Ed Motta

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Despedida (II)

Ao dizer, te amo
não estarei mentindo,
mas partindo,
pois, quanto mais te quero,
mais longe eu me sinto.

E, creia que não minto
te amo.
Estarei te amando
quando dizer
adeus.
E meus olhos
molhados
te dirão – querida.

Saberás então
que tentei cruzar
o abismo, mas caí.
Caí no vazio
da solidão,
desse passado,
dessa angustia
de saber que somos dois
e jamais seremos um.

Adeus amor,
ilusões,
felicidade.
Corra para o vento
de sua idade,
seu mundo.
Viva a vida plena,
sem preconceitos,
sem a não compreensão
de outras épocas
que represento.
Seja você
e não eu
Adeus….te amo!
(1971)

Victor Motta

ENGANOS


Mergulhei no passado tentando

compreender o presente de uma vida

e descobrir em tantos enganos

a verdade escondida nas mentiras.

Em que dobra do tempo vivido

ela ficou perdida; oculta nas sombras,

tantas vezes negada ou transformada.

O tempo partilhado com o nada.

O prazer sofrido, sem o gozo

do ideal imaginado; perdido.

A mudança rápida de amores,

deixou a mágoa do vazio;

e, por não ser o amor verdade,

fiquei sozinho, sem compreender

o destino cruel que nos leva

a viver tudo o que não é.

Victor Motta

Apenas

Era amor, era aconchego,
era vontade de ficar junto,
era calma, o sossego
de um sonho sonhado.
Trocas de carícias,
eternas juras
que se estiolaram
no tempo corrido
da vida em comum.

Onde se escondeu
a antiga paixão,
onde ficou perdido
tanto amor?
Como duas pessoas
que se amaram
são, agora, apenas amigos?
Onde ficaram as carícias, o sexo?

São dois unidos,
pensando em ser um,
seguindo independentes
suas vidas isoladas
que não mais se tocam
como antes.
Juntos, vivem tão separados
como se longe estivessem.
São vidas a parte
que se relacionam
sem serem um par.

Apenas tentam cumprir
a promessa feita no altar
de ficarem juntos
até que a morte os separe.

Victor Motta

TREVAS

Como é triste a noite sem luar,
tudo imerso nas trevas, sem cor
e como é triste também ficar
na vida desiludido do amor

Procurando sempre sem achar
alguém, um só carinho que for.
Sentir na vida um vazio, amar
e só, da solidão sentir horror.

Ainda sigo procurando a minha lua
que posso achar aqui ou talvez na rua,
ou nunca achar e continuar no escuro.

Porque faz tanto tempo que procuro
e nessa busca infeliz eu não me curo
nem consigo esquecer aquela imagem tua

Victor Motta

RECORDAÇÕES (perdidas)

No espelho da vida
revi mil rostos,
velhos, cansados, perdidos
em passado já distante.
Em meu espanto percebi
quem fui, pois,
na luz que refletia
finalmente eu via
o tempo que passara:
rápido, irônico, implacável.
Pedaços de mim
eram outras fisionomias,
que não eram mais
como um dia foram.
Lutei por descobrir
vestígios de outrora:
em vão!
Pois eram apenas traços,
fugazes traços.
Lembranças de rostos,
sorrisos, abraços,
carinhos, beijos.
Tempos passados,
passadas vidas,
uma palavra, um adeus.
Pensamentos decompostos
de imagens tão queridas.
São presente.
São feridas
que ficaram
na Alma.

Victor Motta

REFLEXÕES DE UM ADEUS

Agora, sentado,
ouvindo apenas o ruído do silêncio,
parado,
eu penso em nós.
Vem vindo do fundo, gritante,
alarmante,
a ansiedade do tempo passado
preenchendo do nada
o vazio de dois mundos.
Somos duas pontas de flexas,
disparadas do infinito,
que não se encontrarão.
Um grito de alarme
cresce na garganta
e espanta
no vôo, a felicidade
que em vão tenta o pouso
em minha alma angustiada.
Somos dois que
marcham ao longo,
sem cruzamentos,
nem encontros.
Tontos,
procuramos nos dar as mãos
através o nevoeiro do tempo.
Ilusão temerária de sermos um,
quando seremos, eternamente
dois.
Pois,
não percebes?
Teu mundo é formado
de outras cores.
Consulto o silêncio,
tal fora o relógio da vida,
e vejo nos ponteiros
que não se tocam
nossa própria tentativa
do ser uno.
Nessa ilusão míope não vemos
que passamos
um pelo outro,
sem nos tocarmos,
como os ponteiros
que marcam a vida,
perdida.

Victor Motta

TRAÇOS

Traços.
Fugazes traços.
Lembranças de rostos.
Sorrisos, abraços.
Tempos passados,
passadas vidas.

Pensamentos decompostos,
imagens tão queridas.

Tudo é passado,
e tão presente,
quão feridas,
que magoam
a gente

Victor Motta

PROSTRAÇÃO

Eu se chorar, fraqueza lhe parece,
pois não sentiste o que sinto agora,
quando triste, prostrado rezo a prece
de um homem só que na tristeza chora.

E quando sinto que meu rosto empalidece,
olhando alguém que se vai embora,
cumprindo a teia que o destino tece,
levando o amor de quem mais te adora.

E quando em mim nada mais resta
e já a noite com seu manto empresta
a escuridão a meu triste mundo,

eu choro e sem vergonha eu clamo
que a vida que pela vida eu amo
jaz perdida num abismo fundo.

Victor Motta

Assim…

Quero-te toda assim, abandonada
em meus braços, louca, embriagada.
Sobre meu peito entregue, possuída,
em corpo, espírito, na própria vida.

Quero-te assim gemendo qual bacante.
que se entrega inteira ao fogo do amante,
que nas chamas do amor e em desvario,
beija, morde, arranha, suplica em delírio.

Quero-te assim, cabelos desgrenhados.
mancha escura em coxins molhados,
pelo suor que emana de teus seios,
altar sagrado dos mais ricos veios.

Quero-te assim nas horas de doçura,
em medrosas carícias, toda pura
afagando cabelos despenteados
como a mãe ao filho, entre cuidados.

Quero-te assim, irmã tão carinhosa
que ao louco irmão aconselha, temerosa
por sua vida do mundo desgarrada,
que a preocupa e faz desesperada.

Quero-te toda assim, fêmea, mulher,
sendo só minha, mostrando que me quer.
Quero-te assim, mistura de mulheres,
mãe, amiga, amante, o que quiseres
ser – e pelo que és – te quero tanto.

Pois se resumes tudo aquilo que sonhei
em dias de angustias e temores,
eu sei
que te quero enfim, pois és a vida
que quero
e junto a ti eu estarei.

Victor Motta

Tarde, noite de Natal

A TRISTEZA BRANCA
A DERRAMAR,
DE NOVO, OS TONS
(TÃO BONS…),
TRISTES E BRANCOS,
IRMANADOS,
IRMANANDO,
NUM PÔR DE SÓIS
SAGRADOS E ÚNICOS,
OS CONTORNOS PERDIDOS
QUE BROTAM DO POVO
ESPERANÇADO….
CRÉDULO,SOB UM ARCO-IRIS
DE BONDADE BRANCA
E TRISTE.
TUDO É CALMARIA
NESSA TARDE DE SOL
QUE DESCE ATRÁS
DO MAR DE DEZEMBRO.
ILUSÃO FUGÁZ,
DE AMOR,
DE PAZ,
COMPRIMIDA EM DOZE
MESES DE ÂNSEIOS
E DÚVIDAS;
EM ETERNOS VEIOS
DE DORES REPRIMIDAS.
AQUI, SENTADO,
PARADO E ALHEIO,
COM ESSE SOL
A ME CHAMAR PRO MAR…
NÃO CONSIGO ME AFASTAR
DOS SONS
QUE ME ALCANÇAM
NO FUNDO DA ALMA,
A ALMA TRISTE
DESSE NATAL QUE CHEGOU,
TRAZENDO UM MUNDO
QUE BUSCA OUTROS MUNDOS
SEM CONHERCER-SE A SI PRÓPRIO.
NO VENTRE DILATADO
DE UMA CRIANÇA QUALQUER
ESTÁ O ESPANTO
DO SÉCULO DIVIDIDO.
NO PRANTO DA MÃE
QUE CHORA MAIS UM ANJO
ESTÁ O AMARGO
DAS INJUSTIÇAS.
E O MUNDO BUSCA
OUTROS MUNDOS,
SEM VOLVER UM SÓ
OLHAR DE PIEDADE.
QUE ENGENHOSIDADE!
A LUA A SEUS PÉS
SOB A ÁRVORE ENFEITADA
DE ESTRELAS;
QUE SÃO AS GOTAS
ROLANDO DAS FACES
FEIAS E CRUAS
QUE SEM COMPREENDÊ-LAS
NÃO APLAUDEM,
NÃO RIEM,
NA MESMICE DE SEUS DIAS
IGUAIS.
HOJE, É NATAL,
É PAZ,
É BONDADE,
É DÁDIVA,
MAS, EM SUA TRISTEZA
IGNORANTE,
COMO PODERÃO
PARTICIPAR
DE NOSSA ALEGRIA,
DE NOSSA VITÓRIA?
DEBAIXO DE TODAS AS ÁGUAS
SALGADAS
DESSE MAR,
FICA O FIM DE UMA HISTÓRIA
ENTERRADA E ESQUECIDA, E
É NATAL!

Victor Motta

Central do Brasil

Que estranho grupo,
matinal,
eu vejo todos os dias
na central.
Velhos mendigos, bêbados inocentes,
reticentes:
débeis mentais maltrapilhos,
prostitutas insones,
no roldão do povo
de rostos sem nome,
derramado.

O homem a bater
com a tábua
nas árvores incrédulas.
O pastor que prega,
em péssimo português,
ao povo que passa,
com pressa,
já sem convicção,
nem religião.
De quando em vez,
um ladrão!

A professora-criança
de livros e sacolas,
em demanda da escola.
Amostragem de um povo
brasileiro,
na luta sem tréguas,
do dia-a-dia.
Na busca do pão nosso
de cada dia,
em várias formas,
nos diversos caminhos,
das ilusões,
de tantos corações
que formam o grande vazio
sem esperança.

Povo-formiga, rude, grosseiro,
sujo, suado,
que não olha para trás,
mal humorado,
que cospe no chão
do vagão,
que viaja nas portas
do trem,
pingentes da morte,
no vai-e-vem
da sorte.
Povo-Brasil
amalgamado
no afã da sobrevivência.
Gado-humano a desembocar
no matadouro.
Quem crê em ti fantasma?
EU!

Victor Motta

Respostas

POR QUE BUSCAR A LUCIDEZ
FRIA E LINEAR DO RACIOCÍNIO PURO?
HAVERÁ LUCIDEZ NA BRISA QUE SOPRA
E CASTIGA MEU CORPO CANSADO?
E, POR QUE FOSTE, ASSIM COMO A BRISA,
ME FUSTIGAR, MORNA E TERNA,
A ESPERANÇA DE MEUS SONHOS?
POR QUE SER LÚCIDO SE A LUCIDEZ
ESTÁ EM TUDO QUE NOS CERCA?
NO VENTO,NAS ÁRVORES, NO SOL
QUE DESCE AGORA ATRÁS DA LINHA
DO HORIZONTE QUE NOS SEPARA.
QUERO FICAR ASSIM, EMBRIAGADO
NA SENSAÇÃO DE ESTAR CONTIGO,
NOS CAMINHOS QUE NUNCA PERCORRI.
OLHAR COM TEUS OLHOS E VER DENTRO
DOS MEUS AS MESMAS PAISAGENS
QUE JAMAIS NOTEI OU SENTI.
PERCORRER COM TEUS SENTIDOS
TODA A CERTEZA DA FELICIDADE.
PELA PRIMEIRA VEZ ME RECONHEÇO
TRANQUILO, A OLHAR EM FRENTE
O CAMINHO ABERTO PARA A VIDA.
TODOS OS FANTASMAS QUE CRIEI
E ME ATORMENTAVAM NAS SOMBRAS
NÃO MAIS HABITAM MEUS CASTELOS.
COMO TE DIZER TUDO ISSO?
COMO TE CONDUZIR PELA MÃO
E POR TI SER CONDUZIDO?
COMO REACENDER DAS CINZAS
TUDO O QUE DEIXEI APAGAR?
NESSA BUSCA, AGORA EU SEI,
QUE SÓ EM TI ESTÁ MINHA RESPOSTA.

Victor Motta

REAL MARAVILHOSO

Nossa vida flutuando em dois espaços,
um real – outro fantástico imaginário,
e nesse encontro do real maravilhoso
ficamos presos, partidos aos pedaços
estando em um, desejando o outro.
Vivemos então o momento majestoso,
onde tudo é possível na fantasia criada,
e no equilíbrio dessa realidade virtual,
encontramos a felicidade imaginada
para amenizar a solidão do ser
esmagado na realidade do viver
buscando no fantástico irreal
as ilusões passadas e perdidas.

Victor Motta

Ilusões (I)

Hoje, voltei dez anos
em meu passado,
e vi um sonho,
que foi presente,
mas nunca
foi futuro.
Ilusão-criança,
que brotou um dia
(eu juro)
da espontaneidade
de um ideal
(paternal).

Voltei dez anos,
de espanto
e em pranto,
estarrecido
meço a extensão
do nada.
Calculo em milhões
de números,
a multiplicação,
fantástica,
do zero pelo zero.
A imagem juvenil
do que fui, confunde-se,
desfocada, na angústia
do que sou.

Um presente-passado,
sem futuro,
a enterrar
em profundas covas
as provas
de um erro.
E do sonho
desperta a figura
de um covarde
que treme e arde
de revolta,
mas cala.
(1972)

Victor Motta

Canção do Adeus

Mais uma vez,
lábios se abriram
e me disseram
adeus!

Um duro olhar viu
meu sim silencioso,
cheio de surpresa
e desapontamento.
Lábios que antes úmidos,
prometiam beijos,
secos e crispados
recusavam o amor.
E meu corpo tremeu
apertando a garganta.
E, engraçado, nada
havia mudado.
Nunca houve amor,
apenas farsa,
ilusão e dúvida.

Sua imagem
ressurgiu das sombras,
me acusando
os erros de outrora.
Sua boca, em outros lábios
me apontavam.
O destino por mim próprio
construído era, enfim,
a sua forma de vingança.
Todo amor
que desprezei um dia,
foi consumido
ao fogo do arrependimento.
Mas, creia que já não luto
e compreendo agora
que tenho de sofrer
o que lhe fiz.

Embora por outros lábios,
outras vozes e gestos
diferentes.
Tudo é você,
tudo é seu
e me condena.

Victor Motta

O Mito da Perda

Cultura, sublimação, mito, inverdade,
ou o que mais quizermos crer,
para criarmos suaves e doces fantasias 
mas que são de fato, apenas uma crença
de que existe a perda da virgindade,
pois não se perde o que se entrega
a alguém que em confiança se amou.

Na espontânea alegria de se darem
um ao outro em perfeita comunhão
de corpos entrelaçados que no amor
se encontraram em primeira vez,
existe um só pensamento, uma vontade
coroada no sublime ato desse amor.

Não é somente breve instante de prazer,
pois será para sempre lembrado
em muitos momentos de suas vidas,
porque representou o se dar por inteiro
na primeira emoção do cruzar dos sexos,
ainda que venham a formar novos pares.

É o inesquecível legado da vez primeira
a guardar nomes, lugares, emoções, momentos.
Caso contrário, sem a chama da paixão,
foi impulso, ilusão, violência, banalidade
e, aí sim, foi-lhe roubado o sonho-mulher,
deixando vazios, dores e incredulidade.

Victor Motta

BUSCA

Cansado, nem forças tenho p’ra chorar,
pois sofrendo vaguei a procura de um bem
sem jamais um só amor eu encontrar,
sem sentir jamais o afeto de ninguém.

Nunca cruzaram os meus um só olhar,
que me dessem a esperança de também
neste mundo ter o direito de amar
e ser amado neste mundo por alguém.

Há os que nascem destinados
a viver sempre só, abandonados,
vivendo, mas da vida esquecidos.

E entre esses assim perdidos
sofrendo amores não correspondidos,
vou seguindo a sina dos não afortunados

Victor Motta

A DANÇA DA VIDA

O vento passa…é cortante e frio;
com ele perde-se ao longe a esperança
e vagando, em minha mente crio
sonhos que a vida não alcança.

Nesse campo deserto e tão sombrio
em que o destino minha vida lança,
nada fulge, pois o tumular estio
jamais verá outros anos de bonança.

E na poeira que rola nos caminhos
vejo meus sonhos se perderem agora
e o último raio de alegria ir embora.

Essa tristeza que em minha alma gora
é planta que por flores tem espinhos
nascidos pela falta de carinhos.

Victor Motta

ASTRO REI

Tristemente desce o sol pela colina,
sorrindo em doce despedida
do campônio que o saúda alegre.

Quantas histórias ele sabe?
Todas.
Não descansa nunca, não pode parar.
Muitos já o saúdam na chegada,
do mesmo modo que por alguém
foi saudado na partida.
Ele segue seu ciclo,
são outros lugares, outras gentes,
conhece a todos.

E sorrindo em doce despedida,
tristemente desce o sol
pela colina.

Victor Motta

CADEIAS PARTIDAS

Quero soltar estas negras correntes
que me prendem e fazem mal,
quero viver livre, cantar, quero amar!

Deixar cair, um a um, todos os elos,
ganhar a liberdade por minutos.
Quero voar pelas planícies,
encontrar nas alturas do céu
o teu amor perdido no abismo da terra.

Quero que só nós dois, unidos
num último e desesperado vôo,
busquemos a felicidade adormecida.

Victor Motta