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Ciúmes do passado

Não há casal no mundo que não discuta o ciúme, que não vivencie o ciúme. Uns levam o assunto com tranqüilidade, sentem ciúmes civilizados, que não tumultuam a relação. E outros são atormentados por esta praga, não podem olhar para os lados que o parceiro já fica de antena ligada. Uma chateação cotidiana.

Isso é cuidar do relacionamento? Isso é prova de amor? De certo modo, sim, é um zelo, um carinho – desde que as proporções sejam razoáveis. Você não quer perder seu amor para outra pessoa, então fica de olho. Não dá pra dizer que é uma insanidade, você está apenas reafirmando a posse do que julga ser seu.

A sensatez vai pras cucuias quando o ciúme não está mais relacionado ao presente, e sim ao passado de quem você ama, um passado que não foi compartilhado, um passado que você não conhece, um passado onde você não existia, onde você não foi traído, portanto.

Mas uma garota não quer saber de sensatez quando sente uma dor profunda ao ver, por exemplo, fotos do namorado cinco anos atrás, feliz da vida ao lado de amigos e amigas que ela não conhece. Ela sente ciúme dos discos que foram comprados antes da relação começar, sente ciúmes dos presentes que foram recebidos antes, sente ciúmes de roupas que foram compradas sem a opinião dela, sente ciúmes das alegrias que foram vividas bem longe da sua presença. Como você pode acreditar quando ele diz que não consegue se imaginar sendo feliz sem você, se cinco anos atrás ele estava passando férias em Trancoso com um sorriso de orelha a orelha? Algumas pessoas não colocam os pés em lugares onde seu amor foi feliz na companhia de outros. Se ele foi feliz em Trancoso, que Trancoso arda em chamas!

Já não é ciúmes o nome disso. Já nem mesmo é amor.

Martha Medeiros

Mas se segurar-se muito no passado, o futuro pode nunca chegar.

Gossip Girl

Anda, parar é covardia e olhar para a cidade do passado é ignorância

Khalil Gibran

"Aqueles que não aprendem do passado estão condenados a repeti-lo"

Stephen King

Quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo.

George Santayana

Me dei conta de que o passado e o futuro são ilusões reais.

Alan Watts

TRAÇOS

Traços.
Fugazes traços.
Lembranças de rostos.
Sorrisos, abraços.
Tempos passados,
passadas vidas.

Pensamentos decompostos,
imagens tão queridas.

Tudo é passado,
e tão presente,
quão feridas,
que magoam
a gente

Victor Motta

NOITE DE UM INVERNO

DE REPENTE, SINTO QUE ESTOU TRISTE.
TRISTE PELO QUE SOU,
TRISTE POR TUDO QUE NÃO FUI.
MAS, NÃO ME ABORRECE
ESSA TRISTEZA ,QUE VEM
E QUE FLUI ATRAVÉS
DO CINZA-AZULADO DA FUMAÇA
DO CIGARRO, PROJETADA NO TETO
MAL PINTADO DE MEU QUARTO.
O SILÊNCIO AMIGO QUE HABITA
MEU APARTAMENTO
DIVIDE COMIGO O FRIO DA NOITE,
QUE TAMBÉM SE VAI.
PENSO EM VOLTAR, PENSO EM PARTIR,
EM ESTAR CONTIGO,
EM DIVIDIR ESSA TRISTEZA
A DOIS…
QUE GRITA DENTRO DE MIM,
DENTRO DO QUARTO QUIETO,
FRIO, DE AR VICIADO
DE TETO MAL PINTADO.
VEJO AS MARCAS INCERTAS
DO PINCEL,
COMO A ARRANHAREM
TAMBÉM DENTRO DE MIM
A SAUDADE DO QUE ERA
E A ANSIEDADE DO QUE SERÁ.
FECHO OS OLHOS,
MOLHADOS
E PENSO NUM POEMA QUE FARIA,
SE MEUS OLHOS MOLHADOS
NÃO ESTIVESSEM CANSADOS,
FECHADOS,
TENTANDO ESQUECER
ESSA TRISTEZA….

Victor Motta

ILUSÕES

NO SILÊNCIO DA NOITE, SONHO;
CENAS, FATOS, PESSOAS, MOMENTOS.
UM PASSADO DISTANTE, PRESENTE,
AINDA,
ME CONDUZ EM TURBILHÃO;
TRISTONHO,
RECRIO FELICIDADES E HISTÓRIAS,
NO INUSITADO DA IMAGINAÇÃO.
BUSCO EM CANTOS DE SAUDADE
TRAZER AO COTIDIANO
DE AGORA
AS ALEGRIAS VIVIDAS A DOIS .
O QUE ERA, PERDEU-SE,
PARTIDOS CRISTAIS.
O QUE FOI, SÃO SENSAÇÕES,
NADA MAIS.
OS NOVOS CAMINHOS PERCORRIDOS
NÃO SERÃO OS MESMOS DE OUTRORA,
JAMAIS.
RESTA-ME ENTÃO REVIVER,
NO IMAGINÁRIO, AS FORTES EMOÇÕES
DO PASSADO, NUM CANTO QUALQUER,
NUMA DOBRA ESCONDIDA
DA MEMÓRIA.

Victor Motta

Estude o passado, se quiseres decifrar o futuro.

Confúcio

No meio da estrada

No meio da estrada,
parado,
olho à frente;
o desconhecido,
olho atrás;
o nada.
Tudo é nebuloso
em figuras dispersas.
A década perfeita
dos anos dourados,
perdida.
Procurei nos teus olhos
minha própria certeza
esquecida
em alguma esquina de nós.
E, no passar do tempo
ao nos vermos
já não seremos os mesmos
amantes de outrora,
encantados,
encantadores,
mas sombras de um passado
varrido da memória,
mas presente nos corpos.

Victor Motta

Círculos viciosos

Eu lia, mas não sabia ler,
e tudo que eu lia,
porque não sabia,
não fazia sentido
dentro de mim.
Procurei a ponta condutora,
qual um filão
do entendimento.
Nada!
Busquei fantasmas
em cada negativa.
Vi mortos-vivos,
de passados tão presentes
e mergulhei no fundo,
mais íntimo,
em um reflexo de ternura.
Vi, na minha imagem
um enorme vazio
que transformou meu sonho
na dureza fria
da realidade.
Seria maldade,
ou o desejo de um fortalecimento?
E, afinal, eu vi,
mas não sabia ver.
E tudo que eu via,
porque não sabia
não impressionava
o negativo de minha alma.
E, assim, caminhei passos
sem saber,
e, porque não sabia caminhar
meus passos a nada me conduziam.
E, ainda sem saber,
retornei ao ponto de partida,
sem mais esperanças.

Victor Motta

Vozes do Passado

Acordei, e me percebi mais velho,
e era natural, sendo meu aniversário.
Porém, ao me olhar no espelho
notei o fato extraordinário;
eu estava muito mais velho ainda,
talvez muito mais do que deveria,
porque no espelho eu refletia
a imagem triste e cansada
sem o mesmo viço antigo.

Na surpresa, afastei a cortina
que me separava do passado.
Pouco a pouco notei antigos rostos,
que vinham belos a sorrir saudades,
mas que sorrindo se transformavam
em nuvens densas de poeira cinza.
De vultos velhos e curvados.
O andar trôpego se arrastando
na névoa escura do caminho,
não me permitia identificar.

Em meu espanto, vi surgir ao fundo
outra figura entre as sombras, 
que refletida em mim. Era Eu,
cada vez mais velho, mais triste,
cada vez mais só, sem sorrir,
sem esperanças, sem ninguém.
Mas a solidão não me magoava,
apenas refletia o passar do tempo,
que corria e zumbia nos caminhos
de outrora, inclemente, em gritos
estridentes de muitos adeuses.

E, do fundo também se ouvia
o canto repetido e nostálgico
dos espectros das vidas passadas.

Victor Motta

O giro do tempo

Pedaços de mim que flutuam no tempo
são pássaros sem rumo e sem pouso
a buscar seus ninhos no céu da memória.
Nas voltas que esse tempo dá, buscam
encontrar aquilo que foi e já não é,
mesmo sabendo que nada mais será
igual ao que era e nunca voltará
a ser o que passou por nossas vidas,
pois não é o tempo que nos para,
somos nós que paramos no tempo.

Desse giro implacável e sem volta
brota a angústia do tempo perdido
em vãs tentativas de reencontros.
São histórias passadas de risos e vozes
que marcaram íntimas relações
que trazem ao presente o ontem,
amado ou sofrido, de toda uma vida.
Persegue-se então, o sonho impossível
que termina no mesmo instante
que percebemos o vazio do tempo.

Victor Motta

O vento do tempo

No delírio da irrealidade,
acordei consciente
que o tempo correu,
mas ficou no passado,
que hoje é presente.

Sem qualquer maldade,
mostrou o que fui
e já não sou.

Passou apressado
com o vento dos anos
e com ele carregou
os sonhos de antigamente.

No sopro do agora
deixou o medo de viver
nesse passado que ficou,
perdido em muitos lugares,
com diferentes nomes,
em rostos invulgares.

Deixou mágoas, esperanças,
sombras, risos e choros.
Soprou nas praias e campinas,
passou montanhas e mares
com derrotas e vitórias.

Percorreu todos os caminhos
do tempo das crianças.
dos homens e mulheres
que se encontraram
e se perderam
nesse mesmo vento
que carregou o tempo
dos momentos vividos
e não realizados.

Victor Motta

Descaminhos

Sem pedir licença
uma onda triste
invadiu minha vida
e construiu barreiras
que bloquearam risos
e trouxeram lágrimas.

Sem perguntar, ainda,
não permitiu espaços
do porque e do querer,
enfraquecendo o corpo,
deixando as mágoas
de momentos não resolvidos.

No passado, busquei saber,
mas nas sombras do presente
pude apenas lembrar
o tempo que fluiu
pelos caminhos sem rumo
e tortuosos da mente.

Victor Motta

LEMBRANÇAS CAMPEIRAS

NO FINAL DA NOITE
FRIA,
O VENTO CORTA,
CORTANDO A PELE
QUEIMADA,
COM CHEIRO DE SUOR
E TERRA.
O SOL ESPIA
NO HORIZONTE
E CLAREIA O DIA.
NO CHÃO,
O FOGO DANÇA
E ESPREITA
POR ENTRE TORAS.
NA TREMPE,
A ÁGUA ESQUENTA
PRA FAZER O MATE
DESSAS HORAS.
NO ESPETO,
A CARNE CHEIRA
ENCHENDO O AR
DAS NARINAS
RUDES E GELADAS.
A MÃO QUE SOVA A ERVA
AGUARDA
A ÁGUA QUENTE
PRA SERVIR À RODA,
COM ROSTOS MARCADOS,
DE BOCA EM BOCA,
SORRINDO AO DIA
QUE NASCE NAS COXILHAS.
NO PAMPA GUASCA
É MAIS UM DIA
DE UM CONTO
GAUCHO.

Victor Motta

Fim de festa

Louca confusão!
É o final da festa.
Pontas de cigarro
pelo chão,
marcam a realidade
do gosto amargo
pelo sarro,
que ficou na boca,
do cigarro.
Um vazio imenso
ao ambiente empresta,
a presença do arrependimento.

Foram risos,
foi música,
foi farsa.
Busca infeliz de um nada,
estampada, agora,
nos olhos cansados,
descrentes e perdidos.
Copos derramados,
paredes marcadas,
por mãos suadas.

Tudo já é passado.
Alegria-mulher que invadiu,
motivadora, minha solidão.
E nada ficou,
nada de profundo,
de definitivo.
Nada que valesse a pena,
apenas um passo
a mais,
na busca do ego
do eu interior,
que não conhecemos.

Século da cibernética,
das máquinas infernais,
computadores,
robôs,
órgãos artificiais.
Homem-mecânico
do século vinte.
Tudo foi pesado,
balanceado,
meticulosamente dosado!
Para que?
Para nada!

Se teu coração vai mal,
nada de anormal,
terás um novo,
a pulsar vigoroso,
injetando sangue
em teus tecidos.
Genial!
E teu sistema nervoso,
teu cérebro,
tua consciência,
tua vivência
anterior?

Século da genética,
da potência energética.
Situação patética,
o vazio da alma,
no vazio da sala,
que me embala
em mil pensamentos,
em arrependimentos,
que são angustias.

Victor Motta

LONGA NOITE

NO ESPELHO DA VIDA
REVI MIL ROSTOS,
VELHOS, CANSADOS, PERDIDOS
EM PASSADOS DISTANTES.
EM MEU ESPANTO,
PERCEBI TAMBÉM
QUEM FUI,
POIS NA LUZ
QUE REFLETIA
FINALMENTE EU VI
O TEMPO QUE PASSARA.
RÁPIDO, IMPLACÁVEL, IRÔNICO.
PEDAÇOS DE MIM
FORMAVAM OUTRAS FISIONOMIAS
QUE NÃO ERAM MAIS
COMO UM DIA FORAM.
E, EM MINHA MENTE
LUTEI POR DESCOBRIR
VESTÍGIOS DE OUTRORA.
EM VÃO!

Victor Motta

SOMBRAS, 2010

UM PESO, UMA TRISTEZA,
FRUSTAÇÕES, CANSAÇOS.
SENSAÇÃO DO NADA,
DESILUSÕES.
VAZIOS, SOMBRAS,
PASSADAS.
NÃO MAIS RECONHEÇO
MINHA NATUREZA
DE OUTRORA.
FIM DE JORNADAS,
CICLO DE VIDAS,
VIVIDAS,
EM MIL LUGARES;
PERDIDAS,
EM MIL PEDAÇOS.
DORES, ALEGRIAS,
SOFRIMENTOS.
VITÓRIAS, CONQUISTAS,
DERROTAS, ARREPENDIMENTOS.
ENCRUZILHADA DO SER
E DO NÃO-SER.

Victor Motta

CICATRIZES

LEMBRANÇAS, LUGARES, SAUDADES,
AUSÊNCIAS, PENSAMENTOS.
SÃO ROSTOS, SÃO NOMES,
CHEGADAS, SÃO PARTIDAS.
SÃO TUDO, SÃO O NADA…
MOMENTOS.
NOS CAMINHOS DA MENTE,
SÃO VOLTAS,
ALEGRIAS,
TRISTEZAS.
FRASES PERDIDAS,
SEM RESPOSTAS, EXAURIDAS.
SÃO PASSADOS,
EM PÁGINAS AMARELADAS.
GASTAS NO TEMPO VIVIDO,
QUE VOLTAM E GRITAM.
PRESENTES.
AMARGAS, FERIDAS.
GUARDADAS, ESQUECIDAS.
MEMÓRIAS DE OUTRAS VIDAS,
ESMAECIDAS, RECORTADAS,
ENFRAQUECIDAS.
TEMPO PERDIDO
NAS MARCAS QUE FICAM
DAS CICATRIZES.
FERIDAS ABERTAS
NA MENTE E NO CORPO.
SENTIDAS.

Victor Motta

Espirais do tempo

Em grandes vôos espirais
procurei nos espaços
descobrir meu futuro,
mas os pontos cardiais
me conduziam, aos pedaços,
a lugares sem nada, obscuros.
Desiludido, cortei as asas
e afundei no mar opaco
que escondia o passado.
Para compreendê-lo, fui fundo,
pouco a pouco, em regressão.
Havia uma criança que não podia
entender, nem aceitar a morte.
Sufocado, busquei a tona
nadando através do tempo
que esse mar revolto escondia.
Vi um jovem atormentado
que desenhava e escrevia.
Sorri e acenei, mas não sorria
e sem me dirigir um olhar 
desapareceu na densa bruma.
Continuei subindo e vi o homem
que amava, mas não compreendia
o amor e. por isso, sofria.
Deixei-me então ficar submerso
sem mais coragem de olhar
e, uma vez mais fugi, sem respostas.

Victor Motta

pensei muitas vezes no passado com a esperança de tentar entender o presente e facilitar o futuro.Tudo oque consegui foi confundir o meu presente, alterar o meu futuro e sentir a dor do passado.

Caio Fernandes

O passado é meu algoz, não me permite o retorno, mas o presente levanta generosamente meu semblante descaído e me faz enxergar que não posso mudar o que fui, mas posso construir o que serei. Podem me chamar de louco, psicótico, maluco, não importa. O que importa é que, como todo mortal, um dia terminarei o show da existência no pequeno palco de um túmulo, diante de uma plateia em lágrimas.

Augusto Cury