Poemas de Carlos Drummond de Andrade

Cerca de 312 poemas de Carlos Drummond de Andrade

O Homem;as viagens
o homem,bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na terra
lugar de muita miséria e pouca diversão
faz um foguete,uma cápsula,um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.



Lua humanizada:tão igual à Terra
O homem chateia-se na Lua
Vamos para Marte-ordena a suas máquinas
Elas obedecem,o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.



Marte humanizado,que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro-diz o engennho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto- é isto?
idem
idem
idem.


O homem funde a cuca se não Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repertório.


Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol,falso touro
espanhol domado.


Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.

Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo
por o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene,insuspeitada alegria
de con-viver.

Carlos Drummond de Andrade

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Carlos Drummond de Andrade

E cada instante e diferente, e cada
homen é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
o silêncio global, mas não seja logo.

Carlos Drummond de Andrade

O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

Carlos Drummond de Andrade

Os homens distinguem-se pelo que fazem; as mulheres, pelo que levam os homens a fazer.

Carlos Drummond de Andrade

Perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes.

Carlos Drummond de Andrade

Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.

Carlos Drummond de Andrade

O cofre do banco contém apenas dinheiro; frusta-se quem pensar que lá encontrará riqueza.

Carlos Drummond de Andrade

O homem vangloria-se de ter imitado o vôo das aves com uma complicação técnica que elas dispensam.

Carlos Drummond de Andrade

A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede.

Carlos Drummond de Andrade

Os homens são como as moedas; devemos tomá-los pelo seu valor, seja qual for o seu cunho.

Carlos Drummond de Andrade

Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.

Carlos Drummond de Andrade

A educação para o sofrimento evitaria senti-lo com relação a casos que não o merecem.

Carlos Drummond de Andrade

Necessitamos sempre de ambicionar alguma coisa que, alcançada, não nos torna sem ambição.

Carlos Drummond de Andrade

As obras-primas devem ter sido geradas por acaso; a produção voluntária não vai além da mediocridade.

Carlos Drummond de Andrade

Partido político é um agrupamento de cidadãos para defesa abstracta de princípios e elevação concreta de alguns cidadãos.

Carlos Drummond de Andrade

É menor pecado elogiar um mau livro sem o ler, do que depois de o ter lido. Por isso, agradeço imediatamente depois de receber o volume. Não há vida literária plenamente virtuosa.

Carlos Drummond de Andrade

O progresso dá-nos tanta coisa que não nos sobra nada nem para pedir, nem para desejar, nem para jogar fora.

Carlos Drummond de Andrade

Cem máximas que resumissem a sabedoria universal tornariam dispensáveis os livros.

Carlos Drummond de Andrade

Para a virtude da discrição, ou de modo geral qualquer virtude, aparecer em seu fulgor, é necessário que faltemos à sua prática.

Carlos Drummond de Andrade