Ledo Ivo poemas

Cerca de 169 poemas Ledo Ivo

O meu leitor não é o que me lê. É o que me relê (caso exista). Um autor lido unicamente uma vez não tem leitores, por mais retumbante que seja o seu sucesso.

Lêdo Ivo

A maioria dos biógrafos empenha-se em explicar a obra a partir da vida, quando o correto é exatamente o contrário: trata-se de explicar a vida a partir da obra.

Lêdo Ivo

O grande escritor não precisa ser nem muito inteligente nem muito culto. A inteligência e a cultura são contudo indispensáveis nos escritores menores.

Lêdo Ivo

Soneto Puro
.
Fique o amor onde está; seu movimento
nas equações marítimas se inspire
para que, feito o mar, não se retire
de verdes áreas de seu vão lamento.
.
Seja o amor como a vaga ao vago intento
de ser colhida em mãos; nela se mire
e, fiel ao seu fulcro, não admire
as enganosas rotações do vento.
.
Como o centro de tudo, não se afaste
da razão de si mesmo, e se contente
em luzir para o lume que o ensolara.
.
Seja o amor como o tempo – não se gaste
e, se gasto, renasça, noite clara
que acolhe a treva, e é clara novamente.
.

Lêdo Ivo

SONETO DOS VINTE ANOS

Que o tempo passe, vendo-me ficar
no lugar em que estou, sentindo a vida
nascer em mim, sempre desconhecida
de mim, que a procurei sem a encontrar.


Passem rios, estrelas, que o passar
é ficar sempre, mesmo se é esquecida
a dor de ao vento vê-los na descida
para a morte sem fim que os quer tragar.


Que eu mesmo, sendo humano, também passe
mas que não morra nunca este momento
em que eu me fiz de amor e de ventura.


Fez-me a vida talvez para que amasse
e eu a fiz, entre o sonho e o pensamento,
trazendo a aurora para a noite escura.

Lêdo Ivo

A poesia é uma criação da cultura, mas esta deve permanecer invisível no poema.

Lêdo Ivo

Eu que nem ao menos sei quantos passos dei até chegar aqui
Me faço de vítima, me escondo no escuro, não sei como agir
São escolhas tortas de um passado
Um sopro de um vento
Leve, calado
Simples, selado

Eu que nem ao menos sei se sou quem sou
Entre espaços estranhos e corpos oblíquos e o pouco que sobrou
Sou um olhar confuso
Uma bala perdida
Uma mente em pedaços
Personalidade encardida
Alma ferida

Bárbara Lédo

Quero uma droga que me tire essa vontade de te pegar de jeito
Quero algo que me faça temer
Talvez precise de um tiro ou de um pouco de poder

Faltam lágrimas e sobram dores
São terríveis
Cruéis
Amores

Bárbara Lédo

Na vida precisamos sempre usar máscaras, pois ninguém nos reconheceria se nos apresentássemos de rosto nu

Lêdo Ivo

Acontecimento do Soneto
.
A doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros.
.
versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.
.
Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,
.
irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.
.

Lêdo Ivo

Perdas e Danos

Quem dorme perde a noite.
Foge da eternidade,
candelabro cativo
na escuridão do céu.

Quem dorme perde o amor,
a vigília madura
da carne que se sonha
a si mesma acordada.

Quem dorme perde a morte
que respira escondida
como a lebre no bosque.

Quem dorme perde tudo
que o acaso deposita
na mesa do universo.

Lêdo Ivo

São rabiscos
Colagens
São os riscos
Bobagens

São medos
Desejos
São mãos, dedos
Palavras que despejo

São pensamentos
Maldosos
São momentos
Remorsos

Bárbara Lédo

Segredo

E se tiver que contar
A gente conta
E esconder
A gente esconde
O que não souber dizer
Amor, a gente inventa
E mesmo ao temer
A gente tenta

Bárbara Lédo

Nem sei mais disfarçar
Sua forma de olhar, seu jeito de abraçar

O desespero me domina
Não amo o ser, mas a vontade me fascina
Me engole
Me passa

Muito prazer
Agora deixe-me dizer
Dói saber o que você gosta de fazer
Prostituir seus sentimentos e vender pra alguém desigual

Bárbara Lédo

Sabe quando você sente que as coisas estão fora do lugar?
Que até o seu nome você não sabe pronunciar
São as conseqüências de uma cabeça em confusão
É fruto do que um dia se tornou ilusão
Ou daquilo que nunca foi verdade
Uma ou duas vidas
Cedo ou tarde
E nem me venha com histórias
Do acervo das memórias
Quero mais é viver em paz
Acordar sem olhar pra trás
O que tinha que acontecer com certeza já passou
Até larguei … o meu amor
Nossa, que confusão
Se pudesse escolher, ficaria com a sorte
Ou não
Vida, morte
.
.
.
O que me espera?

Bárbara Lédo

Abro os olhos de manhã
Sinto o alívio de estar vivo
Começo o dia
Ponho me a pensar
Será que isso tudo é real?

Sérgio Ledo

Vício

A parte mais difícil dessa história
É entender o seu início
No meio, a gente chora
E agora se torna vício

Bárbara Lédo

Nosso Lugar

Nós estamos no olhar
Nas cores estampadas na parede
Estamos nas piadas
Ideias malucas
Viagens marcadas
Nós somos os passos confusos
As certezas imprevisíveis
Somos também sensíveis
Somos cartas marcadas

Bárbara Lédo

O que eu tive

Não tive a sorte tão cantada de um amor tranquilo
Mas o prazer de conhecer seu ombro amigo
Nossos conflitos, meu jeito aflito
Sonhos contigo e os encontros de identidade
Embora houvesse diferença na idade
Fomos o máximo e somos o que podemos ser
Sem maldade
Queria sim ter mais coragem
E te deixar feliz com a imagem
Sem temer nosso futuro, tudo que pode acontecer

Bárbara Lédo

O que sou

Sou a coragem do teu olhar apaixonado
O desejo que se esconde em seus abraços
Os meus detalhes se desfazem no cansaço
Nos seus beijos eu entrego meu espaço

Bárbara Lédo