Prosa de Casamento

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Eu não sei escrever rimas
Nem das pobres nem das ricas
Também não domino a prosa
Ainda que em folha rosa

Costumo falar de bobagens
Mas também de coisas sérias
Repenso nas malandragens
E filosofo sobre as misérias

Contudo não entendi
Porque a escrita é voraz
Falo do que não vi

Rimo com o que jaz
Em outro verso, em outra estrofe
Por ser um jogo sem ás.

Paulo Ricardo Zargolin

Dois Dedos De Prosa

De repente!
Me vejo tão só…
E começo a tocar a solidão!
A solidão dos meus dias
sem você…
E o vizinho emocionado.
Bate à minha porta!
Quer saber
porque tocar
a solidão…
Se os meus dedos,
Tocam tão bem as emoções
nos corações das pessoas.
Quando em versos…
Criam sonhos!
Inventam rimas.
E me diz atencioso,
e ao mesmo tempo
admirado de mim:
_Não se deixa só…
Não sou o seu amor…
Mas estou aqui,
para dois dedos de prosa!

Dayse Sene

Bom dia!

Escrevo verso e prosa com dificuldade, igual a andar vendado numa cidade.
Ontem lembrei de vc...Isso enquanto via TV.
Passava um filme A BELA E A FERA.
Sim,claro vc era a fera.rs
Brinquei vc és a donzela a BELA.
O que? eu, a fera? Quem me dera.
Era um aspirante a poeta.. Que declinava nas manhas a pensar.
O que faço pra ela..? Romantismo? Quem sabe? Aventura?..nao,escrever da ate tontura.
Falar da tua beleza? Outra vez? Isso é um quebra cabeca..
. Acho que falei o bastante... Faze la rir..
Parece como escalar um monte..dificil.
Mas, recompensante..ja disse oque queria..tudo isso para apenas deseja la um bom dia!

Marcio Mirandda

Numa prosa sabida, São Paulo da vida com Pernambuco encardida apreciam nas letras a mais bela poesia, e que viva nossa facilidade de fazer filosofia.




Isaac Silva_
Sampa garoando, leve brisa onde a água cai, purificando nossa pensar, iluminando nossa alma, de fato é bom viver, de fato é bom amar...

Jamile Hiast_
De fato São Paulo é são, é terra que caí chuva assim, como em qualquer lugar... De fato, como é bom amar.

Isaac Silva_
É a terra da garoa, onde a boemia prevalece, onde a sanidade paira no ar
Ah minha cara... De fato, como é bom amar.

Jamile Hiast_
No meio de um mundo torto, ainda há um ar, puro e digno de se respirar, ah meu querido, como é bom filosofar a arte de amar.

Isaac Silva_
E com a dignidade vem a honra, vem o ser, vem o estar, nada mais importa, nada mais há, o que existe e é primordial, é fazer uso do bom amar.

Jamile Hiast_
E como, mas como é bom e vital amar. Amar o brilho do Sol, amar a mansidão do Mar, amar a escuridão da noite, amar o prateado do luar... Amar o pingo de chuva que caí, amar o cheiro que no ar, se faz... Amar!

Isaac Silva_
E com a luz clareia em minha mente que a ilusão vai embora, que reste apenas teu coração, que o sonho vire realidade que a paixão não adormeça e que na luz de Jah possamos simplesmente amar, amar a noite inteira, amar o pensar, amar você, eu o mundo o altruísmo, amar... Quatro letras que não existe significado apenas consequencias, boas e fundamentais, ah minha cara como é bom amar.

Jamile Hiast_
E que nossa estrada seja feita de amor, que nossos sonhos e nossos pensares não desabem nos ares das dificuldades, que a solidão, ah! E que a solidão seja apenas isso, um toque de amor na filosofia, numa madrugada fria, é isso... É sempre muito bom amar.

Isaac Silva_
Que a solidão faça com que eu reflita, reflita a tua face, o sonho que é realidade, a proeza de saber que a filosofia é mais do que falar, é sentir, é amar, e quando eu estiver na deriva, refletindo quem sabe na beira do mar, perceba novamente o seu olhar e diga... Ah como é bom amar!

Jamile Hiast_
Com infinitas palavras bonitas num recanto meu, talvez perdido no ar... Eu finja não saber me dar, mas nas infinitas palavras bonitas, lá está, toda a essência e o sabor do amar. Do amar incondicionalmente, do amar a condicionar, do amar o amor transparente, que, mesmo ferido, jorrem palavras bonitas a gritar: Como é bom amar.

Isaac S. de Farias & Jamile Ferreira

Isaac Silva Jamile Ferreira

Reconheça o meu talento

A minha prosa é falar sobre poesias
Seja na tristeza ou alegria
Pode ir se acostumando
Esse é o meu assunto todos os dias

Tenho prazer em compor e declamar
Ou melhor, em escrever e recitar
A tendência é eu ficar mais experiente
Modifico os textos sempre

Gosto de moldá-los, aperfeiçoá-los
Tiro as palavras repetidas
E acrescento várias rimas
Para eles terem mais vida

Cada pessoa tem um dom diferente
O locutor, o cantor, e o profeta
Reconheça o meu talento
Pois sou simplesmente poeta

Sidney Alves das Virgens

O BELO


A Floresta me basta.
Não que seja o lar,
mas ela é veicu-lar.

Não basta eu entrar na floresta,
ela tem que entrar dentro de mim.

Desta forma eu encontro a paz
e com a paz dispenso os meus sentidos.

Os sentidos não fazem sentido.

Não confuda um poeta com um buda.
Um buda é um poeta, cuja vida virou poesia,
mas um poeta é alguém que se ilude com a beleza.

A beleza é uma ilusão,
pois a visão pode acabar,
e os ouvidos podem falir.

Então não haverá
o belo meneio das folhas luminosas
nem se ouvirá os sons do bosque.

Como saber se a ipoméia
e as hortências
ficaram azuis?

A função da floresta é me
conduzir ao vazio,
um vazio sem sentido algum.

Arnaldo Leles

Eu gostaria que nos meus sonhos...
Gostaria que a Terra girasse devagar
É difícil, eu preferiria estar adormecido
Você não está ao meu lado,
Quando estou acordado
Porque meus sonhos são todos seus
Adormecer é apenas o meu único desejo
Logo para eu poder vê-la nos meus sonhos

Agora adormecido posso acreditar em tudo
A Terra gira mais devagar, pois no meu sonho
Faço a girar mais devagar para poder...
Poder passar mais tempo ao seu lado
A Terra gira como uma tartaruga
Nos meus sonhos eu tenho tudo...
Eu tenho todo tempo do mundo
Para te ver sorrir.

Francisco Carlos de Mello Junior

Às vezes me deparo olhando para o céu
Vejo um brilho intenso, será uma estrela?
Com esse brilho intenso se destaca entre todas as outras,
Mas não, não é uma simples estrela...
É a estrela mais linda e brilhante jamais vista...
Em toda a imensidão infinita chamada espaço
É mais suave e brilhante que a própria Lua,
É mais intensa e calorosa que o próprio Sol
Mesmo que um dia não seja mais possível ver estrelas no céu
Mesmo que um dia eu fique cego
Mesmo que um dia eu morra...
Eu sei, sem duvida que essa estrela
Sempre estará lá, brilhando mais que todo o universo junto.

Francisco Carlos de Mello Junior

NÃO SEI O TEU NOME

Não sei o teu nome
Perdi-me no teu olhar;
Me encantei pela tua simplicidade;
Me apaixonei pelo lindo sorriso
Meus lábios almejam os seus
Meus pensamentos giram em torno de ti
Não sei o teu nome
Só sei que o teu balazar embriaga a minha carne de desejos
E me deixa sem jeito.

Nzongo Branco Dias

Contato Leal

o seu sorriso me fez encantar
e o nosso acaso de caso sem nos notar
e vc atoa só para dançar
e mostro que fui feito para amar

O seu corpo todo a me desejar
o seu olhar me come com um jantar
seu nego estava a lhe esperar
e em sua vida eu tive que entrar

O seu sorriso aprumava as suas belas feias
planando nos meus olhos num passo leal
que me preparavam para sua ceia
e acordo vendo sua fome num passado real.


Você com a lealdade registrada exagera demais
fez bagunça na realidade desse pobre rapaz
transportou o seu passado me tirando a paz
que só fui atracar em seu cais


Acabou com o seu antigo rapaz
por ele cansar de ser seu capataz
só fui te mostrar como se faz
vc me mostrou que não era capaz

enxergue que eu não trago a mesma dor
acabou com todo o nosso fervor
te largo como quem larga um apontador
e vou embora com a sua dor

Marcus Menezes

[ Eu Até esperei ]

O tempo abrir, o sol brilhar,
a tarde chegar, nuvem sorrir.
Relógio correr, pessoa do ônibus descer,
Barco seguir.

Homem correr, Mulher chorar,
Quem não ama, amar... Trem partir.
Senhora andar, criança engatinhar,
Grávida parir.

Coruja voar, cílio pestanejar,
Bebum beber, parede ceder, saliva engolir.
Dorminhoco sonhar, brigão brigar
Ladrão escapar, escola abrir.

Cego enxergar, coração dilacerar
Fé se abalar, perdedor admitir.
Mulambo se limpar, calçado esfrangalhar,
calado: gritar, dor na coluna sentir.

Estrela do mar, cometa passar
Galinha cacarejar, flor... florir.
Corpo padecer, lua aparecer,
Pôr do sol chegar, noite triunfar
... Você não vir.

Mário Pires

Ricardo Cabús

O dedo mindinho

Roberta e Marcelo se conheceram numa festa na casa de Antônio. Ninguém os apresentou. Ela era amiga de um primo de Antônio, que na verdade desejava mais que a sua amizade e sempre que havia oportunidade a convidava para acompanhá-lo em festas, cinemas e aniversários de boneca. Marcelo estava no barzinho quando Antônio falou para uma pessoa da sua mesa sobre a festa. Ele não resistiu e se auto-convidou. Antônio fez questão de enfatizar o convite, mas não acreditava que ele iria. Ele foi.

- Você é amigo do Antônio?
- Bem, na verdade eu estava ...

Ela começou a interessar-se por sua conversa franca. Sempre concluindo as frases com um leve sorriso que transmitia ternura, Marcelo falava sobre política, esportes e economia com conhecimento de causa. Sua segurança deixava Roberta cada vez mais interessada. O diálogo continuava sob os olhares enciumados do primo de Antônio, que mais uma vez via seu desejo frustrado. Roberta falava das suas viagens ao exterior. Como se sentiu ao ver a Mona Lisa.

– É impressionante, todos aqueles quadros enormes e bonitos, naquele salão gigantesco, mas todos não conseguimos desgrudar os olhos dela. Não sei se por influência da mídia ou por ...

Marcelo interrompeu-a e passaram a falar sobre a influência da mídia nas eleições. Daí para a participação dos artistas na campanha política. Música. Foi quando ele revelou que não resistia aos primeiros acordes de Adios Nonino e ela brilhando os olhos assumiu-se fã incondicional do Piazzola. Eles lembraram a participação do Piazzola e seu quinteto no Chico & Caetano da Globo.

- Foi 85?
- Acho que foi 86.
- Sem duvida a música era Adios Nonino.
- Claro.

Passam a cantarolar tã-tãããã-tã... O beijo é conseqüência.

Dois anos depois, Antônio é padrinho de casamento de Roberta e Marcelo.

Eles eram considerados aquele casal legal. Boa conversa, sempre de bom humor, eram sempre os primeiros das listas de convidados para as festas. Era comum ouvir: ‘Será que a Roberta e o Marcelo não vêm à festa? Isto aqui tá um velório sem eles’. Eles sempre chegavam atrasados, sempre por culpa de Marcelo que queria decorar as últimas piadas, e saber de todas as notícias do dia para compartilhar com os amigos. Roberta não se aborrecia pois sabia que isto fazia parte do clima. E no final daria mais tempo para ela retocar a maquiagem. Ao chegar Marcelo sempre culpava Roberta, que com ar manso, apenas sorria. Assentada em sua maturidade, quando questionada pelas amigas apenas dizia: ‘Nada, deixa ele’.

Com vida sexual ativa e feliz, eles não planejavam ter filhos antes dos 35. Ele sempre usava camisinha e ela tomava a pílula, assim ambos tinham o seu controle. Filho só quando os dois quisessem. Viagem uma vez por ano. Nunca para o mesmo lugar. Ela praticava tênis, ele corria toda manhã. Quando surgiram os primeiros sinais de envelhecimento físico, ambos recorreram ao bisturi.

Tudo ia muito bem até a noite de terça-feira, 29 de fevereiro de 2000.

Ele chega mais cedo do trabalho, prepara um jantar simples, mas com todo carinho: arroz e estrogonofe de frango, vinho branco chileno. Sobremesa: pudim de leite condensado, o preferido de Roberta. O Contreau é posto no freezer, dentro de um saco com água, que, segundo Marcelo, faz com que a bebida atinja uma consistência cremosa única.

Roberta chega em casa no horário de sempre, e fica emocionada ao encontrar a sala de jantar detalhadamente arrumada. Mesa com as melhores louças, a toalha com linhas geométricas, o castiçal no meio com 4 velas, guardanapos dobrados em forma de pétalas – Marcelo adora origami. O bandoneon de Piazzola soava delicadamente os acordes de Adios Nonino. Beijos e lágrimas.

- Meu amor o que é isto?
- Ah, bem, não sei. Hoje tive uma imensa vontade de preparar uma surpresa.
- Eu te amo.

Após o jantar, o vinho e quase um litro de Contreau ouvindo Piazzola, cada peça de roupa é tirada em um ritual quase tântrico. O aroma exalado pela essência indiana usada para massagem e a refração da luz das velas no vidro da mesinha de canto completam a atmosfera. O tempo não importa e a entrega é plena. Até que Marcelo começa a chupar o dedo mindinho do pé esquerdo de Roberta. Ela pede delicadamente para que ele não continue. Ele, inebriado pelo clima, continua, enquanto Roberta oferece outras partes de seu corpo. Marcelo insiste e ela fica tensa.

- Meu amor eu não tou gostando, não tou sentindo prazer.
- Você não quer se entregar. O que está havendo?
- Nada querido, apenas não tou gostando agora; quem sabe outro dia?

Marcelo levanta-se, sai da sala sem falar.

Dia seguinte, os olhares já não são mais os mesmos, as palavras já não são mais as mesmas. Eles já não são mais os mesmos. Por um mês eles tentam recompor o clima perdido, em vão. Amigavelmente se separam aos 34 anos, sem filhos.

Hoje Roberta está casada com o primo de Antônio, tem dois filhos e um restaurante de comida indiana. Parecem felizes. De Marcelo não se tem notícias.

Ricardo Cabús

Ricardo Cabús

O álcool nosso de cada dia

Há uma expressão em inglês que é muito interessante e que nesse momento veio-me à mente: ‘take it for granted’. Uma tradução possível para o português seria ‘dar algo como certo por antecipação’. O porquê dessa lembrança eu conto a seguir.

Estou tentando escrever um artigo em meu computador e o mouse não quer me obedecer. Ratos em geral são desobedientes, é verdade. Mas o eletrônico costuma ser submisso. Quando acontece algo desabonador, como não levar o cursor ao devido lugar da tela, pode significar que há alguma sujeira na área. Nesse caso, para voltar ao pleno domínio da situação basta limpá-lo. Pois é, a obediência de um rato eletrônico, diferentemente do natural, pode estar diretamente relacionada ao seu asseio. E se quisermos analisar de forma, digamos, endobiônica, não à limpeza externa, mas à interna. Assim, decido verificar o seu teor de sujidade. Coloco-o de ponta-cabeça e abro o compartimento que contém uma esfera, responsável pelo funcionamento da geringonça. Tudo bem, dispositivo; a ira não gosta de substantivos neutros. Então retiro a bolinha e imediatamente percebo que a chafurda é verdadeira e suficiente para deixar o rato para lá de insubordinado. Ora, penso, nada que um cotonete com álcool não resolva. Em poucos segundos os conectores estarão limpos e o rato voltará cegamente a seguir minhas ordens. Simples! Simples? Simples, desde que houvesse álcool.

E é aí que vem a questão. Um alagoano como eu – acostumado a viver arrodeado de cana-de-açúcar e ver álcool à venda em qualquer bodega da minha cidade – jamais poderia imaginar que não houvesse álcool à venda aqui na Inglaterra, berço da revolução industrial, classificada como ‘país de primeiro mundo’, e procure elogios, que você acha... Acha tudo, até macaxeira, menos álcool.

E como tudo tem seu motivo, apesar de nem sempre concordarmos com ele, a ausência de álcool nas prateleiras dos supermercados, farmácias e congêneres deve-se simplesmente a um fato: os ingleses bebê-lo-iam. Soa estranho? A mesóclise ou o significado da frase?

Mas o pretexto é esse. Concordar é outra história. O índice de alcoolismo por aqui é bastante alto. A maneira de combatê-lo é que é esquisita, além de não haver álcool comum para ser comprado por pessoas comuns, os bares geralmente só ficam abertos até as 11 da noite. No entanto você pode começar a beber a partir das 11 da manhã, se assim quiser. Eu hem?

Sim, mas voltando ao meu computador, faço o que vi um nativo fazer outro dia: uso minhas unhas para tirar o possível da sujeira existente na barriga do rato, dou um belo sopro, com direito a uma baforada de poeira, recoloco a pelota, tampo o bicho e bola pra frente que é jogo de campeonato.

Ricardo Cabús

Fiapos de Memórias

Se fui pobre não me lembro! Mas lembro de que já cai de caminhão de mudanças.
E isso é coisa de pobre. Ricos contratam empresas, delegam tarefas, colocam
os filhos confortavelmente em seus carros, enquanto funcionários embalam taças
de cristais, xícaras de porcelanas e telas de pintores renomados.

E nós? Como era engraçado. Na véspera arrumávamos caixas de papelão e muitos jornais, embalávamos os copos de vidros as xícaras de louças e portas retratos
com fotos da família. Enquanto todos estavam ocupados, furtivamente fui ao portão do vizinho, despedir-me do menino da lambreta, prometendo-lhe escrever.

Eufóricos com o prenúncio da aventura íamos dormir.
Com a claridade que precede o nascer do sol, meu pai nos acordava, tomávamos café preto com bolinhos de fubá. Lá íamos nós! Minha mãe se ajeitava na cabine
com os três filhos menores, junto ao motorista, e meu pai na carroceria com outros seis filhos incluindo eu. Partíamos rumo ao destino desconhecido.

A mesa da cozinha mais parecia uma espécie de barraca, o colchão em baixo amortecia os solavancos, com a lona por cima e o resto das tralhas espalhadas por todos os lados, uma pequena abertura na lona, nos servia de janela, que era disputada por todos.
Exceto por uma irmã, que com mania de grandeza, não fazia questão de ficar na janela improvisada, morria de vergonha que alguém a visse.

Mas eu me divertia! Acenava a todos, e foi assim que eu cai do caminhão. Foi um susto danado, achei que ia ficar para trás. A gritaria foi geral dentro do caminhão, mas foi alguém da calçada, quem conseguiu alertar o motorista. Reboliço total,joelhos e cotovelos ralados, broncas, risos e beijos. Para compensar tudo isso, uma
parada na beira da estrada, para um sortido, “prato feito”.

A irmã com mania de grandeza fingia que a aquela família não era a dela...
Seguíamos a nossa viagem, que hoje sei que era para um lugar no litoral do Paraná,onde meu pai dizia: O mar de lá tem muitos peixes e nada vai nos faltar.

Leila Mustafa

O Diálogo das Flores

Amanhece, o clarão da luz do dia entra pela
fresta da janela. Lá fora as flores do jardim,
começam a se abrir para o dia que se inicia...

Tímidas e silenciosas, cochicham entre si sobre
como a lua estava bela na noite que passou
e como o orvalho as acariciou durante o sono...

Estavam felizes, mas se perguntavam; porque
está tão triste a moça por trás daquela janela?
sabia-se que ela tinha perdido um amor...

Mas diziam: Como ela perdeu o que nunca teve?
A Rosa olha o Cravo ao seu lado e pensa; mesmo
que eu não o tenho, ele sempre estará por aqui...

O Jasmim, como se lesse o que ela pensou, lhe
diz: Não se iluda Rosa, alguém pode arrancá-lo,
e ela respondeu: A moça triste não deixaria,
afinal somos suas flores favoritas...
Ela até nos presenteou com um poema:
“A Rosa e o Cravo”.

O Girassol ao longe gritou:
Rosa atrevida, ela nos ama igualmente
temos que nos unirmos para alegrar o seu dia...

O Cravo, até então calado em seu canto, decidiu
intervir. Quando ela vir até nós, exalaremos
perfumes ao seu redor.
A Dama da Noite, por motivos óbvios preferiu
não se envolver...

E o Cravo continuou: Que venham os pássaros
cantando uma canção, borboletas decorando
o clarão da natureza, com delicados tons, como
fadas brilhantes pintadas em telas...

A moça triste, se aproxima, ao ver o jardim
tão lindo, um leve sorriso se abre em seu rosto...
Ela senta na relva úmida pelo orvalho da manhã

Fica absorta em seus pensamentos admirando
tudo em silêncio...
Naquela paz interior pensa: Amanhã é outro dia
vou deixar essa tristeza no ontem e viver o hoje
e quem sabe serei feliz no amanhã.

Leila Mustafa

Maldição...sem tostão.
Um vento que aspira, outro que embirra.
A porta que fecha, pois a besta não deixa.
Uma luz ofuscada, onde o gato passava.
Uma voz que envergo, um grito tão belo.
Um soneto para a Lua, porque mora na rua.
Um pedra na estrada, a coruja piava.
Uma cara que empino, outra que ensino.
A chuva que canta, meu ouvido encanta.
Palavra com azia, de uma morte surgia.
A dor solitária, saudade com ária.
Humano impotente, porque o futuro não mente.
E se o amor acontece, o justo enaltece.

Nuno Nebel Pitada

IMPOTÊNCIA

Sinto-me constantemente sensibilizado por imagens que não posso mais viver e envolvo-me em pensamentos empoeirados. As visões de ontem compõem um tênue grito de luta; no entanto, o tempo de tormenta impera. Os vultos dos que me foram implacáveis são obliterados na fogueira da solidão, e sigo vivendo em dunas de cinzas. As rosas do meu jardim extinguem-se e libertam-se com essências de papoula. Embora o tempo arraste e devaste tudo o que tenho, a permanência do que sou ainda resiste. A solidão funde-se à minha sombra e nesse ínterim minhas lágrimas não lavam as poeiras do pensamento.

Bruno Oggione

SAUDADE

Dentro de mim, meu coração é um gerador infindo de saudade. Pergunto ao vento por onde tu andas neste momento, porque faz tempo que ele não me traz o cheiro do teu perfume. Hoje, quando fecho os olhos, a fim de encontrar-te, não consigo mais sentir o brilho que teus olhos emanam. A tarde cai e a brisa corre gélida deste lado do universo. Céus, queria tanto sentir o quente envolver dos teus braços! Aquela sensação devastadora do teu abraço! Sua voz macia recitando em meus ouvidos, como lábios de um anjo que canta salmos de amor. Sozinho, sinto-me perdido e minha mente faz com que eu vague por veredas anônimas, desesperadamente em tua busca. Contudo, eu sei, eu sinto que há uma trilha segura, onde ao alvorecer eu hei de beijar o teu rosto molhado pelo sereno de uma manhã qualquer. Minha vida, tua lembrança mora em cada entardecer. Vejo tua face na beleza das flores, no canto dos pássaros, nas lágrimas de saudade que correm de meus olhos. Talvez haja um lugar onde eu possa ser feliz, onde o mundo não seja tão cinza, onde a luz não seja tão pálida, onde o brilho das estrelas não seja tão fosco e onde a vida faça algum sentido. Ando trocando passos com a tua ausência. Meu silêncio é repleto de gritos emudecidos, que sufocam o meu espírito. Quando a chuva cai, cada gota representa uma lembrança diferente que guardo de ti. Não sei se tu ainda lembras de todos os nossos momentos, mas gostaria que soubesses que ainda me recordo dos nossos corpos envolvidos, do perfume dos teus fios sagrados, do doce sabor que há em teus lábios úmidos, do teu olhar sereno. Anjo, não sei se tu virás, mas estou a tua espera. Se tu não apareceres nunca mais, terei de contentar-me que amar é viver recluso na solidão. E eu não quero viver nessa triste esquife de gelo, que maltratará todos os meus sentimentos. Em um mergulho mudo dentro do meu ser, eu te procuro e tenho fé que o vento há de levar-me até ti, porque, por mais que meus olhos não mais possam vê-la, minha alma, sedenta de amor e saudade, pode senti-la, absolutamente.

Bruno Oggione

CONTÍNUO CONTIGO

Fascina-me com a leveza que teces teus mais puros sorrisos. O timbre da tua risada me tranca em cofres de sonhos vivos. Perco-me nas encantadas horas que vivo ao teu lado e, quando tentas, em meio as tuas crises de felicidade, esboçar os motivos das tuas infindas risadas, faz-se, claramente sem perceber, o mais sagrado anjo que caminha nas veredas de minha vida. Quando sorris, a anatomia inteligente dos teus lábios se desnuda em poesia. Teus toques são puros beijos de quem conhece as maravilhas do amor. Teus beijos provam que um homem pode viver mais de uma vida simultaneamente. Sinto-me eu quando estou contigo. Sinto-me liberto quando estou em nós. Desejo uma vida séria ao teu lado, mas, já de longe, tu me invades loucamente e, de perto, sou um completo bobo conquistado. Que seja amor em silêncio, calmo, sem pressa. Que nossos corpos não suportem tanto carinho se os sonhos se materializarem em verdade algum dia. Nossos corações nascerão novamente, floridos de novas essências: nossas essências. Porque a eternidade, meu anjo, é um sopro contínuo de vida que pulsa em nossas veias.

Bruno Oggione

Só para você saber: Eu esqueci você. E só por querer que você saiba, eu reparo que não esqueci foi de nada.
Ando parada.
Mas só para você saber, eu nem penso mais em ter: Um sim no lugar do talvez que você plantou na minha interrogação. Não penso um segundo sequer em tentar invadir sua opinião.
Quando a gente não quer mais, nem faz questão de demonstrar que já não quer. Quando a gente já não quer, nem faz canção para dizer o que não é…A gente escreve sobre o outro que veio, a nova oportunidade que agarrou. Ah, só eu sei como eu anseio para que a onda leve o que restou: Ou nem tinha como sobrar, porque nem veio a de fato começar.
Porém só para você saber: Eu esqueci você. Quando for ler uma poesia, veja a minha letra vazia! Veja a cadeira vaga, veja a última luz que apaga. Porque você não está. E por estar mesmo sem que esteja, por te enxergar mesmo sem que eu veja, é que entendo que não partiu.
Mas só para você saber: eu esqueci você! E dizem que é um bom começo: Mentir, virar tudo do avesso. Colocar na cabeça que acabou, entender que terminará. Quem sabe assim eu consigo, quem sabe assim vou indo…Hoje digo que esqueci você, amanhã grito: ”Bem vindo”!

Vanessa Brunt