Manhã de Domingo

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Hj é domingo de manhã. Neste domingo de sol e de júpiter estou sozinha em casa. Dobrei-me de repente em dois e para frente como em profunda dor de parto- e vi que a menina em mim morria. Nunca esquecerei esse domingo sangrento. Para cicatrizar levara tempo. E eis-me aqui dura e silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim. Todas as vidas são vidas heróicas.

Clarice Lispector

Eu só quero amar você no nosso café da manhã de domingo.

João Bridi

PRECE DE DOMINGO
Senhor, nesta manhã de domingo, em que o sol reluz como sempre, ainda que encoberto pelas nuvens, venho lhe pedir proteção e saúde, durante todo o dia e na semana que se aproxima, para mim, para minha família e para meus amigos.
Rogo-lhe que renove nossas forças para prosseguirmos, com bondade, paz, alegria e amor e, assim, continuarmos o belo ciclo da vida. Amém.

Marcos Alves de Andrade

Doutrina Suprema

Sermão nº 318
Ministrado na manhã de domingo, 3 de junho de 1860, pelo
Rev. C. H. Spurgeon
Em Exeter Hall, Strand.

AOS LEITORES DO PÚLPITO DA PARK STREET
QUERIDOS IRMÃOS

O trabalho incessante tem me enfraquecido a tal ponto que sou obrigado a me afastar por algumas semanas. O grande Mestre ordenou a seus discípulos “Vinde repousar um pouco, à parte, num lugar deserto”, por isso, sinto que estaria agindo de forma contrária às advertências da Providência sobre meu estado físico e mental se não procurasse repousar. Durante minha ausência, continuarei a ministrar por intermédio dos sermões vespertinos, os quais são mais ricos e cheios de verdades doutrinárias que os matutinos. Se os sermões ministrados nos encontros mistos de Exeter Hall já são proveitosos, tenho absoluta certeza de que os sermões vespertinos para a igreja do Senhor não deixarão, pela bênção de Deus, de edificá-la ainda mais.
Espero escrever-lhes algumas linhas, as quais serão anexadas ao meu sermão semanal, a fim de que os laços de comunhão não sejam quebrados e eu tenha oportunidade de suplicar suas incessantes orações. Que o Senhor os abençoe e os guarde até a Sua volta.
Seu irmão em Cristo,
Clapham, segunda-feira, 4 de junho de 1860
C. H. Spurgeon.

“Ora, tudo provém de Deus” - II Coríntios 5:18
Gostaria que vocês considerassem este texto como um resumo de tudo o que tenho pregado durante estes anos. Tenho me empenhado, constante e continuamente, em sustentar que a salvação provém da vontade de Deus, não do livre-arbítrio do homem; que o homem não é nada, mas Jesus Cristo é o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. E creio que posso dizer com toda a sinceridade “Ora, o essencial das coisas que temos dito é” — “tudo provém de Deus”. Que resumo abrangente, meus irmãos! Estas palavras compreendem a dimensão de tudo o que se passa na mente humana — “tudo!”; e proclamam a quem tudo pertence — a “Deus”. Compreenda esta dimensão, se for capaz: “Tudo!” O que falta? Certamente todas as coisas desejadas por um cristão estão contidas na palavra “tudo”. No entanto, mesmo não sendo suficientemente abrangente, nosso resumo possui uma expressão ainda melhor, superior a todas as outras, porquanto tudo provém de Deus e Ele continua o mesmo, tão rico como sempre. “Tudo provém de Deus”. Se estivermos com sede, eis as torrentes que nunca vão se exaurir. Se estivermos com fome, certamente haverá pão suficiente para comer e guardar. Se formos pobres, eis aqui tesouros e riquezas absolutamente inesgotáveis, pois temos tudo, e tudo em Deus.
Nesta manhã, espero fazer duas coisas: primeiro, estabelecer, de forma clara e distinta, a doutrina dessa sentença; e em seguida, demonstrar a excelência da sua aplicação prática.
1. Comecemos com A PRÓPRIA DOUTRINA: “Tudo provém de Deus”. Para que possamos compreendê-la melhor, terei de subdividi-la e analisá-la primeiramente pelo que ela é; depois pela sua forma e, em seguida, pelo seu significado.
“Tudo provém de Deus!” A que se refere o termo “tudo” aqui? A resposta se encontra no contexto — tudo na nova criação provém de Deus. Não é necessário relembrarmos disso com relação à antiga criação. Ninguém, exceto o incrédulo, jamais pôde afirmar que alguma coisa existisse à parte do Criador. Nós cremos que Ele derramou os raios de luz de Seus aposentos celestiais sobre as águas e estendeu o firmamento como uma tenda, para nele habitar; que as ilhas foram formadas por Suas mãos e os ventos estão, como sempre estiveram, sob Sua direção e controle; nada existe, e nada existirá, a menos que Deus ordene, estabeleça e lhe dê sustentação. Quanto à questão da nova criação, é admirável que sempre haja alguma controvérsia. Não chamamos de incrédulo ao que ensina que na antiga criação algumas coisas vieram do homem? Que nome daremos, então, a quem ousar dizer o mesmo da nova criação da graça? Se a primeira questão é uma heresia, a segunda é igualmente execrável, ou ainda pior; pois uma se refere às obras externas de Deus, mas a outra coloca sua mão sacrílega nas obras internas da Sua graça, arrancando as jóias mais brilhantes da Sua coroa e enterrando-as no pó. Nós defendemos, e sempre iremos defender, que tudo, sem exceção, na nova criação, provém de Deus, única e exclusivamente de Deus.
Mas você pergunta: “Que coisas?”. Nós respondemos — todas as coisas que se referem à nova natureza — tudo o que diz respeito aos nossos novos privilégios e às nossas novas atitudes - qualquer coisa concernente à nova natureza provém de Deus. O desejo pessoal por Cristo no coração contrito do pecador provém de Deus. A primeira centelha de esperança a brilhar na mente pobre e ignorante provém de Deus. O primeiro vislumbre da fé recém-adquirida, quando os olhos se voltam para o Salvador, provém de Deus. Os primeiros indícios do amor divino dentro da alma provêm de Deus. Sejam os homens deixados à sua própria mercê e sua natureza corrompida se deteriorará, apodrecerá e produzirá fungos da pior espécie. A vida que provém de Deus, no entanto, jamais brotou naturalmente de um coração morto. Qualquer coisa boa em sua origem, bem como em sua perfeição, “desce do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança”. Alguns parecem ensinar que o homem deve dar o primeiro passo na salvação e Deus cuidará do resto. Não, cavalheiros, se o homem pode dar o primeiro passo, ele também pode dar o último, e todos os demais. Se o homem, morto em seus delitos e pecados, pode despertar a si mesmo, certamente ele poderá manter a vida da qual ele mesmo é o autor. Se o homem, corrompido, desprovido de dignidade e afastado de Deus, pode dizer, sem o despertamento da graça: “Vou me arrepender, mudar meus caminhos e buscar a Deus”, e se ele pode tomar essa resolução por si mesmo e por vontade própria, então, de jeito nenhum há lugar para Deus em sua salvação. Que o homem, então, tenha tudo e receba toda a glória! Saibas, porém, meu ouvinte, que não tens sequer um bom pensamento em teu coração que não venha de Deus; se algo te diz: “Levanta-te, e vai ter com o Teu pai” (Lc. 15:18), essa voz provém de Deus. Se as tuas entranhas começam a se contorcer diante do Pai, a quem tu ofendeste e enfureceste, e se os teus pés querem abandonar as montanhas do pecado e da vaidade e trilhar a estrada da retidão, é a mão do Pai que te convida, é a voz do Salvador que bondosamente te leva a buscar a Sua face, pois “Tudo provém de Deus”.
Tudo o mais que diz respeito à nova natureza provém de Deus; não apenas a primeira transformação da mente, mas também o querer e o realizar, e o seu pleno desenvolvimento. O crente é forte? Isso provém de Deus. Ele está de pé e não cai? Sua sustentação provém de Deus. Ele continua fiel à aliança em meio às tentações e, no dia da tribulação, mantém-se firme junto ao Mestre? Sua integridade provém de Deus. Não há nada nele, por natureza afastado de Deus, que não seja vil e enganoso. “Em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum.” Se há algo de bom em minha natureza, se fui transformado pela renovação da minha mente, se estou regenerado, se passei da morte para a vida, se fui tirado da família de Satanás e adotado na família do amado Filho de Deus e, se já não sou filho da ira, mas cidadão dos céus, então todas essas coisas provêm de Deus e, em nenhum sentido e em qualquer medida, de mim mesmo.
Mais ainda, da mesma forma que a nova natureza provém de Deus, os novos privilégios decorrentes dessa nova natureza também provêm dEle; e quais são eles? Sem dúvida são ricos e preciosos. Há o perdão, a purificação de todos os nossos pecados; quem dirá que ele não provém de Deus? Há a justificação, a cobertura de vestes brancas como a neve que nos tornará participantes da herança dos santos na luz; não provém isso de Deus? Há a santificação, que corta a própria raiz do pecado e coloca a velha natureza adâmica sob os pés do recém-nascido em Cristo; não provém isso de Deus? Há o privilégio da adoção, dado pelo Pai a tantos quantos creem em Seu Filho unigênito, para que se tornem filhos de Deus. Ó, Senhor, certamente essa adoção provém de Ti! Há a comunhão, pela qual, por meio de Jesus Cristo, temos acesso ao Pai por um mesmo Espírito. E quem alguma vez ousou pensar em comunhão sem a inefável graça do Altíssimo? Estou certo, meus irmãos, de que aqueles que já compreenderam a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade das misericórdias e privilégios da aliança, jamais encontraram um único privilégio que não viesse de Deus. Temos andado pelas vastas planícies da maravilhosa graça de Deus, mas nunca vimos sequer uma planta ou uma flor que não tenha sido semeada ou plantada por Ele. Quando tivermos entrado na casa do tesouro e tirado os sapatos de ferro e de bronze, o capacete de proteção e a espada de aço; quando tivermos recebido a imarcescível coroa de glória, seremos obrigados a confessar alegremente que todas essas coisas provêm de Deus. É impossível conceber uma única dádiva da graça, um único dom de misericórdia, que venha de nós mesmos e não de Deus.
Mais uma vez, para concluir este resumo, todas as ações da nova natureza provêm de Deus. Veja um missionário em algum lugar longínquo; ele deixou casa e família e todos os confortos da terra natal para lutar por Cristo entre pessoas que irão desdenhar dele, desconfiar de seus motivos e retribuir sua abnegação com perseguição. Percebem que ele está nas mãos de Cristo, arriscando a vida até a morte? Esse homem, afligido por um febre típica da região em que foi viver, enquanto jaz de cama com um triste intervalo para reflexão, jamais se arrepende da decisão tomada. Ele recupera as forças o suficiente para se arrastar para debaixo de uma árvore e fica ali, e, em vez de renunciar aos votos de dedicação a seu Mestre, ele os renova, pregando mais uma vez a Palavra. Ele continua a trabalhar até a exaustão e entrega seu corpo à terra, longe do lar e da terra natal; uma testemunha contra os incrédulos, enviado por Deus para pregar-lhes o evangelho. Devemos aplaudir o homem? Devemos entoar-lhe canções de louvor? Vamos honrá-lo, pois agiu com coragem. Vamos nos lembrar, no entanto, de que todas as coisas boas nele vieram de Deus. Não fosse por Deus, ele teria sido negligente, indiferente e descuidado para com a alma dos homens. Mártires são queimados na fogueira? Crentes em Cristo são presos e apodrecem no cárcere? Heróicos filhos de Deus lutam contra a corrente do seu tempo e parecem deter a enchente com a força do próprio braço? Será que os cristãos estão preparados para suportar a ofensa e o escárnio, a censura e a reprovação, por amor de Jesus? Com certeza, tudo provém de Deus. Um cristão é magnânimo, generoso e preocupado com os problemas alheios? Outro é fervoroso na oração e zeloso no serviço? Você pode encontrar um terceiro que viva tão próximo do Senhor que sua face pareça brilhar com a luz do amor de Jesus - todas estas coisas provêm de Deus. Nenhuma virtude é atribuída ao homem. Coisas boas são estranhas ao coração humano. Elas não são como as ervas daninhas que brotam naturalmente do solo árido de que é feito o coração do homem, mas flores raras e escolhidas, semeadas de cima pela mão do Espírito e plantadas nesse solo estéril. Oh, lembremo-nos sempre de que qualquer coisa boa que possamos fazer, sentir ou pensar provém de Deus. Irmãos, repudiem com ódio e aversão qualquer doutrina que os leve a pensar que alguma obra ou graça, ou qualquer coisa justa, pura, amável ou de boa fama no homem venha do próprio homem. Pois, embora se apresente em trajes sóbrios, embelezada e lhe pareça bastante honesta, tal doutrina é a meretriz do catolicismo disfarçada. É só examiná-la um pouco melhor e logo se chegará à salvação pelas obras. Ergam sempre o bom e velho estandarte calvinista, o mesmo empunhado por Agostinho e entregue por Paulo a nós diretamente de nosso mestre Jesus; e defendam, creiam e afirmem, sem nunca se desviar, que tudo na nova criação provém de Deus.
2. A segunda divisão da doutrina deve ser Como! Como, e em qual sentido, tudo provém de Deus? Tudo na nova criação, desde o planejamento, provém de Deus. Deus, antes de o mundo existir, planejou a nova criação com a mesma exatidão e sabedoria com que planejou a primeira. Alguns parecem pensar que Deus realiza Sua obra aos poucos, fazendo alterações e acréscimos enquanto trabalha. Não conseguem acreditar que Ele tivesse um plano; eles creem que até um reles arquiteto terreno idealize sua própria construção, ainda que seja um casebre, mas o Deus Altíssimo, Criador dos céus e da terra, quando diz: “Eis que faço novos céus e nova terra, nos quais habita justiça”, não tem plano algum, e deixa tudo ao capricho dos homens. Ele não deve ter decretos, nem propósitos, nem determinações, mas os homens podem fazer o que quiserem e, por isso, o homem, literalmente, usurpa o lugar de Deus, e Deus se torna dependente do homem. Não, meus irmãos, em toda a obra da salvação Deus é o único e supremo Criador. Ele planejou quando e como cada um do Seu povo seria levado a Ele; Ele não deixou Seus salvos à mercê da sorte, ou pior ainda, da vontade corrompida do homem; Ele não permitiu que a escolha de Seus eleitos fosse mera obra do acaso, mas gravou o nome de cada um deles nas pedras do peitoral eterno do grande Sumo Sacerdote. Ele não permitiu que uma única estaca, um único fio de linha, um único pedaço de lona ficasse para depois - o tabernáculo inteiro foi entregue conforme o modelo recebido no santo monte. Na estrutura do templo da graça, cada pedra foi ajustada e cinzelada no decreto eterno, seu lugar ordenado e estabelecido; nenhuma pedra será retirada da pedreira antes do tempo, nem colocada em qualquer outra posição que Deus, segundo o conselho da Sua vontade, não tenha ordenado. Tudo na nova criação provém de Deus, desde o seu planejamento.
Ai de nós, no entanto, se Deus simplesmente tivesse planejado e deixado a execução por nossa conta! Tudo na nova criação provém de Deus, tanto na compra quanto no processo de aquisição. Um preço foi pago pelo povo de Deus: qual preço? O precioso sangue do Senhor Jesus Cristo! Quem contribuiu com um centavo sequer para a riqueza do tesouro que comprou a nossa alma? Não foi Ele quem, sozinho, pisou as uvas do lagar? Será que alguém O ajudou a suportar o peso, o peso intolerável da culpa que oprimiu o sofrido Senhor, quando carregou Ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados? Qual braço O ajudou, ou qual pé, a não ser o Dele mesmo, esmagou o inimigo? Não, ó Senhor! Tu nos remiste com o Teu sangue; nós não tivemos nenhuma participação nisso; Tu foste o Alfa e o Ômega e toda honra é somente Tua.
E, da mesma forma que o plano provém de Deus, e o pagamento provém de Deus, também tudo provém de Deus quanto à aplicação e ao esclarecimento na consciência de cada um. A cruz de Cristo não é simplesmente levantada à vista de todos e depois deixada lá para cada um decidir se quer ou não olhar para ela. Ela continua sendo livre para todas as almas viventes; no entanto, Deus determinou que ela não será negligenciada. Há um número, que ninguém pode contar, daqueles que serão constrangidos pela graça a abraçá-la como a esperança da alma. Jesus não morreu em vão, porque Deus tornará os homens dispostos no dia do Seu poder. Eles são duros, mas Deus pode quebrantar seu coração; são obstinados, mas Ele pode dobrar seus joelhos; eles não virão, mas Ele pode fazê-los vir. Deus tem a chave que pode dar corda ao coração humano e fazê-lo andar como Lhe apraz. Não pense que o homem é um ser independente, tão livre que Deus não possa controlá-lo; que, quando Se fez homem, Deus deificou a humanidade e deixou de lado a Sua própria divindade. O homem é livre para ser responsável, mas não está livre da sua constante tendência e inclinação para o mal. No entanto, ele está sujeito à restrição ou limitação de Deus. Se ele age certo, é pela restrição de Deus, não pelo seu livre-arbítrio. Quando ele age errado, Deus o deixa por sua própria conta; mas, sempre que age certo é porque a mão de Deus está com ele. O homem, por natureza, é como um cavalo chucro correndo em direção ao precipício; se é detido e desviado do perigo, é porque tem um ótimo cavaleiro, o qual sabe como puxar as rédeas e guiá-lo para onde quiser; e, mesmo que o cavalo empine e escoiceie, e queira mudar de direção, o cavaleiro consegue dominá-lo e virá-lo, fazendo-o ir como Ele deseja e conduzindo-o como Lhe apraz.
Nessa questão, a verdade é que todo esclarecimento do evangelho para a alma do homem provém de Deus. E não é só isso. As obras da nova criação provêm de Deus não só no planejamento, aquisição e aplicação, mas também na sua preservação. Deixe o cristão preservar, por si mesmo, a graça conquistada, e ele estará perdido. A chama se acenderia, mas o sopro do diabo a apagaria. O combustível está queimando, mas corte a ligação entre ele e o gasômetro, e a chama se apaga. O cristão vive, mas é porque Cristo vive, e porque ele é um com Cristo. Ó, Senhor, se cessasses de enviar as correntes da Tua graça, a Tua gloriosa igreja, com toda a sua beleza, seria como uma flor caduca; toda a sua força se desvaneceria de fraqueza, e ela mesma, apesar de ser como uma torre em sua glória, ruiria até o chão e jazeria no leito de pedras do vale. Na preservação, tudo provém da graça, e assim, tudo provém de Deus.
Mais ainda, tudo deverá vir da graça de Deus até o final. Quando você e eu subirmos os montes celestiais em direção aos portões do Paraíso, os últimos passos virão de Deus, da mesma forma que vieram os primeiros. E, quando estivermos nas ruas de ouro com as nossas vestes brancas, estou certo de que não teremos sequer uma palavra para cantar sobre o livre-arbítrio, ou sobre nós mesmos, mas o nosso brado será: “Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados” — a Ele seja toda a glória eternamente. Na terra, os homens podem defender a doutrina que quiserem, mas nos céus, não podem defender outra coisa além da graça livre, rica e soberana. A canção nunca foi dividida e nunca será. Não haverá estrelismo para estragar a harmonia, mas todos os corações entoarão a mesma melodia, e todas as línguas se confundirão na mesma canção — “Tu o fizeste; ó Senhor, tu o fizeste —
A graça toda obra irá coroar
Pela eternidade sem par
Nos céus está a pedra superior
Que bem merece todo o louvor
3. Meu terceiro ponto sobre a doutrina deve ser “Por quê”. Por que “tudo provém de Deus”? Como podemos entender claramente este ponto? Não usarei argumentos, somente aqueles que são claros e evidentes para todos.
Tudo na graça deve vir de Deus, pois temos total consciência de que nada pode vir do homem. O homem está em tal posição que nada pode vir dele. Lázaro jazia como um cadáver em seu túmulo; ele é despertado; sua mortalha é retirada; ele vive, ele respira. Diga-me, com sinceridade: sua ressurreição deveu-se em alguma parte a ele mesmo? Bom, cavalheiro, sua mente deve estar realmente meio enganada. O que aquele morto poderia fazer por sua própria ressurreição? Com certeza esse deve ser um fato filosófico que poderia abalar todos os homens racionais, pois aquilo que não existe não pode trazer a si mesmo à existência. Portanto, a minha nova natureza, a qual não existia antes de Deus dá-la a mim, não poderia trazer a si mesma à existência. E, no entanto, você diz que um morto pode reviver a si mesmo, ou, pelo menos, fazer alguma coisa nesse sentido. Ó, cavalheiro, não é possível que você queira dizer isso, não mesmo. Arrazoar com você foi ridículo. Você precisa perceber que, se um homem estiver morto, não há nada que ele possa fazer; é preciso um poder superior para dar-lhe a vida. Com o pecador morto em pecado é a mesma coisa, o que pode ele fazer? A menos que as Escrituras sejam um exagero, a menos que você esteja preparado para jogar fora a passagem onde é dito que estamos mortos em nossos delitos e pecados, não vejo como você possa imaginar que o homem seja capaz de fazer qualquer coisa na obra da graça. Ele pode trabalhar quando Deus o dispõe a isso, e ele vai; ele pode se mover quando Deus lhe dá forças e ele vai, então, com alegria e espontaneidade; mas, até aí —
Quão incapaz jaz a natureza culpada,
Inconsciente do seu próprio estado,
O coração morto nunca será elevado
À Deus e à Sua eterna morada.
Até que uma pedra se lance sozinha em direção ao sol, até que o mar se incendeie sozinho, e até que o fogo, por sua própria natureza, destile água de suas próprias entranhas, então, e só então, a humanidade depravada poderá exalar bondade de dentro de si. Tudo deve ser pela graça, unicamente pela graça.
Deixe-me dar uma outra razão pela qual estamos absolutamente certos de que todas as coisas na obra da graça provêm de Deus. Está expressamente escrito que toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm lá do alto. Ora, a palavra “todo” é muito abrangente; ela não exclui um único caso. Existe alguma boa dádiva? Não está escrito que algumas boas dádivas, alguns dons perfeitos são lá do alto, mas que todos são; não tenho nenhuma dúvida de que essa regra se aplica a qualquer boa dádiva que você possua — a qualquer boa dádiva que de fato está no coração de qualquer um que viva na terra. Deus seria apenas em parte o Pai das luzes se houvesse luz vinda de qualquer outro lugar; Deus seria apenas em parte o benfeitor do mundo se houvesse outras fontes de onde o mundo pudesse tirar seu sustento e outros meios para levar as almas para o céu.
Outra vez, temos certeza absoluta de que todas as coisas provêm de Deus, pois toda a glória é de Deus. Ora, se toda a glória é de Deus, isso significa que todo o trabalho foi feito por Ele; pois onde há trabalho, precisa haver mérito. Se foi o homem quem fez, ele pode reivindicar a honra. Se fui o meu próprio salvador, vou reivindicar a honra e a dignidade; e nada, a não ser uma força superior, pode arrancar de mim a glória que eu mereço. Mas se foi Deus quem fez, e tenho consciência de que sou um ser inanimado em Suas mãos até que ele me dê vida, então devo colocar todas as minhas glórias aos Seus pés e glorificá-lO como Senhor de todas as coisas. Estou certo de que, quanto a isso, não pensamos de modo diferente sobre o fato de Deus ter toda a honra; no entanto, se nosso pensamento difere quanto a Ele fazer todo o trabalho, podemos ter uma base justa para discutir o Seu direito de receber toda a glória.
Ah, homens e irmãos, se me faltassem argumentos, a sua própria experiência testemunharia a meu favor. Como cristãos, vocês são constrangidos a sentir que “todas as nossas obras Ele as faz por nós”. Se podem dizer: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.”, digam, então, com certeza — tento explicar da melhor forma possível — “Tudo provém de Deus”. Agarrem cada misericórdia da aliança e cada bênção da graça, mas digam que todas as coisas, em todos os sentidos, provêm total e inteiramente de Deus, o grande doador de tudo.
II. E agora, nesta segunda parte do meu sermão, proponho-me a mostrar brevemente AS TENDÊNCIAS EXCELENTES DESSA DOUTRINA.
Há uma coisa sobre as doutrinas do evangelho que, em minha opinião, sempre as recomenda: invariavelmente elas chamam a atenção das pessoas, levando-as a pensar. Quando você ouve um sermão no qual a graça de Deus é exaltada, talvez fique ofendido, fique zangado, porque os pontos de vista doutrinários não se afinam com o seu orgulho carnal. Ficar zangado é uma das coisas mais saudáveis que podem lhe acontecer. Não pense que o sermão foi desperdiçado, só porque o deixou “contrariado”; não julgue que ele foi perdido, só porque o deixou irritado. Talvez houvesse apenas esta pequena brecha em sua armadura por onde a flecha pudesse acertá-lo, ou seja, a sua própria ira contra a verdade. Conheço muitas pessoas que admitem francamente ter ficado perturbadas após chegar a esse ponto, e acabaram perdendo o sono. Elas detestaram o pregador e detestaram o tema, mas, cerca de um mês depois, acabaram voltando; sua aversão pelo assunto foi tanta que se sentiram compelidas a ouvi-lo novamente. Elas não conseguiam compreender bem o que era; na verdade, nem poderiam, pois ainda se atinham à sua própria opinião; mas diziam consigo mesmas: “Em toda minha vida, nunca pensei tanto em religião.” Nestas doutrinas, há algo dirigido diretamente à alma do homem. Outras escorrem como óleo sobre uma laje de mármore; esta, no entanto, entalha a pedra, lapidando-a rapidamente. As pessoas não conseguem deixar de sentir que há alguma coisa, que, se fizerem alguma objeção, a doutrina ganhará força, obrigando-as a se perguntar: “Será que é verdade?” Elas não se contentam em atacá-la e deixar o assunto para lá. A doutrina toma conta da sua capacidade de raciocínio, levando-as a se perguntar se as coisas são realmente assim. Mas o que é digno de nota é que nos lugares onde essa doutrina é pregada - que a salvação provém de Deus, e de Deus somente - há reavivamento; sempre houve reavivamento enviado por Deus da verdadeira religião. Para dar uma ilustração prática: no Continente europeu, muitas pessoas, com bons motivos para pensar desta forma, me disseram que a igreja luterana está bem perto de se desviar da fé e se tornar unitariana, neológica ou coisa parecida, o que não ocorre com as igrejas calvinistas ━ lá, elas permanecem firmes. Há um sal nessa doutrina que preserva a verdade; há nela um sabor e uma pungência que mantêm direita a constituição do homem. Ela é como uma enorme âncora sobressalente; talvez pareça difícil de ser manejada e, nestes tempos modernos, dizem até estar bastante enferrujada, mas, nos dias de tormenta, terá de ser lançada novamente ao mar. Quanto mais eu prego, mais me preocupo em não dar testemunho duplo a respeito dessa questão e deixar claro e evidente que a salvação provém de Deus; que todas as coisas, de fato, na nova criação da graça, provêm de Deus, e de Deus somente.
Oh, quanto entusiasmo essas verdades suscitam na mente daqueles que creem nelas! Ouço-as sendo pregadas por homens simples, iletrados, incultos, e suas congregações ficam banhadas em lágrimas. Não há indiferença no semblante dos ouvintes. Eles as ouvem como se ouvissem a própria Palavra de Deus, e sentem o seu poder. No decurso desta semana, preguei da forma mais simples possível para um público de vinte a trinta mil galeses, e que visão eu tive quando todos a uma só voz exclamaram “Aha! Amém! Amém ━ Glória” durante o sermão, arrebatados pelo entusiasmo, pois estavam ouvindo novamente as boas e antigas verdades que Christmas Evans costumava trovejar sobre eles, e que o País de Gales ainda defende integralmente, muito embora os ingleses prefiram rejeitá-las e desprezá-las. Existe algo nessas verdades que pode levar um homem a fazer grandes coisas. A espada de Cromwell era tão afiada e o seu braço tão forte porque ele conhecia o Senhor dos exércitos e confiava em Seu grande poder, e acreditava na Sua graça arrebatadora. Isso tornou os Ironsides (cavaleiros liderados por Cromwell) invencíveis; jamais houve homens como eles. O braço do calvinista é sempre forte; quem é de Deus e não do homem, quem olha para a graça e o propósito de Deus e Lhe dá toda a glória não é alguém que se curve diante de um tirano ou lamba os pés de qualquer criatura. Ele sabe que é eleito de Deus e se mantém de pé, e enquanto está de pé, está cheio de fervor, com um entusiasmo que o faz trabalhar e o constrange a servir à causa de Deus e da verdade.
Aliás, isso talvez seja muito pertinente. Tenho mais coisas a falar sobre essa doutrina. O fato, da conversão e da salvação virem de Deus, é uma verdade humilhante. E é devido a esse caráter humilhante que os homens não gostam dela. As pessoas dizem: “não gosto” de saber que Deus precisa me salvar para que eu seja salvo, e que estou em Suas mãos como barro nas mãos do oleiro. Bem, achei que não iriam gostar mesmo, quem pensaria nisso? Se tivessem gostado, talvez não fosse verdade; mas o fato de não gostarem é uma evidência indireta da sua veracidade. Não gosto de saber que “Ele precisa fazer todo trabalho em mim“; quem poderia me rebaixar a tanto? Onde fica o meu orgulho? Não há lugar para ele. Por qual lei? Pela lei das obras? Não, pela lei da graça. A graça tapa a boca de quem se vangloria, fazendo-a calar de uma vez por todas; e então, ela retira a mão e essa boca não teme mais falar ao homem, embora trema ante o simples pensamento de tomar a honra e a glória de Deus. Devo ainda dizer ━ preciso dizer ━ que a doutrina que deixa a salvação a cargo da criatura e lhe diz que isso só depende dela é exaltação da carne, e uma desonra a Deus. No entanto, a doutrina que coloca o homem, o homem caído, nas mãos de Deus, e lhe diz que, embora ele tenha se autodestruído, sua salvação deve vir de Deus, essa doutrina humilha o homem até o pó e, assim, ele estará no lugar certo para receber a graça e a misericórdia de Deus. Tal doutrina é humilhante.
Mais uma vez, essa doutrina dá um golpe fatal na autossuficiência. O arminiano quer exaltar a ação do homem; nós queremos matá-la de uma vez por todas, para lhe mostrar que ele está perdido e arruinado, suas ações não são, de forma alguma, iguais à obra da conversão, e ele precisa olhar para cima. Os arminianos procuram fazer o homem levantar-se, nós procuramos derrubá-lo e fazê-lo sentir que, desse modo, ele está nas mãos de Deus, precisa submeter-se a Ele e clamar “Senhor, salva-nos! Perecemos!”. Nós sustentamos que o homem nunca estará tão perto da graça como quando começar a sentir que não pode fazer absolutamente nada. Quando ele diz: “Posso orar, posso crer, posso fazer isso e posso fazer aquilo”, as marcas da autossuficiência e da arrogância estão na sua testa. Contudo, quando ele se ajoelha e clama:
“Ó, por isso, em mim força não há,
minha força aos Teus pés está”
cremos que Deus o abençoou e a obra da graça trabalhou em sua alma. Ó, pecador, não penses que o teu braço sozinho pode alcançar a vitória. Clama a Deus e suplica-Lhe que tome tua alma em Suas mãos, pois não podes ser salvo a menos que Ele faça isso por ti. Bendize-O pela promessa que diz: “o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”. Oh, clama a Ele: “Senhor, chama-me com Tua graça e eu Te seguirei; faze toda obra em mim, leva-me para junto de Ti e salva-me!” Não é para você mesmo que o convidamos a olhar, nem para as suas preces, nem para a sua fé, mas para Cristo e Sua cruz, e para o Deus que “pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Ele”.
E há também nessa doutrina consolo para o coração atribulado. Se todas as coisas provêm de Deus, ó minh’alma, não deixa que o teu espírito seja agitado e amedrontado pela tempestade. “Tudo provém de Deus”; se houvesse alguma coisa vinda de mim mesmo, eu seria um homem perdido. Se vamos construir uma grande ponte e eu puder colocar uma das pedras, a construção será feita ao nosso bel-prazer e irá ruir. Se a colocação da pedra fundamental ficar a meu encargo, garanto que a construção não ficará de pé. Da mesma forma, se na obra da salvação alguma coisa depender de mim, tudo irá ruir; no entanto, se tudo for garantido e estabelecido pela vontade e pelo querer do Pai Eterno, a obra resistirá e ficará segura. Oh, como esses pensamentos são alegres para o cristão: sua alma está segura, ele colocou sua vida nas mãos de Cristo e agora tem seu amparo nEle, ele se entregou aos cuidados do seu Senhor e Mestre e agora sabe que, haja o que houver, Cristo é seu pavês e escudo e nada o afligirá, pois Jesus o guarda e protege todos os dias, e o guardará em segurança até o fim. Não sei onde nossos irmãos arminianos encontram consolação, mas sei que, se eu acreditasse em sua doutrina, seria levado à loucura; contudo, crendo como creio, que aqueles em quem Deus inicia o processo da salvação serão totalmente salvos, e nenhuma pedra do edifício inteiro irá faltar ou quebrar, minha alma pode assim cantar:
“Esta aliança permanece inabalável
Ainda que as colunas da terra se dobrem
O forte, o débil e o miserável
São um em Jesus, que os sustém”
Tenho ainda mais uma coisa a dizer sobre essa doutrina. Ela dá ânimo ao pecador. Pecador, pecador! Venha para Jesus, pois “tudo provém de Deus”. Você está nu; o manto com o qual será coberto provém de Deus. Você está sujo; o lavar regenerador provém de Deus. Venha e seja lavado. E ainda que você seja indigno, sua dignidade deve provir de Deus. Venha como está e Ele o purificará. Você é culpado, seu perdão provém de Deus. Venha para Ele e Ele lhe dará o perdão gratuitamente. Mas, você diz: “sou duro de coração”; um novo coração provém de Deus. Venha para Ele, e Ele lhe dará um coração de carne e tirará seu coração de pedra. Mas, você diz: “não consigo orar”. A verdadeira oração provém de Deus; Ele derramará sobre você o Espírito da súplica. Mas você diz: “a minha própria vinda precisa vir de Deus”. Ah, bendito seja Deus por isso. E, assim, se agora você sente alguma coisa lhe dizendo: “preciso ir e confiar em Cristo”, isso provém de Deus. Oh, venha com alegria, pois não há nenhuma exigência, tudo provém de Deus. Seu coração é estéril? A fertilidade provém de Deus. Seu coração é obstinado? A obediência provém de Deus. Você não consegue se arrepender? Ele é exaltado nas alturas por dar-lhe o arrependimento. O arrependimento provém de Deus. Você diz: “não posso crer”? A fé provém de Deus; ela é um daqueles dons inefáveis. Mas você diz: “Tenho medo de não conseguir perseverar.” A perseverança provém de Deus. Você só precisa ser um receptor. Venha com o cântaro vazio e segure-o junto à fonte das águas; venha com o regaço vazio e receba os suprimentos preciosos; venha com uma boca faminta e seja alimentado, com lábios sedentos e seja saciado. Nada lhe é solicitado; nada lhe é pedido. Deixa de confiar em ti mesmo, ó homem, e começa a confiar em Deus. Deixa agora de fazer, de sentir e de ser; vem e confia nAquele que fez, e foi, e sentiu por você; e, então, sendo salvo, você começará a ser, a sentir e a agir, com uma nova energia, que o levará a uma nova vida. Para viver para Cristo, você precisa primeiro morrer para si mesmo. Toda esperança mortal em você deve ser aniquilada, antes que possa receber a esperança divina. Vinde, oprimidos e abatidos, quebrantados e humilhados, vinde e recebei a Cristo como o vosso tudo em tudo; e, se não podeis estender a mão por vós mesmos, como de fato não podeis ━ falo em nome do Mestre, no nome de Jesus de Nazaré: pelo poder do Seu Espírito, crede! É dever dos servos de Deus não apenas exortar, mas, com a autoridade divina, ordenar. Homem de mão atrofiada, em nome de Jesus, estende a tua mão! Tu, que nunca creste, nem te arrependeste, “Deus notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam.” Não ouviste o mandamento? Nele há poder. Desejas obedecê-Lo? Teu desejo é dom de Deus: há poder nesse desejo. Creia em Cristo, confie em Cristo, receba-O para ser seu tudo e você será salvo; seus pecados serão lavados; você será herdeiro do paraíso e se regozijará. Batei as asas, vós anjos; soai as harpas, vós serafins, vós redimidos! Mais alto, mais alto; que os acordes da melodia subam aos céus! Ó, querubins e serafins! Cantem com júbilo ao Seu nome, de quem e para quem e por quem são todas as coisas, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém.

Tradução: Mariza Regina de Souza

Extraído do Site Spurgeon em Português

Charles Haddon Spurgeon

Enoque

Sermão nº 1307

Sermão pregado na manhã de domingo do dia 30 de julho de 1876
por Charles Haddon Spurgeon
no Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres, Inglaterra

“Enoque viveu sessenta e cinco anos e gerou a Metusalém. Andou Enoque com Deus; e, depois que gerou a Metusalém, viveu trezentos anos; e teve filhos e filhas. Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos. Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si.” Gênesis 5:21-24
“Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte; não foi achado, porque Deus o trasladara. Pois, antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus. De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.” Hebreus 11:5-6
“Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele.” Judas 1:14-15
TODA informação verdadeira que temos sobre Enoque está nas três passagens das Escrituras que li. Seria perda de tempo completá-las com fantasias de antigos comentaristas. Enoque é chamado de o sétimo depois de Adão para distingui-lo do outro Enoque, da linhagem de Caim, o qual foi o terceiro depois de Adão. Nos primeiros patriarcas, Deus quis manifestar aos homens pequenas porções da Sua verdade com relação à verdadeira religião. Esses homens dos tempos antigos não só foram, eles mesmos, ensinados por Deus, como também se tornaram professores da sua geração e tipos nos quais grandes verdades de Deus foram mostradas. Abel ensinou a necessidade de se chegar ao Senhor com sacrifício, a necessidade da expiação pelo sangue — ele colocou o cordeiro sobre o altar e selou seu testemunho com o próprio sangue. A expiação é uma verdade de Deus tão preciosa que é uma honra morrer em sua defesa e, desde o princípio, é uma doutrina que tem garantido seus mártires, os quais, mesmo mortos, ainda falam.
Em seguida, Sete e Enos ensinaram aos homens a necessidade de uma confissão particular da sua fé no Senhor e a necessidade de se congregar para a adoração, pois lemos acerca dos seus dias: “daí se começou a invocar o nome do SENHOR” (Gn. 4:26). Aqueles que adoravam a Deus por meio sacrifício expiatório separavam a si mesmos dos outros homens, reuniam-se na igreja em nome do Senhor e cultuavam invocando o nome de Deus. O coração deve, em primeiro lugar, crer no grande sacrifício com Abel, e depois, com a boca, confessar da mesma forma que Sete. Então veio Enoque, cuja vida foi além da aceitação e confissão da expiação, pois ele mostrou aos homens a verdadeira comunhão com Deus. Ele exibiu na sua vida o relacionamento entre o crente e o Altíssimo e demonstrou quão perto o Deus vivo consente estar dos Seus próprios filhos. Que o nosso avanço no conhecimento seja semelhante ao crescimento do ensino patriarcal!
Irmãos e irmãs, vocês sabem como fez Abel, o cordeiro sacrificial. Sua confiança está no sangue precioso de Jesus e, por isso, pela fé, vocês oferecem a Deus ofertas aceitáveis. Tendo chegado até aqui, a maioria de nós dá um passo além, invocando o nome do Senhor, professando seguir os passos de Jesus. Renunciamos a nós mesmos no sepultamento solene do batismo, quando somos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pois nos consideramos mortos em Cristo para o mundo e ressuscitados com Ele em novidade de vida. Daí em diante o nome divino está em nós e não somos mais de nós mesmos. E agora nos reunimos como igreja. Sentamos à mesa da comunhão, participamos das reuniões de oração e dos cultos, e no centro de tudo está o nome do Senhor. Somos separamos do mundo e escolhidos para ser o povo que declara o Seu nome. Até aqui tudo bem — vimos o sacrifício de Jesus tipificado em Abel. Professamos a verdade com Sete. Agora, vamos dar o passo seguinte e conhecer a vida com Enoque. Vamos nos esforçar para andar com Deus como ele andou! Talvez a meditação sobre a vida santa do patriarca nos ajude a imitá-lo. Enquanto consideramos o que ele foi e em quais circunstâncias ele veio a ser assim, que o Espírito Santo nos ajude a chegar aonde ele chegou.
Esse é o desejo de todo homem temente a Deus! Todos os santos querem ter comunhão com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo. O clamor constante da nossa alma ao Senhor é: “fica, pois, comigo”. Ontem fiz o sepultamento de uma das pessoas mais excelentes da terra, a qual amava e temia e servia a Deus muito melhor que a maioria de nós. Ele era um irmão muito consagrado. Quando ainda nem pensava em morrer, ele fez questão de colocar um dos últimos desejos do seu coração em uma carta escrita para um amigo. O desejo era: “quero ter a vida de Enoque e andar com Deus” —
“Oh, mais perto de Deus quero andar!”
Na verdade, ele escreveu aquilo que nós sentimos. Se forem esses os nossos desejos, e tenho certeza de que são, assim como somos povo do Senhor, então espero que a meditação na vida de Enoque possa nos ajudar a realizar esse desejo.
Em primeiro lugar, então, no que implica o andar de Enoque com Deus? A descrição é bem curta para a vida de um homem, mas há muito significado nela. Em segundo lugar, quais as circunstâncias ligadas à sua vida extraordinária? São muito instrutivas. E em terceiro lugar, qual foi o seu fim? Foi tão extraordinário quanto a sua própria vida.
1. Assim, passamos ao primeiro ponto: O QUE SIGNIFICA O ANDAR DE ENOQUE COM DEUS? Paulo (NT: Spurgeon acreditava que Paulo era o autor da carta aos Hebreus) nos ajuda em nossa primeira observação com seu comentário em Hebreus. O andar de Enoque com Deus era um testemunho de que ele agradava a Deus. “Antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus”. Essa é uma interpretação clara do apóstolo sobre o andar de Enoque com Deus e com certeza é a correta, pois o Senhor não andaria com alguém em quem não sentisse prazer. “Andarão dois juntos, se não houver entre eles acordo?” (Amós 3:3). Se os homens andam de forma contrária a Deus, ele não andará com eles, mas contra eles. Andar junto implica amizade, camaradagem, intimidade, amor — e essas coisas não podem existir entre Deus e a alma, a menos que a pessoa seja aceitável ao Senhor.
Enoque, sem dúvida, como Elias, era um homem de paixões como nós. Ele caíra, com os demais seres humanos, no pecado de Adão. Havia pecado sobre ele, como há em nós pela nossa natureza, e ele havia se extraviado em atos e obras como todos nós, como ovelhas, nos extraviamos. Portanto, ele precisava de perdão e purificação, assim como nós precisamos. Depois, para ser agradável a Deus, era necessário ele ser perdoado e justificado, assim como nós — pois ninguém pode agradar a Deus até seu pecado ser perdoado e a justiça ser-lhe imputada. Para isso, é necessário ter fé, pois não há justificação senão pela fé. E como dissemos, não há como agradar a Deus sem a pessoa ser justificada.
Muito bem, então o apóstolo diz: “sem fé é impossível agradar a Deus”, e pela fé Enoque se tornou agradável a Deus, assim como nós nos dias de hoje. Isso merece uma observação muito séria, irmãos e irmãs, pois esse tipo de fé está aberto a nós. Se Enoque tivesse sido agradável a Deus em virtude de dons e talentos extraordinários, ou por ter realizado coisas maravilhosas e miraculosas, estaríamos perdidos! Mas se ele foi agradável a Deus por meio da fé, a mesma fé que salvou o ladrão da cruz, a mesma fé que tem operado em vocês e em mim — então o portão de entrada para o caminho por onde os homens andam com Deus está aberto a nós, também!
Se temos fé, podemos ter comunhão com o Senhor! Como isso deve valorizá-la para nós! Os níveis mais altos da vida espiritual dependem dos mais baixos e procedem deles. Se você quer andar com Deus como um homem de Deus, deve começar simplesmente crendo no Senhor Jesus Cristo, como um bebê na graça! A santidade mais elevada deve começar pela confissão da nossa pecaminosidade, e pela nossa dependência no Cristo crucificado. De outra forma, o crente mais forte não vive mais do que o mais fraco — e se é preciso crescer para estar entre os guerreiros mais fortes do Senhor — é preciso que seja pela fé depositada na força divina.
Começando no Espírito, você não deve se aperfeiçoar na carne. Você não deve continuar à distância, com fé em Cristo, e começar a viver por suas próprias obras — sua caminhada deve continuar como começou. “Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele” (Cl. 2:6). Enoque sempre foi agradável a Deus, mas porque ele sempre creu e viveu no poder da sua fé. Vale a pena saber e lembrar disso, pois talvez ainda sejamos tentados a lutar por um estilo mais elevado e fantasioso de vida religiosa, olhando para os nossos sentimentos ao invés de olhar somente para o Senhor! Não podemos deixar de olhar somente para Jesus, para Ele mesmo, nem mesmo para admirar a Sua imagem dentro de nós — pois, se o fizermos, iremos retroceder ao invés de avançar. Não, amados, pela fé Enoque se tornou agradável a Deus e pela fé ele andou com Deus — sigamos suas pegadas.
A seguir, quando lemos que Enoque andava com Deus, devemos entender que ele sentia a presença divina. Não se pode conscientemente andar com uma pessoa cuja existência lhe é desconhecida. Quando andamos com alguém, sabemos que a pessoa está ali. Ouvimos seus passos se não podemos ver seu rosto. Temos uma percepção clara de que ela está ao nosso lado. Ora, se olharmos novamente para Hebreus, Paulo nos diz: “porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam”. A fé de Enoque, então, era uma fé palpável. Ele não acreditava nas coisas só por acreditar e depois as colocava numa prateleira fora do caminho, como muito de nós fazemos — ele não tinha simplesmente uma mente ortodoxa — a verdade de Deus tinha penetrado no seu coração.
Sua fé era real para ele, real de fato, real como algo comum na sua vida diária. Ele andava com Deus — não era que ele simplesmente pensava em Deus, ou especulava sobre Deus, ou debatia sobre Deus, ou lia sobre Deus, ou falava sobre Deus — ele andava com Deus, que é a parte prática e vivencial da verdadeira santidade! Em sua vida diária, ele tinha consciência de que Deus estava com ele e ele O considerava como um Deus vivo, aquele em quem confiava e por quem era amado. Oh, amados, não percebem que para alcançar um patamar mais elevado na vida cristã é preciso fazê-lo por meio da concretização das mesmas coisas que, pela fé, vocês receberam? Compreendam-nas! Permitam que elas façam parte de vocês e se comprovem em vocês. Tenham certeza delas, meditem nelas, lidem com elas, provem-nas no mais íntimo da sua alma e saibam, desta forma, que elas estão muito além de qualquer dúvida. É preciso ver Aquele que é invisível e tomar possa daquilo que ainda não pode ser desfrutado. Não é apenas crer em quem Deus é, mas também que Ele é galardoador dos que o buscam, pois essa, de acordo com Paulo, era a fé de Enoque! Deus visto como um ser vivo, observador, julgador e galardoador das obras humanas — um Deus de verdade, realmente conosco — nós precisamos conhecer isso, ou não há como andar com Ele.
Portanto, quando lemos que Enoque andava com Deus, não resta dúvida de que isso significa que ele tinha uma comunhão muito familiar com o Altíssimo. Não conheço uma comunhão mais livre, agradável e cordial do que aquela resultante de andar sempre com um amigo. Se eu quisesse saber qual pessoa seria mais íntima de outra, certamente seria aquela com quem ela andasse todos os dias. Se você dissesse: “De vez em quando vou a casa dele e nos sentamos para conversar”, não teria tanto peso quanto se dissesse: “Todos os dias andamos juntos por aí”. Quando andam juntos, os amigos se tornam mais comunicativos — um conta ao outro os seus problemas e o outro se esforça para consolá-lo — e, em contrapartida, divide com ele os seus próprios segredos. Quando as pessoas andam sempre juntas por opção, estejam certos de que há muitas conversas entre elas nas quais um estranho não pode se intrometer.
Se eu quisesse conhecer um homem por inteiro, gostaria de andar com ele durante algum tempo, pois o companheirismo revela partes de uma pessoa que mesmo na vida familiar podem estar ocultas. O andar contínuo pressupõe e gera um relacionamento íntimo e grande familiaridade entre os amigos. Mas andará Deus, de fato, dessa forma com os homens? Sim, Ele andou assim com Enoque, e com muitos outros do Seu povo desde então. Ele nos conta Seus segredos, os segredos do Senhor, os quais Ele revela somente a quem O teme. E nós, da mesma forma, contamos a Ele, em louvor, as nossas alegrias; em oração, as nossas tristezas, e em confissão, os nossos pecados. O coração se desembaraça de todos os seus cuidados e os lança no coração dAquele que cuida deles por nós! E o Senhor faz transbordar a Sua bondade sobre os Seus amados enquanto os faz sentir o Seu eterno amor por eles. Esta é a beleza e a graça da experiência cristã, seu lírio e sua rosa, seu cálamo e sua mirra. Se quiserem experimentar a nata da vida com Deus, ela pode ser encontrada em uma fé concreta e na íntima comunhão com o Pai celestial. E assim andava Enoque com Deus.
Prosseguindo, está implícito no termo “andava” que a comunhão de Enoque com Deus era contínua. Como um antigo teólogo bem observou, Enoque não deu umas voltinhas com Deus e depois deixou Sua companhia, ele andou com Deus durante centenas de anos! O texto implica que esse foi o teor da sua vida ao longo de todos os seus 365 anos. Enoque andou com Deus por 300 anos depois do nascimento de Matusalém e, com certeza, também andava com Ele antes disso. Mas que caminhada esplêndida! Uma jornada de 300 anos! Uma pessoa poderia desejar mudar de companhia se andasse com qualquer outra, mas andar com Deus durante três séculos foi tão bom que o patriarca continuou andando até ir além do tempo e do espaço — e entrar no paraíso — onde ele continua marchando na mesma companhia divina! Ele tinha o céu na terra, por isso, não foi nada surpreendente quando deslizou da terra para o céu com tanta facilidade.
Ele não tinha comunhão com Deus de qualquer jeito, mas era leal ao Seu amor perceptível. Enoque não era inconstante, às vezes subindo ao topo da extrema religiosidade e depois descendo ao vale pantanoso da indiferença, mas, dia a dia, ele mantinha um relacionamento calmo, feliz e sempre prazeroso com Deus. Não havia noites de insônia. O dia, com seus cuidados, não tirava seu sono. Sua caminhada não era uma corrida, apressada, aos trancos e barrancos, era um andar firme, regular. Enoque andou com Deus por mais de três séculos, sem parar!
Subentende-se, também, nessa frase que a vida de Enoque era progressiva, pois quando uma pessoa anda, seja sozinha ou acompanhada, ela avança, segue em frente. Enoque andava com Deus. Ao fim de 200 anos ele não estava mais onde começou. Ele estava na mesma companhia, mas tinha avançado na direção certa. Ao fim de 300 anos ele sentia mais prazer, compreendia mais, amava mais, tinha recebido mais e podia dar mais, pois havia progredido em todos os sentidos. Um homem que anda com Deus, necessariamente, crescerá na Sua graça e no Seu conhecimento e na semelhança com Cristo. Não se pode pensar numa caminhada constante com Deus, ano após ano, sem que a pessoa favorecida seja fortalecida, santificada, instruída e mais capaz de glorificar o Senhor.
Por isso, entendo que a vida de Enoque foi uma vida de progresso espiritual. Ele ia de força em força e avançava na graciosa peregrinação. Que Deus nos permita seguir em frente, nós mesmos. Só mais algumas observações sobre o andar de Enoque com Deus. No Daily Bible Pleadings de John Kitto (1804-1854, compilador e ilustrador de histórias bíblicas contemporâneo de Spurgeon), há uma ilustração extremamente agradável de como deve ser andar com Deus: a figura de um pai levando o filho pela mão e andando com ele sob a aragem das colinas. Kitto diz: “Como essa criança anda com você, assim você deve andar com Deus. Ela o ama nesse momento. O mundo — frio e cruel — ainda não separou o coraçãozinho dela do seu. O amor dela, nessa hora, é a coisa mais pura e mais bela que ela sentirá, ou você receberá. Alimente esse amor e, como essa criança anda ao seu lado com todo coração, você também andará com Deus com todo coração”.
É um prazer para essas crianças andar com o pai. As dificuldades do caminho ou as intempéries nada são para elas — dar uma volta com o pai já é alegria suficiente. Há aquele aperto quente, terno e afetuoso da mão e um sorriso radiante nos olhos quando olham para ele enquanto as leva para cima e para baixo. Esse andar é também humilde, pois a criança considera o pai o homem mais importante e mais sábio que já existiu! Ela o vê como a encarnação de tudo que é forte e inteligente. Tudo quanto o pai diz ou faz ela admira. Enquanto caminha, ela sente a maior afeição por ele, e também um grande respeito. Ela está muito perto do pai, mas ainda é só uma criança, e o considera como um rei.
Além disso, esse andar é feito em perfeita confiança. A criança não tem medo de se perder pelo caminho. Ela confia implicitamente na orientação do pai. O braço dele a protegerá de todos os perigos e, por isso, ela não se importa muito — por que deveria? Se é preciso ter cuidado com a estrada, isso é problema do pai, e a criança, portanto, nem sonha em se preocupar — por que deveria? Se for necessário passar por algum lugar difícil, o pai a levantará, ou a ajudará a passar — a criança, no entanto, está alegre como um passarinho — por que não estaria? E é assim que o crente deve andar com Deus, descansando na ternura eterna e se regozijando no amor incontestável! O crente deve ficar despreocupado, tanto em relação ao presente como em relação ao futuro.
Amados amigos em Cristo, vocês podem confiar no Pai, Ele suprirá todas as suas necessidades —
O Pai cuida de você como se não houvesse
outro homem na terra ou anjo no céu.
Que caminhada instrutiva tem uma criança com um pai sábio e comunicativo! Quantos pequenos mistérios são explicados a ela, quanta coisa ao seu redor é iluminada pela sabedoria do pai! A cada passo, ela se torna cada vez mais sábia por causa da sua companhia. Felizes são os filhos de Deus que têm sido ensinados pelo Pai enquanto caminham com Ele! Enoque deve ter sido um homem de profundo conhecimento e de grande compreensão das coisas divinas. Ele deve ter mergulhado nas profundezas de Deus muito mais que qualquer outro homem. Sua vida, também, deve ter sido uma vida santa, pois ele andava com Deus, e Deus nunca Se desvia do caminho da santidade. Se andamos com Ele, precisamos andar de acordo com a verdade, a justiça e o amor. O Senhor não faz companhia ao injusto e rebelde, por isso, sabemos que se Enoque andava com Deus, ele deve ter sido um homem íntegro e santo.
Além do mais, a vida de Enoque deve ter sido uma vida feliz. Quem poderia ser infeliz em tal companhia?! Com o próprio Deus ao nosso lado, o caminho nunca será triste. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo” (Sl. 23:4a). Deixe Deus ser sua companhia e sua estrada será um caminho agradável e uma via de paz. Não andou Enoque com Deus? Então, sua peregrinação deve ter sido segura. Que guarda extraordinário é o nosso Deus! Ele é sol e escudo! Ele dá graça e glória. Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo à sombra do Onipotente descansará. Nada pode prejudicar o homem que anda com o Senhor Deus à sua direita.
E ainda, que honra é andar com o Eterno! Muita gente daria milhões para andar com um rei. Algumas pessoas são tão fascinadas por autoridades superiores que, se um rei lhes der um sorriso, ficam totalmente inebriadas de prazer! Qual será, então, a honra de andar com o Rei dos reis? Que título de nobreza será concedido a quem andar com o bendito e único Soberano por toda vida? Quem é aquele assim favorecido para ser companheiro do Rei, e andar a sós com Ele e se tornar Seu amigo íntimo? O Senhor governa os céus e a terra, e o inferno. Ele é Senhor de todos que andarem com Ele!
Só por essa honra, cristãos, devemos ansiar por andar com Deus! Enoque encontrou segurança, felicidade, santidade, honradez e nem sei mais quantas coisas excelentes! Mas, com certeza, sua vida foi brilhante — onde encontraremos outra igual?
2. Em segundo lugar, vamos considerar QUAIS CIRCUNSTÂNCIAS ESTAVAM LIGADAS AO ANDAR DE ENOQUE COM DEUS. A primeira observação é que temos pouquíssimos detalhes sobre sua vida. Não sabemos muito a seu respeito e esta é sua vantagem. Feliz é a nação sem história, pois a que tem uma história já foi assolada por guerras, revoluções e derramamento de sangue. Mas uma nação que é sempre feliz, pacífica e próspera não tem uma crônica para atrair os amantes de emoções. Feliz foi Enoque por não podermos escrever uma longa biografia sobre ele! Estas poucas palavras “andou Enoque com Deus” são suficientes para descrever toda sua carreira até “que já não era, porque Deus o tomou para si”.
Se você for ao campo de um agricultor e, quando voltar, disser: “Vi tantas flores amarelas recobrindo o campo que até parecia um manto dourado. Depois avistei, aqui e ali, flores brancas como botões prateados dispostos na veste dourada. Vi também centáureas azuis olhando para o alto com seus olhos adoráveis, fazendo o campo todo cintilar”; se fosse criança, você o teria achado lindo. Mas o agricultor balança a cabeça, pois sabe que o campo está em más condições e cheio de ervas daninhas! Contudo, se ao voltar, você simplesmente disser: “Como é lindo ver um campo de trigo maduro, e isso é tudo”, então sua descrição, embora breve, é bastante satisfatória.
Muitos acontecimentos espantosos, impressionantes e sensacionais que vão tornar uma biografia interessante podem chamar a atenção, mas não falam da verdadeira excelência da vida. Nenhuma vida pode superar a do homem que, em silêncio, continua servindo a Deus no lugar onde a Providência o colocou. Acredito que no julgamento dos anjos e dos seres puros de espírito, o que será mais admirado na vida de uma mulher será simplesmente: “ela amava o Senhor e fez o melhor que pôde por Ele”. E, na vida de um homem, será mais digno de nota de quem for dito: “ele seguiu inteiramente o Senhor”. A vida de Enoque não teve aventuras. Mas já não é aventura suficiente andar com Deus? Qual maior ambição pode almejar uma existência honrosa do que permanecer em comunhão com o Eterno?
Contudo, alguns dirão: “Bem, mas Enoque devia estar muito bem de vida. Sem dúvida, ele tinha uma posição bastante vantajosa para ser temente a Deus”. Ora, note que não era assim, pois, em primeiro lugar, ele era um homem público. Ele é chamado de “o sétimo depois de Adão”. Ele foi um homem importante e considerado um dos pais da sua época. Naquele tempo, um patriarca devia ser alguém notável, cheio de responsabilidades e de boa reputação. O costume antigo era que o chefe da família fosse profeta, sacerdote ou rei na sua parentela. E fora da família, se era um homem de posição e recursos, era conselheiro, magistrado ou governante. Enoque foi um grande homem em seus dias, um dos mais importantes daquele período. Portanto, podemos ter certeza de que ele tinha tribulações e suportava o peso da oposição do grupo de ímpios poderosos que se opunha aos caminhos da santidade.
Ele é mencionado em uma lista nobre de homens. Algumas pessoas tolamente pensam: “Eu andaria com Deus se tivesse uma casinha no campo, se vivesse num vilarejo pacato, mas, veja, sou um homem público, tenho um cargo de confiança e tenho de estar com meus colegas. Não vejo como posso andar com Deus”. Ah, meu caro amigo, mas Enoque andou! Embora ele fosse, sem dúvida alguma, um homem célebre em sua época e cheio de deveres públicos, ainda assim ele não perdeu o fio da meada da conversa sacra com o Céu, e continuou firme no curso santo de sua vida durante séculos. Note ainda que Enoque foi um homem de família. Enoque andou com Deus e teve filhos e filhas.
Alguns dizem “Olha, você não pode viver como quer quando tem uma porção de filhos à sua volta. Não me diga que dá para orar durante horas e ler em sossego as Escrituras quando se tem uma grande família com filhos pequenos. Você será perturbado e haverá muitos incidentes domésticos que, com certeza, tentarão tirá-lo do sério e acabar com sua serenidade. Vá para a floresta e encontre uma casinha abandonada — lá, com um jarro de água e um pedaço de pão, talvez você consiga andar com Deus — mas com uma esposa, nem sempre amistosa, e um bando de crianças que não param quietas, nem de dia nem de noite, como se espera que um homem ande com Deus?” A esposa, por outro lado, exclama: “Acho que se eu tivesse continuado solteira, poderia ter andando com Deus. Quando jovem, eu era cheia de devoção. Mas agora, com um marido, que nem sempre está nos melhores dias, e com filhos, que parecem ter uma infinidade de necessidades e nunca estão satisfeitos, como é possível andar com Deus?”
Voltemos novamente para Enoque e acreditemos que isso é possível! “Andou Enoque com Deus; e, depois que gerou a Metusalém, viveu trezentos anos; e teve filhos e filhas.” Veja, portanto, que ele foi um homem público, teve uma família — e ainda assim, andou com Deus por mais de trezentos anos. Não é preciso ser um eremita, ou renunciar ao casamento, para viver perto de Deus. Além disso, Enoque viveu numa época muito perversa. Ele foi proeminente num tempo em que o pecado estava começando a cobrir a terra. Não demorou muito até a terra se corromper e Deus achar melhor varrer toda a população da sua superfície por causa do pecado.
Enoque viveu numa época de escarnecedores e desdenhadores. Você conhece a sua profecia, registrada por Judas. Ele profetizou, dizendo: “Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele.” Ele viveu num tempo em que poucas pessoas adoravam a Deus, e quem o fazia estava sendo atraído pelas palavras lisonjeiras das filhas dos homens. A igreja e o estado estavam propondo união, costumes e prazeres regidos pelo momento e as coisas do mundo estavam na ordem do dia. Ele viveu próximo do final dos tempos primitivos, onde a vida longa dos homens havia produzido grandes pecadores — e grandes pecadores tinham criado grandes provocações contra Deus. Não se queixe, então, da sua época e dos seus vizinhos e de outras coisas, pois em meio a todas elas você ainda pode andar com Deus.
Enoque andou com Deus e, em consequência disso, ele deu testemunho de Deus. “Profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão”. Ele não podia ficar calado! O fogo ardia dentro dele e não podia ser contido. Quando testemunhava de Deus, é claro que ele encontrava oposição. Tenho certeza disso pelo contexto de Judas, pois a passagem tem a ver com murmuradores “e descontentes, andando segundo as suas paixões. E cuja boca vive propalando grandes arrogâncias”, e Enoque é apresentado como tendo sido levado a tratar com essas pessoas. Seu sermão mostra que ele foi um homem que permaneceu firme em meio a uma torrente de blasfêmias e coisas reprováveis, liderando a grande controvérsia pela Verdade de Deus contra a vida ímpia e língua licenciosa dos escarnecedores da sua época. Ele diz: “Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram”.
É claro que eles falavam contra Enoque, rejeitavam seu testemunho, atormentavam seu espírito, e ele lamentava que, com isso, estivessem falando contra Deus. Pois ele diz: “de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra Ele”. Ele via a vida ímpia que levavam e testemunhava contra eles. É incrível que o assunto principal de seu sermão tenha sido o Segundo Advento! E é ainda mais digno de nota que os outros dois homens que se poderia escolher por terem vivido tão perto de Deus, a saber, Daniel e João, também tenham falado muito a respeito da vinda do Senhor e do Dia do Julgamento. Não preciso citar as palavras de Daniel, o qual nos fala sobre o julgamento vindouro e sobre o Ancião de Dias que se assentará no Seu trono. E nem preciso repetir o constante testemunho de João sobre a Segunda Vinda do Senhor. Vou mencionar apenas sua exclamação fervorosa: “Vem, Senhor Jesus!”
Vejam, pois, Enoque foi pregador da Palavra de Deus e, por isso, teve de tomar muito mais cuidado que a grande maioria das pessoas. E mesmo assim, com tudo isso e todas as outras coisas juntas, ele conseguiu agradar a Deus até o fim da vida! Falo de um fim que encontrou um interminável estado de alegria — enquanto esteve aqui ele andou em fé, andou de forma agradável a Deus — e, portanto, sua comunhão com o Senhor nunca foi quebrada.
3. Isso nos leva a concluir com um terceiro ponto — QUAL FOI O FIM DA CAMINHADA DE ENOQUE? Gostaria primeiramente de salientar que ele terminou seu trabalho muito cedo. Enoque andou com Deus e esse caminhar foi tão bom, tão seguro, tão progressivo que ele viajou mais rápido e alcançou seu lar muito mais cedo do que qualquer um de nós que, às vezes, anda com Deus, e outras, com o mundo! Trezentos e sessenta e cinco anos seria uma vida longa para nós, mas foi curta para aquela época, quando muitos patriarcas chegaram quase a mil anos de idade.
Sua vida, se comparada à existência comum daqueles dias, foi como um período de 30 ou 35 anos das vidas mais curtas — na verdade, a melhor analogia para sua vida é a de nosso Senhor. Assim como a vida longa dos homens da sua época, a de Enoque teve aproximadamente a mesma duração que a do Senhor Jesus em comparação com a nossa. Enoque morreu relativamente jovem, como Verdon, nosso irmão e presbítero, recém falecido, e não é de admirar. Dizem que “quem é amado pelos deuses morre jovem”, e tanto Enoque, quanto Verdon foram homens muito amados. Talvez esses santos tenham terminado sua carreira cedo porque fizeram seu trabalho com tanta diligência que acabaram logo.
Alguns trabalhadores, quando têm algum serviço para fazer em casa, levam o dia todo, ou até uma semana inteira para acabá-lo, e fazem uma confusão sem fim! Não é à toa que algumas pessoas vivam tanto, pois precisam de muito tempo para fazer quase nada! Mas este homem fez seu trabalho tão bem e se manteve tão perto de Deus que sua jornada terminou ao meio-dia e o Senhor lhe disse: “Vem pra casa, Enoque! Não precisa mais ficar aí fora, vem para o Céu. Você já deu seu testemunho, já viveu sua vida. Por todas as gerações os homens o considerarão como modelo, por isso, pode vir pra casa”. Deus nunca mantém o trigo nos campos mais tempo que o necessário! Quando está maduro, Ele o colhe de uma vez! Quando Seu povo está pronto para ir para casa, Ele os leva. Não lamente a morte de um bom homem quando ele ainda é jovem. Pelo contrário, bendiga ao Senhor por ainda haver colheitas precoces no mundo e por alguns de Seus santos serem santificados tão rápido!
Mas, afinal, o que aconteceu com Enoque? Receio ter dito que ele morreu, ou ainda direi; é muito natural falar sobre a morte de alguém, mas ele, só ele, e ninguém mais em toda a raça humana entrou na Canaã celestial sem atravessar o rio da morte! Está escrito a seu respeito: “e já não era”. Quem acredita que a palavra “morrer” signifique ser aniquilado teria seu ponto de vista ainda mais confirmado se as palavras do texto “e já não era” fossem aplicadas a todos os que partiram, pois se há uma expressão que talvez tenha esse significado no seu modo de tradução é essa — é só essa! “E já não era”, no entanto, não significa que ele foi aniquilado! Nem mesmo o termo mais fraco ‘morrer’ significa qualquer coisa do tipo!
“E já não era” quer dizer: ele não estava mais aqui — e isso é tudo. Ele se foi da terra, mas estava lá — lá, para onde Deus o trasladou. Ele estava, ele está com Deus! E isso sem ter experimentado a morte! Não se ressinta por ele ter evitado a morte. Foi um benefício, mas não por algum meio tão extraordinário quanto alguns pensam, pois quem não morre precisa sofrer uma transformação e Enoque foi transformado. “Nem todos dormiremos”, diz o apóstolo, “mas transformados seremos todos” (1 Coríntios 15:51). A carne e o sangue de Enoque não podiam herdar o reino de Deus — rapidamente ele sofreu a transformação que você e eu sofreremos no dia da ressurreição. E, assim, ele não estava mais aqui, foi trasladado ou transplantado dos jardins da terra para o Paraíso lá do alto.
Agora, se há alguém no mundo que nunca morrerá, é aquele que anda com Deus. Se há alguém a quem a morte será como nada, é o homem que olha para o Segundo Advento de Cristo e se regozija nele. Se há alguém que, embora passe pelos portões de ferro da morte, nunca sentirá o terror do inimigo cruel, é o homem cuja vida aqui embaixo foi de comunhão constante com Deus! Não há outro meio de escapar do sofrimento da morte a não ser andando com Deus, e então se poderá dizer: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Coríntios 15:55). Está escrito de Enoque que “Deus o tomou para si”. Uma expressão extraordinária! Talvez Deus o tenha feito de forma visível. Não seria de estranhar. Talvez os patriarcas o tenham visto partir, assim como os apóstolos viram quando o Senhor foi assunto ao céu.
Seja como for, houve um arrebatamento especial, algum tipo diferente de acesso desse eleito ao trono do Altíssimo. “E já não era, porque Deus o tomou para si”. Note que sentiram sua falta. Isso é algo que eu não poderia deixar passar. Sentiram sua falta, pois o apóstolo diz: “não foi achado”. Ora, se um homem não foi achado, é porque alguém procurou por ele. Quando Elias subiu ao céu, lembrem-se, cinquenta discípulos dos profetas saíram à sua procura. Não me causa estranheza o que fizeram — eles não se encontravam com Elias todos os dias — e quando ele se foi, com corpo e tudo, poderiam muito bem ir atrás dele! Enoque não foi achado, mas procuraram por ele.
Sente-se falta de um bom homem. Um verdadeiro filho de Deus como esse na igreja, trabalhando e servindo ao Mestre, é um entre mil — mas se ele tem andado com Deus, sua morte é lamentada. Sentiremos falta do querido irmão que acabamos de sepultar. Seus colegas de conselho sentirão sua falta. Todos quantos foram convertidos a Deus por seu intermédio sentirão sua falta. Eu, com certeza, sentirei sua falta. Olho para onde ele costumava se sentar — e espero que quem ocupe o lugar tenha pelo menos metade do seu valor. Será mais do que posso esperar. Não queremos viver e morrer para que ninguém se importe se estivemos aqui na terra ou não. Sentiram a falta de Enoque quando ele se foi e assim será com quem andar com Deus.
Finalmente, a partida de Enoque foi um testemunho. O que o bendito Espírito quis dizer por “e já não era, porque Deus o tomou para si” senão que existe um estado futuro? Os homens tinham começado a duvidar disso, mas quando disseram: “onde está Enoque?”, e quem testemunhou sua partida disse: “Deus o tomou para si”, isso foi, para eles, uma evidência da existência de um Deus, e também de um outro mundo. E quando perguntaram: “Mas onde está o corpo?”, há ainda outra lição. Dois homens morreram antes de Enoque, quero dizer, dois cuja morte está registrada nas Escrituras — Abel foi morto e seu testemunho foi de que o descendente da serpente odeia o descendente da mulher. Adão, também, morreu cerca de 50 anos antes da trasladação de Enoque, e seu testemunho foi de que, mesmo quando demora, o castigo é certo, e “a alma que pecar, essa morrerá” (Ezequiel 18:4). Então vem Enoque e seu testemunho é de que o corpo pode ser imortal! Ele não pôde dar testemunho da ressurreição, pois não morreu — para isso temos o testemunho em Cristo, o qual é a primícia dentre os mortos. Mas o testemunho de Enoque deu uma boa indicação disso, pois forneceu provas de que o corpo pode ser imortal e viver num estado celestial. “E já não era, porque Deus o tomou para si”. Sua partida também foi um testemunho para a humanidade de que há um galardão para os justos, pois Deus não se assenta com olhar impassível, ignorando o pecado dos perversos, ou as virtudes dos santos. Seu testemunho prova que Deus vê aqueles que andam com Ele e Se agrada deles — e pode lhes dar, mesmo agora, as recompensas do presente, livrando-os do sofrimento da morte — e certamente Ele recompensará o Seu povo de uma forma ou de outra.
Por isso, veja, vivendo e morrendo — não, morrendo não, enganei-me de novo — vivendo e sendo trasladado — Enoque foi uma testemunha para sua geração! E oro para que todos nós, vivendo ou dormindo, sejamos testemunhas de Deus. Ah, se pudéssemos viver como o nosso querido irmão Verdon, a quem recentemente sepultamos, viveu, cuja alma ardia por amor a Cristo! Ele tinha verdadeira paixão pelas almas! Mal consigo pensar em alguém entre nós que tenha feito tanto quanto ele, pois embora tivesse de granjear o pão de cada dia, ele passava as noites conosco no serviço do Senhor, ou na pregação do evangelho. Depois, muitas vezes ele saía às ruas cansado, cuidando dos abatidos, para poder recuperá-los! Com frequência, pela manhã, saía cansado para o trabalho, a não ser pelo descanso encontrado no serviço de Cristo.
Às vezes, com os olhos cheios de alegria, ele encontrava um irmão e dizia: “Cinco almas para Cristo ontem à noite!”. Em outras, depois de um sermão, lá estava o grande caçador de almas, levando os interessados escada abaixo para a reunião de oração. E quando apertava minha mão, ele dizia com seu sotaque suíço, o qual nunca consegui imitar: “Jesus salvou mais alguns esta noite! Mais almas foram trazidas a Cristo”. Para ele, viver era ganhar almas! Ele era o membro mais jovem do nosso conselho, mas os grisalhos o respeitavam. Enquanto chorávamos sobre seu túmulo, não havia um sequer entre nós que não sentisse ter perdido um verdadeiro irmão em Cristo e um valente soldado. Que o Senhor levante outros dentre nós para fazer o mesmo que o Presbítero Gordon fazia!
Que o Senhor desperte os irmãos e irmãs mais velhos para serem mais ativos e torne os jovens mais dedicados. Nossas fileiras estão desfalcadas, quem irá preencher as lacunas? Ficamos mais reduzidos, à medida que o Senhor vai levando um e outro para o lar dos mais instruídos e corajosos. Mas, pela Sua graça, todos os dias chegam novos recrutas! Que outros mais possam vir — sim, Senhor, traga-os pelo Teu Santo Espírito para serem líderes nas fileiras da frente, pois enquanto a vanguarda se transforma na Igreja Triunfante, que a retaguarda seja sempre acrescida de novos membros! Trasladados para os céus são alguns, que outros sejam trasladados das trevas para a maravilhosa luz, por amor de Cristo. Amém.
Tradução: Mariza Regina de Souza

Extraído do site Spurgeon em Português
Charles Haddon Spurgeon

Charles Haddon Spurgeon

# Manhã de domingo.

# O entoar passeriforme
# Como sincronia
# Natureza nos mostra
# Transparência no bom dia
#

# As nuvens flutuam pelo ar
# Bailando um dançar
# Para qualquer pessoa ver
# E recitar seu parecer
#

# Paralisar olhando a beleza
# Todos os músculos em retenção
# Até os olhos se perdem nessa nobreza
#

# Que inspira os trovadores
# A registrar com o coração
# Esse momento de louvores.

Diony Peroli

MANHÃ DE DOMINGO

Os lençóis estão quentes, amarrotados, amassados, mas sinto frio. Espreguiço-me sem abrir os olhos. Reconheço, ao lado, o triste espaço vazio. Ao esfregar meu braço na cama, do lado, sinto o lençol gelado. Preferia muito mais quando acordava encolhida ou espremida.

O sol brilha entre as cortinas, fere-me a retina. Esfrego os meus olhos, não pela luz, mas por não acreditar que você não está mais aqui. Não me bastam só as memórias, preciso voltar aquele tempo. Olho pra dentro de mim buscando você, mas meu único resultado é um par de lágrimas.

Levanto-me em mais uma quinta ordinária. Caminho até o espelho e tudo parece vazio, não vejo você atras de mim no espelho. Não reclamaria mais dos seus pés gelados no meu, enquanto estou ao seu lado tentando dormir. Não reclamaria mais das cosquinhas na barriga e da força do teu abraço quando me beija, enquanto sem querer me borro com o batom por mera distração.

Hoje olho esse batom, abro a tampa e giro a embalagem. Uma lágrima cai em cima e escorre até borrar de vermelho a pia; borrada igual ficavam os meus lábios sempre quando você me dava um abraço e me beijava. Borrado também estão meus olhos, tentando conter inutilmente as lágrimas. Borrado também está meu coração, ferido e encolhido, não dando voz ou sentido a razão.

Esse choro me traz um arrepio e o arrepio me traz frio. Envergonho-me ao me olhar no espelho em um momento tão frágil e com os olhos tão inchados. Vou para o quarto e, no armário, busco uma camiseta.

Abro a gaveta. Procuro o que vestir e, lá no fundo. encontro a sua camisa. Pego-a com todo o carinho e novas lembranças me vêm. Ela ainda tem o seu cheiro. Só de senti-lo, fecho meus olhos, e já sinto sua pele quente na minha, juntamente com a minha vontade de devorar você.

E depois de tudo, você era meu alicerce. Não sou maior sem você, não sou melhor sem você.

Olho ao redor. Vejo meu quarto vazio. Vazio... Vazio... Vazio... Assim eu me encontro. Vazia!

VivianDelamo

Eu poderia ter colocado uma foto minha dormindo logo pela manhã de domingo, mas resolvi não fazer parte dessa jogatina.

Camila Bill

O hoje se foi mais uma vez em segundos felizes, desta vez não foi em uma manhã de domingo com uma despedida fugaz e sim numa noite de domingo com à lua crescente e junto com esta lua cresce saudades deste momento único.

Nilson Matos F. Junior

O hoje se foi mais uma vez em segundos felizes, desta manha de domingo com uma situação um pouco arriscada e tensa, mais que depois do susto vejo graça, acredito no sentido da verdade compreendida apenas por nós, por isso nesta manha triste por sua despedida fugaz, caio em gargalhadas e me completo com sonhos de uma manha feliz de domingo!

Nilson Matos F. Junior

LAURA
Era manha de domingo
Acordei cedo fui lê aquele velho livro ao som das águas do mar
Sempre lhe via passar, caminhando no calçadão de forma espojada, mas parecia estar com o raciocínio trabalhando constantemente... Passava ali naquele mesmo horário todos os dias eu já não ia, mas para lê e sim vê-la.
Nesse dia foi diferente
Hoje o livro por algum motivo que eu não me lembro qual, estava mais interessante por isso passei a prestar menos atenção, já que meus olhares diários não eram correspondidos
Até que ouvi um suntuoso: bom dia!
Escutei aquela voz que ousava me interromper na minha leitura diária e respondi: _ Bom dia!
Quando olho aquela menina, mulher de perto, estávamos tão próximas que meus sentidos ficaram atordoas diante daquela presença a qual desejava há tanto tempo ao meu lado
Seu olhar finalmente correspondeu ao meu e foi de uma intensidade inexplicável que me dizia mais do que ela mesma podia imaginar, me sorria de forma faceira e intrigante sabia o que causava em mim.
Os meus pensamentos todos os dias lhe deu um nome diferente, era ora de desvendar esse mistério
Então, quebrei o silêncio: qual o seu nome?
Sem desviar o olhar ela respondeu: LAURA
Oh! Laura foi assim que te conheci
Admirei-te tanto e por um tempo que será indeterminado
Laura me perdoe pela despedida que é tão dolorosa, mas é necessária
Não sei ser de uma só pessoa por muito tempo
Não me julgue! Te peço não me julgue
Não sabes a dor que é ser do jeito que sou
Laura, que nome lindo e como tu és bela
Me encanto toda vez que você sorrir pra mim dessa forma
LAURA: “_Você partiu meu coração!”
Não diga isso, quando te conheci não sabias o que era o amor
Hoje tens amor de sobra dentro de te
Hoje é por mim
Amanha será por outra pessoa
Minha queria não é o fim
Depois verás que não é o fim
Há muito mais lá fora do que podes imaginar
Te dei só um aperitivo
Agora vai e descobre onde estar tua sobremesa.

Lilaslm

Ele era tempestivo, porém disfarçava muito bem. Parecia uma manhã de domingo, com aquele sol tímido e doce, quando na verdade era aquela segunda-feira maluca, corrida, estressada e chata. As pessoas o admiravam. Claro, era agradabilíssimo e isso é uma característica dele que é excitante! Tinha um sorriso engraçado, desses que por hora era pausado. Caio em risos ao lembrar. Ah, era charmoso também, muito! Educado e mandava muito bem no sexo. Recordo-me dele com carinho, desses que faz a gente sentir saudade, mas aí saudade é relevante. Passa um cara bonito e já esqueço, mas pego meu celular e ele não toca mais, então lembro dele. Voltando a falar das características, meu Deus, como ele era cheiroso. Como o abraço dele era bom, como o calor dele era aconchegante. Tinha crise de seriedade e isso mostrava o lado adulto dele, porque eu o via como um menino, e era isso que me dava forças pra viver feliz e ver o quanto eu ainda sou uma menina. Suas mãos eram firmes quando me jogava e delicadas quando gozava em cima de mim. Ah, eu sinto sau... Então o despertador tocou e eu acordei. Fui trabalhar!

Raileza

Existe coisa mais gostosa do que acordar numa manha de domingo, com seu amor trazendo um café da manha com aquela cara de: "Adorei a noite, somos muito felizes"...!!!! Pois é, voluntariamente, assim somos. Há em nós, silêncio num olhar ardente, na quentura do espaço deixamos bailar na nossa pele e na alma a delicadeza dos nossos sentimentos, desejos trocados, olhamos-nos naquele abraço inquieto e verdadeiro... sem transpirar pecado, pois, muito além tudo se faz em nós o proseguir da VIDA - Roswyta Ribeiro

Roswyta Ribeiro

Deus de bondade, Pai misericordioso, nessa manhã de #domingo venho te agradecer por todo bem que realizas na minha vida. Obrigada por me proteger, por iluminar meu caminho e me livrar de todo mal. Obrigada pelo ar que respiro, pelo pão que me alimenta, pela coberta que me esquenta. Obrigada pela casa que me abriga, pela vida das pessoas que amo e por me conceder uma vida abençoada debaixo das suas asas. Obrigada pela tua mão amiga que me sustenta e me levanta todas as manhãs me dando a chance de recomeçar. Obrigada pelo Teu amor incondicional, que aquece meu coração e me faz compreender que: ainda que tudo esteja escuro sempre há uma saida e uma luz, eu só preciso acreditar e crer que em Ti eu tudo posso. Conceda-nos Pai Amado, uma semana próspera e frutifera, abençoa abundatemente nossas vidas e esteja com cada um dos seus filhos, é o que eu te peço em nome de Jesus Cristo, amém! (Priscilla Rodighiero )

Priscilla Rodighiero