Quem teve a Ideia de Cortar o Tempo

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Cortar o tempo

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

Carlos Drummond de Andrade

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.

Carlos Drummond de Andrade

O Tempo

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado,
o amor esperado,
a esperança renovada.

Para você, desejo todas as cores desta vida,
todas as alegrias que puder sorrir,
todas as músicas que puder emocionar.

Para você, neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família seja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas...
Mas nada seria suficiente...

Então desejo apenas que você tenha muitos desejos,
desejos grandes.

E que eles possam mover você a cada minuto
ao rumo da sua felicidade.

Carlos Drummond de Andrade

O PRIMEIRO DIA DE AULA


"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,/ a que se deu o nome de ano,/ foi um indivíduo genial./ Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão./ Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos./ Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente". O poema "O Tempo", de Carlos Drummond de Andrade, é perfeito para ilustrar um dia como o de hoje. Nesta segunda-feira, 14 de fevereiro, a esperança realmente se renova. Mais um ano letivo tem início nas escolas da rede estadual de ensino de São Paulo. Aproximadamente seis milhões de crianças, adolescentes, jovens e adultos começam uma nova jornada rumo à aventura do aprendizado, da descoberta, da capacidade de aprimorar talentos. Cabe a nós, educadores, acolher esses alunos, recebendo-os com o coração repleto de confiança, de expectativa e de crença na força desses seres em formação. Além dos estudantes da rede estadual, há aqueles que freqüentam as redes municipal e particular. Todos trazem no semblante o desejo de conhecer o novo, de explorar possibilidades e potenciais. A tendência do aluno é sempre gostar do professor. Trata-se de uma experiência diferente. E o que é diferente encanta, seduz. Compete ao educador manter essa chama acesa para que o sonho não esmoreça. Paulo Freire costumava dizer que o mais nobre papel do professor é o de gerenciar sonhos. E completava: "Professor é aquele que gosta de viver". Gostar de viver é essencial para quem tem esse nobre mister de educar. Professores, diretores, funcionários, pais, mães... Educadores por excelência. Personagens que devem atuar juntos num palco onde convivem artistas extremamente talentosos: alunos e alunas que produzem, ensaiam e interpretam uma parte importante do texto de suas vidas. A união e o respeito entre esses atores é o que propicia o bom andamento do mágico espetáculo do aprendizado. Neste novo ano escolar, o governador Geraldo Alckmin prossegue dando prioridade à educação. Mudanças e ajustes positivos vêm sendo feitos para tornar nossas escolas uma referência no processo ensino-aprendizagem. O ensino médio conta agora com seis aulas diárias. A disciplina de filosofia volta a fazer parte do currículo obrigatório. A capacitação de professores será intensificada. Muitos estarão fazendo curso de mestrado em Londres (Inglaterra), outros darão seqüência aos cursos de extensão em Salamanca, na Espanha, e em Lisboa (Portugal). O maior número deles, entretanto, dá início ao mestrado no Brasil. O professor merece! Cuidar do maestro é certificar-se de que a orquestra será bem conduzida. Nosso desejo é que, neste primeiro dia de aula, os diretores estejam receptivos aos alunos que chegam com a energia peculiar dos que têm sede de conquistas, sonhos, ideais. É preciso que os professores, por sua vez, preservem a atenção e o entusiasmo. É preciso que se interessem por conhecer o nome e a história de cada aprendiz. Da mesma forma, é necessário que os pais não deleguem unicamente à escola a missão de educar, porque, por melhor que ela seja, nunca vai suprir a carência deixada por uma família ausente. Educar é um trabalho que requer a união entre a escola, a família e a comunidade. Acreditamos que a educação é composta por gestos e ações simples. Atitudes que ajudam a escola a ser mais participativa, envolvente. Basta lembrarmos dos exemplos do passado. Todos vivenciamos experiências novas e maravilhosas com os professores que tivemos ao longo da vida. E o exemplo contribui para que não precisemos repetir os erros daqueles que não tiveram a coragem de ser afetivos e de imitar carinhosamente aqueles que nos tocam a alma. Grandes educadores de hoje contam histórias de seus mestres do passado. Rubem Alves fala de dona Clotilde, Inácio de Loyola Brandão fala de Joaquim Pinto Machado Júnior, o Machadinho... Já o saudoso Marcos Rey elegeu seu próprio pai como o mais original contador de histórias de sua vida. Professores deixam marcas indeléveis. Marcas que se perpetuam na memória e também no coração. Assim, que nesse primeiro dia de aula, cada mestre sinta no peito a mesma emoção de seu primeiro dia como professor. Dia em que se apresentou frente a uma platéia muito atuante e especial. Esperamos que todos esses personagens reais sejam capazes de sentir o mesmo frio na barriga que o grande ator Paulo Autran diz sentir quando sobe no palco e inicia, emocionado, mais uma peça de teatro. Por tudo isso, a todos aqueles que se dedicam ao instigante espetáculo da educação: uma excelente aula... Hoje e em todos os dias deste ano, que simboliza, nos dizeres do poeta, mais um "milagre da renovação".


Publicado na Folha de S. Paulo

Gabriel Chalita