Cronica Narrativa

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“Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geléia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada – , que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial.”

Clarice Lispector

SALMO 78 – Salmo de Asafe

Este salmo é profético e histórico.
É uma narrativa das grandes misericórdias de Deus em relação a Israel, apesar do quanto eles Lhe tinham provocado com os seus pecados, e de o Senhor ter trazido sobre eles várias demonstrações do Seu desgosto por causa dos pecados deles.
Asafe começa o salmo no estilo dos profetas, convocando o povo de Israel a ouvir a Lei do Senhor e a prestar atenção às palavras da Sua boca.
E, como era Deus que falava por ele, deu-lhe que profetizasse acerca do modo pelo qual falaria a Seu povo em dias futuros, por intermédio de Jesus, uma vez que eles sempre eram achados por Ele endurecidos em seus pecados.
Ele lhes falaria por parábolas e falaria das coisas ocultas em mistério deste antes da fundação do mundo, para que ouvissem mas não entendessem, já que haviam se tornado endurecidos para ouvir a Sua voz.
Para que se prevenisse de tal endurecimento contra o Senhor, Israel foi alertado desde os dias de Moisés, que se contasse sucessivamente às gerações de Israel todos os sinais e maravilhas que o Senhor havia feito, e como havia escolhido a Jacó para formar através dele um povo que fosse exclusivamente Seu, para amá-lO e servi-lO.
Então, não deveriam se esquecer dos grandes feitos de Deus, para que não viessem a lhe virar as costas e a ficarem insensíveis e endurecidos, a ponto de não poderem ouvir a Sua voz.
Por isso deveriam colocar, através de todas as gerações de Israel, a sua confiança inteiramente no Senhor, e não esquecerem dos Seus feitos, como também dos Seus mandamentos, para não seguirem o mesmo exemplo de seus pais, aquela geração que havia saído do Egito com Moisés, que era uma geração obstinada, rebelde, de coração inconstante, e que portanto, cujo espírito não foi fiel ao Senhor.
Efraim, filho de José, que apesar de não ser o primogênito, havia sido escolhido pelo Senhor para ser grande em Israel, mas não andou fielmente com o Senhor, e não se portou bem perante Ele, especialmente nos dias dos Juízes, e depois, quando o reino foi dividido em Reino do Sul e do Norte.
Por isso foi levado para o cativeiro pelos assírios juntamente com as demais nove tribos do Reino do Norte.
Todavia, o Senhor havia feito prodígios na presença dos seus antepassados na terra do Egito, e apesar de toda a bondade que lhes manifestara, quando os conduzia no deserto, se rebelaram contra Ele.
Antes de serem levados em cativeiro, o Senhor lhes perdoou os pecados por séculos, quando se voltavam para Ele e O buscavam arrependidos.
Todavia, era um arrependimento superficial, somente de boca, porque o coração não estava firme no Senhor, e assim mentiam para si mesmos e para Deus, quando pensavam que estavam votando para Ele, quando na verdade estavam apenas procurando escapar dos Seus juízos, especialmente das nações inimigas que lhes oprimiam.
Mesmo quando o Senhor lhes deu herança em Canaã, expulsando as nações ímpias de diante deles, nem assim guardaram os Seus testemunhos, e não somente tentaram ao Senhor como resistiram à Sua vontade.
Foi por isso que Deus havia abandonado o tabernáculo em Siló, e permitiu que a arca da aliança fosse capturada pelos filisteus, e permitiu que fossem mortos na guerra que haviam feito contra os filisteus.
E como nunca se firmaram na presença do Senhor, Efraim foi rejeitado, e o Senhor escolheu a tribo de Judá, para cumprir o Seu propósito de apascentar a Israel através de Davi, escolhendo a Jerusalém, para ser o local do Seu templo.


“Escutai, povo meu, a minha lei; prestai ouvidos às palavras da minha boca.
Abrirei os lábios em parábolas e publicarei enigmas dos tempos antigos.
O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não o encobriremos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do SENHOR, e o seu poder, e as maravilhas que fez.
Ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel, e ordenou a nossos pais que os transmitissem a seus filhos, a fim de que a nova geração os conhecesse, filhos que ainda hão de nascer se levantassem e por sua vez os referissem aos seus descendentes; para que pusessem em Deus a sua confiança e não se esquecessem dos feitos de Deus, mas lhe observassem os mandamentos; e que não fossem, como seus pais, geração obstinada e rebelde, geração de coração inconstante, e cujo espírito não foi fiel a Deus.
Os filhos de Efraim, embora armados de arco, bateram em retirada no dia do combate. Não guardaram a aliança de Deus, não quiseram andar na sua lei; esqueceram-se das suas obras e das maravilhas que lhes mostrara.
Prodígios fez na presença de seus pais na terra do Egito, no campo de Zoã.
Dividiu o mar e fê-los seguir; aprumou as águas como num dique. Guiou-os de dia com uma nuvem e durante a noite com um clarão de fogo.
No deserto, fendeu rochas e lhes deu a beber abundantemente como de abismos.
Da pedra fez brotar torrentes, fez manar água como rios.
Mas, ainda assim, prosseguiram em pecar contra ele e se rebelaram, no deserto, contra o Altíssimo.
Tentaram a Deus no seu coração, pedindo alimento que lhes fosse do gosto.
Falaram contra Deus, dizendo: Pode, acaso, Deus preparar-nos mesa no deserto?
Com efeito, feriu ele a rocha, e dela manaram águas, transbordaram caudais.
Pode ele dar-nos pão também?
Ou fornecer carne para o seu povo?
Ouvindo isto, o SENHOR ficou indignado; acendeu-se fogo contra Jacó, e também se levantou o seu furor contra Israel; porque não creram em Deus, nem confiaram na sua salvação.
Nada obstante, ordenou às alturas e abriu as portas dos céus; fez chover maná sobre eles, para alimentá-los, e lhes deu cereal do céu.
Comeu cada qual o pão dos anjos; enviou-lhes ele comida a fartar.
Fez soprar no céu o vento do Oriente e pelo seu poder conduziu o vento do Sul.
Também fez chover sobre eles carne como poeira e voláteis como areia dos mares.
Fê-los cair no meio do arraial deles, ao redor de suas tendas. Então, comeram e se fartaram a valer; pois lhes fez o que desejavam.
Porém não reprimiram o apetite. Tinham ainda na boca o alimento, quando se elevou contra eles a ira de Deus, e entre os seus mais robustos semeou a morte, e prostrou os jovens de Israel.
Sem embargo disso, continuaram a pecar e não creram nas suas maravilhas.
Por isso, ele fez que os seus dias se dissipassem num sopro e os seus anos, em súbito terror. Quando os fazia morrer, então, o buscavam; arrependidos, procuravam a Deus.
Lembravam-se de que Deus era a sua rocha e o Deus Altíssimo, o seu redentor.
Lisonjeavam-no, porém de boca, e com a língua lhe mentiam. Porque o coração deles não era firme para com ele, nem foram fiéis à sua aliança.
Ele, porém, que é misericordioso, perdoa a iniquidade e não destrói; antes, muitas vezes desvia a sua ira e não dá largas a toda a sua indignação. Lembra-se de que eles são carne, vento que passa e já não volta.
Quantas vezes se rebelaram contra ele no deserto e na solidão o provocaram!
Tornaram a tentar a Deus, agravaram o Santo de Israel.
Não se lembraram do poder dele, nem do dia em que os resgatou do adversário; de como no Egito operou ele os seus sinais e os seus prodígios, no campo de Zoã; e converteu em sangue os rios deles, para que das suas correntes não bebessem.
Enviou contra eles enxames de moscas que os devorassem e rãs que os destruíssem.
Entregou às larvas as suas colheitas e aos gafanhotos, o fruto do seu trabalho.
Com chuvas de pedra lhes destruiu as vinhas e os seus sicômoros, com geada.
Entregou à saraiva o gado deles e aos raios, os seus rebanhos.
Lançou contra eles o furor da sua ira: cólera, indignação e calamidade, legião de anjos portadores de males.
Deu livre curso à sua ira; não poupou da morte a alma deles, mas entregou-lhes a vida à pestilência. Feriu todos os primogênitos no Egito, as primícias da virilidade nas tendas de Cam.
Fez sair o seu povo como ovelhas e o guiou pelo deserto, como um rebanho. Dirigiu-o com segurança, e não temeram, ao passo que o mar submergiu os seus inimigos.
Levou-os até à sua terra santa, até ao monte que a sua destra adquiriu.
Da presença deles expulsou as nações, cuja região repartiu com eles por herança; e nas suas tendas fez habitar as tribos de Israel.
Ainda assim, tentaram o Deus Altíssimo, e a ele resistiram, e não lhe guardaram os testemunhos.
Tornaram atrás e se portaram aleivosamente como seus pais; desviaram-se como um arco enganoso.
Pois o provocaram com os seus altos e o incitaram a zelos com as suas imagens de escultura.
Deus ouviu isso, e se indignou, e sobremodo se aborreceu de Israel.
Por isso, abandonou o tabernáculo de Siló, a tenda de sua morada entre os homens, e passou a arca da sua força ao cativeiro, e a sua glória, à mão do adversário.
Entregou o seu povo à espada e se encolerizou contra a sua própria herança.
O fogo devorou os jovens deles, e as suas donzelas não tiveram canto nupcial.
Os seus sacerdotes caíram à espada, e as suas viúvas não fizeram lamentações.
Então, o Senhor despertou como de um sono, como um valente que grita excitado pelo vinho; fez recuar a golpes os seus adversários e lhes cominou perpétuo desprezo.
Além disso, rejeitou a tenda de José e não elegeu a tribo de Efraim.
Escolheu, antes, a tribo de Judá, o monte Sião, que ele amava.
E construiu o seu santuário durável como os céus e firme como a terra que fundou para sempre.
Também escolheu a Davi, seu servo, e o tomou dos redis das ovelhas; tirou-o do cuidado das ovelhas e suas crias, para ser o pastor de Jacó, seu povo, e de Israel, sua herança.
E ele os apascentou consoante a integridade do seu coração e os dirigiu com mãos precavidas.”

Silvio Dutra

A Essencialidade do Ensino da Palavra de Deus – Esdras 7

Entre a narrativa deste capítulo sétimo de Esdras, que estaremos comentando, e do anterior, nós temos um período de cerca de 58 anos, correspondente à data aproximada em que Esdras veio de Babilônia para Jerusalém (458 a.C.), e a da conclusão da construção do templo nos dias de Zorobabel (516 a.C.).
Judá se encontrava debaixo de uma nova liderança, e nós vemos a providência de Deus atuando para que o Seu povo fosse preservado do erro, e que continuasse no caminho da prática da Sua Palavra, porque de Esdras se dá o seguinte testemunho: “Esdras, o sacerdote, o escriba instruído nas palavras dos mandamentos do Senhor e dos seus estatutos para Israel:” (v. 11).
Esdras era sacerdote, da linhagem de Eleazar, filho de Arão, conforme se vê nos primeiros cinco versículos deste sétimo capítulo.
Ele não detinha apenas a condição de dirigir o povo de Judá nas coisas relativas à Lei de Deus, por ser sacerdote, como também era efetivamente aplicado e instruído na Palavra do Senhor.
Certamente, o próprio Deus o vocacionara e dispusera o seu coração para isto, de maneira que havia nele o zelo pelo Senhor e pela verdade, e todos aqueles que conhecem isto sabem muito bem que é impossível deixar de se viver e morrer em defesa da Palavra de Deus, conforme a impulsão que é recebida diretamente dEle para tal propósito.
Este é o segredo por detrás da grandeza de todos aqueles que serviram efetivamente ao Senhor, na defesa do depósito da fé.
Assim, nós lemos no verso 10:
“Porque Esdras tinha preparado o seu coração para buscar e cumprir a lei do Senhor, e para ensinar em Israel os seus estatutos e as suas ordenanças.”.
Isto comprova que era o Senhor que estava operando em Esdras o querer e o efetuar.
Ela havia sido preparado como bom guerreiro de Deus, e agora entraria definitivamente no bom combate da fé, lutando contra o erro e contra tudo o que se opõe ao conhecimento verdadeiro de Deus, quando se dispôs a se dirigir de Babilônia para Judá, para ensinar ao povo do Senhor a guardar a Sua Palavra.
Ele não iria para lá com o propósito de lhes ensinar como deveriam viver debaixo da obediência aos mandamentos do Senhor.
E isto não foi mudado por Jesus em relação à Igreja. Nós vemos o quão somos insistentemente ordenados por Ele e pelos apóstolos a não sermos meros ouvintes da Palavra, mas praticantes.
Para isto é preciso ter grande apreço e amor pela Palavra, um grande desejo de honrá-la, para que Deus possa ser honrado e santificado através da Sua aplicação em nossas vidas.
Todavia, como guardaremos aquilo que não conhecemos?
Daí a necessidade de estudarmos a Palavra e de nos submetermos humildemente a aprendê-la daqueles que viveram e morreram dando um firme testemunho de terem-na vivido, pregado e ensinado a outros, bem como daqueles que o Senhor tem levantado em nosso meio, tal como Esdras, para nos instruírem no conhecimento da verdade revelada.
De Esdras pode-se dizer o mesmo que Jesus disse dos ministros que são instruídos e fiéis às coisas relativas ao reino dos céus: “E ele disse-lhes: Por isso, todo o escriba instruído acerca do reino dos céus é semelhante a um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.” (Mt 13.52).
Eles possuem um tesouro que o Senhor lhes confiou, que é a Sua Palavra, e é dali que tiram o alimento espiritual com o qual alimentam a família de Deus, quer no que tange às coisas antigas que conheciam, quer no que tange aos novos e frescos conhecimentos da verdade revelada, conforme são capacitados a entender, por iluminação do Espírito.
Isto não se refere a uma nova verdade, mas a um recente conhecimento das verdades contidas no tesouro doutrinário da Bíblia, que vão aprendendo mais e mais, conforme lhes capacita o Espírito, no seu aprofundamento em seu estudo e meditação da Palavra e dos comentários, estudos, sermões e artigos bíblicos que foram escritos por homens fiéis à verdade e também idôneos para ensiná-la a outros.
É de tal importância manter o ensino correto da Palavra, especialmente no que tange à sua exposição e interpretação, porque sendo isto feito de modo incorreto, haverá grande prejuízo para a santificação dos cristãos, porque sendo esta Palavra espírito e vida, quando compartilhada no culto ou nas conversações dos cristãos, ou ainda na meditação deles, quer diretamente na Bíblia, quer em sermões escritos ou comentários em que a verdade é apresentada com a sua própria roupagem, então esta Palavra se transforma em graça nos corações dos cristãos e lhes santifica, e eles são cheios do Espírito Santo, conforme o apóstolo Paulo fala a este respeito, e como o próprio Deus nos ordena a fazer, para que possamos estar efetivamente ligados com as coisas espirituais, celestiais e divinas, tendo-as não somente ocupando os nossos pensamentos, como também na transformação das nossas vidas.
Não podemos esquecer que a rainha Ester está situada na cronologia com apenas 20 anos antes de Esdras, porque a sua intervenção em favor do livramento dos judeus do extermínio pretendido por Hamã, é datada em 478 a.C., e Esdras veio para Judá em 458 a. C.
Deste modo, o bom testemunho e a atuação de Ester junto ao rei da Pérsia, com o qual se casara, pode ter sido um dos fatores contribuintes para que nós vejamos Artaxerxes, usando de toda a benevolência para com os judeus não somente lhes enviando Esdras, como também dando a liberdade de que todos os sacerdotes e levitas que desejassem acompanhá-lo a Jerusalém, pudessem ir com ele (v. 13), e lhe dando prata e ouro do próprio tesouro real persa (v. 15), assim como o ouro e prata que foram levantados como ofertas voluntárias em toda a província de Babilônia (v. 16).
Com este dinheiro, Esdras deveria comprar animais e cereais para serem ofertados no altar dos holocaustos do templo de Jerusalém (v. 17).
E o que sobrasse do dinheiro ficaria à disposição do uso de Esdras e dos sacerdotes, para o que fosse necessário comprar conforme a vontade de Deus (v. 18).
Além disso foram dados pelo rei vasos para o serviço do templo, e o que mais fosse necessário para o referido serviço, e Esdras o compraria com o dinheiro dos tesouros da casa do rei da Pérsia (v. 20).
Foi ordenado também a todos os tesoureiros da província da Palestina que deveriam dar prontamente a Esdras, tudo o que lhes fosse exigido até o limite de cem talentos de prata, cem coros de trigo, cem batos de vinho, cem batos de azeite, e sal à vontade (v. 21, 22). E tudo o que fosse ordenado pelo Deus do céu, deveria ser feito com a precisão exigida, de maneira que a ira do Senhor não fosse despertada contra a Pérsia (v. 23).
E como se tudo isto ainda não bastasse, o rei persa ordenou que os sacerdotes, levitas, cantores, porteiros e todos os servidores do templo, não deveriam pagar nem tributo, nem imposto, nem pedágio (v. 24).
E autorizou Esdras a nomear e designar os juízes e magistrados para todos os judeus naquele lado do rio (v. 25, 26).
Esdras reconheceu que toda esta benevolência de Artaxerxes havia sido colocada no seu coração pelo próprio Deus (v. 27).
Por esta benevolência, Esdras bendisse ao Senhor (v. 27) e afirmou que tendo sido encorajado pela mão de Deus, a qual estava sobre ele, ajuntou alguns dos principais líderes de Israel para que subissem com ele a Judá (v. 28).
Além desta autoridade que Ele havia recebido do Senhor, que na verdade era quem lhe estava comissionando para aquela tarefa, Esdras recebeu poder e autoridade do rei da Pérsia, de modo que todo aquele que não observasse a lei de Deus e a lei do rei, deveria ser justiçado com todo o zelo pelos magistrados no sentido de receber ou a pena de morte, ou desterro, ou confiscação de bens, ou prisão (v.26).
Israel estava então tendo, desde o cativeiro, a oportunidade de aprender a estar em submissão à autoridade civil, alheia à autoridade que havia na sua própria nação.
É plano de Deus, enquanto somos peregrinos neste mundo, aprendermos a ser obedientes e submissos a toda forma de autoridade que Ele tem constituído, de maneira que possamos ter a oportunidade de aprender o exercício da submissão, tão necessária aos filhos decaídos de Adão, que se desviaram do centro da vontade de Deus por causa da rebelião.
É absolutamente essencial aprender na prática a estar sujeito à autoridade, porque quando estivermos livres de todo jugo terreno, continuaremos sujeitos à autoridade de Deus, e jamais nos desviaremos da obediência que Lhe é devida.



“1 Ora, depois destas coisas, no reinado de Artaxerxes, rei da Pérsia, Esdras, filho de Seraías, filho de Azarias, filho de Hilquias,
2 filho de Salum, filho de Zadoque, filho de Aitube,
3 filho de Amarias, filho de Azarias, filho de Meraiote,
4 filho de Zeraías, filho de Uzi, filho de Buqui,
5 filho de Abisua, filho de Fineias, filho de Eleazar, filho de Arão, o sumo sacerdote,
6 este Esdras subiu de Babilônia. E ele era escriba hábil na lei de Moisés, que o Senhor Deus de Israel tinha dado; e segundo a mão de Senhor seu Deus, que estava sobre ele, o rei lhe deu tudo quanto lhe pedira.
7 Também subiram a Jerusalém alguns dos filhos de Israel, dos sacerdotes, dos levitas, dos cantores, dos porteiros e dos servidores do templo, no sétimo ano do rei Artaxerxes.
8 No quinto mês Esdras chegou a Jerusalém, no sétimo ano deste rei.
9 Pois no primeiro dia do primeiro mês ele partiu de Babilônia e no primeiro dia do quinto mês chegou a Jerusalém, graças à mão benéfica do seu Deus sobre ele.
10 Porque Esdras tinha preparado o seu coração para buscar e cumprir a lei do Senhor, e para ensinar em Israel os seus estatutos e as suas ordenanças.
11 Esta é, pois, a cópia da carta que o rei Artaxerxes deu a Esdras, o sacerdote, o escriba instruído nas palavras dos mandamentos do Senhor e dos seus estatutos para Israel:
12 Artaxerxes, rei dos reis, ao sacerdote Esdras, escriba da lei do Deus do céu: Saudações.
13 Por mim se decreta que no meu reino todo aquele do povo de Israel, e dos seus sacerdotes e levitas, que quiser ir a Jerusalém, vá contigo.
14 Porquanto és enviado da parte do rei e dos seus sete conselheiros para indagares a respeito de Judá e de Jerusalém, conforme a lei do teu Deus, a qual está na tua mão;
15 e para levares a prata e o ouro que o rei e os seus conselheiros voluntariamente deram ao Deus de Israel cuja habitação está em Jerusalém,
16 com toda a prata e o ouro que achares em toda a província de Babilônia, e com as ofertas voluntárias do povo e dos sacerdotes, que voluntariamente as oferecerem para a casa do seu Deus, que está em Jerusalém;
17 portanto com toda a diligência comprarás com este dinheiro novilhos, carneiros, e cordeiros, com as suas ofertas de cereais e as suas ofertas de libações, e os oferecerás sobre o altar da casa do vosso Deus, que está em Jerusalém.
18 Também o que a ti e a teus irmãos parecer bem fazerdes do resto da prata e do ouro, o fareis conforme a vontade do vosso Deus.
19 Os vasos que te foram dados para o serviço da casa do teu Deus, entrega-os todos perante ele, o Deus de Jerusalém.
20 E tudo o mais que for necessário para a casa do teu Deus, e que te convenha dar, o darás da casa dos tesouros do rei.
21 E eu, o rei Artaxerxes, decreto a todos os tesoureiros que estão na província dalém do Rio, que tudo quanto vos exigir o sacerdote Esdras, escriba da lei do Deus do céu, prontamente se lhe conceda,
22 até cem talentos de prata cem coros de trigo, cem batos de vinho, cem batos de azeite, e sal à vontade.
23 Tudo quanto for ordenado pelo Deus do céu, isso precisamente se faça para a casa do Deus do céu; pois, por que haveria ira sobre o reino do rei e de seus filhos?
24 Também vos notificamos acerca de todos os sacerdotes e levitas, cantores, porteiros, servidores do templo, e outros servos desta casa de Deus, que não será lícito exigir-lhes nem tributo, nem imposto, nem pedágio.
25 E tu, Esdras, conforme a sabedoria do teu Deus, que possuis, constitui magistrados e juízes, que julguem todo o povo que está na província dalém do Rio, isto é, todos os que conhecem as leis do teu Deus; e ensina-as ao que não as conhece.
26 E todo aquele que não observar a lei do teu Deus e a lei do rei, com zelo se lhe execute a justiça: quer seja morte, quer desterro, quer confiscação de bens, quer prisão.
27 Bendito seja o Senhor Deus de nossos pais, que pôs no coração do rei este desejo de ornar a casa do Senhor, que está em Jerusalém;
28 e que estendeu sobre mim a sua benevolência perante o rei e os seus conselheiros e perante todos os príncipes poderosos do rei. Assim encorajado pela mão do Senhor, meu Deus, que estava sobre mim, ajuntei dentre Israel alguns dos homens principais para subirem comigo.” (Ed 7.1-28).

Silvio Dutra

RUTE 1

A narrativa do livro de Rute pertence, como se afirma no primeiro versículo, ao período conturbado dos Juízes.
É bem provável que os fatos narrados tenham ocorrido logo no início do referido período, porque Boaz, que se casou com Rute, era filho de Salmom, um dos príncipes da tribo de Judá, que havia se casado com Raabe (Mt 1.5).
E este Salmom era filho de Naassom, príncipe de Judá que apresentou a oferta daquela tribo no dia da consagração do tabernáculo, nos dias de Moisés (Nm 7.12).
Boaz era portanto neto de Naassom, e não estava assim distante no tempo dos dias de Josué, depois do qual teve início o período dos Juízes, com Otniel, sobrinho de Calebe.
Tal era o caráter e a honra deste Naassom e de sua família, que foi com a sua irmã, Eliseba, que Arão casou, tendo com ela gerado a Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar (Êx 6.23).
E Deus mesmo indicou a Naassom para ser príncipe dos filhos de Judá (Nm 2.3), sendo ele também o general de todo o exército de Judá nos dias de Moisés (Nm 10,14), revelando-se com isto que era antes de tudo um homem de fé, dado ter sido escolhido pelo próprio Deus.
Salmom era filho deste homem, que foi honrado de tal forma pelo próprio Deus, e se enamorou de Raabe nos dias de Josué, depois da conquista de Jericó.
E podemos imaginar qual era o porte e o caráter santo desta mulher, para ter sido a preferida dentre todas as filhas de Israel, para se casar com o príncipe mais honrado, da tribo mais honrada dentre todas de Israel, da qual procederia o Salvador do mundo.
Certamente era a mão do Senhor que estava em tudo isto, conduzindo mentes e corações a se unirem, para que cumprisse o Seu propósito determinado desde antes que tivesse chamado todas as coisas à existência.
Glorificado seja pois não o homem, mas o Senhor, Criador dos céus e da terra, que evidencia nesta e em tantas outras coisas a beleza da Sua infinita majestade e poder.
E tendo casado com Rute, Boaz gerou a Obede, pai de Jessé, pai de Davi (Rt 4.21,22), sendo portanto Rute e Boaz bisavós do rei Davi.
Nós aprendemos portanto da história do livro de Rute qual era o caráter moral, a santidade e a fé das pessoas que foram os ancestrais do rei Davi, e podemos então entender em que princípios de fé e de temor a Deus ele fora educado.
A Providência divina, tendo um olho voltado para o futuro, para o Messias e Rei que deveria vir ao mundo, fez com que fossem incluídas na Sua genealogia duas mulheres de fé, gentias e de testemunho irretocável: Raabe, de Jericó, e Rute de Moabe.
Mostrando que a família do Messias é uma família que é unida não pelos laços de sangue, ou mesmo da nacionalidade, mas pelos laços da fé comum, tanto a judeus quanto a gentios.
Não foi pelos caminhos da glória terrena que Deus trouxe o Messias ao mundo, mas pelos caminhos da aflição e da humildade, pois para que Rute viesse a se casar com Boaz e se converter à religião e ao Deus de Israel, ela teve que experimentar do cálice de aflição do qual todos os que têm parte com o Messias são chamados a beber, na participação dos Seus sofrimentos e conformação com a Sua morte (Fp 3.10).
Por isso o caminho trilhado até à posição determinada para Rute por Deus, passou primeiro pela estrada da aflição e da humilhação, que ela experimentou inicialmente em sua própria terra natal, com a perda de seu marido, e da dor que compartilhou e dividiu com sua sogra Noemi, que perdeu em Moabe dois filhos e o marido, tendo ficado só, com suas duas noras, das quais, uma ficou em Moabe servindo aos seus deuses, e a outra, Rute decidiu com as belas palavras que até hoje fazem eco do símbolo da fidelidade tanto a Deus quanto àqueles que O amam, não somente na prosperidade, mas também na adversidade:
“Respondeu, porém, Rute: Não me instes a que te abandone e deixe de seguir-te. Porque aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu, e ali serei sepultada. Assim me faça o Senhor, e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.” (1.16,17).
Quando havia escassez de alimento em Israel, Noemi, seu marido e dois filhos partiram de Belém, que no original é Beith-Lehem, significando casa do pão, e não havia pão certamente como uma forma de juízo do Senhor contra a idolatria dos israelitas, que como vimos, era comum em Israel nos dias dos Juízes, e com isto, Deus estava fazendo valer as ameaças de maldições previstas na Lei, como forma de convencer o povo do seu pecado, e conduzi-lo ao arrependimento.
O fato de ter sido escolhida uma família de Belém, para que através dela, uma mulher gentia de Moabe, mas cheia da verdadeira fé no Senhor, retornasse de lá para Belém, onde nasceria no futuro o Messias, não foi por puro acaso, mas o cumprimento do que Deus havia determinado em Sua Soberania.
E esta mulher de fé viria não casada com um dos israelitas que partiram para Moabe e que lá se casou com ela, mas viria como viúva, para casar com outro homem de fé e piedoso, de modo a formar mais um casal de pessoas de fé, participantes da genealogia do Messias, de modo a que se registrasse que a família de Deus, que é formada pelo Messias, é composta somente por pessoas de fé, tal como aquelas que o Senhor, em Sua providência, incluiu na genealogia de Jesus.
Isto não é maravilhoso aos nossos olhos?
Ainda que tenha sido uma perplexidade para Noemi, que julgou que a perda do marido e dos filhos em Moabe fosse uma forma de visitação dos juízos de Deus sobre ela, de modo que ao retornar pediu que não fosse mais chamada de Noemi, que no hebraico significa, agraciada, agradável, mas sim de Mara, que significa amargurada, como forma de declaração da amargura e aflição que haviam invadido a sua alma, pela sua consideração de que a mão do Senhor havia se abatido sobre a sua vida, tornando-a uma pessoa desventurada.
E mal sabia ela, que o seu testemunho de vida reta havia convertido de tal maneira a Rute, que ela veio a se tornar para ela como uma verdadeira mãe, que recusou abandoná-la, bem como ao Deus que Noemi servia.
Assim, na verdade, Deus estava dando uma alta honra a Noemi, permitindo que o seu nome fosse lembrado perpetuamente, por incluí-la na narrativa bíblica, como aquela cujo testemunho trouxe para Israel uma mulher gentia que Deus havia determinado incluir na genealogia de Seu filho amado.
Com isto, ela estava sendo mais do que agraciada, e bem fazia jus ao nome que lhe fora dado.
Tendo vivido cerca de dez anos em Moabe (v.4), e já sem marido e os dois filhos, Noemi decidiu retornar a Judá porque ouviu em Moabe que o Senhor havia se tornado de novo favorável à terra de Israel, provendo-a de pão (v.6).
Isto demonstra que apesar de estar em Moabe, o coração de Noemi estava em Israel, principalmente porque o culto a falsos deuses daquela terra devia pesar muito no seu espírito piedoso e temente, ao único e verdadeiro Deus.
Isto demonstra que a emigração que fizera com sua família no início indo para Moabe, não tinha por alvo deixar Israel e o Deus de Israel e se fixar numa terra estranha, mas senão, como Abraão fizera no passado, simplesmente buscar condições de sobrevivência, enquanto perdurasse a fome em Israel, motivada pelos juízos de Deus contra a idolatria do Seu povo.
Isto nos ensina que a necessidade pode nos conduzir a lugares ruins onde as pessoas não tenham o temor de Deus, como conviver com parentes não cristãos e que nos persigam por causa do nosso amor ao Senhor, mas nós não temos nenhum motivo para permanecer debaixo desta condição ruim que tivemos que suportar por motivo de necessidade, quando as coisas melhoram.
O cristão é um cidadão do céu, e assim, por melhores que sejam as condições e os lugares deste mundo, eles haverão de se tornar melancólicos para nós, com as perdas e experiências tristes que temos nesta vida, tal como a terra de Moabe se tornou para Noemi com a morte de seu marido e filhos, e criando nela o desejo de retornar ao seu povo de Israel; e de igual modo, as tristezas que temos neste mundo ajudam no propósito de Deus de nos levar a aspirar pela nossa verdadeira pátria, o céu.
Os dissabores desta vida são modos usados pelo Senhor para nos atrair àquele lugar onde já não há mais morte, nem tristeza, nem dor.
Afinal Noemi é cidadã de Israel e não de Moabe, uma terra estranha para ela.
E o cristão é cidadão do céu, e não é deste mundo, que é uma terra estranha para ele, na qual está apenas em peregrinação rumo à pátria celestial, onde todos da família de Deus, seus verdadeiros parentes, aguardam por ele com grande expectativa e alegria.
Noemi tentou dissuadir suas noras de seguirem juntamente com ela para Israel, para evitar que viessem a passar necessidades, porque a propriedade de seu marido não poderia ser resgatada para que elas nela morassem, reavendo-a de volta de seus atuais proprietários, porque não tinha lembrança de que houvesse algum parente próximo que estivesse disposto a fazê-lo por ela, e ela não tinha mais condição em sua idade, de se casar ou de gerar filhos com algum parente próximo, para que através deles, pela lei do levirato, voltasse a ter direito à sua herança nos territórios de Israel.
Mas ela não sabia o que Deus estava preparando, um caminho totalmente diferente de tudo que ela pudesse imaginar, porque Ele faz infinitamente mais do que tudo o que pensamos ou pedimos (Ef 3.20).
Uma de suas noras, Órfa, ao pesar as aflições que lhe aguardavam numa terra estranha voltou atrás no seu desejo de acompanhar Noemi (v. 15), mas Rute estava apegada a ela por obra do Espírito de Deus e não a deixaria de modo algum.
Assim são aqueles que são nascidos de novo do Espírito: eles jamais deixarão de seguir a Jesus Cristo, e mesmo que venham a cair da Sua presença, jamais cairão de uma forma definitiva, porque pela fé, passaram a formar um só espírito com Ele.
Noemi julgava por sua condição que estava debaixo da vara da correção de Deus, que o Senhor estava contrariado com ela, e lhe havia escolhido para ser objeto dos Seus juízos, porque lhe tirara o marido e filhos, deixando-a numa terra estranha, e sem posses em sua própria terra natal, de onde havia partido para Moabe, sem saber que passaria por toda aquela aflição que a havia alcançado.
E tal foi o impacto da aflição na vida de Noemi que ao chegar em Belém com Rute, vinda de Moabe, as pessoas da cidade se comoveram com o estado delas, e as mulheres ficaram perplexas quanto a Noemi, que estava muito diferente da pessoa que havia partido para Moabe.
As aflições fazem grandes e surpreendentes mudanças num pequeno espaço de tempo.
Nós temos visto como a doença e a velhice alteram as pessoas, mudam o semblante delas e o seu temperamento. Por isso Noemi, que significa agradável, pediu que a chamassem de Mara, porque tinha agora um espírito triste.
É preciso pois considerar que há aflições temporárias que não chegam a operar toda esta transformação que foi operada em Noemi, mas pode haver um tempo em que Deus permitirá e nos chamará a experimentar provas que transformarão profundamente o nosso caráter, gerando sobriedade, seriedade, consideração adequada dos problemas e realidades da vida, e muitas outras coisas que nos tornarão muito diferentes das pessoas que éramos antes de ter passado pelos vales de aflição profundos e contínuos, que nos farão valorizar o céu e perceber quão passageiras são todas as coisas deste mundo, incluída aí a nossa própria constituição física.
A plenitude das coisas terrenas passará um dia, por maior que possa ser o tempo que nos seja concedido para participarmos dela. Mas a plenitude espiritual em Cristo jamais passará. Ao contrário ela se renova e cresce a cada dia e adentra pela eternidade afora.
“e os que usam deste mundo, como se dele não usassem em absoluto, porque a aparência deste mundo passa.” (I Cor 7.31).
“Por isso não desfalecemos; mas ainda que o nosso homem exterior se esteja consumindo, o interior, contudo, se renova de dia em dia.” (II Cor 4.16).
Não é incomum que muitas vezes, muitos cristãos confundam as aflições pelas quais passarão inevitavelmente neste mundo, como falta de amor e de cuidado de Deus por eles, quando na verdade não é necessariamente o caso. Por isso Jesus nos alertou sobre as aflições que teríamos no mundo, a par de toda a nossa fidelidade a Ele e agrado de Deus em relação às nossas vidas.
Mas Rute não levou em conta nada disto e manteve a sua decisão de fazer do Deus de Noemi o seu Deus, e do povo dela o seu próprio povo.
E nisto fez a única coisa necessária da qual Jesus falou em seu diálogo com Marta. Ela fez a grande, melhor e sábia decisão que lhe daria a sua alma como despojo, na salvação que obteve pela fé.
As dificuldades que poderia enfrentar em Israel não poderiam separá-la do amor do Deus verdadeiro que ela havia conhecido.
Ofra, tendo escolhido evitar as dificuldades e permanecer com seus deuses em sua própria terra fez uma péssima escolha, apesar de para a carne e o mundo, parecer ter sido uma melhor decisão do que a de Rute.
Felizes são todos aqueles que decidem seguir a Deus independentemente das circunstâncias difíceis que terão que enfrentar por servi-lo, na sua luta contra os principados e potestades, e nas provações de fé que o Senhor certamente lhes submeterá, porque no fim, em sua perseverança, eles conquistarão o céu de glória.



“1 Nos dias em que os juízes governavam, houve uma fome na terra; pelo que um homem de Belém de Judá saiu a peregrinar no país de Moabe, ele, sua mulher, e seus dois filhos.
2 Chamava-se este homem Elimeleque, e sua mulher Noemi, e seus dois filhos se chamavam Malom e Quiliom; eram efrateus, de Belém de Judá. Tendo entrado no país de Moabe, ficaram ali.
3 E morreu Elimeleque, marido de Noemi; e ficou ela com os seus dois filhos,
4 os quais se casaram com mulheres moabitas; uma destas se chamava Orfa, e a outra Rute; e moraram ali quase dez anos.
5 E morreram também os dois, Malom e Quiliom, ficando assim a mulher desamparada de seus dois filhos e de seu marido.
6 Então se levantou ela com as suas noras, para voltar do país de Moabe, porquanto nessa terra tinha ouvido que o Senhor havia visitado o seu povo, dando-lhe pão.
7 Pelo que saiu do lugar onde estava, e com ela as duas noras. Indo elas caminhando para voltarem para a terra de Judá,
8 disse Noemi às suas noras: Ide, voltai, cada uma para a casa de sua mãe; e o Senhor use convosco de benevolência, como vós o fizestes com os falecidos e comigo.
9 O Senhor vos dê que acheis descanso cada uma em casa de seu marido. Quando as beijou, porém, levantaram a voz e choraram.
10 E disseram-lhe: Certamente voltaremos contigo para o teu povo.
11 Noemi, porém, respondeu: Voltai, minhas filhas; porque ireis comigo? Tenho eu ainda filhos no meu ventre, para que vos viessem a ser maridos?
12 Voltai, filhas minhas; ide-vos, porque já sou velha demais para me casar. Ainda quando eu dissesse: Tenho esperança; ainda que esta noite tivesse marido e ainda viesse a ter filhos,
13 esperá-los-íeis até que viessem a ser grandes? deter-vos-íeis por eles, sem tomardes marido? Não, filhas minhas, porque mais amargo me é a mim do que a vós mesmas; porquanto a mão do Senhor se descarregou contra mim.
14 Então levantaram a voz, e tornaram a chorar; e Orfa beijou a sua sogra, porém Rute se apegou a ela.
15 Pelo que disse Noemi: Eis que tua concunhada voltou para o seu povo e para os seus deuses; volta também tu após a tua concunhada.
16 Respondeu, porém, Rute: Não me instes a que te abandone e deixe de seguir-te. Porque aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus.
17 Onde quer que morreres, morrerei eu, e ali serei sepultada. Assim me faça o Senhor, e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.
18 Vendo Noemi que de todo estava resolvida a ir com ela, deixou de lhe falar nisso.
19 Assim, pois, foram-se ambas, até que chegaram a Belém. E sucedeu que, ao entrarem em Belém, toda a cidade se comoveu por causa delas, e as mulheres perguntavam: É esta, porventura, Noemi?
20 Ela, porém, lhes respondeu: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara, porque o Todo-Poderoso me encheu de amargura.
21 Cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tornar. Por que, pois, me chamais Noemi, visto que o Senhor testemunhou contra mim, e o Todo-Poderoso me afligiu?
22 Assim Noemi voltou, e com ela Rute, a moabita, sua nora, que veio do país de Moabe; e chegaram a Belém no principio da sega da cevada.”

Silvio Dutra

Pinta a elegância
Na narrativa dos gêneros
Conta as essências
Nos dedos de apenas uma mão

Escreve na delicadeza o que falta
Procura nos vizinhos
O que esconde em seu porão


Se os sentimentos fossem base para qualquer construção
Nenhuma casa estaria de pé

Nenhum edifício existiria

NaNa Caê

Comentário do Evangelho

Lucas e Mateus, começando seus evangelhos com a narrativa do nascimento de Jesus na cidade de Belém, vinculada à memória de Davi, têm a intenção de atribuir a Jesus uma origem davídica. Nos evangelhos de Marcos e de João não há referências ao nascimento em Belém. Lucas destaca as condições de despojamento e pobreza neste nascimento. Enquanto Mateus narra a visita dos magos do oriente trazendo ricos presentes, Lucas narra a visita dos humildes pastores em vigília dos rebanhos de seus patrões. Lucas é o evangelista dos pobres amados por Deus. Em um mundo marcado pelas injustiças dos poderosos, o povo oprimido vislumbra a libertação e a vida plena

Jaldemir Vitório, padre

ALMA DA ÁFRICA,ALMA DO BRASIL

A narrativa de Antonio Olinto em seus romances africanos começa, em A casa da água, como uma enxurrada. Não há introdução, preparativos, prolegômenos. O leitor literalmente mergulha, já na primeira frase, em uma enchente. É a metáfora que conduz o discurso, uma recuperação moderna da narrativa sinfônica. Olinto escreve como quem conta uma história ao pé da fogueira na noite da África ancestral. Enumera os usos e costumes, o sincretismo religioso, os procedimentos curativos, o folclore, o cotidiano das casas e das ruas, mas principalmente localiza o leitor, pondo e transpondo pessoas, com enorme habilidade, em lugares de aqui e de acolá, do Piau a Juiz de Fora, do Rio à Bahia, do Brasil à África. Mas, se o espaço tem destaque na linguagem, o tempo é etéreo. Tempus fugit. A primeira referência temporal só se dá por volta da página 200, quando se menciona a guerra. "Mariana achava ingleses, franceses e alemães tão parecidos, por que haveriam de brigar, mas deviam ter lá suas razões." Somente ao final do livro uma tabela de datas vai esclarecer de que tempo histórico se está falando. E aí está: o tempo cronológico não tem importância.

Os achados de linguagem são tocantes. Logo à página 20, damos com esta preciosidade: "As mulheres ficaram com receio de olhar para fora e puseram os olhos no chão, Mariana, não, Mariana comeu o prazer de cada imagem." À página 58, outra: "Maria Gorda pegou-a no colo, começou a falar, tinha uma voz boa e gorda também." E à página 64: "A alegria dominou durante outra semana ainda o navio, mas foi-se diluindo em pedaços cada vez maiores de silêncio." É a voz soberana do narrador, simples, despida e precisa, fazendo um registro. Sem avaliações morais ou moralistas. O padre José que bebe cachaça, a matança cerimonial, a fornicação sem vergonhas. O livro é a pauta da vida. Desenvolve-se. Evolui, como um navio que avança pelas ondas franjadas. O livro é a vida, em seu processo, sujeitando as pessoas pela tradição, cultura, pela dinâmica própria. Um relicário da prodigiosa observação desse autor que funde ficção e memória em uma liga só, emocionante
A Casa da água foi lançado em 1969 e serviu de esteio para os outros dois livros da trilogia (O Rei de Keto e o Trono de Vidro). A análise da alma africana, e por extensão da alma humana, é preciosa, no texto de Antonio Olinto. Mas não está em fatos pitorescos ou nas anedotas. Está nos refrões, pregões, imprecações. Vejam esta frase: "Ele tinha boa cara, os lábios, grossos e fortes, formavam um sorriso lento, que demorava a se formar e demorava a se desfazer." Outra: "O pai revelou-se um homem baixo e muito gordo, a boca se esparramava como a de um sapo, ria uma risada enorme e demorada."
A trilogia do acadêmico Antonio Olinto é um compêndio sobre costumes de um povo que passou muitos anos lutando para manter a sua identidade. Assim, a pretexto de falar da alma da África, o autor fala da alma do Brasil. O fio condutor é Mariana, errante e errática, miscigenada e híbrida, suspensa entre dois mundos, como a água do mar, a água da enchente, nessa torrente de vida. Mas uma mulher firme, empreendedora, justa. Uma brasileira. A frase de Mariana, ao batizar a sua loja, comprada com o trabalho de uma vida, de Casa da água, foi esta: "É que eu comecei a ser eu depois que fiz um poço." Anos mais tarde, ela diria (página 59 de O Rei de Keto): "A coisa mais importante que fiz foi abrir um poço em Lagos quando era moça." Quanta densidade em duas frases!
Aqui e ali, a voz do autor se deixa evidenciar, numa cuidada intervenção da primeira pessoa. São apenas dois ou três verbos em cada volume, com desinência voltada para o eu. Artifícios de um habilidoso processo de construção da narrativa.

A um homem que viveu a África, como adido cultural na Nigéria, escolho a boa tradição iorubá, e termino este artigo com um oriki, como faz o autor no seu romance: ó Antonio Olinto, tu que ensinas a ver e a julgar, que estás no teu merecido lugar no cenáculo da Academia Brasileira de Letras, que escrevas muito e que teus escritos sejam recebidos com alegria pelos nossos corações, para sempre. Porque tua obra, nobre escritor, é como tu: tem a energia do trovão, a sabedoria dos nossos ancestrais e a serenidade do mar calmo.



Jornal da Letras, edição de setembro de 2007

Gabriel Chalita

O Conforto de Jesus Para Uma Mãe Cujo Filho Morreu

Os nomes desta narrativa não são fictícios, porque é uma estória real, ocorrida com pessoas como você e eu.
Não há porque não citar os nomes por questão de ética porque Jesus não esconde o seu nome de nós.
Não se trata de um “tristemunho”, mas de um testemunho que glorifica o Seu amor, cuidado e grande Nome.
Muito bem, resumindo em poucas palavras:
Jorgina havia me falado que não suportaria ver a partida de seu filho Alexandre, ainda tão moço, em razão do vírus da Aids que havia adquirido numa transfusão de sangue que fizera, porque era hemofílico.
O jovem mal conseguia respirar quando a enfermidade se agravou, e ficou tão debilitado que já não podia mais se locomover.
Internado num hospital teve a experiência que passo a relatar:
“Mãe!” Falava com dificuldade e arfando.
“A senhora não está vendo eles se aproximando, vindo na minha direção através daquelas árvores lá fora no pátio?”
“Não meu filho. Nada estou vendo”. Respondeu.
Nesse ínterim Alexandre se pôs de pé, o que já não fazia há muito tempo.
Respirava normalmente enquanto caminhava em direção à janela do seu quarto.
“Mãe!” “Olha que lindo os portões dourados lá em cima se abrindo para mim”.
Jorgina ainda perplexa com a visão de seu filho, nada vira.
Ele voltou caminhando em passos firmes na direção do seu leito. Deitou-se placidamente, e foi atravessar os portões de ouro da cidade celestial para estar para sempre junto do Seu amado Senhor.
Quando dirigia o culto fúnebre, percebi que a paz do Senhor havia tomado Jorgina de tal forma, que o seu rosto brilhava, e não conseguira derramar uma única lágrima, tão forte era a graça que a revestia naquela hora.
Certamente, chorou depois pela partida e saudade do filho, mas não se desesperou ou arrancou os cabelos, como havia me contado antes que faria, por não suportar sequer a idéia da perda do filho.
O Senhor é amor, bom, reina e vive para sempre.
Aleluias! Glórias! E Amém e Amém!

Silvio Dutra

Muitos dizem que Foucault é uma pequena narrativa, que é pós-moderno. Digo eu, Foucault, em seu Governo dos Vivos, diz que o capitalismo criou de tal forma uma mão invisível que coordena as pessoas, que elas nem percebem o domínio que este exerce em suas vidas. Onde está o pequeno discurso, já que a ideologia do capitalismo é esta, ou seja, um mundo invisível e coordenado por poucos?

Flávio Roberto Chaddad.

Diante da narrativa bíblica em Êxodo 33.17, cabe-nos incluir o maior de todos os amigos ao nosso circulo, aquele que nos inseriu à existência, e nos propõe uma carreia profícua e explendorosa. Diante dEle e com Ele, todos os desafios se tornam em grandes oportunidades para o nosso crescimento e desenvolvimento pessoal, familiar, profissional, social e inclusive o religioso

Joel Beuter

É estranho começar a falar de mim em uma narrativa em que eu sou o centro, mas que quase não apareço. Ficarei encostada, no canto, cruzando os dedos para que as palavras escorreguem mais devagar, que possam aparecer somente em seu tempo certo. Evitar pequenas fugas de idéias é prioridade, não se pode adiantar o fim, assim como não se pode adiantar a morte. Opa! Viu aí? Já falei demais…

Clarissa Melo