Pablo de Queiroz: Medir o sentimento de alguém é uma taref...

Medir o sentimento de alguém é uma tarefa obviamente impossível. Desde os tempos mais remotos, homens e mulheres tentam buscar dentro e fora de si, respostas para domarem sua ansiedade e sedarem suas inseguranças. Onde, infelizmente, fracassam na totalidade das tentativas, tornando-as sempre frustradas, já que, como o maior volume dessas dúvidas concentram-se principalmente no sentimento do outro - que é um território completamente desconhecido - acaba por tornar o objetivo em algo inoperante, inatingível; tendo em vista que não se pode medir algo que não se conhece e não se vê.
É como medir um campo de futebol apenas assistindo a uma partida pela tv. A emissora gera a visualização a quilômetros de distância, e você tem o árduo desafio de tirar suas medidas, tendo como parâmetro, apenas as imagens e no tamanho que permitem serem vistas pelo seu televisor, de acordo com número de polegadas que o mesmo possui. Impossível! Mesmo que com sorte você possua um aparelho de ultima geração, com imagem de alta definição, tela plana, da espessura de uma folha de papel, 500 polegadas e localizado a apenas alguns centímetros de seu confortável e aconchegante sofá.
Assim como no exemplo, onde nota-se facilmente uma proporção desajustada nos espaços - entre o que de fato é real e o que apenas é gerado para nós - existe também, um descompasso caótico entre o que definitivamente existe em relação aos sentimentos alheios, e o que apenas nos é demonstrado, ensaiado, persuadido. Hoje nada realmente é como se vê, sente, imagina ou se supõe. As coisas mudaram, e com o tempo, o homem aprendeu [por necessidade em alguns casos] a simular, dissimular, mentir, omitir, camuflar, suavizar e/ou hiperbolizar as coisas, de acordo com seus interesses. Não estou dizendo que não exista algo verdadeiramente sincero e substancial nas coisas que vem do coração, tentando com isso exterminar todo o seu otimismo e sensibilidade quanto ao assunto, e sim que é preciso analisar, manipular e administrar muito bem todas as informações recebidas, encarar a realidade e parar de procurar respostas que não existem.
É como se o 'outro' fosse a emissora. Ele se programa, ajusta horários, cria métodos, idéias, organiza ações, delega obrigações e comportamentos, e, embute em todo esse esquema, todo tipo de prazer proporcionável que lhe cabe, que lhe é possível e conveniente. E como receptor/telespectador, cabe-lhe a função sortuda até, de apenas moldar tudo isso ao seu gosto. Finalmente você tem o poder de escolher 'o quê' e 'como' tudo isso mais lhe agrada. Dê cor ao relacionamento se quiser, torne-o mais vivo, intenso. Acrescente um pouco de brilho na vida de vocês, caso esteja faltando. Se o problema for o tédio, rotina e o terrível comodismo que sempre insiste em parasitar nos relacionamentos após algum tempo, busque uma ilha de esperança no mar da mesmice. Evite as mesmas coisas de sempre, mude hábitos, troque programas, esquive-se da igualdade de pensamentos e conversas, e adicione um pouco de contraste na relação. Você pode aumentar e abaixar o volume disso tudo também quando der na telha, variando, portanto, a intensidade da coisa. Mas, se ainda assim, nada disso conseguir prender sua atenção, conquistar sua confiança, satisfazer suas necessidades e te convencer que é o melhor caminho a se trilhar, ainda lhe resta a sensata opção de trocar de canal.
Contudo, como acredito que o objetivo aqui não seja o de romper a relação ou transformar sua companhia em algo substituível, aconselho tão logo aceitar as regras do jogo e se adaptar o quanto antes, a fim de se tornar um participante eficiente. Afinal, vamos ser sinceros, não lhe restam tantas opções assim, e você não pode se dar ao luxo de ficar deitado de pernas pro ar, correr o risco de continuar se enganando e agravar ainda mais a situação.
O fato é que aqui, sinceridade é relativa. Ninguém apresenta-se 100% como realmente é. É uma espécie de curriculum de relações. Cada um o prepara de acordo com o objetivo desejado. Você não vai dizer no primeiro encontro que é um ex detento, usuário de drogas e que já bateu na própria mãe, vai? Isso seria um suicídio conjugal. Portanto meu caro, não espere isso dela também. O que normalmente acontece nos primeiros dias, [e noutros casos, durante meses, anos] é uma 'apresentação', onde cada um se esforça bastante para provar valer a pena. Ela esqueceu definitivamente o ex-namorado e nunca experimentou mulheres, você não trai e nem sai mais escondido, ela aprendeu a controlar o ciúme e não se importa com dinheiro, você virou um cara caseiro e parou de beber, ela só transou com um cara na vida inteira e nunca usou drogas, e, finalmente, você não sente atração por mais ninguém, criou responsabilidade e adorou os seus pais. É um turbilhão de mentiras mútuas e eternas. Sem contar que sempre você passa a ser o cara que ela mais amou de todos os tempos [anote isso]. Difícil de acreditar, mas, tudo isso, é em troca da preservação. Não existe um culpado. É apenas um método adotado e seguido por todos. Afinal, ninguém quer de fato a verdade absoluta. No fundo, todos são felizes na matrix em que vivem. E atrair o consumidor à sua vitrine é o que realmente importa.
Há uma frase interessante que diz: "Você é o que é, apenas quando está sozinho" - que resume perfeitamente a questão. Diariamente, somos obrigados a nos adequar a costumes, culturas, pessoas, ambientes, padrões e horários. Ninguém está imune a isso. É necessário e inevitável. E é o que gera todo esse caos de personalidades e torna esse objetivo tão impossível. Definitivamente não existe a possibilidade de mensurar sentimentos e de conhecer alguém 100%. O que há na verdade, é a opção. Nós quem decidimos no que acreditar. E não se pode jogar a culpa da expectativa frustrada numa pessoa, apenas por estar agindo exatamente como você. É normal ser assim. Faz parte do jogo. Não fique chateado. Aceite. E quer saber, depois disso tudo, sabe qual é a coisa mais inteligente e sensata que minha pouca experiência permite aconselhá-lo a fazer? Nada.
Boa Sorte.

Pablo de Queiroz
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