Onibus Lotado

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Perder a viagem

Você pede ao patrão para sair mais cedo do trabalho, pega um ônibus lotado, vai para um consultório médico que fica no centro da cidade, gasta seus trocados, seu tempo e seu humor, e, ao chegar, esbaforido e atrasado, descobre através da secretária que sua hora, na verdade, está marcada para semana que vem. Sinto muito, você perdeu a viagem.

Todo mundo já passou por uma situação assim, de estar no lugar errado e na hora errada por pura distração. Acontecendo só de vez em quando, tudo bem, vai pra conta dos vacilos comuns a qualquer mortal. O problema é quando você se sente perdendo a viagem todos os dias. Todinhos. É o caso daqueles que ainda não entenderam o que estão fazendo aqui.

Estão perdendo a viagem aqueles que não se comprometem com nada: nem com um ofício, nem com um relacionamento, nem com as próprias opiniões. Estão sempre flanando, flutuando, pousando em sentimento nenhum, brigando por idéia nenhuma, jamais se responsabilizando pelo que fazem, pois nada fazem. Respirar já lhes é tarefa árdua e suficiente. E os dias passam, e eles passam, e nada fica registrado, nada que valha a pena lembrar.

Estão perdendo a viagem aqueles que, em vez de tratarem de viver, ficam patrulhando a existência alheia, decretando o que é certo e errado para os outros, não tolerando formas de vida que não sejam padronizadas, gastando suas bocas com fofocas, seus olhos com voyeurismo, sem dedicar o mesmo empenho e tempo para si mesmo.

Estão perdendo a viagem aqueles preguiçosos que levam semanas até dar um telefonema, que levam meses até concluir a leitura de um livro, que levam anos até decidir procurar um amigo. Pessoas que acham tudo cansativo, que acreditam que tudo pode esperar, que todos lhe perdoarão a ausência e o descaso.

Estão perdendo a viagem aqueles que não sabem de onde vieram nem tentam descobrir. Que não sabem para onde ir e nem tentam encontrar um caminho. Aqueles para quem a televisão pode tranqüilamente substituir as emoções.

Estão perdendo a viagem aqueles que se entregam de mão beijada às garras do tédio.

Martha Medeiros

A flor e a náusea

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

Pegação

Eu vou pegar uma caneta e já anoto seu número.
Eu vou pegar o próximo ônibus.
Eu vou pegar um copo d´água pra você.
Eu, bro? Vou pegar uma mulher!!! Duas, se bobearem...

Ah, língua portuguesa, que flexibilidade. O tempo passa e o nosso vocabulário muda, se expande, se transforma, ganha novos e riquíssimos significados, como este agora: pegar mulher. Aliás, pega-se homem, também.

É natural que garotos e garotas saiam pra noite querendo se dar bem, conhecer pessoas, ter uma história, um romance, uma ficada, duas ficadas, três ficadas, quatro ficadas... esquece, a partir daí já não acho natural coisa nenhuma. Acho um desperdício de energia. Pegar quatro caras. Pegar cinco minas. A gente está falando de quê, de catadores de lixo?

Parece.

Não se trata de caretice, mas de adequação. Pegar, pega-se coisas. Não gente. Coisas. Bonecos infláveis, que podemos segurar, tocar, lamber e descartar 10 minutos depois. Coisas. Produção industrial, sentimento nenhum, envolvimento zero. Coisas. Objetos inanimados. Sem voz, sem idéias, sem vida. Coisas. Pegue-e-leve, pegue-e-largue, pegue-e-use, pegue-e-chute, pegue-e-conte-para-os-amigos-depois. Pegar, cá pra nós, é um verbo muito cafajeste.

Tudo bem experimentar sensações diversas, conhecer de tudo, exercitar a sexualidade, mas em vez de "pegar", poderíamos empregar algum outro verbo menos frio e automático. Porque, quando duas bocas se tocam, nada é assim tão frio e automático, na maioria das vezes a naturalidade é forçada, é a turma que dita as regras e exige que todos se comportem igual, então vão todos para a balada fingindo que deixaram o coração em casa, mas deixaram nada. Deixaram a personalidade em casa, isso sim.

Mas o que uma tia como eu pode fazer contra o avanço (avanço??) dos costumes e a vulgarização do vocabulário? Sou do tempo em que pegava-se uma carona, um avião, uma gripe. Quando o assunto era relação, por mais frágil e rápida que fosse, ninguém estava pegando ninguém. Ao contrário, estava todo mundo se soltando.

Martha Medeiros

Quem não chegou a uma estação tarde de si ,
a pressentir que o último ônibus passou?

Fabrício Carpinejar

O problema do amor (por Kathlen H.P. 02/11/07).

Hoje de manhã, estava no ônibus, e ouvi a conversa de duas mulheres de meia idade. Uma delas dizia que descobrira que seu marido, com quem estivera casada há oito anos, a havia traído. Podia sentir todo o rancor e tristeza possível na voz daquela mulher. A outra a consolava, dizendo que ele não a merecia. E disse em bom tom, que o amor a dois é o desperdício da vida, que ele só serve para construir decepções cada vez mais dolorosas. Senti-me perplexa com aquele comentário, e não consegui parar de pensar naquilo o dia todo.
Sempre acreditei no verdadeiro amor entre dois. E pode ter certeza, que nos últimos meses, tive motivos de sobra para deixar de acreditar. Porém, sempre tive fé de que o verdadeiro amor existia sim. Vejo tantas relações de anos, de casais que se amam em plena terceira idade, com a mesma intensidade de que se amavam quando se conheceram. Vejo cumplicidade explicita entre casais amigos, desde aqueles que ainda namoram, até aqueles que já construíram uma vida juntos. Horas, o amor está em todo lugar, o amor é a essência da vida. Como pode ser ele, um arquiteto de decepções?
Refletindo sobre isso, lembrei-me de uma música, de Renato Russo, que diz: "quem inventou o amor?” Certamente, se essa pergunta fosse feita a uma das senhoras do ônibus, elas diriam que foi alguém que teve uma enorme decepção amorosa, e para dar um nome a toda àquela agonia passada, escolheu amor.
Mas, eu não diria isso. Quem inventou o amor, foi sim, alguém que sofreu, que perdeu noites de sono, que derramou lágrimas, que fez loucuras, que gritou, que se arrependeu, que sentiu dor no coração. Mas este alguém com certeza sentiu uma felicidade além da conta. Sentiu o peito explodir de uma alegria indescritível, sentiu sabores, cheiros, toques de inimaginável esplendor. Sentiu-se completo, viu como o mundo pode ser belo, e como ainda vale a pena sonhar. A este turbilhão de sensações, deu-se o nome de amor.
Pensando mais um pouco (é, hoje estou pensativa pra caramba), cheguei à conclusão, a uma difícil conclusão, (especialmente para mim, podem acreditar); o problema não está no amor, e sim, a QUEM damos nosso amor. Todo ser humano é provido da capacidade de amar, nem que seu único amor seja o amor próprio, mas ele é capaz de amar.
O problema maior está em quando resolvemos dividir nosso amor. Aí é que se encontra o 'x' da questão. Achar a pessoa certa para compartilhar tão indefinido sentimento. Quando a achamos, o mundo fica 'blue'. Tudo são rosas, a sintonia é perfeita, o encaixe é surreal. "Ah, como o amor é bonito!"
Se não achamos esta pessoa, pensamos que o amor não passa de uma lenda, que é uma propaganda enganosa, e que estamos muito bem sozinhos, obrigada. (este caso é raro, mas acontece).
Mas o pior de tudo é quando pensamos ter encontrado a pessoa certa, a pessoa para dividir cumplicidade. Até ai tudo bem. Mas então o mar de rosas se transforma num vendaval, a pessoa que julgávamos a 'certa' não está mais nem ai. Talvez porque surgiu uma terceira pessoa, talvez porque o fogo da paixão terminou, ou vai lá saber o porquê (o amor tem razões que a própria razão desconhece). E nós, que demos todo nosso amor, que investimos toda nossa energia em uma relação, ficamos ali, parados, sofrendo, perguntando-nos onde foi o erro. Procurando uma palavra mal interpretada, um gesto não entendido. Esperando uma ligação que não vem. Um e-mail que não chega. Um beijo que sabemos que não será dado.
E sofremos. Sofremos e juramos nunca mais passar por isso, juramos nunca mais se entregar de tal modo, juramos nunca mais nos deixar ser enganados por alguém. Mas isso passa. Um dia, Drummond escreveu algo como “Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz." Ele tinha razão. Acredito que somos seres amáveis, no sentido literal da palavra. Nós somos o amor. E somos corajosos. Muito corajosos. Porque mesmo depois de sofrer tanto por amor, ainda amamos. E amamos de novo, e mais uma vez. Mesmo sabendo de todos os riscos, nos aventuramos procurando o que só este sentimento pode nos dar.
Então aqui vai uma dica de uma verdadeira 'amante'; não deixe de amar, o amor vale a pena. Porém, tenha a certeza de que você está entregando seu amor pra pessoa certa, para alguém que goste de você, não que só goste do amor, porque gostar de amor, todo mundo gosta. Dê amor a alguém que te complete de verdade, que te dê a chance de dividir sua vida com ele, mas que te dê o espaço para ter sua própria vida. E se não der certo da primeira vez, continue na busca! Não se deixe abalar pelo fato de um dia ter demonstrado seus sentimentos para quem não soube valorizá-los; o que importa é que você soube assumi-los, sem medo. E essa pessoa um dia vai ver o que perdeu. Alguém disse uma vez que “às vezes, construímos pequenos sonhos em cima de grandes pessoas, mas com o tempo percebemos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas eram pequenas demais para eles”. É a mais pura verdade. Mas nem por isso devemos deixar de sonhar.

Kathlen Heloise Pfiffer

Tudo estava contribuindo pro maior mau humor do ano. Até que eu entrei no ônibus, me perdi em pensamentos desconexos e dei o maior sorriso do mundo sem perceber. Quer dizer, só percebi quando peguei o trocador me olhando fixamente e me chamando de maluca pelo olhar. Mas é sempre assim: Eu me apaixono pela maneira como a minha imaginação ostenta meus sentimentos. Minhas dores duram três dias, minhas lágrimas caem por três horas. E logo depois, meu lado emocional passa horas se gabando pro meu lado racional. (...) Esqueço rapidamente da angústia, da espera e dos olhos fechados. Morreria para ganhar de novo aquele beijo no olho, aquele abraço que me deixou com o cheiro dele, pra ter aquela mão entrelaçada na minha. Não é todo dia que encontramos alguém que desacelera nossa impaciência, aumenta nossa frequência cardíaca e embaralha nossos instintos de sobrevivência. E eu morro de medo de você me perder e não saber nem metade do carinho que eu guardo aqui dentro. Tenho vontade de te sacudir, mandar você deixar de ser burro dessa maneira e olhar pra mim de novo. Mas não, me preservo, me machuco.. na esperança do meu celular tocar e sua voz acalmar toda a agonia que me cerca quando você está longe.

Thais Luquez

"Entre o ônibus em chamas e a faculdade fechada,a profecia do lunático aqui é concretizada."

Facção Central

Não corro atrás de ônibus, vou correr atrás de homem? Dou sinal meu bem, se não parar, eu pego o outro!!

Desapego

‘Olha, antes de o ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe? Dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? (…) Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e “desamar” era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender (…) Fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas.’

Desconhecido

Quarta-feira, véspera de feriado, ônibus lotado! Entre empurrões e pisoteios surge um passageiro diferente que com um repertório variando de Roberto à Blitz e uma interpretação digna do Oscar da Originalidade, conseguiu desviar nosso foco dos empurrões e pisoteios e tornar a viagem no mínimo descontraída e até divertida. Aquele homem na sua loucura bem-humorada; a despeito de alguns olhares de reprovação, deboche e até mesmo contentamento, e indiferente ao aperto, empurrões e pisoteios me parecia Feliz;. Só faltou ele cantar: Mas louco é quem me diz que não é feliz...

Marilane Oliveira

No meio do onibus lotado
ja eram 6 da manhã,
mas o sono estava longe
e a ressaca era o presente
da sua mente novamente sã.
Porque ela tinha
pouca idade e muita sede,
quando criavam regras
era como um peixe preso na rede.
O mundo não cabia na sola
dos seus sapatos.
Nunca considerava o sentimento abstrato.

Não podia ficar estagnada
como deveria estar,
Sentada e comportada,
longe de se machucar.
E a cada gole ficava mais simples
e a cada trago melhor

Cada dia era um novo pesadelo.
Cada dia era um pensamento
que tirava o sono.
Cada hora era um desespero.
Cada ano um abandono.
Toda duvida era fraca demais,
toda certeza ja não importava mais.
Todo mundo vai sempre querer alem do que tem,
o meu problema como um problema qualquer
é querer ir além

A cada gole ficava mais simples
e a cada trago mais calma
coçava o nariz sem ter rinite
Tinha um buraco negro na alma.

ana gabir

Conversas no ônibus: o peru de Natal

Ônibus lotado, um empurra-empurra e o cheiro... Aquele desagradável de gente suada e honesta que trabalhou o dia todo. Duas mulheres sobem no zarco e ficam atrás de mim, tagarelando. Sem nenhuma outra opção, escuto a confissão:

- Vou te falar, eu prefiro o patrão, não tem nem comparação – disse a baixinha e roliça.
- Também gosto mais do meu patrão do que da patroa. - corta rapidamente a magricela de vestido.
- É, né guria? O seu Alfredo vai lá na cozinha, faz comida com a gente, mais humilde, sabe? Agora a patroa não vai, diz que pega gordura no cabelo.
- A minha não suporta atrasos. Esses dias perdi o ônibus, cheguei às 7:15, lá tava ela de pijama com a xícara de café na mão me esperando, desesperada. Disse que pensava que eu iria faltar e aí queria saber como a família iria almoçar.
- Eles que fossem almoçar fora, já que dinheiro não é o problema.
- Fiquei nervosa e comecei a tremer na hora, mas não falei nada. É melhor assim. Não consigo responder de bom grado, mais deixa chegar perto do natal que vou falar. Ah, se eu vou! Vou pedir uma ajudante porque não dou conta da casa sozinha, antes tinha, mas ela demitiu.
- Lá nos Fernandes também demitiram a Cleide, aí pegaram a Nora, essa era folgada! Não fazia o serviço direito, a patroa preferiu demitir a Nora e voltar com a Cleide, foi buscar em casa e tudo.
- Vish! Já a minha é uma bicha orgulhosa, sentiu falta da... Nem lembro o nome dela, tadinha, mas não é capaz de ligar, acredita?
- Acredito, acredito em tudo nessa vida.

(Nisso a magricela apertou o sinal para descerem no próximo ponto.)

- Então, pode acreditar que se ela não colocar uma pessoa pra me ajudar vou pedir a conta.
- Sério?
- Capaz, sua tonta! Esse é o discurso que sonho em falar, mas daqui a um mês é Natal e como eu vou comprar o peru sem salário?

(Desceram do ônibus e uma parte de mim desceu com elas, aquela que levava desaforo pra casa para ter peru no dia 25 de dezembro.)

Priscila Andreza

Lance fortuito

Estar só em um ônibus lotado
Deveras incerto o destino certo
Música alta em um carro parado
Na rua, residência dos sem-teto

Têm dias que passam depressa
Já outros parecem não passar
Paz e guerra na mesma remessa
Assim fica difícil continuar

Se a cada chuva houvesse a certeza
Que Deus está sempre a chorar
A estupidez humana seria clareza
É claro que todos iriam enxergar

Metáforas que representam muito
Gírias e a linguagem informal
É necessário um lance fortuito
O ontem nem sempre é igual.

Allan Caetano Zanetti

O ônibus está tão lotado, que até o motorista está em Pé!

Igor Tibúrcio

Pobre acredita em tudo, irmão! A única riqueza que pobre tem é a crença...

Miguel M. Abrahão em obra O Ônibus

ORAÇÃO DO BEBUM

Bendito seja o nosso fígado de cada dia
Venha a nós um copo cheio, nunca apenas pelo meio.
Seja feita a nossa cachaçada, assim tanto no boteco como na calçada.
O mé nosso de cada dia nos dai hoje, amanhã e sempre.
Perdoai as nossas bebedeiras
Assim como nós perdoamos.
A quem não tenha bebido.
Não nos deixai cair no refrigerante.
E livrai-nos da água com gás.
Barmem!

Miguel M. Abrahão na obra O Ônibus - 1978

Esse mundo anda lotado de gente. Nos faltam pessoas.

Duda Penafiel

Há um imenso passo entre sentir-se só e estar só. Já senti-me só em meio ao Maracanã lotado, porém, ao seu lado a solidão não me atinge. Onde quer que você esteja, eu estou com você.

Gabriel Souza