Salmos da Bíblia

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“Confie nele em todos os momentos." (Salmo 62.8)

A fé é quase como o governo tanto da vida temporal quanto da espiritual; devemos ter fé em Deus para os nossos assuntos terrenos, bem como para os celestiais.
É somente à medida que aprendemos a confiar em Deus para o provimento de toda a nossa necessidade diária que iremos viver acima do mundo.
Nós não devemos ser ociosos, porque isto revelaria que não confiamos em Deus, que trabalha até agora, mas no diabo, que é o pai da preguiça. Não devemos ser imprudentes ou precipitados; que confiam no acaso, e não no Deus vivo, que é Deus cuidadoso e ordeiro. Agindo com toda a prudência e honestidade, estamos confiando de forma simples e inteiramente no Senhor em todos os momentos.
Deixe-me recomendar a você uma vida de confiança em Deus nas coisas temporais. Confiando em Deus, você não será compelido a se entristecer porque você usou meios pecaminosos para enriquecer. Sirva a Deus com integridade, e se você não conseguir nenhum sucesso, pelo menos nenhum pecado irá residir sobre sua consciência.
Confiando em Deus, você não será culpado de contradizer a si mesmo. O que confia na tripulação, navega desta forma hoje, e também depois, como um navio sacudido pelo vento inconstante; mas aquele que confia no Senhor é como um navio movido a vapor, que corta as ondas, desafia o vento, e faz uma brilhante pista prateada atrás de si rumando para o seu porto de destino.
Seja uma pessoa que vive com princípios interiores; nunca se curve aos diferentes costumes da sabedoria mundana. Ande em seu caminho de integridade com passos firmes, e mostre que você é invencivelmente forte na força que a confiança somente em Deus pode conferir. Assim, você será livrado de cuidados ansiosos, você não será incomodado com a má notícia, o seu coração será firme, confiando no Senhor.
Como é agradável flutuar ao longo do córrego da Providência! Não há nenhuma maneira mais abençoada de vida do que uma vida de dependência de um Deus que guarda a aliança.
Nós não temos ansiedades, porque ele tem cuidado de nós; nós não temos nenhum problema, porque lançamos todos os nossos fardos sobre o Senhor.

Texto de Spurgeon traduzido por Silvio Dutra.

Charles Haddon Spurgeon

SALMO 35 – Salmo de Davi

Este é um dos chamados salmos de imprecação contra os inimigos, proferido por Davi. No entanto, deve ser notado que ele nunca buscou o mal dos seus inimigos que se levantavam contra ele injustamente, com tramas terríveis, para destruí-lo e virem a se regozijarem com o fato de terem dado cabo daquele que era o campeão de Deus nas Suas batalhas. Então muito mais do que para defender a sua própria honra, senão a do Senhor, Davi pede-Lhe que se levantasse e desse o pago aos seus inimigos. Ele mantinha a sua confiança no Senhor para que fosse livrado daqueles que impiamente tramavam contra a sua vida. Então ele orou para que eles próprios caíssem nos laços que haviam preparado para ele. Não eram pessoas de nações inimigas que estavam buscando o seu mal, mas pessoas que ele havia tratado com bondade e amizade. Eram muitos os que lhe tinham ódio, não porque lhes tivesse feito algum mal, mas porque era devotado ao Senhor, e não desejavam ter por governante alguém que não lhes satisfizesse às luxúrias carnais, e muito menos quem lhes exigisse o cumprimento dos mandamentos de Deus. Este foi o motivo que fizera com que se tornassem seus inimigos mortais. Por isso procuraram usar todos os meios fraudulentos para removê-lo da sua posição de governante. Para tal propósito se reuniram em conselho contra Davi quando viram que ele estava enfraquecido, e sem que lhe dessem tréguas rangiam os dentes contra ele em festim, e tramavam enganos não somente contra ele, mas contra todos os pacíficos da terra. Eles já tinham dado por certo que haviam conseguido arruiná-lo e diziam entre si: “Pegamos! Pegamos”. Como que a dizer: ”Finalmente conseguimos derrubá-lo”. Então Davi não entregou os pontos mas clamou ao Senhor naquela hora pedindo-Lhe que o julgasse segundo a Sua justiça e que não permitisse que tais ímpios se regozijassem contra ele. Que os Senhor os cobrisse então de vergonha e ignomínia, e que cantassem de júbilo e se alegrassem os que tinham prazer na retidão de Davi, ao reconhecerem que Deus lhe havia feito justiça, dando o pago aos seus inimigos, glorificando sempre ao Senhor. O vigor das palavras deste salmo incomoda aos “profetas” que julgam que a bondade de Jesus Cristo, exclui a virilidade que existe nEle e que é tantas vezes expressada nas páginas da Bíblia, especialmente nas cartas que dirigiu às sete igrejas do Apocalipse, e do modo como tratou os escribas e fariseus. A pretexto de desejarem ver a doçura de Jesus nos pastores, muitas ovelhas, equivocadamente, pensam que falta neles o amor e a bondade do Senhor, quando são repreendidas por eles, por causa dos seus pecados. No entanto, isto é uma exigência bíblica, e encontra-se em perfeita consonância com o caráter de Cristo que é ao mesmo tempo cordeiro e leão; exaltado e humilde; servo e rei, e que tem em suas mãos as chaves da morte e do inferno, e que tem recebido do Pai toda autoridade tanto no céu quanto na terra, não somente para introduzir os santos no Seu reino, como também para subjugar todos os seus inimigos a um sofrimento eterno no inferno.

“Contende, SENHOR, com os que contendem comigo; peleja contra os que contra mim pelejam. Embraça o escudo e o broquel e ergue-te em meu auxílio. Empunha a lança e reprime o passo aos meus perseguidores; dize à minha alma: Eu sou a tua salvação. Sejam confundidos e cobertos de vexame os que buscam tirar-me a vida; retrocedam e sejam envergonhados os que tramam contra mim. Sejam como a palha ao léu do vento, impelindo-os o anjo do SENHOR. Torne-se-lhes o caminho tenebroso e escorregadio, e o anjo do SENHOR os persiga. Pois sem causa me tramaram laços, sem causa abriram cova para a minha vida. Venha sobre o inimigo a destruição, quando ele menos pensar; e prendam-no os laços que tramou ocultamente; caia neles para a sua própria ruína. E minha alma se regozijará no SENHOR e se deleitará na sua salvação. Todos os meus ossos dirão: SENHOR, quem contigo se assemelha? Pois livras o aflito daquele que é demais forte para ele, o mísero e o necessitado, dos seus extorsionários. Levantam-se iníquas testemunhas e me argúem de coisas que eu não sei. Pagam-me o mal pelo bem, o que é desolação para a minha alma. Quanto a mim, porém, estando eles enfermos, as minhas vestes eram pano de saco; eu afligia a minha alma com jejum e em oração me reclinava sobre o peito, portava-me como se eles fossem meus amigos ou meus irmãos; andava curvado, de luto, como quem chora por sua mãe. Quando, porém, tropecei, eles se alegraram e se reuniram; reuniram-se contra mim; os abjetos, que eu não conhecia, dilaceraram-me sem tréguas; como vis bufões em festins, rangiam contra mim os dentes. Até quando, Senhor, ficarás olhando? Livra-me a alma das violências deles; dos leões, a minha predileta. Dar-te-ei graças na grande congregação, louvar-te-ei no meio da multidão poderosa. Não se alegrem de mim os meus inimigos gratuitos; não pisquem os olhos os que sem causa me odeiam. Não é de paz que eles falam; pelo contrário, tramam enganos contra os pacíficos da terra. Escancaram contra mim a boca e dizem: Pegamos! Pegamos! Vimo-lo com os nossos próprios olhos. Tu, SENHOR, os viste; não te cales; Senhor, não te ausentes de mim. Acorda e desperta para me fazeres justiça, para a minha causa, Deus meu e Senhor meu. Julga-me, SENHOR, Deus meu, segundo a tua justiça; não permitas que se regozijem contra mim. Não digam eles lá no seu íntimo: Agora, sim! Cumpriu-se o nosso desejo! Não digam: Demos cabo dele! Envergonhem-se e juntamente sejam cobertos de vexame os que se alegram com o meu mal; cubram-se de pejo e ignomínia os que se engrandecem contra mim. Cantem de júbilo e se alegrem os que têm prazer na minha retidão; e digam sempre: Glorificado seja o SENHOR, que se compraz na prosperidade do seu servo! E a minha língua celebrará a tua justiça e o teu louvor todo o dia.”

Silvio Dutra

SALMO 32 – Salmo de Davi

Este Salmo revela simultaneamente a bem-aventurança já alcançada de uma vez para todo o sempre quando se é justificado pelo Senhor, quando Ele perdoa o nosso pecado para sempre por causa de Jesus Cristo.
De modo que em vez de nos atribuir, imputar iniquidade, Ele nos atribui a justiça do próprio Cristo, para que sejamos justificados, isto é, declarados justos, absolvidos de nossas culpas perante Ele, para todo o sempre.
Todavia, mesmo naqueles que alcançam tal bem-aventurança, simplesmente pela fé, assim como era o caso de Davi, ele cita o seu próprio exemplo, quando deixou de confessar seus pecados ao Senhor.
Ele usa uma metáfora forte para poder expressar os sentimentos que o dominavam naquela condição.
Ele diz que era como que os seus ossos tivessem envelhecido, ou seja, ele perdeu o seu vigor e força, por causa da tristeza profunda que o pecado produzia todos os dias no seu coração.
Debaixo dos seus pecados não confessados, ele sentia a mão de Deus não como mão consoladora, mas como uma mão corretiva e disciplinadora, que estava sobre ele dia e noite, tirando-lhe todo o vigor espiritual.
Todavia, ele sabia que estas tristezas produzidas por Deus são para conduzir ao arrependimento, que trará de volta a alegria e a paz espirituais que haviam sido perdidas.
Por isso se dispôs a confessar o seu pecado e não mais ocultar a sua iniquidade de Deus.
Ele o fizera e foi perdoado pelo Senhor.
Veja que ele está falando de alguém que já havia sido justificado, de alguém que chamou de homem piedoso, o qual sempre fará súplicas ao Senhor para encontrá-lo, porque aquele que O conhece de fato, já não pode mais suportar viver longe da Sua presença, e quem produz tal afastamento, sempre é o pecado, nas suas mais variadas formas.
São estes que se arrependem continuamente, e que confessam suas faltas ao Senhor, que são consolados pelo Espírito, porque Ele não consola quem está no pecado, senão apenas quem está santificado, porque é Espírito consolador, mas também é Espírito santificador.
Ele primeiro santifica, e depois consola.
Os que levam o pecado a sério, e que procuram se apresentar diante de Deus aprovados, sempre serão livrados por Ele, mesmo quando transbordarem as muitas águas da aflição, porque estas não conseguirão afogar o amor e o fogo do zelo de suas almas.
O Senhor os preservará nas tribulações e lhes cercará com cânticos de livramento.
Instruirá e ensinará o caminho pelo qual devem seguir, e lhes dará conselhos estando com Seus olhos fixados neles.
Contudo o que permanece rebelde contra o Senhor, em vez de ser instruído com mansidão, será dominado com a força de freios e cabrestos tal como se faz com o cavalo ou a mula, que não têm entendimento.
Estes terão que curtir sofrimentos sem consolações.
Mas os que confiam no Senhor, serão assistidos pela Sua misericórdia, e se alegrarão nEle, no espírito, e se regozijarão na sua justiça, porque são retos de coração.

“Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto.
Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade e em cujo espírito não há dolo.
Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia.
Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio.
Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei.
Disse: confessarei ao SENHOR as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado.
Sendo assim, todo homem piedoso te fará súplicas em tempo de poder encontrar-te.
Com efeito, quando transbordarem muitas águas, não o atingirão.
Tu és o meu esconderijo; tu me preservas da tribulação e me cercas de alegres cantos de livramento.
Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho.
Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de outra sorte não te obedecem.
Muito sofrimento terá de curtir o ímpio, mas o que confia no SENHOR, a misericórdia o assistirá.
Alegrai-vos no SENHOR e regozijai-vos, ó justos; exultai, vós todos que sois retos de coração.”


SALMO 34 – Salmo de Davi
(quando se fingiu de louco na presença de Abimeleque)

“Bendirei o SENHOR em todo o tempo, o seu louvor estará sempre nos meus lábios. Gloriar-se-á no SENHOR a minha alma; os humildes o ouvirão e se alegrarão. Engrandecei o SENHOR comigo, e todos, à uma, lhe exaltemos o nome. Busquei o SENHOR, e ele me acolheu; livrou-me de todos os meus temores. Contemplai-o e sereis iluminados, e o vosso rosto jamais sofrerá vexame. Clamou este aflito, e o SENHOR o ouviu e o livrou de todas as suas tribulações. O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem e os livra. Oh! Provai e vede que o SENHOR é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia. Temei o SENHOR, vós os seus santos, pois nada falta aos que o temem. Os leõezinhos sofrem necessidade e passam fome, porém aos que buscam o SENHOR bem nenhum lhes faltará. Vinde, filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR. Quem é o homem que ama a vida e quer longevidade para ver o bem? Refreia a língua do mal e os lábios de falarem dolosamente. Aparta-te do mal e pratica o que é bom; procura a paz e empenha-te por alcançá-la. Os olhos do SENHOR repousam sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos ao seu clamor. O rosto do SENHOR está contra os que praticam o mal, para lhes extirpar da terra a memória. Clamam os justos, e o SENHOR os escuta e os livra de todas as suas tribulações. Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido. Muitas são as aflições do justo, mas o SENHOR de todas o livra. Preserva-lhe todos os ossos, nem um deles sequer será quebrado. O infortúnio matará o ímpio, e os que odeiam o justo serão condenados. O SENHOR resgata a alma dos seus servos, e dos que nele confiam nenhum será condenado.”

No comentário deste salmo, nós usaremos um texto de autoria de Spurgeon, em domínio público, na Internet, que traduzimos do original inglês, intitulado: O ensino das Crianças:

“Vinde, filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor.” (Sl 34.11)

É uma coisa singular que os homens piedosos descubram frequentemente seu dever quando estão situados nas condições mais humilhantes. Nunca em sua vida, Davi estivera em pior perigo do que o que lhe inspirou este Salmo. É, como lemos no seu começo “Salmo de Davi, quando se fizera amalucado na presença de Abimeleque, e, por este expulso, ele se foi”. Davi foi levado diante do Rei Aquis, o Abimeleque da Filistia, a fim de tentar escapar, ele simulou estar louco, com uns sintomas muito degradantes que bem podiam confirmar sua loucura. Foi expulso do palácio, e, como é normal quando tais pessoas passam pela rua, um certo número de crianças deve ter se reunido ao seu redor. Em dias posteriores, ao cantar louvores a Deus, e recordando como havia chegado a ser o palhaço de criancinhas, pareceu dizer: “Tenho me rebaixado na estima das gerações vindouras, por minha insensatez nas ruas diante das crianças. Agora tratarei de desfazer este mal.”. “Vinde, filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor.”.
É muito possível que se Davi nunca houvesse se encontrado nestas circunstâncias, nunca haveria pensado neste dever, porque não encontro nenhum outro Salmo no qual ele dissesse: “Vinde, filhos, e escutai-me; e vos ensinarei o temor do Senhor.”. Teria o cuidado de suas cidades, províncias e nação pressionando-o, e pôde prestar pouca atenção à educação dos jovens. Porém aqui, levado à mais humilde posição que alguém possa ocupar, havendo chegado a ser como privado da razão, recorda seu dever. O cristão exaltado e próspero nem sempre se lembra dos cordeiros; esta tarefa geralmente recai sobre os Pedros, cuja confiança e soberba têm sido vencidas, e que se regozijam em responder assim de uma maneira prática a pergunta: “Tu me amas ?”.
De nosso texto extrairei primeiro uma doutrina, em segunda lugar, dois alentos, em terceiro, três instruções, em quarto, quatro instruções, e em quinto lugar cinco temas para crianças, tudo isto tomado do texto.

I. Primeiro, UMA DOUTRINA. “Vinde, filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor.”. A doutrina é que as crianças são capazes de receber o ensino do temor do Senhor. Os homens são em geral tanto mais sábios quanto mais insensatos têm sido. Davi havia sido sumamente insensato, e agora se transformou em extremamente sábio. E ao sê-lo, não era provável que expressasse sentimentos insensatos, nem que desse instruções que fossem ditadas por uma mente débil.
Temos ouvido falar de alguns que as crianças não podem compreender os grandes mistérios da Palavra de Deus. Inclusive sabemos de alguns mestres da Escola Dominical que cautelosamente evitam mencionar as grandes doutrinas do evangelho, porque creem que as crianças não estão preparadas para recebê-las. O mesmo erro se tem introduzido no púlpito, porque atualmente se crê, entre certa classe de pregadores, que muitas das doutrinas da palavra de Deus, ainda que corretas, não são adequadas para serem ensinadas ao povo, porque seriam confundidos para a própria destruição deles. Fora com esse sacerdotalismo, que é o mesmo erro em que incorrem os católicos romanos ! Tudo o que o meu Deus revelou deve ser pregado. Tudo o que tem revelado, ainda que não possa compreendê-lo, seguirei crendo, e pregando. Mantenho que não há nenhuma doutrina da Palavra de Deus que uma criança, se é capaz de salvação, não seja capaz de receber. Queria que as crianças fossem ensinadas em todas as grandes doutrinas da verdade sem uma só exceção, para que em tempos posteriores possam aferrar-se a elas. Posso dar testemunho de que as crianças podem compreender as Escrituras, porque estou seguro de que quando era somente um menino podia discutir acerca de muitos pontos intrincados de controvérsia teológica, no círculo de amigos de meu pai. De fato, as crianças são capazes de compreender algumas coisas nas primeiras etapas da vida, que dificilmente compreendemos posteriormente. As crianças têm de maneira eminente a simplicidade da fé. A simplicidade é equivalente ao mais alto conhecimento; em realidade, não podemos dizer que haja muita diferença entre a simplicidade de um menino e o gênio de mente mais profunda. O que recebe as coisas com simplicidade, como criança, terá frequentemente ideias que o homem propenso a fazer um silogismo com todas as coisas nunca chegará a alcançar.
Se querem saber se é possível ensinar as crianças, lhes apontarei muitos exemplos em nossas igrejas, e em famílias piedosas: não prodígios, senão meninos que vemos com frequência: Timóteos e Samuéis, e também meninas pequenas, que têm chegado a conhecer muito cedo o amor do Salvador. Assim como um menino é capaz de ser condenado ainda cedo, também é capaz de ser salvo. Tão cedo como um menino pode pecar, este menino pode, se lhe assiste a graça de Deus, crer e receber a Palavra de Deus. Tenham a certeza de que tão cedo como o menino pode conhecer o mal, é competente, sob a condução do Espírito Santo, para aprender o bem. Nunca vá à sua classe com o pensamento de que as crianças não podem compreender, porque se não lhes faz compreenderem é porque não compreende você mesmo. Se não lhes ensina os caminhos que deseja, é porque você não é adequado para a tarefa; você deveria falar palavras mais simples, mais adequadas para sua capacidade, e logo descobrirá que não era culpa da criança, senão do adulto, que ela não aprendesse. Mantenho que as crianças são capazes de salvação. O Senhor, que em sua soberania divina resgata ao encanecido pecador do horror de seus pecados, pode converter um menino de suas tolices juvenis. O que na hora undécima encontra a alguns ociosos na praça do mercado, e os envia à sua vinha, pode chamar a homens no amanhecer do dia de suas vidas para trabalharem para ele. O que pode mudar o curso de um rio quando corre abaixo em seu curso, e fazê-lo grande em seu crescimento, pode controlar um riacho que acabou de brotar, e fazer que corra pelo canal que deseja. Pode fazer todas as coisas. Pode operar no coração das crianças como lhe apraz, porque tudo está sob seu controle.
Temo que muitos de vocês não esperem ouvir acerca de crianças que são salvas. Por todas as igrejas tenho dado conta de uma espécie de repugnância contra qualquer piedade temporã, infantil Assusta-nos a ideia de uma criança que ame a Cristo; e se ouvimos de uma menina seguindo ao Salvador, dizemos que é imaginação infantil, uma impressão temporã que logo se desvanecerá. Queridos amigos, lhes rogo, nunca tratem a piedade infantil com suspeitas. É uma planta tenra, não a manuseiem demasiadamente. Ouvi algo que creio é uma narração genuína. Uma menina de uns cinco a seis anos, que amava verdadeiramente a Jesus, pediu à sua mãe para unir-se à igreja. A mãe lhe disse que era muito pequena. A menina muito triste, e certo tempo depois sua mãe, observou que havia piedade em seu coração, e contou o fato a um pastor. Este falou com a menina, e disse à sua mãe: “Estou totalmente convencido de sua piedade, porém não posso permitir que participe dos cultos porque é muito pequena.”. Quando a menina ouviu isto, uma estranha sombra cobriu seu rosto, no dia seguinte, quando sua mãe foi à sua cama, encontrou-a com lágrimas nos olhos, morta de dor, seu coração havia se partido, porque não lhe deixaram seguir a seu Salvador e fazer como ele lhe havia convidado. Eu não haveria assassinado aquela menina por todo um mundo ! Tenham cuidado como tratam com a piedade juvenil. Sejam ternos com ela. Creiam que as crianças podem ser salvas, tanto quanto vocês. Quando veem um jovem coração trazido ao Senhor, não o coloquem de lado, falando duro, e desconfiando de tudo. É melhor às vezes ser enganados que ser o meio de destruição de alguém. Que Deus envie a seu povo uma convicção mais firme de que os pequeninos brotos da graça são dignos de todo o cuidado.

II. Em segundo lugar, dar-lhes-ei DOIS ALENTOS, em encontrarão a ambos no texto. O primeiro alento é o do exemplo piedoso. Davi disse: ““Vinde, filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor.”. Não te envergonharás de seguir os passos de Davi, verdade ? Não porás objeções para seguir o exemplo de alguém que foi o primeiro eminente em santidade, e logo eminente em grandeza. Acaso o pastorzinho, o matador do gigante, o salmista de Israel e o monarca, haveriam ido pelos passos que tu tenhas demasiado orgulho para seguir ? Ah não! Estou seguro de que te sentirás feliz de ser com era Davi. Porém se queres um exemplo maior, inclusive que o de Davi, escuta ao Filho de Davi, como saem doces palavras de sua boca: “Deixai vir a mim os pequeninos, e não os impeçais, porque dos tais é o reino dos céus.”. Estou seguro de que lhes animaria se pensassem sempre nestes exemplos. Vocês ensinam a crianças, e isso não os desonra. Alguns dizem de vocês que são meramente mestres da Escola Dominical, porém vocês são personagens nobres, com um cargo honroso, e têm ilustres predecessores. Encanta-nos ver pessoas de uma certa posição na sociedade tendo interesse na Escola Dominical. Um grande fato em muitas de nossas igrejas é que as crianças são deixadas aos jovens para serem cuidados, e que dentre os membros mais velhos, com maior sabedoria, se preocupam porém muitos poucos deles, e muito frequentemente os membros mais acomodados da igreja se acham de lado como se o ensino dos pobres não fosse a especial atividade dos ricos. Espero o dia em que os fortes de Israel sejam achados ajudando nesta grande batalha contra o inimigo. Tenho ouvido que nos Estados Unidos há presidentes, juízes, membros do Congresso, e pessoas nas mais altas posições, não condescendendo, porque desdenho empregar esta palavra, senão honrando-se em ensinar às crianças nas Escolas Dominicais. O que ensina uma classe na Escola Dominical tem ganhado um bom título. Antes preferiria ter o título de M.E.D. (Mestre da Escola Dominical) do que uma licenciatura ou um diploma ou qualquer outra honra que se possa conferir.
Permitam que lhes rogue que se animem, porque seus deveres são assim honrosos. Que o régio exemplo de Davi, que o nobre e piedoso exemplo de Jesus, lhes inspirem com uma renovada diligência e um crescente ardor, com uma perseverança confiada e permanente, para prosseguir em sua poderosa obra, dizendo, como disse Davi: “Vinde, filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor.”.
O segundo alento que lhes darei é o alento de um grande êxito. Davi disse: “ Vinde filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor.”. Não disse: “Talvez lhes ensinarei o temor do Senhor”, senão que “vos ensinarei”. Teve êxito, e se ele não o teve, outros o têm tido. O êxito das Escolas Dominicais. Ali onde as hostes estelares cantam perpetuamente seu grande louvor, ali onde as multidões em vestiduras brancas permanentemente lançam suas coroas ao pés do Redentor, poderemos contemplar o êxito das Escolas Dominicais. Ali, também, onde milhões de crianças se reúnem domingo após domingo para louvar ao Senhor Jesus, vemos com alegria o êxito das Escolas Dominicais. E aqui acima, em quase cada púlpito de nossa terra, e ali nos bancos onde se sentam os diáconos, e de onde os piedosos membros se unem no culto, vemos o êxito das Escolas Dominicais. E remotamente, do outro lado do oceano, nas ilhas dos mares do Sul, em terras onde moram os que antes se prostravam ante ídolos de madeira e pedra, temos missionários salvos nas Escolas Dominicais, de onde milhares, remidos por meio de seus labores, contribuem tanto para a poderosa corrente de um imenso, incalculável êxito, quase diria que infinito, e em todo caso sem paralelo, da instrução das Escolas Dominicais.
Prossigam! Prossigam! Muito é o que se tem feito, mais se fará ainda. Que todas as suas vitórias do passado lhes inflamem com ardor; que a recordação de campanhas de triunfo e de campos de batalha ganhos para o seu Salvador nos reinos da salvação e da paz, sejam o alento de vocês para um renovado cumprimento do dever.

III. Agora, em terceiro lugar, lhes darei TRÊS ADMOESTAÇÕES: A primeira é: recordem a quem estão ensinando. Trata-se de crianças. “Vinde filhos”. Creio que deveríamos ter sempre respeito para com a nossa audiência, não no sentido de termos que ter cuidado quanto ao que estamos pregando ao senhor Fulano de Tal, ao Senhor Isso, ou ao Magistrado Aquilo, porque diante de Deus isto é uma vaidade. Porém devemos recordar que estamos pregando a homens e mulheres que têm almas, de maneira que não deveríamos ocupar seu tempo com coisas que não valham à pena de serem ouvidas. Agora, quando vocês ensinam na Escola Dominical, estão, se é possível, numa situação mais responsável ainda do que a de um pastor, porque este prega a pessoas adultas, a homens com juízo, que se não lhes agrada o que ele prega, têm a opção de ir para alguma outra parte. Vocês ensinam a crianças que não têm a opção de irem para algum outro lugar. Se ensinam mal às crianças, elas o crerão, se lhes ensinarem heresias, elas as receberão. O que lhes ensinarem agora, nunca mais esquecerão. Vocês não estão semeando numa terra virgem, como alguns dizem, porque tem estado muito tempo ocupada pelo diabo; porém, estão semeando sobre uma terra mais fértil agora que jamais o será, que produzirá agora o fruto de melhor forma do que em tempos futuros; estão semeando em um coração jovem, e o que semeiam é bastante certo que permanecerá ali, especialmente se ensinam o mal, porque isto nunca será esquecido. Cuidado com o que farão a eles. Não os escandalizem. Muitas crianças são tratadas como as crianças da Índia, nas quais colocam pratos de cobre sobre suas cabeças para que nunca cresçam. Há muitos que agora sabem que são simples, porque quando estiveram ao seu cuidado quando eram pequeninos nunca lhes deram a oportunidade para alcançar conhecimento, de modo que quando se fizeram adultos já não lhes importava nada. Tenham cuidado acerca dos seus objetivos; vocês estão ensinando crianças, vigiem então o que estão fazendo. Se puserem veneno no manancial, impregnarão toda a corrente. Tenham cuidado com o que fazem ! Se torcerem o arbusto a velha árvore ficará torta. Tenham cuidado! É a alma de uma criança que estão manipulando. É a alma de uma criança o que estão preparando para a eternidade, se Deus está com vocês. Faço-lhes uma solene admoestação em nome de cada criança. Certamente, se é traição administrar veneno aos moribundos, será muito mais criminoso administrar veneno à vida jovem. Se é mal extraviar aos de cabelos brancos, há de ser muito pior conduzir o coração jovem a um caminho de erro no qual poderá caminhar para sempre. Daí a severa admoestação de Cristo aos que viessem a escandalizar a qualquer dos pequeninos.
A segunda é, lembrem que estão ensinando para Deus. “Vinde, filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor.” Se vocês, como mestres, ensinassem somente geografia, estou seguro de que não haveria muito problema se dissessem a seus alunos que o pólo Norte está próximo do Equador. Porém não estão ensinando geografia, nem matemática, nem uma profissão deste mundo, estão ensinando, no melhor da sua capacidade, para Deus. Vocês lhes dizem: “crianças venham aqui para que se lhes ensine a palavra de Deus, venham aqui, para que sejamos os instrumentos de salvação de suas almas.”. Tenham cuidado quanto ao seu objetivo quando estão lhes ensinando para Deus. Atem as mãos deles, se o desejarem, porém, por amor a Deus, não ataquem seus corações. Decidam o que quiserem sobre as coisas temporais, porém lhes rogo, em questões espirituais, tenham cuidado com a maneira pela qual os conduzem. Tenham cuidado em lhes inculcar a verdade, e somente a verdade ! E agora, quão solene se torna o trabalho de vocês ! O que está fazendo um trabalho para si mesmo, que o faça como quiser, porém o que está trabalhando para outro, que tenha cuidado acerca de como faz seu trabalho. O que está agora ao serviço de um rei, que tenha cuidado de como leva a cabo seus deveres, porém o que trabalha para Deus, deve tremer, se faz mal o seu trabalho, pois a palavra diz:”maldito aquele que faz descuidadamente a obra do Senhor”. Ah! Temo que muitos entre nós, estão longe de ter esta perspectiva!
A terceira admoestação é: recordem que suas crianças necessitam de ensino. O texto implica isso, quando diz, “Vinde, filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor.”. Isto faz que seu trabalho seja tanto mais solene. Se as crianças não necessitassem de ensino não me sentiria tão inquieto pelo que estão lhes ensinando de maneira correta, porque as obras não necessárias os homens podem fazê-las como bem lhes pareça. Porém esta obra é necessária. Teu filho necessita de ensino. Nasceu em iniquidade, em pecado foi concebido por sua mãe. Tem um coração mau. Não conhece a Deus, e jamais o conhecerá se você não ensiná-lo. Não é como alguma boa terra que possua uma boa semente oculta em suas entranhas. Ao contrário, tem má semente em seu coração. Deus pode colocar a boa semente ali. Vocês que professam serem seus instrumentos para espalhar a semente no coração da criança, lembrem: se esta semente não for semeada, ficará perdida para sempre, sua vida será uma vida alienada de Deus, e a sua morte será inevitável, e a sua parte será no fogo eterno. Tenha cuidado então, de como ensina, recordando a premente necessidade do caso. Esta não é uma casa incendiada necessitando da sua ajuda na bomba de água, nem um barco naufragando no mar, que necessita do teu remo no bote salva-vidas, mas um espírito imortal que clama a você: “Passa aqui e ajuda-nos.”. Rogo-lhes, ensinem “no temor do Senhor” e somente isto, tenham desejo de dizer, e dizer com verdade, “no temor do Senhor os instruirei.”.

IV. Isto me leva ao quarto ponto, a QUATRO INSTUÇÕES, e estas estão todas no texto.
A primeira é: faz com que as crianças venham à tua escola. “Vinde filhos.”. A grande queixa de parte de muitos hoje, é que não podem conseguir crianças. Vão buscá-las. Em Londres estamos indo de casa em casa, esta é uma boa ideia, e se deveria ir de casa em casa por todos os povoados, por todas as cidades, por todas as ruas, e conseguir o maior número possível de crianças, porque Davi disse, “Vinde filhos”. Assim, meu conselho é que consigam que venham as crianças, e que façam qualquer coisa para levá-lo a cabo. Mas não seja muito detalhista no modo de como trará as crianças à escola, porque, se eu não pudesse ter pregadores trajando casacos pretos para pregar à minha congregação, eu os teria em uniforme militar, mas eu teria uma congregação de certo modo. É melhor fazer coisas estranhas como esta do que ter uma igreja vazia, ou uma sala de aula vazia.
Quando eu estava para ir à Escócia, nós enviamos antes, um pastor para obter ouvintes, e o plano foi muito bem sucedido.
Evite meios ilícitos, mas faça tudo o que for possível para atrair as crianças à escola. Eu tenho ouvido de ministros que saíram pelas ruas à tarde no dia do Senhor e falaram às crianças que estavam brincando nas proximidades, e as convidaram a virem para a escola. Isto é o que um professor sério fará; ele dirá, "João, venha à nossa escola; você não pode imaginar que lugar agradável é.". A seguir, ele conduz as crianças à escola e em sua maneira amável, ele lhes conta estórias e anedotas sobre meninas e meninos que amaram o Senhor, e desta forma, a escola fica repleta de alunos. Vá e pegue as crianças. Não há nenhuma lei contra isto, tudo é justo na guerra contra o diabo. Assim minha primeira instrução é, conquiste as crianças, e faça-o por todos os modos que você possa fazê-lo.
Em seguida, conquiste o amor das crianças, se você puder fazê-lo. "Deixai vir a mim as criancinhas”. “Oh!”. Pensam as crianças, “como é agradável ter um professor assim, um professor que nos deixa chegar perto dele, um professor que não diz: “ Vão!”, mas “Venham!”. A falha de muitos professores é que eles não deixam suas crianças chegarem perto deles; mas esforçam-se para criar em seus alunos um tipo de respeito temeroso.
Antes que você possa ensinar as crianças, você deve tomar a chave de prata da bondade para abrir seus corações, e assim obter sua atenção. Diga, "venham a mim crianças.". Nós temos conhecido alguns bons homens que eram objeto de aversão às crianças. Você conhece a história de dois meninos aos quais haviam perguntado um dia se eles gostariam de ir para o céu? Para muita surpresa do seu professor, disseram que não o desejavam realmente. Quando lhes perguntaram, "porque não?" um deles disse, "eu não gostaria de ir para o céu porque o vovô está lá, e ele certamente diria: “Fiquem longe meninos, quero estar distante de vocês!” Por isso eu não gostaria de estar no céu com meu avô.”. Portanto, se um menino tem um professor que fala de Jesus, mas que sempre tem um olhar amargo, o que o menino pensará? “Eu quero saber se Jesus é como você; se Ele for eu não gostaria dele.". Então há um outro professor, que, se for sempre assim perturbado, os ouvidos das crianças permanecerão fechados; ao mesmo tempo, que ele ensina que deveriam perdoar-se mutuamente, e que devem ser amáveis com ele. “Bem”, pensa o jovem, "que é muito bonito de ouvir não há nenhuma dúvida, mas meu professor não é um exemplo para mim para que eu possa fazê-lo.". Se você se mantiver distante de uma das suas crianças, o seu poder sobre ela terá ido embora, e você não será capaz de ensinar-lhe qualquer coisa. É de nenhum proveito tentar ensinar àqueles que não lhe amam; assim, tente fazer-lhes amar você, e então eles aprenderão qualquer coisa que lhes ensinar.
Em seguida, ganhe a atenção das crianças. "Venham crianças, venham ouvir-me.". Se elas não lhe escutarem, você pode falar, mas você falará para nenhuma finalidade. Se não escutarem, você realizará seu trabalho como uma tarefa penosa desprovida de propósito para si próprio e para seus alunos. Você nada poderá fazer sem obter antes a atenção deles. Bem, isso depende de você mesmo; se você lhes der alguma coisa de importância para se ocuparem, eles certamente o escutarão. Dê-lhes algo de valor para ouvirem e eles certamente ouvirão. Esta regra pode não ser universal, mas é muito proveitosa. Não se esqueça de contar-lhes algumas coisas engraçadas. As anedotas são muito objetadas pelos críticos dos sermões, que dizem que não devem ser usadas no púlpito; mas alguns de nós sabem melhor do que esses, nós sabemos o que acordará uma congregação; nós podemos testemunhar com base em nossa experiência, que umas poucas anedotas aqui e ali são coisas de primeira qualidade para se obter a atenção inicial das pessoas que não escutarão a doutrina secamente. Tente colecionar boas ilustrações, tantas quanto lhe seja possível; sempre que for ministrar, se você for realmente um professor sábio, você sempre poderá encontrar ilustrações dentro de um conto para dizer às suas crianças. Então, quando seus alunos começarem a achar o ensino maçante, e você estiver perdendo a sua atenção, diga-lhes: “Vocês conhecem os Cinco Sinos ?" Se houver tal lugar onde residam, todos dirigirão sua atenção para a sua pergunta, “Vocês conhecem a volta do Leão Vermelho?”. Diga-lhes então algo que você leu ou ouviu sobre isto, e certamente poderá fixar sua atenção à lição. Uma criança uma vez disse, "Pai, eu gosto de ouvir o Sr. Fulano pregar, porque diz muitas coisas engraçadas em seus sermões”. Sim, as crianças sempre amam as “coisas engraçadas".
Faça parábolas, retratos, figuras para eles, e você progredirá sempre. Eu estou convicto, será que eu seria um menino atento a tudo o que você disse, caso você não apresentasse um conto agora e de vez em quando, você veria frequentemente a parte de trás da minha cabeça, e eu não sei, se eu me sentaria em uma sala de aula quente, mas cochilaria e iria dormir, ou iria brincar com o Juca à minha esquerda, e faria muitas coisas estranhas como descansar, se você não se esforçasse em despertar o meu interesse.
Lembre-se então de fazer com que seus alunos lhe deem ouvidos.
A quarta admoestação é, tenham cuidado com o que ensinam às crianças: “Vinde, filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor.”.

V. Em quinto lugar, quero dar-lhes CINCO LIÇÕES DE ESCOLA DOMINICAL, cinco temas para ensinar às suas crianças, e estes se encontram nos versículos que se seguem ao nosso texto: “Vinde, filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor.” (Sl 34.11). A primeira coisa que se deve ensinar é A MORALIDADE. "Quem é o homem que ama a vida, e quer longevidade para ver o bem ? Refreia a tua língua do mal, e evite que os seus lábios falem dolosamente; aparte-se do mal, e pratique o que é bom, busque a paz e empenhe-se por alcançá-la.” (Sl 34.12-14; I Pe 3.10b,11). A segunda coisa a ensinar é A PIEDADE, e uma constante crença na vigilância de DEUS; “Os olhos do Senhor estão sobre os justos, e atentos os seus ouvidos ao clamor deles.”(Sl 34.15). A terceira é A MALDADE DO PECADO. “O rosto do Senhor está contra os que praticam o mal, para cortar da terra a memória deles.” (Sl 34.16). “Clamam os justo, e o Senhor os ouve, e os livra de todas as suas tribulações.” (Sl 34.17). A quarta é A NECESSIDADE DE UM CORAÇÃO QUEBRANTADO. “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os de espírito oprimido.”. A quinta é A INESTIMÁVEL BÊNÇÃO DE SER UM FILHO DE DEUS: “Muitas são as aflições do justo, mas o Senhor de todas o livra.” (Sl 34.19). “Preserva-lhe todos os ossos, nem um deles será quebrado.”(Sl 34.20). “O Senhor resgata a alma dos seus servos, e dos que nele confiam, nenhum será condenado.”(Sl 34.22)..
Tenho lhes dados estas divisões, e agora tratemos de uma por uma: Aqui, pois, temos uma lição modelo para vocês : “Vinde, filhos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor.”. Davi começa com uma pergunta: “Quem é o homem que deseja ver dias felizes ?”. Às crianças agrada este pensamento, lhes agrada a ideia de viverem até serem velhos. Com esta introdução começa ele o ensino sobre moralidade: "Refreie a sua língua do mal, e evite que os seus lábios falem dolosamente; aparte-se do mal, pratique o que é bom, busque a paz e empenhe-se por alcançá-la.”.
Nós nunca ensinamos a moralidade como forma de salvação. Deus proíbe que nós confundamos as obras do homem, sob qualquer forma com o redenção que está em Cristo Jesus! "pela graça é que temos conservado a fé, e isso não vem de nós, é dom de Deus." Contudo nós ensinamos a moralidade quando nós ensinamos a espiritualidade; e eu descobri que o evangelho sempre produz a melhor moralidade em todo o mundo. Eu tive um professor da escola dominical que ministrava muito sobre moralidade aos meninos e meninas sob seu cuidado, falando a eles muito particularmente acerca daqueles pecados que são os mais comuns à juventude. Podem honesta e convenientemente dizer muitas coisas às suas crianças que ninguém mais pode dizer, especialmente lembrá-las dos pecados que se encontram, comumente em crianças, a saber, pecados de pequenos roubos, ou de desobediência aos pais, ou de quebra do dia de descanso. Eu mandaria o professor ser muito particular em mencionar estes males um por um; para ele é de pouco proveito falar-lhes sobre pecados no atacado. Você deve fazer exame de um por um, assim como Davi. Primeiro aponte para o cuidado com a língua: " Refreie a sua língua do mal, e evite que os seus lábios falem dolosamente.". Depois, então, em segundo lugar, aponte para a conduta total:. “aparte-se do mal, pratique o que é bom, busque a paz e empenhe-se por alcançá-la.". Se a alma da criança não for preservada por outras partes do ensino, esta parte pode ter um efeito benéfico sobre a sua vida, e somente isto, e não além. A moralidade, entretanto, por si é comparativamente uma coisa pequena. A melhor parte do que você ensina é a santidade. Eu não disse "religião," mas santidade. Muitos povos são religiosos de alguma forma, sem serem santos. Muitos têm todos os sinais externos da santidade, toda a parte externa da piedade; tais homens que nós chamamos de "religiosos," mas não têm nenhum pensamento correto sobre Deus. Pensam sobre seu lugar de adoração, seu domingo, seus livros, mas nada sobre Deus. Que não respeita Deus, não ora a Deus, não ama a Deus, é um homem sem santidade, o que quer que sua religião externa possa ser. Trabalhe para ensinar sempre a criança a ter um olho em Deus; escreva em sua memória estas palavras, "Deus está me vendo". Auxilie-a a recordar que cada ato e pensamento seus estão sob o olhar atento de Deus. Não deve o professor da EBD desconsiderar que não é um dever menor colocar constantemente ênfase sobre o fato que há um Deus que observa tudo que acontece. Oh, que sejamos mais santos; e que nós falemos mais da santidade , e que amemos de fato a santidade! A terceira lição é o mal do pecado. Se a criança não aprender isto, nunca aprenderá como se chega ao céu. Nenhum de nós sempre soube quem era o salvador Jesus Cristo até que viemos a saber a coisa má que é o pecado. Se o Espírito Santo não nos ensinasse que somos pecadores jamais conheceríamos a bênção da salvação. Deixe-nos procurar sua graça, então, quando nós ensinamos, que nós devemos sempre colocar a ênfase sobre a natureza abominável do pecado. "o rosto do Senhor é contra aqueles que praticam o mal, para cortar a sua lembrança da terra". Não poupe, sua criança; deixe-a saber a que o pecado conduz. Não, aja como algumas pessoas, que são receosas do discurso claramente e amplamente relativo às consequências do pecado. Eu ouvi de um pai, um cujo filho, um rapaz novo, muito ímpio, morreu de maneira muito repentina. O pai não fez, como alguns costumam fazer, ao dirigir a seguinte palavra à sua família: "nós esperamos que seu irmão tenha ido para o céu.". Mas não; superando seus sentimentos naturais, foi-lhe concedido, pela graça de Deus, sentar junto às suas crianças, e dizer-lhes: "meus filhos; e filhas, seu irmão estava perdido; eu temo que ele esteja no inferno. Vocês souberam sobre sua vida e conduta, vocês viram como se comportou; e Deus tem-no agora afastado em seus pecados.". Então disse-lhes solenemente que do lugar do sofrimento, que cria, para onde tinha ido, deveria estar implorando para evitar e fugir da ira do porvir. Assim, usou o meio necessário para trazer suas crianças ao pensamento sério. Mas, se ao contrário se deixasse vencer pela ternura de coração e tivesse dito que esperava que seu filho tivesse ido para o céu, o que as outras crianças diriam ? "se ele foi para o céu, não há nenhuma necessidade para nós temermos; nós poderemos viver do modo que quisermos.". Não. Não. Eu não penso que não seja cristão afirmar que alguns homens estão indo para o inferno, quando nós vimos que suas vidas foram vidas infernais. Mas perguntamos: "pode você julgar suas criaturas?" Ó Não ! Mas podemos conhecê-los pelos seus frutos. Eu não os julgo, ou os condeno; pois julgam-se a si mesmos. Eu vi seus pecados antes do julgamento, e eu não duvido do que ocorrerá em seguida. "Mas não podem ser salvos na décima primeira hora?". Eu ouvi sobre alguém que foi, mas eu não sei que sempre haverá outro, e eu não posso dizer que sempre haverá. Seja honesto, a seguir, com suas crianças, e ensine-as, pela ajuda de Deus, que o "mal mata o mau." Mas você não terá feito parcialmente bastante a menos que você ensine com cuidado a quarta lição, a necessidade absoluta de uma mudança do coração. "o senhor está perto dos que têm um coração quebrantado; e salva os que têm um espírito contrito.". Oh! Possa Deus permitir-nos manter constantemente, isto nas mentes dos alunos, que importa antes, ser de um coração quebrantado e um espírito contrito, e que as boas obras serão de nenhum proveito a menos que haja uma natureza nova, que todos os deveres e os mais árduos e sérios trabalhos serão como nada, a menos que haja um arrependimento verdadeiro e completo em relação ao pecado, e total abandono do pecado através da atuação da graça e da misericórdia de Deus! Esteja certo: o que quer que você ensine às crianças, nunca deixe faltar os três “R”, — Ruína (estado do homem sujeito ao pecado), Redenção e Regeneração. Diga às crianças que são arruinadas pela queda, e que só há salvação para elas se forem redimidas pelo sangue de Jesus Cristo, e serem regeneradas pelo Espírito Santo. Mantenha constantemente diante delas estas verdades vitais, e então você terá a tarefa agradável de dizer-lhes o assunto doce da lição de fechamento. Em quinto lugar, diga às criança sobre a alegria e a bênção de ser cristão. “O Senhor resgata a alma dos seus servos, e dos que nele confiam, nenhum será condenado". Eu não necessito dizer-lhe como falar sobre esse tema. É verdadeiro o dito: "abençoado é o homem cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto.". "Abençoado é o homem que faz do Senhor sua confiança." Sim, verdadeiramente é abençoado o homem, a mulher, a criança que confia no senhor Jesus Cristo, e cuja esperança está nele colocada, sempre dando acima de tudo, ênfase a este ponto — que os justificados são um povo abençoado da família escolhida de Deus, redimida pelo sangue e conservada pelo poder, sendo pessoas abençoadas aqui em baixo, e que serão abençoadas para sempre no céu. Deixe suas crianças verem que você pertence àquela companhia abençoada. Se souberem que você está com problemas, mas se for possível, vir à sua classe com um rosto alegre, de modo que seus alunos possam dizer: o "professor é um homem abençoado embora esteja curvado sob seus problemas.". Sempre buscando manter uma expressão regozijante, seus meninos e meninas saberão que sua religião é uma realidade abençoadora. Deixe isto ser o ponto principal de seu ensino, o de que embora "sejam muitas as aflições do justo," contudo "Preserva-lhe todos os ossos, nem um deles sequer será quebrado...O Senhor resgata a alma dos seus servos, e dos que nele confiam, nenhum será condenado". Assim tenho lhes dado cinco lições; e deixe-me agora dizer solenemente, que em toda a instrução que você seja capaz de dar às suas crianças, você deve estar profundamente consciente que você não é capaz de fazer qualquer coisa em prol da salvação da criança, mas que é Deus, ele mesmo que, do primeiro ao último, quem tudo faz. Você é simplesmente uma pena; e Deus pode escrever com você, mas você não deve escrever qualquer coisa de si mesmo. Você é uma espada; Deus pode matar o pecado da criança usando você, mas você não pode matar o seu próprio pecado. Tenha portanto sempre consciência disto, que você deve ser então o primeiro a ser ensinado por Deus e que você deve pedir a Deus para usá-lo como professor; a menos que o maior Mestre do que você o instrua, e instrua às crianças, elas perecerão. Não é sua lição que pode salvar as almas das crianças; é a bênção de Deus, o Espírito Santo acompanhando seus labores. Possa Deus abençoar e coroar seus esforços com abundante sucesso!
Ele fará isto se você gastar tempo em oração e súplica constantes.
Nunca o trabalho do professor e pregador sério será em vão no Senhor, e nunca se viu que o pão lançado sobre as águas se tivesse perdido.

Silvio Dutra

SALMO 31 – Salmo de Davi

Temos aqui mais uma das orações modelares de Davi que ele costumava fazer quando se encontrava debaixo de aflições e de angústias. Faríamos bem em seguir-lhe os passos toda vez em que nos encontramos nas mesmas condições que ele havia experimentado, quando por causa do Seu amor pelo Senhor, muitos lhe armavam laços às ocultas, e nas quais sempre fazia do Senhor a sua fortaleza, e entregava o seu espírito nas Suas mãos para ser livrado. Ele sabia perfeitamente que era uma coisa vã recorrer a ídolos para receber livramento. Ao contrário, os laços aumentariam, porque Deus abomina os que adoram ídolos. Sua confiança estava colocada inteiramente no Deus invisível cuja vontade está revelada na Bíblia. Ele somente se alegrava e se regozijava quando o Senhor lhe manifestava a Sua benignidade livrando-o das mãos dos inimigos, que angustiavam e afligiam a sua alma, e firmando os seus pés num lugar espiritual espaçoso, em que já não podia mais estar sendo oprimido em sua alma. Tal era a fidelidade de Davi caminhando em retidão com o Senhor que o diabo tinha uma fome de devorar a sua alma justa muito maior do que a fome que nós temos de pão. Davi e o testemunho de sua vida era um espinho na carne de Satanás, porque por ele, Deus podia calar o diabo com os seus argumentos até mesmo para cristãos, que uma vida de santidade plena com Deus é algo impossível, levando muitos destes portanto, a duvidarem até mesmo da real existência de Deus. Mas o testemunho de Davi era um cala boca nos argumentos do diabo, e ele tentaria então tirar a sua vida por todos os modos e meios, ou então levá-lo a um tal desespero em que já não fosse possível manter o mesmo testemunho de retidão, santidade, amor e prática da verdade. Todavia ele não podia levar vantagem sobre Davi, levantando exércitos contra ele, conspiradores, e toda sorte de perseguidores, porque ele sempre, se voltava para buscar socorro no Senhor, por maior que fosse a angústia da sua alma, tal como a que ele expressa neste salmo. A misericórdia do Senhor para com ele era tão grande, que mesmo quando Davi chegava a desesperar da vida, pensando que Ele lhe havia abandonado, e que seria destruído por seus inimigos, o Senhor sempre se manifestava no fim, dando-lhe livramento. De modo que a sua fé nEle, na Sua bondade e misericórdia, aumentava cada vez mais, pois via como Ele envergonhava os perversos, e emudecia os lábios mentirosos que falam insolentemente contra o justo, com arrogância e desdém. Davi aprendeu que Deus sempre age assim com aqueles que se refugiam nEle. Por isso Davi conclama todos os que são santos a amarem ao Senhor, porque Ele preserva os fiéis para Si, para que o amem e o sirvam, mas retribui com largueza o soberbo com os Seus juízos. Os que amam o Senhor devem portanto buscar estarem fortalecidos com a Sua graça, e terem o coração revigorado por Ele, para que o sirvam do único modo pelo qual Ele é digno de ser servido e amado.

“Em ti, SENHOR, me refugio; não seja eu jamais envergonhado; livra-me por tua justiça. Inclina-me os ouvidos, livra-me depressa; sê o meu castelo forte, cidadela fortíssima que me salve. Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza; por causa do teu nome, tu me conduzirás e me guiarás. Tirar-me-ás do laço que, às ocultas, me armaram, pois tu és a minha fortaleza. Nas tuas mãos, entrego o meu espírito; tu me remiste, SENHOR, Deus da verdade. Aborreces os que adoram ídolos vãos; eu, porém, confio no SENHOR. Eu me alegrarei e regozijarei na tua benignidade, pois tens visto a minha aflição, conheceste as angústias de minha alma e não me entregaste nas mãos do inimigo; firmaste os meus pés em lugar espaçoso. Compadece-te de mim, SENHOR, porque me sinto atribulado; de tristeza os meus olhos se consomem, e a minha alma e o meu corpo. Gasta-se a minha vida na tristeza, e os meus anos, em gemidos; debilita-se a minha força, por causa da minha iniquidade, e os meus ossos se consomem. Tornei-me opróbrio para todos os meus adversários, espanto para os meus vizinhos e horror para os meus conhecidos; os que me veem na rua fogem de mim. Estou esquecido no coração deles, como morto; sou como vaso quebrado. Pois tenho ouvido a murmuração de muitos, terror por todos os lados; conspirando contra mim, tramam tirar-me a vida. Quanto a mim, confio em ti, SENHOR. Eu disse: tu és o meu Deus. Nas tuas mãos, estão os meus dias; livra-me das mãos dos meus inimigos e dos meus perseguidores. Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo; salva-me por tua misericórdia. Não seja eu envergonhado, SENHOR, pois te invoquei; envergonhados sejam os perversos, emudecidos na morte. Emudeçam os lábios mentirosos, que falam insolentemente contra o justo, com arrogância e desdém. Como é grande a tua bondade, que reservaste aos que te temem, da qual usas, perante os filhos dos homens, para com os que em ti se refugiam! No recôndito da tua presença, tu os esconderás das tramas dos homens, num esconderijo os ocultarás da contenda de línguas. Bendito seja o SENHOR, que engrandeceu a sua misericórdia para comigo, numa cidade sitiada! Eu disse na minha pressa: estou excluído da tua presença. Não obstante, ouviste a minha súplice voz, quando clamei por teu socorro. Amai o SENHOR, vós todos os seus santos. O SENHOR preserva os fiéis, mas retribui com largueza ao soberbo. Sede fortes, e revigore-se o vosso coração, vós todos que esperais no SENHOR.”

Silvio Dutra

SALMO 29 – Salmo de Davi

Todos os filhos de Deus têm uma grande dívida para com Ele, a qual deve ser paga com adoração verdadeira, em santidade, em espírito. Ele deve ser amado com todas as nossas forças, ou seja, com todo o empenho da nossa mente e espírito, em cumprimento da Sua vontade. Devemos pagar-lhe o tributo da devida glorificação do Seu nome, praticando obras de justiça diante de todos os homens, especialmente por lhes pregar o evangelho, para que o Seu nome seja glorificado, pelas obras poderosas que Ele realizar na presença deles por nosso intermédio. Para tais boas obras é necessário ouvir o que o Espírito diz às igrejas. É preciso ouvir a poderosa voz do Senhor, que está representada em figura nos fenômenos da natureza que produzem fortes sons como por exemplo os trovões e as ondas do mar. Com a liberação da Palavra de ordem o Senhor não somente pode destruir, como também gerar vida. Ele pode purificar como fogo. Ele sobre tudo preside e se nossos ouvidos espirituais estiverem apurados nós ouviremos a Sua poderosa voz, e automaticamente diremos: Glória! A teologia do silêncio permanente como forma de expressar reverência a Deus, não se sustenta nos corações daqueles que tal como Davi, ouvem a voz do Senhor, porque não podem conter o mover que o Espírito produz no interior deles, e o traduzirão em brados de glórias e aleluias a Deus.

“Tributai ao SENHOR, filhos de Deus, tributai ao SENHOR glória e força. Tributai ao SENHOR a glória devida ao seu nome, adorai o SENHOR na beleza da santidade. Ouve-se a voz do SENHOR sobre as águas; troveja o Deus da glória; o SENHOR está sobre as muitas águas. A voz do SENHOR é poderosa; a voz do SENHOR é cheia de majestade. A voz do SENHOR quebra os cedros; sim, o SENHOR despedaça os cedros do Líbano. Ele os faz saltar como um bezerro; o Líbano e o Siriom, como bois selvagens. A voz do SENHOR despede chamas de fogo. A voz do SENHOR faz tremer o deserto; o SENHOR faz tremer o deserto de Cades. A voz do SENHOR faz dar cria às corças e desnuda os bosques; e no seu templo tudo diz: Glória! O SENHOR preside aos dilúvios; como rei, o SENHOR presidirá para sempre. O SENHOR dá força ao seu povo, o SENHOR abençoa com paz ao seu povo.”

Silvio Dutra

SALMO 28 – Salmo de Davi

Sendo rei, e antes mesmo de ser rei, tendo vivido na corte do pérfido Saul, Davi conhecia muito bem, não por praticar, mas por ver nas vidas dos cortesãos, o que era a perversidade, especialmente das dissimulações daqueles que falam de paz ao seu próximo, enquanto tramam perversidades em seus corações contra ele.
Num mundo de lobos, temos que pedir ao Senhor, tal como Davi, que ouça as nossas súplicas por socorro, para que não sejamos arrastados pela maldade dos ímpios. Não devemos nos vingar a nós mesmos em nenhuma situação, mas devemos dar lugar à ira de Deus, que prometeu tomar em Suas mãos as nossas causas, e nos vingar, Ele mesmo, dos nossos inimigos. Ainda que nada lhes sobrevenha diretamente da parte de Deus neste mundo, a destruição deles é certa, e terão que prestar contas ao Senhor de todos os seus atos, no dia do Juízo Final. Nenhum cristão que esteja sofrendo injustamente neste mundo, tem portanto, motivo para concentrar a sua atenção ou preocupação naqueles que lhe perseguem ou que intentam o mal contra as suas vidas, como paga do bem que deles recebem, ou por causa do seu bom testemunho em Cristo, mas devem concentrar seus pensamentos e atenção somente no Senhor, porque é dEle que virá o seu livramento. Davi chama por isso o Senhor de sua força e escudo. Força para agir contra o mal, e escudo para nos proteger das suas maldades.

“A ti clamo, ó SENHOR; rocha minha, não sejas surdo para comigo; para que não suceda, se te calares acerca de mim, seja eu semelhante aos que descem à cova. Ouve-me as vozes súplices, quando a ti clamar por socorro, quando erguer as mãos para o teu santuário. Não me arrastes com os ímpios, com os que praticam a iniquidade; os quais falam de paz ao seu próximo, porém no coração têm perversidade. Paga-lhes segundo as suas obras, segundo a malícia dos seus atos; dá-lhes conforme a obra de suas mãos, retribui-lhes o que merecem. E, visto que não atentam para os feitos do SENHOR, nem para o que as suas mãos fazem, ele os derribará e não os reedificará. Bendito seja o SENHOR, porque me ouviu as vozes súplices! O SENHOR é a minha força e o meu escudo; nele o meu coração confia, nele fui socorrido; por isso, o meu coração exulta, e com o meu cântico o louvarei. O SENHOR é a força do seu povo, o refúgio salvador do seu ungido. Salva o teu povo e abençoa a tua herança; apascenta-o e exalta-o para sempre.”

Silvio Dutra

SALMO 14 – Salmo de Davi

Davi aspira pela manifestação da glória futura de Israel junto com o Messias, quando o ímpio já não mais prevalecerá na terra. Quando não mais haverá insensatos para afirmarem que Deus não existe, por causa da corrupção deles e da prática das suas abominações, e não se dispõem à prática do bem. A tal ponto se multiplicou a iniquidade que não havia quem fizesse o bem e que invocasse o Senhor. Todos se extraviaram e se corromperam por causa da iniquidade que se multiplicou em seus corações. Todavia não serão tidos por inocentes na presença do Senhor, antes, serão tomados por grande pavor, porque Deus está somente do lado daqueles que foram justificados, porque buscaram graça nEle para viverem na prática da justiça. Estes ímpios que ridicularizam os conselhos dos humildes, porque se têm na conta de mais sábios e espertos do que eles, serão consumidos pelo Senhor, mas Ele será o refúgio destes humildes de coração que são desprezados na terra.

“Diz o insensato no seu coração: Não há Deus. Corrompem-se e praticam abominação; já não há quem faça o bem. Do céu olha o SENHOR para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. Acaso, não entendem todos os obreiros da iniquidade, que devoram o meu povo, como quem come pão, que não invocam o SENHOR? Tomar-se-ão de grande pavor, porque Deus está com a linhagem do justo. Meteis a ridículo o conselho dos humildes, mas o SENHOR é o seu refúgio. Tomara de Sião viesse já a salvação de Israel! Quando o SENHOR restaurar a sorte do seu povo, então, exultará Jacó, e Israel se alegrará.”

Silvio Dutra

SALMO 13 – Salmo de Davi

Davi clama ao Senhor para que o livre da tristeza do seu coração por causa do inimigo que o perseguia tão persistentemente. Ele não queria de modo nenhum fracassar diante dele para que a glória do Senhor não fosse espezinhada. Então orou com confiança na graça do Senhor, regozijando-se na Sua salvação, e louvou ao Senhor porquanto Ele lhe fazia muito bem.

“Até quando, SENHOR? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim o rosto? Até quando estarei eu relutando dentro de minha alma, com tristeza no coração cada dia? Até quando se erguerá contra mim o meu inimigo? Atenta para mim, responde-me, SENHOR, Deus meu! Ilumina-me os olhos, para que eu não durma o sono da morte; para que não diga o meu inimigo: Prevaleci contra ele; e não se regozijem os meus adversários, vindo eu a vacilar. No tocante a mim, confio na tua graça; regozije-se o meu coração na tua salvação. Cantarei ao SENHOR, porquanto me tem feito muito bem.”

Silvio Dutra

SALMO 12 – Salmo de Davi

Este Salmo é um retrato perfeito do mundo atual no qual a vileza tem sido exaltada pela sociedade corrompida em que vivemos, de maneira que os perversos andam por todos os lugares da terra, multiplicando-se mais e mais. Não admira que tão poucos estejam dispostos a dar ouvidos e a seguirem a sã doutrina, mesmo em igrejas fiéis. Eles se escandalizam com a verdade e com a chamada à santidade, e à crucificação do ego, porque amam somente a prosperidade, pela qual alimentam os prazeres de suas luxúrias carnais. Não podem mais abrir mão disto porque é um vício que está terrivelmente apegado às suas almas. Então o que prevalece é o falar com falsidade, enganando-se mutuamente, para sobrepujarem o próximo em todas as coisas terrenas (fama, poder, dinheiro, posição etc). Usam de bajulação com um coração fingido para destruírem aqueles que eles invejam, e para galgarem “posições mais elevadas” à vista de outros, para alimentarem o seu orgulho e vaidade. Desconhecem o que seja submissão e obediência à autoridade, porque são senhores da própria vontade, e julgam que seja liberdade verdadeira abrir a boca para falarem o que bem desejam, ainda que seja para destruir a reputação do próximo. No entanto, o Senhor se levantará do Seu trono para julgar toda a opressão e todo o gemido que é produzido na terra por tais ímpios, que se recusam a se converter a Ele e à justiça. Mas salvará a todo aquele que suspira por isto.

“Socorro, SENHOR! Porque já não há homens piedosos; desaparecem os fiéis entre os filhos dos homens. Falam com falsidade uns aos outros, falam com lábios bajuladores e coração fingido. Corte o SENHOR todos os lábios bajuladores, a língua que fala soberbamente, pois dizem: Com a língua prevaleceremos, os lábios são nossos; quem é senhor sobre nós? Por causa da opressão dos pobres e do gemido dos necessitados, eu me levantarei agora, diz o SENHOR; e porei a salvo a quem por isso suspira. As palavras do SENHOR são palavras puras, prata refinada em cadinho de barro, depurada sete vezes. Sim, SENHOR, tu nos guardarás; desta geração nos livrarás para sempre. Por todos os lugares andam os perversos, quando entre os filhos dos homens a vileza é exaltada.”

Silvio Dutra

SALMO 11 – Salmo de Davi

Os salmistas, assim como Davi, por serem homens santos e justos, recebiam do Senhor a capacidade de discernirem o mal que há no mundo, especialmente nos corações das pessoas. Deus pode nos dar o dom de discernimento, pela Sua Palavra, e Espírito, de discernir não somente os pensamentos, como também as intenções dos corações das pessoas, sejam eles bons ou maus (Hb 4.12). Por isso, enquanto os ímpios procuravam amedrontá-lo e ameaçá-lo, ele buscava refúgio no Senhor, com a firme certeza de que acharia segura proteção, porque não andava nos mesmos passos deles, e sabia que o Senhor se agrada de quem vive na prática da justiça, e é a cidadela forte dos tais, no dia da angústia, e não somente isto, permite-lhes que vejam a Sua face em espírito, a saber, que discirnam e sintam a Sua presença, mas, quanto aos perversos que amam a violência, os abomina e fará chover sobre eles brasas de fogo e enxofre e vento abrasador, pelo derramar dos Seus juízos sobre eles.

“No SENHOR me refugio. Como dizeis, pois, à minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte? Porque eis aí os ímpios, armam o arco, dispõem a sua flecha na corda, para, às ocultas, dispararem contra os retos de coração. Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo? O SENHOR está no seu santo templo; nos céus tem o SENHOR seu trono; os seus olhos estão atentos, as suas pálpebras sondam os filhos dos homens. O SENHOR põe à prova ao justo e ao ímpio; mas, ao que ama a violência, a sua alma o abomina. Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador será a parte do seu cálice. Porque o SENHOR é justo, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face.”

Silvio Dutra

SALMO 9 – Salmo de Davi

Davi havia vencido muitas guerras. Havia subjugado muitas nações ímpias, inimigas de Israel. Todavia, ele reconhece que todas aquelas vitórias foram, não propriamente suas, mas do Senhor. E ao mesmo tempo reconhece que Ele não é Deus sanguinário, que se agrade da violência e da injustiça. De maneira que foi com justiça e equidade que Davi empreendeu todas as guerras em que teve que se empenhar. Quão diferentemente disto costumam agir todos os demais governantes da terra, que se esquecem do Senhor, da justiça e da benignidade, e que usam da impiedade nas guerras para o aumento da glória do próprio nome deles.

“Louvar-te-ei, SENHOR, de todo o meu coração; contarei todas as tuas maravilhas. Alegrar-me-ei e exultarei em ti; ao teu nome, ó Altíssimo, eu cantarei louvores. Pois, ao retrocederem os meus inimigos, tropeçam e somem-se da tua presença; porque sustentas o meu direito e a minha causa; no trono te assentas e julgas retamente. Repreendes as nações, destróis o ímpio e para todo o sempre lhes apagas o nome. Quanto aos inimigos, estão consumados, suas ruínas são perpétuas, arrasaste as suas cidades; até a sua memória pereceu. Mas o SENHOR permanece no seu trono eternamente, trono que erigiu para julgar. Ele mesmo julga o mundo com justiça; administra os povos com retidão. O SENHOR é também alto refúgio para o oprimido, refúgio nas horas de tribulação. Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome, porque tu, SENHOR, não desamparas os que te buscam. Cantai louvores ao SENHOR, que habita em Sião; proclamai entre os povos os seus feitos. Pois aquele que requer o sangue lembra-se deles e não se esquece do clamor dos aflitos. Compadece-te de mim, SENHOR; vê a que sofrimentos me reduziram os que me odeiam, tu que me levantas das portas da morte; para que, às portas da filha de Sião, eu proclame todos os teus louvores e me regozije da tua salvação. Afundam-se as nações na cova que fizeram, no laço que esconderam, prendeu-se-lhes o pé. Faz-se conhecido o SENHOR, pelo juízo que executa; enlaçado está o ímpio nas obras de suas próprias mãos. Os perversos serão lançados no inferno, e todas as nações que se esquecem de Deus. Pois o necessitado não será para sempre esquecido, e a esperança dos aflitos não se há de frustrar perpetuamente. Levanta-te, SENHOR; não prevaleça o mortal. Sejam as nações julgadas na tua presença. Infunde-lhes, SENHOR, o medo; saibam as nações que não passam de mortais.”

Silvio Dutra

SALMO 3 - com interpretação (nota: todos os salmos estão interpretados)

Salmo de Davi, quando fugia de Absalão

Neste Salmo Davi expressa a sua completa confiança no Senhor, e recebeu dEle paz e força de espírito para não temer a nenhum dos milhares de inimigos que se levantaram contra ele em todo Israel, por causa da conspiração de seu próprio filho Absalão. Ele pede ao Senhor proteção contra os ímpios que se levantaram contra Ele para o matar, mas ao mesmo tempo pede que Deus destruísse os ímpios que intentavam contra a sua vida.

“SENHOR, como tem crescido o número dos meus adversários! São numerosos os que se levantam contra mim. São muitos os que dizem de mim: Não há em Deus salvação para ele. Porém tu, SENHOR, és o meu escudo, és a minha glória e o que exaltas a minha cabeça. Com a minha voz clamo ao SENHOR, e ele do seu santo monte me responde. Deito-me e pego no sono; acordo, porque o SENHOR me sustenta. Não tenho medo de milhares do povo que tomam posição contra mim de todos os lados. Levanta-te, SENHOR! Salva-me, Deus meu, pois feres nos queixos a todos os meus inimigos e aos ímpios quebras os dentes. Do SENHOR é a salvação, e sobre o teu povo, a tua bênção.”

Silvio Dutra

“Vós, que amais ao Senhor, odiai o mal.” (Salmos 97.10)





Tens bons motivos para "odiar o mal", basta considerares o dano que já operou em ti. Oh, que mundo de males o pecado trouxe ao teu coração! O pecado te cegou de forma que não pudesses ver a beleza do Salvador; te fez surdo para que tu não pudesses ouvir os doces convites do Redentor. O pecado conduziu teus passos para o caminho da morte, e derramou veneno na própria fonte do teu ser; maculou o teu coração, e tornou-o "enganoso acima de todas as coisas, e desesperadamente corrupto". Oh, que criatura eras quando o mal fez tudo que pôde contigo, antes da divina graça interpor-se!
Eras um herdeiro da ira como os demais; "correstes com a multidão para fazer o mal." Assim éramos todos nós; mas Paulo nos lembra, "mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus , e pelo Espírito do nosso Deus.". Temos boas razões, de fato, para odiar o mal quando olhamos para trás e seguimos o rastro dos seu efeitos mortais. Tantos foram os danos que o mal nos fez, que nossa alma teria sido perdida se o amor onipotente não tivesse intervindo para nos redimir. Mesmo agora, ele é um inimigo ativo, sempre espreitando para nos ferir e nos arrastar para a perdição. Portanto, “odeiem o mal". Ó cristãos, a menos que desejem desgostos.
Se vocês espalharem espinhos pelo seu caminho, e plantarem urtigas no seu leito de morte, então deixem de "odiar o mal"; mas se preferirem viver uma vida feliz e uma morte em paz, então andem por todos os caminhos da santidade , detestando o mal, até o fim .
Se realmente amas o teu Salvador, e desejas honrá-lo, "odeie o mal". Não conhecemos nenhuma cura para o amor ao mal em um cristão, senão pela grande intimidade com o Senhor Jesus. Viva com ele, e será impossível estar em paz com o pecado.

"Ordena os meus passos na tua Palavra,
E faz meu coração sincero;
Não deixe o pecado ter nenhum domínio , Senhor,
Mas mantenha a minha consciência limpa."

Texto de Charles Haddon Spurgeon, Traduzido por Iza Rainbow

Charles Haddon Spurgeon

“A misericórdia de Deus." (Salmo 52.8)



Medite um pouco sobre esta misericórdia do Senhor. Ela é uma terna misericórdia. Com gentil toque amoroso, ela sara os quebrantados de coração, e lhes ata as suas feridas.
O Senhor é tão gracioso na forma de ministrar a sua misericórdia! Ela é grande. Não há nada pequeno em Deus, a sua misericórdia é como ele - ela é infinita. Você não pode medi-la. Sua misericórdia é tão grande que perdoa grandes pecados de grandes pecadores, depois de grandes períodos de tempo, e, em seguida, dá grandes favores e privilégios, e nos levanta para grandes alegrias no grande céu do grande Deus.
É misericórdia imerecida, como, aliás, toda a verdadeira misericórdia deve ser, porque misericórdia merecida é apenas um equívoco de justiça.
Não havia direito por parte do pecador para tal tipo de consideração do Altíssimo; tendo o rebelde sido condenado ao fogo eterno, ele teria merecido justamente a condenação, e se é livrado da ira, apenas o amor soberano é a causa, porque nada havia no próprio pecador. Isto é a riqueza da misericórdia .
Algumas coisas são grandes, mas têm pouca eficácia em si mesmas, mas a misericórdia é um estímulo para seus espíritos caídos; um unguento de ouro para os seus ferimentos; uma bandagem celestial para seus ossos quebrados; uma carruagem real para os seus pés cansados; um seio de amor para o seu coração turbado.
É uma misericórdia múltipla, variegada. Como Bunyan diz: "Todas as flores no jardim de Deus são duplicadas." Não há misericórdia solitária. Você pode pensar que você tem senão uma misericórdia, mas você as achará num amplo conjunto de misericórdias. É abundante misericórdia. Milhões a têm recebido, e ainda está muito longe de serem esgotadas; são renovadas, plenas, e livres para sempre. É misericórdia infalível. Nunca te deixará. Se a misericórdia é tua amiga, a misericórdia estará contigo na tentação para te guardar da queda; contigo em tribulações para evitar que naufragues; com a tua vida para ser a luz e a vida do teu semblante; e contigo na morte para ser a alegria da tua alma quando o conforto terreno estiver diminuindo rapidamente.

Texto de autoria de Charles Haddon Spurgeon, traduzido e adaptado pelo Pr Silvio Dutra.

Charles Haddon Spurgeon

“Contigo está o manancial da vida". (Salmo 36.9)

Há momentos na nossa experiência espiritual, quando o conselho ou simpatia humanos, ou ordenanças religiosas, não conseguem nos confortar ou ajudar. Por que o nosso bondoso Deus permite isso? Talvez seja porque temos vivido muito sem ele, e, portanto, ele tira tudo em que temos o hábito de depender, para que ele possa nos levar para si mesmo.
É uma coisa abençoada viver no manancial. Enquanto o nosso odre está cheio de água, estamos contentes, como Agar e Ismael, indo para o deserto (Gên 21.16), mas quando este se seca, nada vai nos servir, mas “Deus tu me viste”.
Nós somos como o filho pródigo - amamos o cocho dos suínos e esquecemos a casa de nosso Pai. Lembre-se, nós podemos fazer chiqueiros e as cascas do pródigo, mesmo fora das formas de religião; elas são coisas abençoadas, mas podemos colocá-las no lugar de Deus, e então elas não têm qualquer valor. Tudo se torna um ídolo quando nos mantém longe de Deus: mesmo a serpente de bronze é para ser desprezada como "Neustã", se nós a adorarmos no lugar de Deus.
O filho pródigo nunca esteve mais seguro do que quando ele foi levado para o seio de seu pai, porque ele não poderia encontrar alimento em nenhum outro lugar. Nosso Senhor nos favorece com uma fome na terra que pode nos fazer buscá-lo ainda mais. A melhor posição para um cristão é viver integral e diretamente na graça de Deus - ainda permanecendo onde ele se levantou pela primeira vez - "Nada tendo, mas possuindo tudo."
Nunca pensemos sequer por um momento que estamos de pé por nossa santificação, nossa mortificação do pecado, nossas graças, ou por nossos sentimentos, porque sabemos que isto se deve a Cristo que ofereceu uma expiação completa, portanto, somos salvos, pois somos completos nEle. Nada tendo em nós mesmos para confiar, senão descansar nos méritos de Jesus - sua paixão e vida santa nos fornecem o único fundamento seguro de confiança. Amados, quando somos levados a uma condição sedenta, temos a certeza de voltarmos para a fonte da vida com entusiasmo.

Texto de autoria de Charles Haddon Spurgeon, traduzido e adaptado pelo Pr Silvio Dutra.

Charles Haddon Spurgeon

Salmo 119.67 - Conhecendo o Bem que Há na Aflição



Tradução e adaptação elaboradas pelo Pr Silvio Dutra, de citações extraídas do comentário de autoria de Thomas Manton, sobre o Salmo 119.67.

“Antes de ser afligido andava errado, mas agora guardo a tua palavra” (Salmo 119.67)

Neste versículo, você pode observar duas coisas:

1. O mal na prosperidade - antes de ser afligido andava errado.
2. O bem na adversidade - mas agora guardo a tua palavra. Antes andava errante, mas agora atento ao seu dever. Ou, se quiser, aqui está a necessidade das aflições e a utilidade delas.

1. A necessidade, "Antes de ser afligido andava errado”. Alguns pensam que Davi, personifica a libertinagem e a obstinação de toda a humanidade. Se assim fosse, no entanto, a pessoa em quem o exemplo é dado é notável. Se esta foi a disposição do profeta e homem de Deus, e se ele precisava desta disciplina, muito mais nós: se ele pôde dizer isto, com verdade de coração, que ele foi piorado por sua prosperidade, precisamos ser sempre zelosos conosco; e se não fosse por este flagelo, que nos aflige, esqueceríamos o nosso dever e a obediência que devemos a Deus.
2. A utilidade e benefício das aflições, "mas agora guardo a tua palavra." Guardar a lei é uma palavra genérica. O uso da vara da disciplina de Deus é para nos levar para casa com Deus, e a aflição nos impeliu para fazer melhor uso da sua palavra: ela nos mudou da vaidade para a seriedade, do erro para a verdade, do orgulho para a modéstia. E o apóstolo nos diz que o próprio Jesus Cristo aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu, Heb 5.8, e aqui Davi foi feito melhor pela cruz.
Podemos observar nas palavras do texto três coisas:

1. A confissão de suas andanças, "andava errado”.
O pecado dá causa às aflições. Há aqui um reconhecimento secreto de sua culpa, que o seu pecado foi a causa do castigo que Deus trouxe sobre ele.

2. O método que Deus usou para conduzi-lo ao seu dever, "Eu fui afligido”.
A verdadeira noção e a natureza da aflição para o povo de Deus. A cruz muda a sua natureza, e não é uma punição destrutiva, mas uma ministração medicinal, e um meio de nossa cura.

3. O sucesso ou o efeito do método divino: "Eu tenho guardado a tua palavra".
A finalidade é a obediência, ou guardar a palavra de Deus. A soma de tudo é, eu estava fora do caminho, mas a tua vara me afligiu, e me levou para a obediência novamente.
Eu poderia observar muitos pontos, mas a doutrina de todo o versículo é:
Doutrina: Que o fim da aflição que nos vem de Deus, é para reconduzir o seu povo desviado para o caminho reto.
Vou explicar este ponto por estas considerações.
1. Que o homem é de uma natureza desviada, apto para abandonar o caminho que conduz a Deus e à verdadeira felicidade. Somos todos assim por natureza: Isa 53.6 “Todos nós, como ovelhas, nos desviamos.” As ovelhas superam todas as demais criaturas, quanto a estarem sujeitas a se desviar, e se não forem cuidadas e guardadas da melhor maneira possível, são incapazes de se manterem fora do erro, e quando erram, são incapazes de voltar ao redil por si mesmas.
Por isso as ovelhas são o símbolo usado pelo Espírito Santo para representar a natureza da humanidade. Mas isto se dá melhor conosco depois de termos recebido a graça? Não; nós somos, em parte, ainda assim. O melhor de nós, se for deixado por sua própria conta, quão breve se desviará do caminho certo? em que erros tristes incorrerá? Sl 19.12: "Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas.” Desde que recebemos a graça, todos nós temos os nossos desvios; embora os nossos corações sejam ajustados para andarem com Deus para o principal na vida cristã, mas sempre e logo estamos nos desviando da nossa obediência, transgredindo os nossos limites, e negligenciando o nosso dever. Bem que Davi tinha razão em dizer, Sl 119.176, “eu ando desgarrado como ovelha perdida: oh, procura o teu servo!"
Nós nos extraviamos, não somente por ignorância, mas por perversidade de inclinação: Jer 14.10, “Assim eles gostavam de andar errantes, e não detiveram os seus pés. “Temos corações que amam vagar; amamos mudanças, ainda que seja para pior, e assim estaremos fazendo excursões para os caminhos do pecado.
2. Este pendor para se desviar é muito aumentado e incentivado pela prosperidade, que, embora seja boa em si mesma, no entanto, por sermos tão perversos por natureza, fazemos o pior uso dela.
Que os maus se tornam piores por causa da prosperidade, é evidente: Isa 26.10, “Ainda que se mostre favor ao perverso, nem por isso aprende a justiça;". A luz do sol em cima do monte de esterco nada produzirá, senão fedor, e o sal do mar vai tornar salgado tudo o que cair nele. Então, os homens ímpios convertem tudo ao seu modo e gosto. Nenhuma misericórdia ou juízo de Deus farão qualquer gracioso e amável trabalho sobre eles, mas, se tudo for bem com eles, tomam mais liberdade para viverem livre e profanamente. O temor de Deus, que é o grande freio de toda maldade, é menor e praticamente fica perdido neles quando não veem qualquer mudança em seu caminhar: Sl 55.19: "porque não há neles mudança nenhuma, e não temem a Deus.” Este pequeno temor servil que eles têm, o qual poderia guardá-los de ficarem vagando, é então perdido, e quanto mais suavemente Deus tratar com eles, mais incrédulos e seguros eles ficam.
Quando eles se tornam prósperos e sem problemas, ficam mais obstinados do que nunca. Mas não é assim com o povo de Deus também? Sim, na verdade, Davi, cujo coração bateu quando ele cortou a orla do manto de Saul quando estava vagando no deserto, pôde planejar a morte de Urias, seu servo fiel, enquanto ele Davi estava confortavelmente em seu palácio.
Perdemos muita ternura de consciência, vigilância contra o pecado, muito desta diligência viva que devemos manifestar na realização da vida espiritual, quando estamos em facilidades e todas as coisas vão bem conosco. Estamos aptos a entrar na carne quando temos tantas iscas para alimentá-la; e para aprender a estar contente em Cristo quando há plena prosperidade é uma lição mais difícil do que aprender a estar contente quando se é humilhado, Fp 4.12, e, portanto, se Deus não nos corrigir, cresceremos descuidados e negligentes.
O princípio de toda a obediência é a mortificação da carne, o que naturalmente não podemos suportar. Depois que temos nos apresentado e submetido a Deus, a carne estará procurando sua presa, e se rebelando contra o espírito, até que Deus arranque suas seduções de nós. Por isso o Senhor se vê forçado a nos quebrar por diversas aflições para nos conduzir em ordem. Nós o forçamos a nos humilhar pela pobreza, ou vergonha, ou doenças, ou por meio de conflitos domésticos, ou alguma inconveniência da vida natural e animal, e tudo o que valorizamos muito. Além disso, nossos afetos pelas coisas celestes definham quando todas as coisas sucedem conosco neste mundo de acordo com o desejo do nosso coração, e esta frieza e indolência não são facilmente removidas.
Muitos são como os filhos de Rúben e Gade, Números 32, que quando encontraram pastagens convenientes do outro lado do Jordão, estavam contentes com que fosse a sua herança, sem procurar qualquer coisa na terra prometida. Então seus desejos são estabelecidos insensivelmente aqui, e têm menos interesse no bem do mundo vindouro.
3. Quando sucede assim conosco, Deus julga conveniente enviar as aflições. Grande parte da sabedoria da providência de Deus é para ser observada;
a) Em parte na época de aflição, em que o estado e a postura da alma nos surpreendem, quando andamos errantes, quando mais precisamos disto, quando o nosso abuso da prosperidade clama em voz alta por isto; quando as ovelhas se desviam, o cão é solto para buscá-las. Deus ordena a sua providência para as nossas necessidades: 1 Pedro 1.6, “Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações,”. Ai! muitas vezes vemos que as aflições são altamente necessárias e oportunas, tanto para evitar uma enfermidade que está crescendo em nós, ou para nos recuperar de algum curso mal no qual nos desviamos de Deus. Paulo estava em perigo de se tornar orgulhoso, e então Deus mandou um espinho na carne. Esta disciplina é muito boa e necessário antes de a doença se espalhar longe demais.
b) Grande parte da sabedoria e providência divina também são observadas, em parte, no tipo de aflição. As várias concupiscências devem ter remédios específicos. O orgulho, a inveja, a cobiça, a libertinagem, a emulação, têm todas as suas curas apropriadas.
Todos os pecados se referem a três fontes impuras: 1 João 2.16, "Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo." A partir dos desejos (concupiscência) da carne surgem não apenas os atos grosseiros de lascívia, fornicação, adultério, gula, embriaguez, que assolam boa parte da humanidade, e surge também um amor desordenado a prazeres, companhias vãs, e entretenimentos vãos, a complacência carnal, ou a satisfação carnal.
A concupiscência dos olhos, a avareza e a mentalidade mundana, produzem miséria, rapinas, contendas, conflitos, ou o desejo imoderado de adquirir casa sobre casa, campo sobre campo, e toda sorte de bens e confortos materiais.
Do orgulho (soberba) da vida vem a ambição, conceito elevado de nós mesmos, escárnio e desprezo dos outros, afetação por honra e reputação no mundo, a pompa, finura de trajes e inúmeras vaidades, para constranger a outros! Agora, Deus, que pode se encontrar com os seus servos quando eles estão tropeçando em qualquer tipo destas coisas referidas, envia as aflições como seus mensageiros fiéis para detê-los em sua carreira, para que a carne não possa navegar e levá-los para longe com um vendaval completo.
Contra os desejos da carne, ele manda doenças e enfermidades; contra os desejos dos olhos, a pobreza e decepções em nossas relações; contra o orgulho da vida, desgraças e vergonha, e às vezes ele faz variações na forma da dispensação destas aflições, porque sua providência guarda um teor, e cada cura será aplicada conforme o temperamento de cada pessoa, nem tudo vai funcionar da mesma forma para todos.
A sabedoria de Deus pode ser observada no tipo de aflição, e quão apropriado é este trabalho que é feito; porque Deus faz todas as coisas em número, peso e medida. Em parte pela maneira como ele vem sobre nós, por quais instrumentos e de que tipo. Quantos se fazem miseráveis por uma cruz imaginada! e assim, quando todas as coisas estão bem com eles, suas próprias paixões se tornam um fardo para si mesmos, e quando não estão feridos em sua honra, nem sofrendo perda de imóveis, nem agredidos em sua saúde, nem suas relações cortadas e conflitadas, mas sendo cobertos com toda a felicidade temporal, parece não haver qualquer espaço ou lugar para qualquer aflição ou problema em suas vidas, e ainda assim, na plenitude de sua suficiência, Deus lhes traz um terror e um peso, ou então por seus próprios temores, ou pela falsa imaginação de alguma perda ou desgraça, Deus os torna desconfortáveis ​​e cheios de inquietação, e eles se tornam mais problemáticos do que aqueles que estão em conflitos reais, sim, com os maiores males. Hamã é um exemplo: ele foi um dos príncipes do reino da Pérsia, que nadava em riqueza e todos os tipos de delícias, em grau de dignidade e honra, ao lado do próprio rei, e, ainda, porque Mordecai, um judeu pobre, não lhe fez a reverência esperada, disse: “Tudo isso não me satisfaz", Ester 5.19.
Assim, tão logo Deus envie um verme na cabeça mais justa, e uma insatisfação na propriedade mais próspera do mundo, e os homens não terão descanso dia e noite, especialmente se uma centelha da sua ira brilhar na consciência: Sl 39.11: “Quando castigas o homem com repreensões, por causa da iniqüidade, destróis nele, como traça, o que tem de precioso.”. Há um segredo que a traça come todo o seu contentamento, pois eles estão sob terror, desânimo e falta de paz: Deus lhes ensina que nada pode ser apreciado de forma satisfatória para além da sua própria bênção: "Um fogo não soprado deve consumi-los”, Jó 20.26.
c) Em parte, vemos também a sabedoria e a providência de Deus, na continuidade das aflições. Deus ordena, tirar e lançar em aflições a seu próprio prazer, e quando ele vê que elas agiram em nosso proveito.
Variedade de aflições podem atingir o melhor e mais querido dos filhos de Deus, havendo nos melhores muitas corrupções, tanto para serem descobertas e subjugadas, e muitas graças para serem provadas: 1 Pedro 1.6 “Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações,”, e Tiago 1.2, "Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações". Um problema opera nas mãos de outro, e a sucessão deles é tão necessária quanto o primeiro golpe sofrido.
4. A aflição assim enviada tem um uso notável para nos conduzir a um senso e cuidado do nosso dever. As aflições são comparadas nas Escrituras ao fogo que purga a nossa escória: 1 Pedro 1.7. “Para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo;”. As aflições são comparadas também à poda da tesoura que corta os ramos inúteis, e faz com que os demais sejam mais frutíferos: João 15.2. Então, Heb 12.11, “Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça.”.
Portanto, não devemos ficar desanimados quando Deus usa as aflições para o nosso próprio bem.
“e estais esquecidos da exortação que, como a filhos, discorre convosco: Filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado; porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe. É para disciplina que perseverais ( Deus vos trata como filhos ); pois que filho há que o pai não corrige?” (Heb 12.5-7)
Não devemos portanto suportar as aflições com falta de sabedoria, com uma mente insensata, que possa nos impedir de alcançar o propósito de Deus que se encontra embutido nelas. Qual pai ficaria contente com a rejeição por parte de seus filhos, de sua disciplina e correção?
Por que o homem se queixaria do castigo merecido do seu pecado? Sobretudo quando isto é feito pelas mãos de um Pai de amor?
O fim da correção pela aflição é o nosso arrependimento e a nossa transformação, tanto para corrigir o pecado passado, quanto para prevenir o pecado ainda por vir.
Assim, ainda que gemamos dizendo: “Senhor, dá-me outra cruz, mas não esta!”, devemos reconsiderar o dito irrefletido de nossos lábios, e aceitarmos com submissão voluntária a cruz que Deus sabe de antemão, que é a única que se ajusta para a correção da nossa condição. Trocá-la por outra não produzirá o efeito esperado por Deus em nós.
Deus não sente prazer em nos afligir, isto lhe dói em seu coração de Pai perfeitamente amoroso que é. “Ele não aflige, nem entristece os filhos dos homens, de bom grado." (Lam 3.33).
Afinal todo este enfraquecimento do pecado e do nosso ego carnal tem em vista possibilitar o nosso fortalecimento com a graça.
Daí estar escrito: Prov 24.10: "Se te mostras fraco no dia da angústia, a tua força é pequena."

Thomas Manton

Salmo 119.36 – Por Thomas Manton – Parte 1

“Inclina o meu coração para os teus testemunhos, e não à cobiça.” (Salmo 119.36).

Tradução e adaptação elaboradas pelo Pr Silvio Dutra, de citações extraídas do comentário de autoria de Thomas Manton, sobre o Salmo 119.36.

Nos versículos anteriores Davi pediu compreensão e direção para conhecer a vontade do Senhor, agora ele pede uma inclinação do seu coração para fazer a Sua vontade.
Não somente o entendimento deve ser esclarecido, mas a vontade deve ser movida e mudada.
O coração do homem é, por sua própria vontade avesso a Deus e à santidade, mesmo quando a inteligência é mais refinada, e o entendimento é abastecido com altas noções sobre o assunto, por isso, Davi não disse apenas: “Dá-me entendimento”, mas "Inclina o meu coração".
Podemos ser mundanos de nós mesmos, mas não podemos ser santos e espirituais de nós mesmos; isto deve ser pedido àquele que é "o Pai das luzes, do qual procede toda dádiva boa e perfeita.”
Aqueles que pleiteiam o poder da natureza como apto para produzir a retidão, excluem o uso da oração; pois se, por natureza, podemos determinar para nós mesmos o que é bom, não haveria necessidade de graça; e se não houvesse necessidade da graça, não haveria qualquer utilidade na oração.
Assim fez Davi, e assim fará todo cristão com o coração partido que tenha tido uma experiência das inclinações de sua própria alma; ele virá a Deus e dirá: "Inclina o meu coração para os teus testemunhos, e não à cobiça."
Nestas palavras há algo implícito e expressado. O que está implícito é uma confissão, o que se expressa é uma súplica. Aquilo que ele confessa é a inclinação natural do seu coração para as coisas do mundo e, por conseguinte para todos os males, porque todos os pecados recebem vida e força de inclinações mundanas. O que ele implora é que a inclinação total e o consentimento de seu coração possam conduzi-lo aos testemunhos de Deus. Ou, resumidamente, temos aqui:
1. A coisa pedida - inclina meu coração.
2. O objeto desta inclinação, expressada de forma positiva - para os teus testemunhos; e negativamente - e não para a cobiça.
"Inclina o meu coração”, a palavra implica:
1. Nossa obstinação natural e desobediência à lei de Deus, pois se o coração do homem fosse naturalmente propenso, e voluntariamente pronto para a obediência, seria em vão dizer a Deus: "Inclina o meu coração." Ai! mas até que Deus nos incline para o outro lado permanecemos avessos aos seus mandamentos. Há uma vontade corrompida que pende para trás, e deseja algo, em vez daquilo que é certo. Precisamos ser conduzidos e inclinados novamente como uma vara torta para o outro lado, para que possa ser endireitada.
2. Isto implica o ato gracioso e poderoso de Deus na alma, onde o coração é fixado e dirigido para o que é bom, quando há uma propensão para o que é contrário a isto; este é o fruto da graça eficaz.
1. Quando é dito que o coração está inclinado para os testemunhos de Deus? Eu respondo - Quando a tendência habitual de nossas afeições é mais para a santidade do que para as coisas do mundo (porque o poder do pecado está no amor ao mundo), e assim faz com que sejamos aptos para a graça e ao amor por ela.
Então, nós estamos inclinados para os testemunhos de Deus, quando os nossos afetos têm uma propensão para o que é bom. Agora, esses afetos devem ser mais para a santidade do que para as coisas mundanas; porque é pela prevalência que a graça é determinada, se a parte preponderante da alma se inclina para Deus. Isto não é uma postura permanente; pois estamos sempre nos levantando entre as duas partes. Há Deus e o mundo; um senso bom pendendo de um modo, e há um bem espiritual que nos pende de outra maneira. Agora, a graça prevalece quando o prato da balança pende para o lado da graça. Eu digo que isto é a inclinação habitual, não uma sensação súbita; o coração deve ser dirigido a buscar o Senhor: 1 Crônicas 22.19, “Disponde, pois, agora o coração e a alma para buscardes ao Senhor, vosso Deus”; e no curso de nossos esforços, a força e o fluxo de nossas almas operam desta forma; então é disso que é dito que o coração está inclinado aos testemunhos de Deus.
2. Como é que Deus age para conduzir e enquadrar os nossos corações à obediência de sua vontade? Há duas maneiras que Deus usa, pela Palavra e pelo seu Espírito, pela persuasão e pelo poder; eles devem ser "ensinados por Deus”, e eles são “atraídos por Deus”: João 6.44. "O Senhor engrandecerá Jafé” Gên 9.27, então ele trabalha com persuasão, e em seguida, pelo poder, Ez 36.26,27, “Eu farei com que andeis nos meus caminhos”, etc. Deus atrai com uma força irresistível e com doçura juntamente. Ele opera como Deus, pois ele trabalha forte e invencivelmente, mas ele convence homens como homens, por isso ele propõe razões e argumentos, trabalhando por meio de persuasão; fortemente de acordo com sua própria natureza, docemente segundo a do homem, por persuasões acompanhadas pela eficácia secreta de sua própria graça. Primeiro ele dá razões pesadas, ele lança peso após peso até que o prato da balança seja mudado de posição; então ele faz tudo eficazmente pelo seu Espírito. Ele trabalha moralmente, porque Deus preservará a natureza do homem e portanto os seus princípios, e assim ele não trabalha pela violência, mas por uma doce inclinação fascinante, e falando confortavelmente a nós: Oséias 11.4, "Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor". Deus conhece todas as divisões do coração do homem, e que tipo de chaves vão abrir as trancas, por isso ele adapta esses argumentos para que possam trabalhar em nós, e nos trazer a ele no nosso tempo apropriado (este tempo é diferente para cada pessoa), e então para que o efeito que se seguirá possa realmente prevalecer.
Deus inclina o coração para o que é bom, e o convence pela sua graça. Deus sabe como alterar o curso de nossas afeições pelo seu poder secreto.
Para os teus testemunhos – assim a palavra de Deus é chamada, pois testifica de sua vontade. Temos uma prova clara e o testemunho como Deus fica afetado por cada homem, que tipo de afeição Deus tem para com ele.
E não para a cobiça - Marque esta frase: não me incline para a cobiça. Porventura Deus nos inclina para a cobiça? Não, mas ele nos permite as inclinações de nossos próprios corações, justamente por negar a sua graça àqueles que o ofendem, e após a suspensão da sua graça, a natureza é deixada ao seu próprio domínio: a presença do comandante ou piloto salva o navio, a sua ausência é a causa dos destroços. E assim, os escolásticos dizem, Deus se inclina para uma boa eficiência, trabalhando em nós, e para uma má deficiência, retirando a sua graça de nós. Você tem uma expressão parecida no Sl 141.4 “Não permitas que meu coração se incline para o mal.” Deus pode, como um senhor fazer o que lhe agrada com o que lhe pertence; e como um justo juiz pode deixar nossos corações entregues à sua própria inclinação perversa natural.
“Não para a cobiça". Isto é mencionado porque o nosso amor demasiado às coisas mundanas é o obstáculo especial para a obediência; isto tira os nossos corações do amor e cuidado pela submissão à vontade de Deus. E então, quando ele diz "não para a cobiça", ele demonstra a sua própria estima e escolha, como preferindo os testemunhos de Deus acima de todas as riquezas, e, possivelmente, sugere a sinceridade de seus objetivos, de que não iria servir a Deus por vantagens temporais e honrarias mundanas. Satanás acusou Jó a respeito disto de um modo muito perverso: Jó 1.9, "Porventura Jó serve a Deus em vão?" Davi, para evitar tal suposição, e que ele não foi levado por qualquer pensamento de ganho interesseiro por desejar a piedade, disse: “Para os teus testemunhos, e não à cobiça.".
Estas palavras nos oferecem duas observações:
1. Que somente Deus pode conduzir os nossos corações ao que é reto, ou incliná-los de seu pendor carnal para os Seus testemunhos.
2. Que a cobiça ou o desejo flagrante das coisas mundanas, é um grande impedimento para se cumprir os testemunhos de Deus.
Analisemos a primeira observação com as seguintes considerações:
Primeiro, o coração do homem deve ter um objeto para o qual esteja inclinado ou então se decompõe, pois ele é como uma esponja, que tem sede em si mesma, suga a umidade de outras coisas; é um caos de desejos, buscando ser preenchido com algo de fora. Fomos feitos um para o outro, para sermos felizes na alegria de um ser fora de nós; por isso o homem deve ter algo para amar, pois os afetos da alma não podem permanecer ociosos e sem um objeto amado: Sl 4.6, “Há muitos que dizem: Quem nos dará a conhecer o bem?”. Todos nós buscamos por algo para satisfazer os nossos afetos.
Em segundo lugar, o coração que é destituído de graça, é totalmente conduzido pelas coisas temporais. Por quê? Porque elas estão próximas da mão, e se adequam melhor com a nossa natureza carnal.
Thomas Manton

Thomas Manton

Salmo 119.36 – Por Thomas Manton – Parte 2

“Inclina o meu coração para os teus testemunhos, e não à cobiça.” (Salmo 119.36).

Tradução e adaptação elaboradas pelo Pr Silvio Dutra, de citações extraídas do comentário de autoria de Thomas Manton, sobre o Salmo 119.36.


Há duas razões adicionais que inclinam o coração do homem ao que é temporal - (1) Inclinação natural, e (2) Costume inveterado.
1. Inclinação natural. Que há uma maior propensão em nós para o mal do que para o bem está claro, não somente pela Escritura, mas pela experiência comum. Agora porque somos assim tão viciosamente dispostos? A alma que foi criada por Deus, não recebeu dele qualquer infusão de mal, porque isto não está de acordo com a santidade da sua natureza divina. Eu respondo - Apesar de a alma ter sido criada por Deus, todavia está destituída de graça ou justiça original e, sendo destituída da imagem de Deus, ou da justiça original, só pode estar envolvida com as coisas presentes e conhecidas, não tendo outra fonte de luz e princípio para guiá-la.
Agora as coisas conhecidas e as coisas presentes, elas são os prazeres do corpo, do homem exterior, riqueza, honra e tudo o que é natural. Agora, quando isto ocupa totalmente a nossa mente, nos afasta do amor e estudo das coisas sobrenaturais. É verdade que estas coisas são boas em si mesmas, mas apesar de serem naturalmente boas, elas se mostram moralmente más quando o amor dessas coisas destrói o amor de Deus, o que deve acontecer se estivermos destituídos da graça. O amor de nós mesmos e pelas coisas exteriores cresce necessariamente excessivo, quando não é guiado e dirigido pela graça.
Tire a luz do ar, e ficará escuro, e quando o sol está baixo, deve ser noite. Assim ocorre se a graça é tirada. A grande obra da graça é fazer de Deus o nosso fim e nosso bom Senhor. Agora, este fim último sendo trocado, todas as coisas devem funcionar necessariamente em desordem com o homem. Por quê? Porque o fim último é o princípio mais universal do qual todas perfeições morais dependem. Veja, como Adão e Eva, depois de terem comido o fruto proibido, perderam a imagem de Deus, e foram poluídos, assim também nós. Por quê? Será que Deus infundiu poluição e imundícia neles? ou tinha o fruto proibido tal qualidade venenosa? Não, o seu fim último foi alterado, que é o grande princípio que atravessa todas as nossas ações, e quando o nosso fim é alterado, então tudo fica em desordem. Eles caíram de Deus, com inveja, falsidade, e desejando o mal para eles, e por instigação do diabo viraram-se para a criação para encontrar a felicidade nela, contra a vontade e ordem expressa de Deus. Assim como o primeiro homem foi completamente pervertido, assim estão todos os homens também totalmente pervertidos, pois o pecado ainda consiste numa conversão de Deus para a criatura, Jer 2.13, 2 Tim 3.4.
Pela troca do nosso fim último toda a bondade moral está perdida, pois todos os meios estão subordinados ao fim último, e são determinados por ele. Agora necessariamente isto estará sem a graça; haverá uma conversão do homem para a criatura e para o corpo, com as conveniências e confortos dos mesmos, o interesse e tudo o que concerne ao corpo será seguido em vez de Deus. Porque quando a alma desce do mundo superior, logo se esquece de sua origem divina, e por estar no corpo, ela se conforma com o corpo, e apenas adere a objetos visíveis e corporais. Como a água, que sendo colocada em um recipiente quadrado, tem uma forma quadrada, em um vaso redondo, tem uma forma redonda, de modo que a alma, sendo infundida no corpo, é liderada por ele, e acomoda todas as suas faculdades e operações para o bem-estar do corpo. E daí vem a nossa ignorância e aversão da alma à santidade, o desregramento de apetite, e inclinação para as coisas sensuais. Em suma, sem a graça, a mente de um homem se precipita às vaidades mundanas. Como a água corre, onde ela encontra uma passagem, por isso a alma do homem, sendo destituída da imagem de Deus, encontra uma passagem para as coisas temporais, e assim funciona dessa maneira.
2. Assim como o homem está, portanto, corrompido e propenso a objetos mundanos por inclinação natural, assim também, pelo costume inveterado.
Assim que nascemos, o nosso apetite sensual, e os primeiros anos da vida do homem são apenas regidos pelos sentidos; e os próprios prazeres são nascidos e criados conosco, e profundamente gravados na nossa natureza; e pela constante vivência no mundo, conversando com objetos corpóreos, a mancha vai crescendo em nós, e por isso estamos mais profundamente pintados e confirmados num quadro mundano, e vivemos em busca de honra, ganho e prazer, de acordo com o temperamento particular de nossos corpos e curso de nossos interesses que atuam em nossas deliberações: Jer 13.23, "Pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? então podereis também vós fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal." O costume é como uma outra natureza. Nós a achamos pela experiência, quanto mais estamos acostumados a qualquer curso de vida, mais nos deleitamos nele, e somos desmamados dele com uma dificuldade muito grande. Todo ato dispõe a alma ao hábito, e depois que o hábito ou costume é produzido, então cada novo ato deliberado acrescenta uma rigidez ou influência duplicada na faculdade em que o costume está assentado; e quanto mais tempo este mau costume continuar mais facilmente somos levados com as tentações que a ele se ajustam, e mais dificilmente somos influenciados pelo que lhe seja contrário. Agora, esta rigidez de vontade num curso carnal é o que a Escritura chama de dureza de coração e um coração de pedra, porque um homem é seduzido por esses costumes, e de todos os costumes, a cobiça ou o mundanismo é o mais perigoso. Por quê? Porque este é um pecado de mais crédito e de menos infâmia no mundo, e isso vai multiplicar ainda mais seus atos na alma, e operará incessantemente: "têm o coração exercitado na avareza," 2 Pedro 2.14.
Bem, então, essas paixões (cobiças) sendo nascidas e criadas conosco desde a nossa infância, se estabelecem como uma regra. A fé em Cristo, que vem depois, e nos encontra tendenciosos e predispostos a outras inclinações, que, em razão do uso prolongado não são facilmente quebradas e lançadas fora; assim como nas tentações, às quais seremos chamados, ou que começaremos a nos aplicar nos caminhos da vida, estaremos facilmente sensíveis quanto a esta rigidez do coração e obstinação que nos conduzem por um outro caminho.
Em terceiro lugar, o coração estando, portanto, profundamente comprometido com as coisas temporais, ou coisas terrenas, não pode ser guiado por aquilo que é espiritual e celestial, pois Davi propõe essas coisas aqui como sendo inconsistentes, “para os teus testemunhos Senhor, e não para a cobiça.”. Se o coração estiver viciado em coisas mundanas, estará necessariamente avesso a Deus e aos seus testemunhos, pois a tendência habitual do coração para qualquer pecado é incompatível com a graça ou a obediência completa à vontade de Deus. Aquilo para o que o coração estiver inclinado terá o seu trono. Agora, quando indagamos pela graça; temos ou não a graça? tenho a obra de Deus em meu coração? a questão não é o que há de Deus no coração, mas se Deus tem o trono. Algo de Deus está no coração do homem mais perverso que existe, e algo do pecado no melhor coração que existe; por isso qual caminho é a tendência, a inclinação habitual e predominante da alma? Quem que tem o domínio? “Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça.” Rom 6.14. O que tem a prevalência do coração? Embora a consciência tome partido de Deus, como pode tomar fortemente em um homem mau, ainda qual é o caminho para o qual se inclinam as nossas almas? E, assim como todo pecado, em seu reinado é inconsistente com a graça, assim muito mais são as afeições mundanas: Mat 6.24, "Ninguém pode servir a dois senhores".
Você não pode estar inclinado a Deus e ao dinheiro: 1 João 2.15: "Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele."
Em quarto lugar, este quadro de coração não pode ser alterado até ser mudado pela graça de Deus. Por quê? Porque não há qualquer princípio remanescente em nós, que possa alterar este quadro, ou nos tornar insatisfeitos com nosso estado presente, assim como para cuidar de outras coisas, que possam quebrar a força de nossas inclinações naturais e habituais. Há três coisas que se posicionam contra a mudança do coração para Deus.
1. Há a nossa natureza, que nos leva totalmente a favor da carne, e desordenadamente para buscar o bem do corpo. Agora, a natureza não pode subir mais alto do que si mesma, e se aplicar a coisas que estão acima de sua esfera; como a água, que não pode subir mais alto do que a sua fonte. Nossas ações não podem exceder o seu princípio, que é o amor próprio. Mas, além disso,
2. Há o costume adicionado à natureza, que a torna mais endurecida e obstinada; de modo que se pode supor que a consciência é sensível de nosso erro e escolha errada, e algumas considerações de peso devem ser propostas para nós, pois é fácil mostrar que as coisas eternas são muito melhores do que as coisas temporais, e as coisas espirituais do que as carnais - se a consciência, eu digo, deve entrar, e representar o estado doentio no qual nos encontramos, e ainda, porque a postura de nossos corações nos conduz habitualmente de outro modo, estamos não inclinados a Deus ou ao que concerne à vida eterna; porque não será o mero argumento que fará isto.
Com toda a razão um bem menor não deve ser preferido a um maior; e os prazeres mundanos, que não são apenas inferiores e turvos, mas também passageiros, e que dão ocasião a muitos males para nós, estes não devem ser preferidos antes que a felicidade eterna. Mas aqui reside a nossa miséria, embora os prazeres que nos afetam sejam de menor valor em si mesmos, mas a nossa propensão habitual e inclinação habitual para eles é maior.
3. Há a maldição de Deus, ou duras penas. Porque assim como a natureza cresce em costume, pelos nossos pecados costumeiros Deus é provocado, e retira essas influências comuns da graça pelas quais nossa condição poderia ser melhorada, e na aplicação da Sua justiça ele deixa os nossos corações entregues a si mesmos; Oseias 4.17, "Efraim está entregue aos seus ídolos, deixa-o”, Sl 81.12, “Assim, deixei-o andar na teimosia do seu coração; siga os seus próprios conselhos.” Assim deixamos de ter aqueles avisos frequentes e dores de consciência, e os bons pensamentos como antes. "Deixe-o sozinho"; a Providência o deixou só, a consciência, o deixou sozinho, e o pecador é deixado à sua própria vontade. Portanto, de todo o trabalho o que restou foi ser deixado sozinho por Deus, o único que tem poder para perdoar, e para curar a têmpera de nossos corações, ele tem autoridade para tirar essa dura sentença judicial que como um juízo pode continuar sobre nós, e em razão do que os santos se expressam com estas palavras: "Inclina o meu coração para os teus testemunhos,". E vemos assim que Deus tem poder para tirar a dureza natural e habitual que está em nós: "Porque o coração do homem está na sua mão, como os rios de água", Prov 21.1, e pode tão facilmente nos chamar para o bem, assim como a água segue o curso que foi cavado para ela.
Davi diz aqui: “Senhor, incline o meu coração”, e em 1 Reis 8.58: " a fim de que a si incline o nosso coração, para andarmos em todos os seus caminhos e guardarmos os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, que ordenou a nossos pais." Somente a operação de Deus pode dobrar a vara torta para o outro lado. Mas você vai dizer que este trabalho às vezes é atribuído ao homem, por exemplo, no verso 112 deste salmo: “Eu inclinei o meu coração para guardar os teus estatutos, para sempre, até o fim”, e Josué 24.23 “Inclinai o vosso coração ao Senhor Deus de Israel."
Eu respondo - Estas passagens apenas enfocam a nossa operação subordinada, ou o movimento voluntário e resoluto de nossa parte. Quando Deus nos dobrar e inclinar para fazer a sua vontade, quando Deus colocar o nosso amor para agir, e nos posicionar no que é espiritual e bom, então vamos nos inclinar, e dobrar nossos corações desta maneira. De modo que todas essas expressões não implicam uma cooperação, mas a operação subordinada por parte do homem.
(Há um dito popular não bíblico: “faça a tua parte que Deus fará a dele”. Nossa parte é permitir sermos dobrados e movidos por Ele, e não fazer algo específico e diferente do que Ele faz. Nossa parte é crer e obedecer, conforme somos capacitados pela graça – nota do tradutor)
Em quinto lugar, nesta mudança há um enfraquecimento da antiga inclinação para as vaidades carnais, e há um novo pendor de coração derramado sobre nós. O coração é retirado do amor aos objetos terrenos, e então é fixado naquilo que é bom e eterno: Deut 30.6: "O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares o SENHOR, teu Deus, de todo o coração e de toda a tua alma, para que vivas.”. Em primeiro lugar, há uma circuncisão, a poda da carnalidade do coração e, depois, um amor sincero a Deus. Assim lemos em Ezequiel 36.26,27, “tirarei o coração de pedra da vossa carne, e porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos.” Primeiro, a indocilidade da vontade e dos afetos é removida e, em seguida, um coração nos é dado, que é capacitado e maleável para os propósitos da graça. Primeiro, as ervas daninhas são arrancadas, então é plantada em nós a santa semente. Ou então nós “tiramos o velho”, e então “colocamos o novo”, Ef 4.22,23. A corrupção inata natural, que diariamente cresce cada vez pior, é cada vez mais removida, assim com nos despimos da roupa velha para vestirmos a nova.
Em sexto lugar, quando nossos corações são assim mudados, eles estão sempre prontos para retornarem às suas antigas inclinações. Porque Davi, sendo um homem renovado, falou assim com Deus: "Ó Senhor, incline o meu coração para os teus testemunhos, e não para a cobiça." Ele viu o seu coração se entortando novamente, e sendo sensível à infecção, recorreu a Deus. A inclinação que há neles para o mal não está tão perdida para o melhor dos filhos de Deus, e ela retornará, a menos que Deus ainda nos atraia a Si. A esposa de Cristo, aqueles que já se encontram em comunhão com ele, dizem: "Atrai-me”. Este não é um trabalho para ser feito uma única vez e não mais, mas deve ser renovado muitas vezes e repetido na alma, pois existem alguns resquícios de nossa aversão natural, para com Deus, e inimizade para com o jugo da sua palavra, ainda deixados no coração: Gál 5.17, "a carne luta contra o espírito”. Existem dois princípios ativos dentro de nós, e eles estão sempre em guerra um contra o outro. Portanto, há necessidade não somente de estarmos inclinados em primeiro lugar, e atraídos para Deus, mas temos de ir a ele de novo e de novo, e orar a ele diariamente para que ele continue mantendo a tendência de nossos corações na retidão, e enfraqueça as afeições carnais.

Thomas Manton

Thomas Manton

Salmo 119.28 – Por Thomas Manton – Parte 2

“A minha alma se consome de tristeza; fortalece-me segundo a tua palavra.” (Salmo 119.28)

Tradução e adaptação elaboradas pelo Pr Silvio Dutra, de citações extraídas do comentário de autoria de Thomas Manton, sobre o Salmo 119.28.

Vejamos agora, em segundo lugar, a petição de Davi dirigida a Deus, “fortalece-me segundo a tua palavra.” Onde temos:
1. O próprio pedido.
2. Um argumento para aplicá-lo.
Em primeiro lugar, o pedido em si, "Fortalece-me”, que é o benefício solicitado.
Doutrina 1. Observe que o que ele faz agora é abandonar a visão de um pedido de segurança temporal, mas em todo o tempo o seu principal desejo é por graça e por apoio ao invés de libertação.
Para os filhos de Deus, a principal coisa que o seu coração busca é sustentação e apoio espiritual ao invés de libertação: Sl 138.3, “No dia em que eu clamei, tu me acudiste e alentaste a força de minha alma.” Veja que Davi buscava uma audiência, para ser ouvido em oração; ele não pensava em libertação, e ainda assim ele tinha a experiência de conforto interior, era isso que o sustentava.
Os filhos de Deus se avaliam pelo homem interior, ao invés do exterior. Davi aqui ora por si mesmo, Paulo ora por outros: Ef 3.16, “para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior;”. Sim, eles estão contentes com os decaimentos do homem exterior, a fim de que o homem interior possa aumentar em força: 2 Coríntios 4.16, "Embora o nosso homem exterior se corrompa, contudo o homem interior se renova de dia em dia." O homem exterior na linguagem de Paulo é o corpo, com todas as suas conveniências e propriedades, como saúde, beleza, força, riqueza, tudo isso é o homem exterior. Agora, isso não é o desejo de um cristão, prosperar no mundo, ou fazer um show de boa aparência na carne, não, mas seu coração está voltado para crescer mais forte no espírito, para que a alma, como que adornada com as graças do Espírito Santo, possa prosperar, este é o homem interior.
Insistamos um pouco mais sobre este ponto:
1. É o homem interior, que é estimado por Deus, e, portanto, é dele que os santos, principalmente, cuidam. Deus não olha para os homens de acordo com sua condição externa, pompa e aparências do mundo, mas de acordo com os dons interiores do coração: 1 Sam 16.7, "Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração.”. Do homem interior é dito em 1 Pe 3.4, que é “de grande valor diante de Deus”. Deus considera os homens pela alma, quando está fortalecida com graça.
2. O bem-estar eterno de toda pessoa depende do florescimento do homem interior. Quando jogamos fora a vestimenta superior, a pobre alma ficará desamparada, nua e sem porto, se não fizermos qualquer provisão para isto, 2 Coríntios 5.3, e então, o corpo e a alma são desfeitos para sempre.
Para onde irá a alma que é lançada fora, se ela não tiver uma morada eterna no céu para recebê-la?
3. A perda do homem exterior pode ser recompensada e isto é feito pela força da graça que é colocada no homem interior, mas a perda do homem interior não pode ser compensada pelas perfeições do homem exterior. Um homem que sofre em sua condição exterior, pode ser elevado por Deus em graça; se ele é rico na fé, e os filhos de Deus podem achar consolo no fato de o seu homem interior ser fortalecido e renovado dia após dia, 2 Coríntios 4.16, de modo que um homem pode ser feliz apesar das rupturas da paz feitas no seu homem exterior.
A vida espiritual interior é chamada de a vida de Deus, Ef 4.18. A vida interior é o início de nossa vida no céu. Tanto vivem a vida de Deus, um santo glorificado no céu e um santo militante sobre a Terra; e a vida da graça é o mesmo tipo de vida, mas não em grau; e o que é glorificado e o que se encontra aqui na Terra são diferentes, assim como uma criança difere de um adulto.
Aplicação. O uso disto é verificar o nosso absurdo cuidado carnal para com o homem exterior, em detrimento do interior. Quando não somos tão cuidadosos em provermos a alma com graça, e sermos fortalecidos e renovados pelas influências contínuas de Cristo.
Você pode conhecer a desproporção de seu cuidado para com as coisas exteriores e para o homem interior, por essas razões que apresentamos a seguir:
1. Quanto você preza do dia do Senhor, os meios da graça, as oportunidades de culto, que são para o homem interior? O dia de domingo é um dia de festa para as almas. Agora, quando os homens estão cansados disso, é o dia mais pesado de toda a semana. É um sinal de que são carnais, quando os homens pensam que o domingo consagrado a Deus é um dia perdido para eles, e eles olham para o domingo como uma interrupção melancólica de seus assuntos e negócios.
2. Que cuidados você tem para com o homem interior, para adornar a alma, para embelezá-la com graça, que é de grande valor para Deus, ou para fortificá-la com graça? Agora, quando toda a nossa força e trabalho são utilizados para não nos conduzir à vida interior, Isaías 55.2, e empregamos todo o nosso dinheiro naquilo que não é pão para o espírito, é um sinal de que somos totalmente carnais.
3. Você tem um refrigério espiritual, mesmo quando as aflições abundam? 2 Coríntios 1.5, “Porque, assim como os sofrimentos de Cristo se manifestam em grande medida a nosso favor, assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo.”, então você demonstra ser como os filhos de Deus, cujo coração e cuidado estão focados no homem interior.
Doutrina 2. Em segundo lugar, mais especialmente, observe que Davi recorre a Deus para ser fortalecido. Deixe-me mostrar:
1. O que é essa força espiritual.
2. Como ela é dada.
3. Como Deus está presente na mesma. Davi vai a Deus: “Senhor, fortalece-me.”
Primeiro, então, o que é essa força espiritual. Ela é o aperfeiçoamento de Deus da sua obra. A força pressupõe vida, portanto, em geral, ela é a renovada influência de Deus; quando ele tem plantado hábitos de graça, ele vem e fortalece. Em primeiro lugar Deus infunde a graça e depois a confirma. Em primeiro lugar, somos objeto de seu trabalho, em seguida, instrumentos, para mostrar onde reside a força da alma.
1. Os hábitos da graça são plantados na alma. Não são apenas altas operações da graça, mas os hábitos permanentes e fixos, a semente de Deus, que permanece dentro de nós, 1 João 3.9 - isto não é a habitação do Espírito Santo propriamente dita, ou seja, o próprio Espírito Santo com sendo a semente de Deus que permanece em nós, pois esta semente é alguma coisa criada: Sl 51.10, "Cria em mim um coração puro, oh Deus”, e é alguma coisa que cresce: 2 Pedro 3.6, "crescei na graça". E, portanto, é evidente que há hábitos da graça plantados na alma, um bom estoque que temos de Deus em primeiro lugar, chamado de "o bom tesouro do coração", Mateus 12. Estes hábitos da graça são chamados de “armadura de Deus”, “o escudo da fé”, “o capacete da salvação”. Esta é a força da alma.
2. Mas, além disso, há uma continuidade e um aumento dessas graças, quando o Senhor confirma o seu trabalho, e aperfeiçoa o que ele tem começado, Fp 1.16. O apóstolo o define principalmente em 1 Pedro 5.10, "Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar, fortificar e fundamentar.” Todas estas palavras dizem respeito ao hábito, ou à semente da graça na alma; e para mostrar a participação de Deus para nossa preservação no estado espiritual, ele se serve destas palavras: “aperfeiçoar”, que significa a adição de graus que ainda estão faltando; "confirmar", que indica a defesa da graça que já está plantada no coração, da tentação e de perigos; "fortificar", isto é, dar-lhe o poder de ação ou capacidade para o trabalho, e "fundamentar”, que é para fazer a raiz crescer e se fixar mais e mais.
3. Há uma participação de Deus no ato. A graça em hábito não é suficiente, mas deve ser aumentada e dirigida. Sobre o ato, há duas coisas: o Espírito Santo opera a graça que é implantada, e a coloca em exercício, por isso, se diz em Fp 2.13: "É Deus que opera em vós tanto o querer como o realizar", ou seja, ele aplica a graça em nosso coração, e a põe em operação, e, então, há um direcionamento ou regulação da alma para a ação: 2 Ts 3.5, “O Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus" etc.
Em segundo lugar, vejamos os usos para os quais nós temos essa força de Deus. Ela serve para três usos - para a ação, para o sofrimento, e para superação de conflitos; porque assim como as nossas necessidades são muitas, assim também deve ser a nossa força.
1. Força para desempenhar deveres. O cansaço e o desconforto logo cairão em nossos corações, e vamos nos afastar de Deus, se o Senhor não colocar uma nova força e uma nova vivificação em nossos corações.
Se quisermos ser operosos com fervor e em qualquer movimento em direção a Deus, devemos ir adiante na força de Deus. A alma é uma coisa tenra, e logo se desconcerta. Portanto, a obra de Deus deve sempre ser feita na força de Deus.
2. Força para suportar os fardos com paciência, para que não desmaiemos sob eles: Col 1.11, "fortalecidos com todo o poder, segundo a sua glória, em toda a paciência, e longanimidade com gozo." Para que não desmaiemos em nossa aflição: Prov 24.10: "Se te mostrares fraco no dia da angústia, a tua força é pequena." Filhos de Deus, antes de irem para o céu, terão suas provas, eles terão muitos fardos sobre eles: Heb 6.12, "Sede imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas." É preciso não somente a fé, mas paciência. Agora, um fardo pesado precisa ter bons ombros. Oramos para ter força, para que possamos romper as dificuldades e aflições que encontraremos em nossa jornada para o céu.
3. Força para os conflitos, para que possamos enfrentar as tentações. Um cristão não deve apenas usar a colher de pedreiro, mas a espada. Não podemos pensar em cumprir deveres ou suportar aflições sem uma batalha e conflito; por isso precisamos da força da graça do Senhor para nos sustentar. Satanás é o grande inimigo com o qual lutamos, ele é o gerente da tentação. Este é o curso disto; o mundo é a isca; a carne é o traidor que funciona dentro dos homens, o qual dá vantagem a Satanás; o mal jaz escondido, e procura por coisas mundanas para afastar o nosso coração de Deus. Agora, somos assaltados por todos os lados, às vezes, pelos prazeres do mundo, às vezes pelas cruzes do mesmo, de modo que um cristão precisa estar apto para todas as condições: Fp 4.13, “Tudo posso em Cristo que me fortalece”, porque por todos os meios o diabo tentará nos levar a pecar.
Agora, esses conflitos são, em qualquer caso, ou solicitações para o pecado, ou eles tendem a enfraquecer o nosso consolo; e em ambos os casos é preciso ter força de Deus.
Vejamos agora, em terceiro lugar, como Deus está interessado nisto. Davi vai a Deus para receber este benefício: "Senhor, dá-me força." Do primeiro ao último é ele que faz tudo. Não ficamos de pé pela estabilidade de nossas próprias resoluções, nem pela estabilidade dos hábitos da graça plantados em nós mesmos, a menos que o Senhor nos dê nova força.
Nossas próprias resoluções estão prestes a falhar, porque Davi estava resolvido em se manter perto de Deus, mas ele diz: "Meus pés tinham quase escorregado.” O que o manteve? "A tua destra me sustentou.”
Nem é a estabilidade dos hábitos da graça em si, por si só, porque são coisas que se desvanecem; a fé, o amor e o temor de Deus de si mesmos logo desaparecem: Apocalipse 3.2, “Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer.” Estes que estão prontos para morrer, portanto, só são mantidos por uma força renovada de Deus. É o poder de Deus, que está envolvido em nossa preservação. Eu poderia mostrar em que ordem, temos isto da parte de Deus; não somos somente guardados, em geral, "pelo poder de Deus mediante a fé para a salvação", 1 Pedro 1.5, mas todas as pessoas da Trindade trabalham nisto. O Pai, o seu ato é judicial: Ef 3.14-16, “Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra, para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior;”. Ele decreta a concessão, que as almas que vêm em nome de Cristo, e pedindo salvação, deverão obtê-la. E Deus Filho tem comprado essa força para nós, e ele intercede por fornecimento constante e, por isso se diz em Fp 4.13, “Poso todas as coisas por meio de Cristo”. E o Espírito Santo aplica a força que necessitamos ao nosso coração, porque assim é dito, Ef 3.16, “Para que sejais fortalecidos com poder pelo seu Espírito no homem interior."
Aplicação. Para nos incentivarmos a buscar em Deus por esta força. O que devemos fazer?
1. Seja fraco em seu próprio senso e sentimento. A maneira de ser forte é ser fraco: 2 Coríntios 12.10: "Quando sou fraco, então é que sou forte." O balde, se quisermos enchê-lo com água, deve primeiro ser esvaziado.
Deus fortalece os que são fracos em seu próprio senso quanto à sua insignificância: Heb 11.34, “da fraqueza tiraram força”, da fraqueza sentida e apreendida.
2. Deve haver uma plena confiança somente na força de Deus: Sl 71.16: “Sinto-me na força do Senhor Deus”; Ef 6.10, “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder”, e 2 Tim 2.1, “Fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus."
3. Use o poder que você tem, e então ele será aumentado. "Pois ao que tem se lhe dará, e terá em abundância;", Mat 13.12. Quanto mais exercitamos a graça mais teremos dela.
4. Utilize os meios, pelos quais "os que esperam no Senhor renovam as suas forças”, Isa 40.31.
5. Evite o pecado; que drena a sua força, assim como o sangramento solta o espírito do corpo. Quando você entristece o Espírito de Cristo, que lhe é dado para lhe fortalecer, você joga fora a sua força. Vamos, então, esperar em Deus por ajuda, pois quando todas as coisas falham, Deus não falha.
Vejamos agora a segunda parte do texto: "fortalece-me segundo a tua palavra." Pela sua palavra Deus se compromete em aliviar o seu povo em perigo. Há duas promessas: 1 Coríntios 10.13: "Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças”. Um bom homem não sobrecarregará seu animal, certamente o Deus gracioso não vai permitir que a tentação venha sobre nós acima da medida. Outra promessa é a de Is 57.15-17, “para vivificar o espírito dos humildes, e para vivificar o coração dos contritos." Ele tem prometido consolo e alívio para os pobres pecadores com o coração partido; você é chamado por nome na promessa, isto é dito a pessoas no seu caso.
Mais uma vez, Davi orou baseado numa palavra e promessa de Deus. A oração fundamentada sobre a promessa é a maneira de prevalecer; você pode fazer um desafio humilde a Deus, invocando a Sua Palavra para ele. Isto é fogo estranho somente quando você coloca no incensário, um pedido a Deus em relação ao qual ele nunca se comprometeu a conceder. Davi, muitas vezes diz: "segundo a tua palavra." Mais uma vez, a palavra de Deus é a única cura e alívio para a alma desfalecida. Quando Davi estava debilitado sob profunda tristeza, então, o Senhor, lhe trouxe força segundo a Sua Palavra.
(1) Isto é a cura apropriada. Meios naturais não podem ser um remédio para a enfermidade espiritual, não mais do que um belo terno de vestuário para um homem doente, ou um ramalhete de flores para um homem condenado. Confortos naturais não têm qualquer relação com uma doença espiritual; nada além da graça, perdão, força e aceitação de Deus pode removê-la.
Os que buscam saciar suas tristezas em excessos e com alegre companhia tomam um remédio brutal para doenças da alma.
(2) Isto é uma cura universal; temos a partir da palavra viva, consolo e força. É a palavra que deve nos guiar e nos guardar de desmaios de alma, ela nos vivifica e nos guarda da morte. A palavra é um remédio completo em conjunção com o poder de Deus, e torna a dor em alegria no meio de problemas externos: Sl 56.10, “Em Deus, cuja palavra eu louvo".
Por último, esta palavra deve ser aplicada à consciência pelo próprio Deus, “fortalece-me segundo a tua palavra." Davi se dirigiu a Deus para que ele pudesse aplicar sua palavra, que poderia ser a sua força; pois não podemos nem apreender nem aplicá-la mais do que recebemos a graça de Deus. A palavra é o instrumento de Deus, e não opera sem o Seu principal Agente.
Thomas Manton

Thomas Manton

Salmo 119.28 – Por Thomas Manton – Parte 1

“A minha alma se consome de tristeza; fortalece-me segundo a tua palavra.” (Salmo 119.28)

Tradução e adaptação elaboradas pelo Pr Silvio Dutra, de citações extraídas do comentário de autoria de Thomas Manton, sobre o Salmo 119.28.

Um cristão nunca deveria ficar entristecido até o grau de desânimo, nem confiante até o grau de segurança; e assim ele deve ter um olhar duplo, sobre Deus e sobre si mesmo, sobre as suas próprias necessidades e a todo-suficiência de Deus. Você tem ambos representados neste verso 28 (e frequentemente neste salmo), a sua condição e a sua petição.
1. A sua condição está representada em: “a minha alma se consome de tristeza”.
2. A sua petição a Deus: “fortalece-me segundo a tua palavra.”
Vejamos então em primeiro lugar, a sua condição, "a minha alma se consome de tristeza." A citação “se consome” foi traduzida do original hebraico “dalaph” que significa "verter lágrimas”, “chorar”. É a mesma palavra usada em Jó 16.20. Relaciona-se com definhar de tristeza a ponto de sentir o coração derreter.
Doutrina extraída do texto: Os filhos de Deus, frequentemente, se encontram sob a ação de uma profunda e esmagadora tristeza que não é experimentada por outros homens.
Davi se expressa aqui como estando numa condição de debilidade que não é comum, "Minha alma goteja ou se derrete de tristeza."
São três as razões disto:
1. Seus fardos são muito grandes.
2. Eles têm uma sensibilidade maior do que outros.
3. Sua ação é maior, porque a sua recompensa e conforto são também grandes.
1. Seus fardos são maiores do que outros - como a tentação, a deserção, o problema do pecado. O bem e o mal da vida espiritual é maior do que o bem e o mal de qualquer outra vida qualquer. Como as suas alegrias são indizíveis e gloriosas, assim seus sofrimentos são, por vezes equivalentes à expressão: "Um espírito abatido quem o pode suportar?" (Pv 18.14).
A coragem natural comum levará um homem a outras aflições, oh! mas quando as flechas do Todo-Poderoso perfuram seu coração, Jó 6.3, isto é um peso insuportável.
O homem, que tem uma vida maior do que os animais, é mais capaz de ter prazeres e tristezas do que eles, e assim um cristão que vive a vida da fé está mais capacitado para uma maior carga.
Considere que aqueles que vivem uma vida espiritual lidam imediatamente com o Deus infinito e eterno, e, portanto, quando ele gera alegria no coração, oh, que alegria é isso! E quando Deus estende a sua mão contra eles, quão grande é o seu problema!
O pecado é um fardo mais pesado do que a aflição, e a ira de Deus do que o descontentamento do homem. Males de uma influência eterna são mais do que temporais, portanto, devem ser, necessariamente, maiores e mais pesados.
2. Eles têm uma sensibilidade maior do que os outros - os seus corações estão enternecidos pela fé que professam em Cristo. Ninguém tem um sentimento despertado tão rápido como os filhos de Deus. Por quê? Porque eles têm uma compreensão mais clara, e as afeições mais ternas e sensíveis.
[1] Porque eles têm uma compreensão e visão mais clara sobre a natureza das coisas do que aqueles que estão afogados em prazeres carnais.
Os homens carnais não sabem como valorizar a perda do favor de Deus, mas os santos o preferem mais do que a própria vida: "A graça de Deus é melhor do que a vida", Sl 63.3. Portanto, se o Senhor suspende as manifestações habituais da sua graça e favor, quão perturbados ficam os seus corações! “Tu escondeste o teu rosto, e fiquei perturbado,” Sl 30.7.
Um filho de Deus, que vive em Seu favor, não pode suportar Sua falta; e portanto, quando perde o sentido doce de Seu favor e reconciliação com ele, oh, isto é um problema para as suas almas! Outros homens não se dão conta de tudo isto. E assim, por causa do pecado, os espíritos comuns valorizam apenas o dano que possam sofrer em seus interesses mundanos, e quando isso lhes custa caro, eles podem curvar a cerviz: Jer 2.9: “Agora sei quão amarga coisa é abandonar o Senhor." Um homem mundano pode saber algo sobre o mal do pecado nos seus efeitos, mas um filho de Deus vê a natureza dele, eles valorizam isto pelo mal, pela ofensa que se faz a Deus, e por isso ficam mais entristecidos pelo mal no pecado, do que pelo mal que é consequente do pecado. Assim, em razão da ira de Deus, os homens carnais têm pensamentos rudes quanto à mesma, e podem uivar nas suas camas quando as suas coisas agradáveis são tomadas deles, mas os filhos de Deus ficam entristecidos porque seu Pai está irado.
[2] Eles têm afeições delicadas e suaves. A graça, que nos dá um novo coração, também nos dá um coração de carne: Ez 36.26: “Vou colocar um coração novo neles.” Que tipo de coração? "Um coração de carne", porque o velho coração que é removido é um coração de pedra. Um novo coração sensível recebe mais rápido a impressão de terror divino do que outros corações. Um selo é mais facilmente deixado sobre a cera, ou uma coisa mole, do que em cima de uma pedra. O ímpio tem mais motivos para ficar incomodado com a ira de Deus do que um homem piedoso, mas ele não é alguém de bom senso, ele tem um coração de pedra, e, portanto, não é tão afetado com as relações de Deus para com ele, ou suas relações com Deus. Veja, como não deve ser considerado apenas o peso dos golpes, mas a delicadeza da constituição, e assim, porque seus corações são de uma constituição mais suave, sendo um coração de carne, e receptivo a uma impressão mais profunda, portanto suas tristezas ultrapassam as tristezas de outros homens.
3. O bem que eles esperam é grandíssimo. Os homens ímpios, nada esperam do mundo por vir, senão que lhes aguardam horrores e dores, e eles agora chafurdam em facilidade e abundância: Lucas 16.25: “Filho, em tua vida tu recebeste os teus bens.” Mas, agora, os homens de bem, esperam por outra felicidade, que deve ser a coisa a ser buscada e exercida, para que possam ser preparados para o gozo dessa felicidade.
Aplicação 1. Então, os homens carnais não estão aptos a julgar os santos quando eles relatam suas experiências.
Davi era um homem valente, que tinha "um coração como o coração de um filho", 2 Sam 17.10. Ele era um homem alegre, chamado "o mavioso salmista de Israel", 2 Sam 23.1. Ele não era tolo, mas um homem sábio como um anjo de Deus; e ainda assim você vê que sentimento amargo ele tinha de sua condição espiritual. E quando um homem tão forte e valente, tão alegre, tão sábio, queixa-se tão fortemente, você vai achar que este abatimento e melancolia eram uma tolice? Mas, infelizmente um homem que nunca soube qual é o peso do pecado não pode concebê-lo, pois nunca esteve familiarizado com a infinitude de Deus, nem com o poder da Sua ira, e não tem o devido senso de eternidade, e por isso pensa tão baixo sobre estes assuntos da vida espiritual.
Aplicação 2. Não esteja tão seguro de alegrias espirituais. Nós lhes alertamos muitas vezes sobre segurança, ou sobre o cair no adormecimento em confortos temporais, e devemos avisá-lo desse tipo de segurança também no que se refere ao espiritual. Todas as coisas mudam. Você pode encontrar Davi neste salmo numa condição diferente de espírito, algumas vezes se regozijando na palavra de Deus acima de todas as riquezas, e em outras vezes a sua alma derrete em lágrimas em razão do muito peso sentido. O próprio povo de Deus está sujeito a grande dificuldade de espírito, portanto, você não deve estar seguro quanto a esses gozos espirituais, que vêm e vão conforme a vontade de Deus. Os homens que constroem muito sobre êxtases espirituais ou sensíveis consolações estão preparando uma armadilha para suas próprias almas, em parte porque estão menos atentos para o presente (como marinheiros que foram ao mar, e quando entram na calmaria, ficam felizes e pensam que nunca mais verão tempestades), e também por causa de sua negligência e descuido em seu conforto espiritual que se foi. E há outro dano - a perda é mais pesada, porque nunca pensaram sobre a possibilidade da mesma. E, portanto, na preparação do coração, devemos estar prontos a perder os nossos confortos interiores, bem como as propriedades e conveniências externas. Somente no céu temos um dia contínuo sem nuvens ou noite, mas aqui sempre haverá mudanças.
Não vamos julgar a nossa condição se for este o nosso caso, ou seja, se devemos estar debaixo de problemas presentes, nem sequer quebrar nossos espíritos. Este foi o caso do Filho de Deus, a sua alma se perturbou, e ele não sabia o que dizer: João 12.27: “A minha alma está perturbada, o que direi eu?” E muitos de seus servos escolhidos foram extremamente experimentados nisto. Nosso negócio, nesse caso, não é examinar e julgar, mas confiar. Nem para determinar nossa condição de um lado ou outro, mas ficar com o nosso coração em Deus, e descansar em suas promessas. Devemos confiar o nosso coração à misericórdia de Deus.
Thomas Manton

Thomas Manton