Eugenia Tabosa
Voar sempre, cansa -
por isso ela corre
em passo de dança
Na noite sem lua
o mar todo negro
se oferece em espuma
Paz do inverno -
o interminável domingo
no campo.
Num vôo direto
o pássaro volta
procurando um teto
teu corpo deitado
acorda desejos
não confessados
no inverno, o vento
dança com as folhas
a seu contento
minha cabeça em seu peito
seus dedos em meus cabelos
- dança de leito
Debruçado no lago
Narciso, surpreso,
se vê amado
Sobre o varal
A cerejeira prepara
O amanhecer
Um homem caminha
cabisbaixo e só:
perdeu o que não tinha
Abrindo uma fresta
do carro de luxo
ele atira a meleca
Na noite em silêncio
o relógio presente
marca o passado
Olhando nos olhos
que o lago reflete
Narciso se esquece
Mar infinito
três vezes bendito
traz meu filho...
O pavão parado
no parque sozinho
espera o chamado
No ninho do sabiá
há quatro bocas
que não param de piar
Na janela em frente
uma criança sorri -
falta-lhe um dente
Por desafio
vestiu-se de gueixa
amor não sentiu
No parapeito
da velha janela
a gata espreita
Lindo sabiá
do peito amarelo
vem cá, vem cá
