e da justiça. Talvez seja essa espécie de profissionais que levou tantos escritores, de Gil Vicente a Tomás Antonio Gonzaga, de Camilo Castelo Branco a Monteiro Lobato, à sátira e à crítica mordaz da prática judiciária. É o comportamento dual da espécie, para quem acredita em bem e mal, em justo e injusto, em digno e indigno. Ou o comportamento e o anticomportamento para quem acredita que tal postura é mais resultado da ignorância que da escolha consciente. Aristóteles, Tomás de Aquino, Rousseau, Jacques Maritain se defrontaram com esses caminhos e conflitos da consciência para deixar aos que viessem depois deles a teoria do bem comum. O ser humano é essencialmente bom, mas às vezes deixa essa essência cair no esquecimento. Perde, por momentos, a consciência de sua bondade essencial e, com isso, parece abandonar suas origens, perder a humanidade, transformar-se em coisa.
Refletir sobre a evolução do conceito de justiça é de fundamental importância para a compreensão das circunstâncias do mundo contemporâneo, e também para a compreensão dos desafios lançados aos que se propõem a construir uma civilização norteada pelos valores de dignidade da pessoa humana, da ética, da responsabilidade partilhada.
O ser humano é complexo e a História corrobora essa afirmativa na medida em que demonstra as muitas e perceptíveis alterações ocorridas nos desejos, nas disposições e nas expectativas humanas ao longo dos tempos.
Aristóteles sintetizava a temática humana de forma ímpar: o ser humano, assim como os animais, possui desejos; diferenciam-se destes pela escolha, que já é uma instância superior, pois necessita da reflexão para ser exerci da; além disso, possui expectativa, o que é ainda mais nobre - a expectativa, a aspiração, é o divino no humano, o sonho, a utopia, o projeto que faz com que a potencialidade de vida se converta em ação transformadora.
E é a respeito dessa expectativa que se deve falar. É sobre ela que se deve caminhar. Quais são as expectativas do ser humano contemporâneo? Quais são seus sonhos? Seus projetos? Suas disposições? Que relação tem a justiça com tudo isso?
A expectativa por justiça talvez seja um elemento natural da espécie humana. Diante da evidência de desmandos, falcatruas, crimes e outras condutas afins, são do senso comum o desejo de restabelecer o que foi fraudado, punir o culpado, prender o que atentou contra a ordem estabelecida. A justiça, como já vimos, é urna constante aspiração da humanidade. É comum depararmo-nos com o discurso inflamado, veemente, de pessoas que exigem o ressarcimento moral de uma situação. Moral! Aí está o senso moral clamando por justiça!
Apesar de toda essa inflamada veemência, pode-se observar um comportamento paradoxal desse mesmo senso comum: clama contra toda forma de injustiça, mas admitem, em sua prática, muitas vezes, atos de flagrante injustiça. Cobra uma postura ética dos que estão no poder, e se deixa corromper quando esses mesmos oferecem alguma espécie menos justa de benefícios. O "é dando que se recebe" - muito longe do sentido inicial que lhe deu São Francisco de Assis - parece se alastrar contagiando toda a população. É um grave erro aceitar insensivelmente a contradição entre o que se diz e o que se faz. Condena-se o político corrupto, mas pede-se a este mesmo político um emprego público (passando por cima dos concursos determinados pela lei), pede-se a interferência para anular uma legítima multa de trânsito, anistia para uma obra irregular, ajuda para internação no hospital do servidor ainda que não se faça parte da categoria, um empréstimo em condições privilegiadas etc. Diante disso como ficam os discursos sobre a necessidade de acabar com a corrupção, com os privilégios, com as benesses infames que tiram de uns para ceder a outros? E a falta de consciência que leva a essa imoral busca de levar vantagem em tudo? Até em furar fila de padaria, ou "pegar", nas feiras livres, uma ou duas frutas a mais, dizendo a si mesmo que isso não tem nenhuma importância?

Como fica a justiça diante desses "insignificantes" comportamentos?

Esse é um dos temas presentes na civilização humana desde seus primórdios. Os estudos da História mostram a passagem de algumas eras nas relações econômicas e nas relações de trabalho. Dos primeiros agrupamentos, depois do período da coleta e do nomadismo da caça, ao surgimento da agricultura, o ser humano foi alterando seus relacionamentos e complicando suas necessidades e problemas. A formação do grupo facilita a caça, a pesca, à segurança, o cultivo. Também propicia a disputa pelo poder, por espaço, pela posse da terra. O conforto da convivência interpessoal traz sua contrapartida. É a passagem do bom selvagem para a civilização, no entender de Rousseau. O homem, que sempre havia sido livre, absoluto em sua relação com a natureza e consigo mesmo, começa a estabelecer comparações que levam à competição. Deseja possuir mais que o necessário, quer crescer e, para isso, vê no outro um obstáculo, e como obstáculo precisa ser eliminado, tirado do caminho.
Cada povo tratou de maneira diferente tal processo de crescimento social, criando normas de conduta e conceitos de justiça em acordo com suas crenças e valores estabelecidos. Atribuindo a deuses ou a Deus o controle da história e do destino, muitos povos dominados pelo misticismo transformaram sacerdotes, reis, faraós em porta-vozes dessas instâncias, jamais questionando os ditames prescritos por essas autoridades. Povos que viam relâmpagos, trovões, chuvas, tempestades como avisos ou castigos das divindades e das forças sobrenaturais, e ao ouvirem narrações de mitos se deixavam dominar por aqueles que diziam entender essas forças. Místicos ou míticos, esses povos davam ao poder uma dimensão que correspondia ao extraordinário.
A Grécia surge, para o mundo ocidental, como um espaço privilegiado em que essas grandes discussões acabaram, no Ágora, tomando o rumo da fundação da democracia. É a passagem da aristocracia para um novo momento em que o homem grego, em grupo, debateu, discutiu, argumentou, fez escolhas e tirou conclusões.
Por volta do sexto século antes de Cristo alguns estudiosos começaram a buscar explicações racionais para fenômenos que até então eram explicados pelos mitos. De onde viemos? Para onde vamos? O que estamos fazendo aqui? Qual a razão de tanta diversidade nos elementos naturais? Qual é o elemento fundamental na composição do universo? Essas eram algumas das novas questões propostas e geraram a escola Jônica. Entre seus primeiros pensadores estavam Tales de Mileto, para quem a água era o princípio de todas as coisas, e Anaximandro de Mileto, que concluiu pela impossibilidade de elementos gerarem elementos, não podendo, portanto, terra, fogo e ar, serem derivados da água. Tudo teria vindo do Ápeiron, o infinito, foi a conclusão a que ele chegou. Outros pré-socráticos se debruçam sobre o problema. Parmênides de Eleá e Heráclito de Éfeso discutem a questão do uno e do múltiplo, da inação e do movimento, da dóxa (opinião) e da alethéia (verdade). E outros ainda sugerem questões diversas que possam tranqüilizar os homens quanto à origem e o fim de tudo. A diversidade de pensamentos caracterizou essa era cosmocêntrica, mas a base do pensamento antropocêntrico, em que o homem é o sentido do universo, ainda estava por vir. Como estavam por vir as grandes discussões sobre a justiça e o Direito, que só encontraram seu verdadeiro motivo ao tratar do homem como fundamento de sua existência.
A filosofia vai seguindo seu caminho e encontra em Atenas seus três maiores representantes: Sócrates, Platão e Aristóteles. Sócrates refuta o direito da força, apregoados pelos sofistas como o interesse do mais forte. No belo diálogo com Eutifron, na República, descarta a afirmação feita por ele: "a justiça é a vontade caprichosa dos deuses". Sócrates afirma que "as coisas não são justas porque os deuses querem, mas os deuses as querem porque são justas". Com isso valoriza a justiça como uma forma agradável do homem viver em sociedade, e, além disso, de agradar as outras forças que estão acima da sociedade. Platão, discípulo de Sócrates, é altamente influenciado na sua elaboração do conceito de justiça, por uma espécie de experiência fundadora da injustiça: o julgamento e a morte de Sócrates. O justo, segundo Platão, se comporta de acordo com a lei. E os acusadores de Sócrates não se comportaram de acordo com a lei, mesmo porque outras motivações que não as jurídicas deram cabo daquele julgamento. Somente o justo é feliz, "a vida mais justa é a mais bem-aventurada". E o justo controla seus instintos. No mito do cocheiro, ao tratar das partes da alma, Platão afirma que é preciso que a razão controle a paixão e a agressividade. O homem não pode se deixar levar por prazeres efêmeros. Para isso, é preciso sair da caverna, seu outro mito, e enfrentar a realidade com conhecimento. À prática da justiça é imprescindível o conhecimento e a aceitação de que o justo é feliz, mesmo que possam existir justos infelizes.
Aristóteles, discípulo de Platão, na Ética a Nicômaco trata exaustivamente da temática da justiça. A justiça é a excelência moral perfeita que advém do hábito de fazer o bem. O homem, quando virtuoso, quando justo, é o mais excelente dos animais; em contrapartida, separado da lei, separado da justiça, é o pior de todos. Não nos parece que o Estagirita separe justiça de lei, até porque a lei é o resultado a que chega uma comunidade que busca a justiça; sem esta, aquela não teria sentido. Os legisladores são uma espécie de guardiães do bom senso, da construção sistêmica do exercício concreto de valores abstratos. É quase que uma maiêutica socrática, isto é, o que se constrói é resultado do que se é. É a exteriorização do intrínseco. O homem sempre construirá valores de justiça se for capaz de uma reflexão interior, voltada para sua essência. A conduta tida por má só ocorre por ignorância, por distanciamento do próprio ser. Ninguém opta pelo mal. O mal é o resultado do não conhecimento do bem.
Aristóteles supervaloriza a amizade como excelência moral, afirmando que a amizade é ainda melhor que a justiça, pois mesmo havendo justiça ainda é precisa a amizade, e diante da amizade a justiça se faz desnecessária porque já foi alcançada... os amigos verdadeiros jamais serão injustos!
Durante a Idade Média, período em que dominou o pensamento teocêntrico, encontramos filósofos como Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino. É a volta do platonismo e do aristotelismo. Para Agostinho, principal expoente da patrística, existe uma lei natural, fundada no Autor, no Artífice da natureza. Essa lei é a lei do amor e da bondade, é universal e imutável e todo ser humano deveria conhecê-la e observá-la. O respeito a essa lei constitui a virtude da justiça. Agostinho nega a existência do mal metafísico. Afirma que o homem pode fazer o bem ou deixar de fazê-la. A essa omissão, convencionou-se chamar de mal; entretanto, em essência, não existe. Com isso quer ratificar o conceito dos gregos de que a não observância da justiça é mais ignorância do que opção. Os homens se distanciam por não conhecerem a verdade e o bem. Realizam práticas nefandas porque não sabem que em essência são imagem e semelhança do Criador e por isso são bons.
Tomás de Aquino vê na lei o caminho para o bem comum e para isso distingue três espécies de lei: a eterna, a natural, a positiva.
A lei eterna é divina. É imutável. É universal. De Aristóteles retoma o conceito de motor imóvel que move os motores móveis. Todo o universo se movimenta graças a esse motor primeiro.
A lei natural é conhecida pela razão humana que participa como centelha da razão divina. É esse conceito de bem e de justiça que não é ensinado; é conhecido racionalmente.
A lei positiva é obra do legislador. É legítima desde que respeite a lei eterna e a lei natural. Quanto à justiça, sua essência, em Tomás, consiste em dar a outrem o que lhe é devido, segundo uma igualdade, objetivando sempre o bem comum, que é a justiça social ou geral.
A Idade Moderna encontrou eco em pensadores como Tomás Morus, Francis Bacon, Etienne de Ia Boétie para a continuidade da trajetória e da experiência filosófica do homem. Pensadores utópicos - um deles é o próprio criador dessa palavra - que edificaram obras marcadas por um inconformismo com a situação das coisas vigentes em seus estados.
A utopia, escrita por Morus, descrição de uma ilha em que tudo funcionava de maneira absolutamente determinada, parece ser a primeira obra filosófica eminentemente comunista. Tudo era comum a todos. Ninguém era detentor de coisa alguma. As pessoas moravam ora na cidade e ora no campo. A cada dez anos mudavam de casa para que não se apegassem a bens materiais. Todos tinham tudo o que era necessário à sobrevivência e ninguém estava excluído. Em relação aos advogados, Morus dispara todo tipo de crítica. A mentira, os desmandos, as tramas eram imperdoáveis. Em A utopia, sociedade perfeita, advogados eram dispensáveis. Era melhor que se falasse diretamente ao juiz, era melhor que se expusesse a questão sem as tortuosas voltas percorridas pelos advogados, que levavam ao engodo. Este era seu conceito de justiça.
Francis Bacon, na Nova Atlântida, faz um esboço de sua sociedade ideal, constituída a partir do conceito do saber. No centro da ilha ficava a Casa de Salomão, local em que todas as informações necessárias, de todas as partes do mundo, se faziam presentes. E todas as pessoas tinham acesso a essas informações, condição fundamental para que o detentor do saber não escravizasse o excluído do saber. Saber é poder, vaticinava Bacon, e para construir uma sociedade ideal era preciso permitir a todos o acesso ao saber. O medo, a escravidão, a alienação, a apatia, a ingenuidade, tudo decorre do desconhecimento. A edificação da justiça depende da distribuição igualitária do conhecimento.
La Boétie, jovem pensador francês, escreveu sua obra intitulada O discurso da servidão voluntária para denunciar o estado de injustiça que grassava em seu país. Não é possível, proclamava o filósofo, que um rei imponha tanto medo, tanta tirania contra uma multidão de seres humanos. Seres humanos que nasceram para a liberdade e que se acostumam à servidão ou que até optam pela servidão ou participam dela. Qualquer que seja a razão, costume, medo ou participação na tirania, o homem nega sua essência ao deixar de ser livre, e isso não é justo, e isso não é humano. Negar a liberdade é negar a justiça, é negar a humanidade.
Navegando em outros mares, nesse mesmo período histórico, o florentino Nicolau Maquiavel, em seu O príncipe, traça o perfil do homem no poder e analisa minuciosamente o seu exercício. Desmitifica e desmistifica o conceito de poder. Tira-o do domínio do divino e o traz para a esfera humana. Trata-o não como coisa, mas como processo e enquanto processo é um toma-lá-dá-cá constante. Ninguém assegura que chegar ao poder significa sua mantença. Para isso é preciso fortuna (sorte) e virtú (mais do que virtude). E para isso é preciso também conhecimento. O florentino, ao tratar de estados com príncipes hereditários, de estados eclesiásticos, de guerras oriundas de decisões equivocadas, de exemplos de governantes que erraram ou que acertaram, mostrou-se um grande observador da ciência política. Sua obra é um marco do conhecimento humano e das relações de poder. Muitos o criticaram achando que seu único objetivo era chegar ao poder e nele se manter. Rousseau resgata Maquiavel, afirmando que o filósofo não escreveu para o príncipe, porque este já dominava os ensinamentos apregoados por Maquiavel. Escreveu para o povo, para que o povo, ao conhecer os mecanismos de poder, conseguisse se libertar da escravidão e da tirania. Entretanto, como não poderia, naquela época, oferecer a obra ao povo, preferiu oferecê-Ia a Lourenço de Médici. Há outras razões não tão humanistas que levaram Maquiavel a oferecer-lhe a obra. Ele desejava retomar espaço e influência na nova fase política de Florença. Entretanto, o que nos importa aqui observar é a necessidade vital de conhecimento, seja na reflexão utópica, seja no realismo político. Conhecimento é imprescindível para se atingir o poder, para mudar a realidade, para chegar ao Direito, para a justiça.

Montesquieu, já no século XVII, parte do conceito de que "antes que houvesse leis, existiam relações de justiça possíveis"; e continuava: "Dizer que não há nada justo ou injusto, a não ser o que é ordenado ou proibido pelas leis positivas, é o mesmo que afirmar que, antes de traçarmos um círculo, os raios não eram todos iguais".
Com isso, o pensador quer valorizar essa tendência humana de desenvolver o que é justo. É a crença de que há uma lei natural que governa os governantes e que governa os povos da terra. Não poderíamos, portanto, como já vimos em Tomás de Aquino, afastarmo-nos desse princípio primeiro que é também o princípio primeiro de justiça, que se faz presente na razão humana.
Em razão da premência de espaço, vamos dar um salto na História e tomar algumas considerações feitas por Hans Kelsen logo após o prefácio de sua obra O que é a Justiça:
Quando Jesus de Nazaré, no julgamento perante o pretor romano, admitiu ser rei, disse ele: 'Nasci e vim a este mundo para dar testemunho da verdade! Ao que Pilatos perguntou: 'O que é a verdade?' Cético, o romano obviamente não esperava resposta a essa pergunta, e o Santo também não a deu. Dar testemunho da verdade não era o essencial em sua missão corno rei messiânico. Ele nascera para dar testemunho da justiça, aquela justiça que Ele desejava concretizar no reino de Deus. E, por essa justiça, morreu na cruz.
Dessa forma, emerge da pergunta de Pilatos - o que é a verdade? -, através do sangue do crucificado, urna outra questão, bem mais veemente, a eterna questão da humanidade: o que é a justiça?
Nenhuma outra questão foi tão passionalmente discutida; por nenhuma outra foram derramadas tantas lágrimas amargas, tanto sangue precioso; sobre nenhuma outra, ainda, as mentes mais ilustres - de Platão a Kant - meditaram tão profundamente. E, no entanto, ela continua até hoje sem resposta. Talvez por se tratar de uma dessas questões para as quais vale o resignado saber de que o homem nunca encontrará uma resposta definitiva; deverá apenas tentar perguntar melhor.
Kelsen prossegue na obra tentando objetivar o conceito de justiça. Trata-se de uma norma jurídica, não de uma norma moral ou religiosa. Não fosse norma jurídica não seria possível mensurá-Ia, exigi-Ia. O ser humano é absolutamente subjetivo e se conceitos de tal importância ficarem apenas no campo das discussões abstratas, nada de concreto poderá ser feito para a edificação da justiça. A tese de Kelsen encontra respaldo na própria complexidade e diversidade de explicação a respeito de justiça. Em uma linha liberal, a justiça poderia ser definida como o dar a cada um segundo seus méritos. Já o socialista, dar a todos de igual ordem o que necessitem, sem exclusão. Então, o mais objetivo é o dar a cada um conforme os seus direitos legais, pensa Kelsen. O que está posto. O que está escrito. Entretanto, a questão não é tão simples assim.
Como vimos, historicamente a questão do acesso ao conhecimento é de fundamental importância para se chegar a um conceito de justiça. Os excluídos, os que não têm consciência do próprio direito, os que não sabem ler ou que não sabem entender o que lêem, os que não têm acesso aos mecanismos que trazem a informação estão também alijados da justiça. Os que têm medo pela própria falta de conhecimento talvez se sintam diminuídos ao buscar uma delegacia de polícia, um fórum ou um organismo que cuide de seus direitos. No caso da Justiça do Trabalho, quantos empregados dizem com orgulho que lá (nesse organismo judiciário) ele é tratado de igual para igual com seu patrão. Imaginem se o juiz utilizar uma linguagem inacessível. Basta isso para fazê-Io sentir-se diminuído. E o espaço democrático acaba se tornando amedrontador. Aliás, não se pode pensar o Direito sem a democracia. E democracia de fato. Ou o povo tem acesso e consciência, ou a assertiva de que todos são iguais perante a lei será ineficaz.
O mundo contemporâneo está cheio de tentativas de explicação para esse complexo e abstrato valor. Tão complexo quando a sociedade. O direito que se estabeleceu em bases sólidas, segundo o positivismo, começa a repensar sua atuação. Há tantos fenômenos marcando a evolução do ser humano que o Direito não pode ficar à margem. A bioética traz questões fulcrais: a venda de órgãos humanos, a venda de óvulos de modelos de beleza para obter a geração de "crianças superiores". Esse nefando conceito de raça superior, infelizmente, costuma reaparecer, mesmo depois de banido.
As relações de trabalho - o ser humano virando uma empresa, perdendo direitos conquistados a um alto custo em nome do direito à sobrevivência. O mundo cibernético, a Internet como livre rede de informações, mas também de crimes, de consultas sérias, mas de exibição de corpos infantis em situação vergonhosa. O Direito internacional e suas propostas pluralistas em oposição a uma proposta imperialista, sua defesa da soberania aliada à integração. O Direito público e os intricados mecanismos de burlar a ordem legal para se chegar ao poder e nele, sem prazo, continuar. As questões pertinentes à teoria da pena. O senso comum exigindo, muitas vezes, a volta da vingança privada ou pública como uma forma de resgate da justiça. O direito à informação, mas também o direito à privacidade. O direito de receber, mas o direito de ser deixado em paz quando preferir não receber. As questões ambientais e o direito à vida ameaçado pela insólita falta de água no planeta da água. O direito ao exercício da própria cultura conflitando com o direito ambiental (no caso dos animais) - a Constituição brasileira garante que um animal não deva ser submetido a crueldade, mas a cultura preserva a farra do boi em Santa Catarina.
O poder da mídia que gera opiniões contraditórias, que conduz a massa de um lado a outro, que impõe o domínio da política nefanda sobre o domínio da técnica, que usa, muitas vezes, um discurso enganador para ludibriar algo ou alguém e se atingir determinado fim. E onde fica a justiça? No plano da abstração ou do concreto? Nas discussões fechadas ou no cotidiano das ruas? Talvez, nos dois lugares. Não se pode perder de vista que o empobrecimento dos valores conceituais construirá uma sociedade ainda mais ignorante e mais distante dos valores universais. De outro lado, não se pode desprezar o emaranhado de coisas acontecendo no dia-a-dia e provando que não há justiça nenhuma neste país ou neste mundo. As filas intermináveis para o atendimento médico, enquanto se prevê o direito universal à saúde; a luta incessante para se conseguir um espaço em alguma escola pública, enquanto a Constituição preceitua o livre acesso de todos à educação. Os motins, as chacinas em locais públicos como a Febem e as penitenciárias enquanto se trata do dever do Estado dar proteção às pessoas que se encontram sob sua tutela. Sem falar da atuação vergonhosa de vereadores, deputados e outros representantes do povo em suas diversas instâncias. O que estão fazendo? Comprometidos e envolvidos num mar de corrupção e ainda de falta de identidade. Quantos sabem qual o papel de um legislador? E a justiça?
Como podemos invocar esses milênios de conhecimento a respeito da justiça enquanto, na prática, o povo assiste a um distanciamento desses princípios, de tal ordem que seus valores se vão banalizando? É o que Tércio Sampaio Ferraz mostra ao levantar o problema da destruição da justiça enquanto sentido unificador do universo moral do homem. Destruir a justiça é destruir o Direito. A justiça confere ao Direito um significado, uma razão de existir.
E Miguel Reale pontifica, em sua Teoria tridimensional do Direito, que "Direito é a concretização da idéia de justiça na pluridiversidade de seu dever-ser histórico, tendo a pessoa como fonte de todos os valores". E a pluridiversidade é um conceito fundamental. Trabalhar com diversidade religiosa, cultural, ideológica, de raça, de etnia, de gênero, de classe social é trabalhar e conviver em um mundo plural. Respeitando e construindo o conceito de respeito.
O problema da justiça não é exclusividade do Brasil. O mundo todo tem problemas na ordem política, econômica, na violência, na corrupção, na educação e outros. A imagem que internalizamos, de que somos inferiores, não nos eleva a patamar algum. É preciso recuperar a auto-estima cidadã, isto é, o papel que podemos exercer na transformação dessa sociedade em que estamos inseridos. Parafraseando e recriando Chaplin, precisamos de mais que leis, precisamos de humanidade. As leis não resolvem todos os problemas e não constroem, somente elas, a justiça. É o hábito da virtude, que defendia Aristóteles, hábito que depende da educação, educação que depende da vontade política dos governantes. Mas, como não podemos viver de lamúrias, é preciso fazer alguma coisa e não ficar apenas esperando soluções que venham de outros lugares. É possível e é preciso lutar pela justiça.
E lutar pela justiça é obrigação de todo ser humano, mas é ainda maior para aquele que optou pela área do Direito. É a prática como juiz, como promotor, como advogado que nos permite restabelecer o que deve ser restabelecido. Apenas com o uso da linguagem o juiz pode fazer com que o cidadão à procura da justiça se sinta valorizado ou inferiorizado. Em seu julgamento, pode restabelecer a justiça ou negligenciá-Ia. Cada julgamento é uma história. É uma história de vida. E as partes, como dizia o saudoso mestre André Franco Montoro, não são números, fichas, coisas, são seres humanos. O juiz pode pensar que, dependendo de sua decisão, ao conceder ou não a guarda, ao determinar que se reintegre ou não a posse, ao exigir que o patrão pague mais ou menos ao empregado, ao prender ou ao soltar, constrói ou destrói humanidade. Na prática da advocacia, o advogado pode-se mostrar zeloso, preocupado com cada causa ou negligente, distante, despreocupado se o cliente passa na prisão mais tempo do que devia, afinal é apenas mais um.
É na atuação de defensor da sociedade que o promotor encontra espaço para ser minucioso, competente, justo em sua função; e o delegado de polícia que busca a verdade sem se valer de meios ilícitos, sem cometer crime, sem espancar, sem colocar em situação humilhante o preso, também está na luta pela justiça.
O Direito não pode estar à margem das transformações sociais. Não pode viver ensimesmado, sem olhar para o mundo, apenas esperando que o legislador crie nova lei e que o interessado se dirija às cortes para reclamar seu direito. A democratização do acesso à justiça já é garantia constitucional. A linguagem tem de ser adequada ao auditório, que precisa entender os termos técnicos que regem essa área, senão os cidadãos não terão seus direitos garantidos, não terão atendidos os pressupostos mínimos da democracia. Thdo isso está nas nossas mãos. É preciso acreditar, e se acreditarmos as coisas começarão a mudar. Senão, o que estaríamos fazendo aqui? Por que escolher essa profissão?
Há uma antiga história que fala de uma comunidade de animais que viviam felizes em seu reino. Todos eram justos uns com os outros e tudo funcionava perfeitamente bem. Havia um lago em que os animais se lavavam, bebiam água, nadavam e alguns até viviam nele. Certa feita apareceu um alce gigante que começou a beber e a beber toda a água do lago. E, além disso, também batia forte com os pés na margem, de modo que a terra ia cedendo e o lago ia ficando mais raso. Os animais começaram a entrar em pânico sem saber o que fazer. Os castores desesperados, os coelhos correndo para lá e para cá sem encontrar a solução. As lontras nervosíssimas, e os peixes nem se fale. Morreriam todos a qualquer momento.
Os animais tentaram de alguma forma espantar o alce. Mas tiveram muito medo, o alce era gigante e nada podiam fazer. Até que uma mosca se ofereceu para afastar o alce para longe. Os animais, apesar do nervosismo, desataram a rir. Que poder tinha aquela mosca pequenina para afastar um alce gigante? A mosca nem se importou com os risos. Disposta a fazer o serviço dela, foi em frente.
Pousou em uma das patas do alce e mordeu com toda força que tinha. O alce batia com a pata para se livrar da mosca. E cada vez que batia a mosca levantava vôo e ia morder outra parte do corpo, zumbindo. De novo mordia e fazia barulho. E assim foi deixando enlouquecido o alce, que se pôs a correr completamente fora de si, e como não conseguia se livrar daquela maldita mosca, fugiu para longe do lago e nunca mais voltou.
A mosca ficou muito feliz com a conquista e gritou para os outros animais: "Mesmo o pequeno pode combater o forte se usar sua cabeça para pensar".
Esse é o nosso desafio. Se nos sentirmos impotentes e nadando contra a maré, nada poderemos fazer e tudo continuará do jeito que está. Se nos enchermos de força, de garra, de competência e de luta conseguiremos fazer alguma coisa por esse povo que clama e que necessita de justiça. O ideal que motivou pensadores de todos os tempos a refletir e a fazer justiça é o mesmo que nos motiva. Neste milênio que se inicia, o que faremos para dar novas respostas aos mesmos problemas? O humanismo integral de Jacques Maritain, o homem todo e todos os homens. A coragem de Rui Barbosa ao escrever aos moços, a expectativa de Mário de Andrade: o que farão esses moços? O que farão esses juristas?, perguntamos nós. A sinceridade de Mário Quintana: "e no dia em que tratares a um dragão de Joli, ele te seguirá por toda a parte como se fosse um cachorrinho". Essa é a sonhada civilização do amor desejada por Aristóteles: onde há amizade, nem a justiça é necessária.
Os numerosos movimentos de solidariedade, as ONGs que trabalham na recuperação de pessoas no mundo inteiro, o trabalho voluntário de uma legião que entendeu o prazer gratificante da doação voluntária, tudo isso prova que Aristóteles continua correto. É preciso, pois, mudar a mulher e o homem; mudando-os, mudaremos o mundo. É uma utopia? A justiça é uma utopia? Para alguns sim, e nada há para ser feito, já que a utopia é inalcançável. Para nós, a justiça não é uma utopia - é uma realidade que precisa ser construída diariamente. Não podemos cruzar os braços. Os omissos, os covardes, os acomodados deixaram de sonhar e ao deixarem de sonhar, como diria o poeta, deixaram de viver. É claro que só o sonho não resolve. É preciso fazer. É preciso ter alma de poeta e mãos de obreiro. Se não tivermos a alma do poeta, esqueceremos até o motivo que nos levou a optar pela profissão do Direito e da justiça. E se não tivermos mãos de obreiro, ficaremos em belos discursos e belas palavras e bela roupagem. E o resto? Comecemos!



Revista da Universidade Gama e Souza, Rio de Janeiro, novembro/2007

Gabriel Chalita

A VIDA COMO ELA É

Não celebramos os clássicos por acaso. Eles nos ensinam métodos de composição literária, refletem um momento dentro do tempo, mostram a cultura, costumes, movimentos sociais, estética dominante. Foi assim com o Romantismo, por exemplo, uma das mais fortes e produtivas correntes literárias. E foi assim também com o Realismo, que veio em seguida para trazer a obra literária para mais perto da realidade. Exagerou na crueza das situações e na nudez das descrições. Mas, em literatura, como na vida, parece certo que o meio-termo é que é o termo certo. E surgiu, nos dias de hoje, uma nova maneira de contar histórias, mesclando o descritivo e o analítico com o subjetivo e o emocional. É uma literatura mais cotidiana, mais a vida como ela é, como queria Nelson Rodrigues. A vida não é novela, mas um mestre da televisão pode tornar uma novela tão expressiva quanto a própria vida. Esse mestre é Walcyr Carrasco, que nos dá a surpresa de trazer à luz "A palavra não dita".
O livro de Walcyr é uma história sincera. Com toda a honestidade, o autor faz com que os personagens interajam, e não lhes esconde os sentimentos. Essa franqueza perpassa o relato inteiro, e as pessoas retratadas revelam suas almas, com as purezas, mesquinharias, temores e anseios que habitam todas as almas. Gente, sem os disfarces românticos ou os exageros realistas. São pessoas, encontrando-se e desencontrando-se. E, por isso mesmo, é a boa literatura, moderna e forte.
Moderna porque trata, do ponto de vista do conteúdo, de temas atuais, observados pelo olhar do jornalista que se acostumou a observar a vida social, a participar e até a alterar o seu rumo. Do ponto de vista da linguagem, é simples e direta, com traços de coloquialidade que trazem à tona os aspectos tribais presentes nos diferentes grupamentos. A naturalidade com que o paulista Walcyr Carrasco trata do linguajar do povo gaúcho, em especial dos jovens de Porto Alegre, revela uma boa pesquisa e um excelente espírito de observação.
Forte porque aborda corajosamente um tema relegado ao noticiário do chamado "mundo cão", e o faz com naturalidade, respeito, e principalmente honestidade.
Lá dentro, na trama narrativa, Walcyr Carrasco vai usando alguns artifícios. Um deles é o de explicar, como se fosse casualmente, termos, vocábulos e situações, com um propósito didático, mas que não soa como aula. E vai buscar apoio na própria linguagem dos jovens, para que tudo seja explicado para o jovem leitor na sua própria forma de comunicação. Coisa de escritor sensível ao mundo que o rodeia.
Mas é o conjunto de valores expressos na narrativa o que dá ao livro o peso pedagógico e que lhe dá motivo para ser comentado neste espaço.
A história de Walcyr Carrasco fala de sinceridade. De honestidade. De lealdade. As más ações contadas no livro não resultam em geral de má índole dos personagens, mas de contingências e circunstâncias. Porque o mundo é assim mesmo. As pessoas não fazem o mal, normalmente, para prejudicar, mas porque escolheram motivos e atitudes erradas diante da vida. O livro fala também que não se deve julgar as pessoas com base em idéias pré-concebidas. Cibele, a personagem principal, narradora, vai aprender isto a todo momento.
Por essas razões é que venho recomendar aos professores que trabalhem em sala o livro "A palavra não dita", de Walcyr Carrasco. Evidentemente os professores terão que destacar e corrigir dois ou três erros de revisão - coisa rara numa editora séria como a Moderna, mas que não comprometem a qualidade geral do livro. É claro também que os professores não deverão abandonar os clássicos, mas uma leitura como esta, complementarmente, ajuda a entender o mundo. O mundo como ele é.



Revista Profissão Mestre, outubro/2007

Gabriel Chalita

O MOMENTO DA ESCOLHA DA PROFISSÃO


Escolhas são caminhos bifurcados que encontramos todos os dias, na nossa vida. As escolhas não precisam ser sempre difíceis, embora a cada uma corresponda uma renúncia. Quando não há dinheiro para tudo, há que decidir por uma ou algumas dentre as várias coisas que se pretenda comprar. Quando se vai a um restaurante, um prato. Quando se sai de casa, um caminho. E assim sucessivamente.
A dificuldade de fazer escolhas relacionadas à carreira está no fato de que, muitas vezes, os filhos desejam seguir áreas novas que os pais conhecem pouco e por isso temem que não proporcionem solidez, no futuro. Ainda há pais que acreditam, como foi no passado, que os cursos que importam são medicina, direito e engenharia. Os jovens querem ousar. Turismo, publicidade, gestão de pessoas, meio ambiente, tecnologia, design, culinária, artes, são áreas sedutoras e atraem um número cada vez maior de jovens. E por serem novas, não significa que remuneram menos que a advocacia, odontologia ou administração.

A conversa em família, para a decisão do curso, deve levar em conta questões como o prazer, a aptidão e a oportunidade. O prazer é essencial. A profissão será a companheira diuturna, e não se escolhe para viver e conviver algo que não se aprecie. A aptidão é demonstrada em toda a vida escolar. Não basta que os pais queiram que o filho seja médico, piloto de avião ou ator de cinema. É preciso aptidão. E a oportunidade está ligada ao mercado de trabalho. Um pai que tem uma grande organização pode preparar o seu filho para comandá-la. Pais que sejam advogados bem sucedidos terão mais facilidade para abrir o mercado para os filhos. Um dono de jornal já tem espaço para o filho jornalista. Isto não é regra. É oportunidade.
A constatação mais importante: as pessoas não podem mais parar de estudar, senão envelhecem para o mercado, fenecem e morrem. A assertiva do passado, de que bom era ingressar em uma organização e trabalhar nela por toda a vida, não é mais a regra. As pessoas mudam de empresa e de área de atuação e por isso mesmo devem estar preparadas para essas mudanças.

Mesmo escolhas difíceis podem ser prazerosas, quando os atores do processo são respeitados. Os pais não devem assumir a decisão. A carreira é dos filhos, e a decisão tem que ser deles. Isso não significa que não possam orientá-los e até convencê-los do que julgam ser o melhor.
Depois da escolha, o que importa é estudar. E muito - o mercado carece de profissionais competentes, que tenham visão do mundo e da área em que atuam, e para isso a leitura é essencial. A capacidade de trabalhar em grupo e de resolver problemas também. E tudo isso ajuda a chegar ao essencial: um profissional competente e bem sucedido é antes de qualquer coisa um profissional feliz.



Jornal Shopping News, 20/10/2007

Gabriel Chalita

RESPEITO ÀS DIFERENÇAS

O cinema é uma fonte inesgotável de situações para discussão de questões educacionais em sala de aula. No filme My fair lady, por exemplo, um professor de fonética aceita a aposta de transformar uma florista maltrapilha em uma dama preparada para freqüentar as altas rodas sociais, apenas por ensinar-lhe a falar corretamente. Para as aulas, a florista vai morar na casa do professor. O filme, de 1964, é baseado no livro Pigmalião, de George Bernard Shaw. Sob a direção de George Cukor, estão no elenco Audrey Hepburn, Rex Harrison, Stanley Holloway e Wilfrid Hyde-White.
O enredo começa, mesmo, na praça do mercado central de Londres, numa noite chuvosa e fria do início do século 20. Sob a marquise, bem em frente a uma casa de ópera, pessoas da alta sociedade esperam carruagens para voltarem para casa. A florista pobre reclama em altos brados de estar sendo observada por um senhor bem vestido que anota cada palavra que ela pronuncia. Imagina ser um policial que a vigia para expulsá-la do seu ponto de venda. O homem, porém, é um professor de fonética, que se gaba de reconhecer a origem de uma pessoa pelo som de sua voz, com margem de erro inferior a seis quilômetros. Ele a acusa de "assassinar, a sangue frio, a língua inglesa". Curiosos se aproximam para ouvir a conversa, e testemunham uma estranha aposta. O professor Henry Higgins (interpretado por Rex Harrison) aceita o desafio de transformar a rude florista (interpretada por Audrey Hepburn) em uma dama.
Depois dos desastres dos primeiros dias, o professor se dá conta de que não será possível ensinar a língua sem ensinar, primeiro, a importância das atitudes. De professor inflexível, George muda para uma atitude de mais compreensão. A partir desse ponto, a relação avança, e Elisa começa a aprender com mais facilidade. Elisa é levada, enfim, ao baile do embaixador.
O baile é uma homenagem à rainha da Transilvânia, que visita Londres. Elisa é apresentada à sociedade e encanta a todos, pela elegância, postura, educação e boa conversa. A própria rainha manda um emissário pedir-lhe que dance com o filho, o príncipe Gregor. Mas um especialista em línguas, o húngaro Zoltan Karpathy, assessor da rainha, se aproxima para travar conversação com Elisa, e a sua origem humilde pode estar prestes a ser desmascarada. Mas eis o diagnóstico que Zoltan leva para a rainha:
- "O inglês dela é muito bom, o que indica que é estrangeira. Os ingleses não costumam ser muito instruídos em sua própria língua. E, apesar de ter talvez estudado com um perito em dialética e gramática, posso afirmar que ela nasceu húngara. E de sangue nobre! Seu sangue é mais azul do que a água do rio Danúbio."
Higgins e Pickering voltam exultantes para casa. Elogiam-se mutuamente pelo triunfo. Mas se esquecem de sequer mencionar Elisa e seu esforço, e ela fica magoada. Henry acaba percebendo o abatimento dela e pergunta o que há de errado.
- Com você nada, não é? - ela diz. - Ganhei a aposta para você, não foi? Já basta. Eu não conto, não é?
- Fui eu quem ganhou a aposta, sua presunçosa!
- Seu bruto egoísta! Agora que tudo terminou, vai poder me jogar de volta na sarjeta. O que será de mim?
- O que será de você? Você está livre agora. Vai poder fazer o que quiser.
- Fazer o quê? Você me preparou para quê?
- Você devia se casar. Não é feia. É até agradável de olhar. Às vezes até atraente. Minha mãe podia arranjar alguém para você.
- Eu era mais digna antes. Vendia flores, não a mim mesma. E, agora que você fez uma dama de mim, eu não sirvo para mais nada.
George a acusa de ingrata, e vai dormir. Ela espera que a casa fique silenciosa e foge. Vai para o mercado, de onde viera, seis meses antes. Nenhum dos velhos amigos a reconhece. Isto a deixa ainda mais triste. É uma pessoa presa entre dois mundos, sem pertencer nem a um nem a outro.
Sem saber para onde ir, resolve visitar a mãe de Henry (para onde ele vai também, pensando não ter sido visto). Num depoimento à Sra. Higgins, Elisa diz a frase que serve como verdadeiro corolário da sua história:
- Deixando de lado o que se aprende, a diferença entre uma dama e uma florista não é como se comporta, mas como é tratada.
Henry, o professor franze a testa, ao ouvir isto. Elisa continua:
- ...Serei sempre uma florista para o senhor, porque sempre me tratou como uma florista, e sempre o fará. Mas sei que serei sempre uma dama para o Coronel Pickering, porque sempre me tratou como uma dama e sempre o fará.

Eis, em resumo, um conjunto de valores que pode ser trabalhado em sala de aula, com o filme My fair lady sendo utilizado como roteiro de estudo. Uma atividade simples, mas que pode conduzir a resultados significativos. Sem contar o que pode ser trabalhado em termos de emoção, sensibilidade e espírito de solidariedade.




Revista Profissão Mestre, edição de agosto de 2007

Gabriel Chalita

ALMA DA ÁFRICA,ALMA DO BRASIL

A narrativa de Antonio Olinto em seus romances africanos começa, em A casa da água, como uma enxurrada. Não há introdução, preparativos, prolegômenos. O leitor literalmente mergulha, já na primeira frase, em uma enchente. É a metáfora que conduz o discurso, uma recuperação moderna da narrativa sinfônica. Olinto escreve como quem conta uma história ao pé da fogueira na noite da África ancestral. Enumera os usos e costumes, o sincretismo religioso, os procedimentos curativos, o folclore, o cotidiano das casas e das ruas, mas principalmente localiza o leitor, pondo e transpondo pessoas, com enorme habilidade, em lugares de aqui e de acolá, do Piau a Juiz de Fora, do Rio à Bahia, do Brasil à África. Mas, se o espaço tem destaque na linguagem, o tempo é etéreo. Tempus fugit. A primeira referência temporal só se dá por volta da página 200, quando se menciona a guerra. "Mariana achava ingleses, franceses e alemães tão parecidos, por que haveriam de brigar, mas deviam ter lá suas razões." Somente ao final do livro uma tabela de datas vai esclarecer de que tempo histórico se está falando. E aí está: o tempo cronológico não tem importância.

Os achados de linguagem são tocantes. Logo à página 20, damos com esta preciosidade: "As mulheres ficaram com receio de olhar para fora e puseram os olhos no chão, Mariana, não, Mariana comeu o prazer de cada imagem." À página 58, outra: "Maria Gorda pegou-a no colo, começou a falar, tinha uma voz boa e gorda também." E à página 64: "A alegria dominou durante outra semana ainda o navio, mas foi-se diluindo em pedaços cada vez maiores de silêncio." É a voz soberana do narrador, simples, despida e precisa, fazendo um registro. Sem avaliações morais ou moralistas. O padre José que bebe cachaça, a matança cerimonial, a fornicação sem vergonhas. O livro é a pauta da vida. Desenvolve-se. Evolui, como um navio que avança pelas ondas franjadas. O livro é a vida, em seu processo, sujeitando as pessoas pela tradição, cultura, pela dinâmica própria. Um relicário da prodigiosa observação desse autor que funde ficção e memória em uma liga só, emocionante
A Casa da água foi lançado em 1969 e serviu de esteio para os outros dois livros da trilogia (O Rei de Keto e o Trono de Vidro). A análise da alma africana, e por extensão da alma humana, é preciosa, no texto de Antonio Olinto. Mas não está em fatos pitorescos ou nas anedotas. Está nos refrões, pregões, imprecações. Vejam esta frase: "Ele tinha boa cara, os lábios, grossos e fortes, formavam um sorriso lento, que demorava a se formar e demorava a se desfazer." Outra: "O pai revelou-se um homem baixo e muito gordo, a boca se esparramava como a de um sapo, ria uma risada enorme e demorada."
A trilogia do acadêmico Antonio Olinto é um compêndio sobre costumes de um povo que passou muitos anos lutando para manter a sua identidade. Assim, a pretexto de falar da alma da África, o autor fala da alma do Brasil. O fio condutor é Mariana, errante e errática, miscigenada e híbrida, suspensa entre dois mundos, como a água do mar, a água da enchente, nessa torrente de vida. Mas uma mulher firme, empreendedora, justa. Uma brasileira. A frase de Mariana, ao batizar a sua loja, comprada com o trabalho de uma vida, de Casa da água, foi esta: "É que eu comecei a ser eu depois que fiz um poço." Anos mais tarde, ela diria (página 59 de O Rei de Keto): "A coisa mais importante que fiz foi abrir um poço em Lagos quando era moça." Quanta densidade em duas frases!
Aqui e ali, a voz do autor se deixa evidenciar, numa cuidada intervenção da primeira pessoa. São apenas dois ou três verbos em cada volume, com desinência voltada para o eu. Artifícios de um habilidoso processo de construção da narrativa.

A um homem que viveu a África, como adido cultural na Nigéria, escolho a boa tradição iorubá, e termino este artigo com um oriki, como faz o autor no seu romance: ó Antonio Olinto, tu que ensinas a ver e a julgar, que estás no teu merecido lugar no cenáculo da Academia Brasileira de Letras, que escrevas muito e que teus escritos sejam recebidos com alegria pelos nossos corações, para sempre. Porque tua obra, nobre escritor, é como tu: tem a energia do trovão, a sabedoria dos nossos ancestrais e a serenidade do mar calmo.



Jornal da Letras, edição de setembro de 2007

Gabriel Chalita

NO LABORATÓRIO DA VIDA

A educação não precisa necessariamente se realizar dentro de uma sala de aula. O cotidiano da vida é um excelente laboratório, em que se vão misturando doses de atitudes, ações e reações, até encontrar o aristotélico meio-termo. Mas um dos ingredientes mais fundamentais de qualquer dessas misturas é, sem dúvida, o respeito. O respeito tem que estar presente em qualquer experimento social - ou mesmo individual. Isto porque, quem não tem amor-próprio, quem não se respeita, corre o risco de perder o sentido da vida.
A dignidade nasce do respeito que forma o caráter e determina uma vida condizente com ele. Há numerosas histórias de pessoas que se encontraram em situações em que poderiam levar vantagem ilícita, sem que ninguém soubesse e sem que nunca fossem descobertas. Os desfechos de algumas dessas histórias seguem a lógica da esperteza - "já que posso passar impune, por que não aproveitar a ocasião?" Outros seguem uma lógica mais profunda, que respeita a consciência. - "Pode ser que ninguém veja, mas eu estou vendo" - reagirá aquele que se respeita. Na ótica do laboratório vital, aquele que não se respeita não será respeitado.
Respeito é palavra que significa, na sua origem latina (respectus), a ação de olhar para trás. A palavra demonstra, claramente, que a pessoa dotada de respeito é aquela que não esquece o que passou, não se esquece de quem ficou para trás porque envelheceu, morreu ou sofreu. Geralmente se utiliza a palavra respeito para definir a atitude desejável diante de pessoas mais velhas, porque mais vividas, mais sofridas. Merecem, por um cansaço físico, passar à frente nas filas, ter primazia nos transportes, receber atendimento prioritário em hospitais e bancos e em outros serviços públicos ou privados. Isso não significa que devam ser tratados com pena, mas com dignidade. Inclusive no mercado de trabalho. Talvez não tenham a mesma força física. Têm, entretanto, geralmente, mais sabedoria. Viveram mais, experimentaram maiores perdas, amadureceram.
Mas também merece respeito a criança, um ser em formação. O Estatuto da Criança e do Adolescente traz um corolário dos direitos de que são detentoras essas crianças. Essa lei traz proibições inclusive para os pais e outros educadores. Traz exigências ao próprio Estado quanto ao atendimento das necessidades das crianças. Elas não podem ser humilhadas nem agredidas. Em outras palavras, precisam ser respeitadas.
Merece respeito o trabalhador, independentemente de sua profissão. Como é bom trabalhar em um ambiente em que as pessoas respeitam e são respeitadas, em que há hierarquia, mas não humilhação ou prepotência.
Merece respeito a mulher que não pode, por conta de uma desvantagem física (há exceções, é claro) se submeter ao marido agressor. Multiplicam-se os casos de violência doméstica que causam indignação e dor. A covardia do mais forte é intolerável.
Merece respeito todo cidadão, pelos impostos que paga, pelas obrigações que não pode deixar de cumprir. Desrespeita o cidadão o político corrupto, o mentiroso, o demagogo. Desrespeita o cidadão o político que age em interesse próprio ou aquele que é ineficiente na utilização do dinheiro que não lhe pertence.
Merecem respeito todas as pessoas. E isso se aprende em casa, na escola, na vida. E a melhor lição é que é possível vencer sem destruir os próprios princípios. É preciso respeitar os limites, as diferenças, as perdas. É preciso compreender que cada um é diferente. Quantos há que querem mudar tudo em si mesmo, com a intenção de agradar ao outro. Isto é falta de respeito próprio. Será que o outro teria a mesma disposição em mudar tudo para me agradar? Se tiver, tome cuidado. Quem não respeita a si mesmo não há de respeitar o outro também. O mais interessante é que essas coisas são tão simples, tão óbvias e exatamente por isso merecem ser repetidas o tempo todo, como uma composição química testada e comprovada. Porque o difícil é ser simples.

Respeito. No laboratório da vida, vale nos dois sentidos: comigo e com o outro. De mim para mim; do outro para o outro; de mim para o outro, e do outro para mim.



Revista Profissão Mestre, setembro/2007

Gabriel Chalita