Poesias de Gioia Junior

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Oração da maçaneta



Não há mais bela música
que o ruido da maçaneta da porta
quando meu filho volta para casa.


Volta da rua, da vasta noite,
da madrugada de estranhas vozes,
e o ruido da maçaneta
e o gemer do trinco,
o bater da porta que novamente se fecha,
o tilintar inconfundível do molho de chaves
são um doce acalanto,
uma suave cantiga de ninar.

Só assim fecho os olhos,
posso afinal dormir e descansar.

Oh! a longa espera,
a negra ausência,
as histórias de acidentes e assaltos
que só a noite como ninguém sabe contar!

Oh! os presságios e os pesadelos,
o eco dos passos nas calçadas,
a voz dos bêbados na rua
e o longo apito do guarda
medindo a madrugada,
e os cães uivando na distância
e o grito lancinante da ambulância!

E o coração descompassado a pressentir
e a martelar
na arritmia do relógio do meu quarto
esquadrinhando a noite e seus mistérios

Nisso, na sala que se cala, estala
a gargalhada jovem
da maçaneta que canta
a festiva cantiga do retorno.
E sua voz engole a noite imensa
com todos os ruídos secundários.
-Oh! os címbalos do trinco
e os clarins da porta que se escancara
e os guizos das muitas chaves que se abraçam
e o festival dos passos que ganham a escada!
Nem as vozes da orquestra
e o tilintar de copos
e a mansa canção da chuva no telhado
podem sequer se comparar
ao som da maçaneta que sorri
quando meu filho volta.

Que ele retorne sempre são e salvo,
marinheiro depois da tempestade
a sorrir e a cantar.
E que na porta a maçaneta cante
a festiva canção do seu retorno
que soa para mim
como suave cantiga de ninar.

Só assim, só assim meu coração se aquieta,
posso afinal dormir e descansar.

Gióia Júnior

Analgésico ou Bisturi?

Era muito novo na fé quando li nos esboços de sermões do Pr Gióia Junior, o seguinte registro grafado em vermelho:
“As tribulações, são exatamente elas, a grande prova do amor e da misericórdia de Deus para conosco.”
Levei um bom tempo para começar a entender a verdade contida nestas palavras.
Hoje, sei perfeitamente que para tratar com câncer de um espírito errado por natureza, que não tem em si a pureza das virtudes do espírito de Cristo, somente o bisturi das tribulações (provações) poderá nos conduzir à cura esperada por Deus.
Se o ódio, a impaciência, a ira, o orgulho, o ciúme e tudo o mais que é obra da carne, não for removido pelo bisturi do Espírito Santo, por meio do seu convencimento de que estamos de fato enfermos, pelo modo que reagimos às provações, jamais poderíamos ver implantadas em nossa nova natureza todas as virtudes de Cristo que são contrárias a tais obras da carne (amor, longanimidade, paciência, paz, benignidade etc).
Daí a injustiça sofrida sem paciência, nos ensinar que não somos longânimos.
A ira amargurada contra o mal ou importunação que sofremos de outros, nos ensinar que não somos misericordiosos.
E assim poder diante.
Quando descobrimos a realidade da nossa condição, podemos recorrer ao Senhor e lhe pedir que nos capacite a ser e a reagir tal como Ele é: sempre manso, misericordioso, longânimo, pacífico, perdoador, bondoso e amoroso, em sua natureza.

Silvio Dutra