Coleção pessoal de solitaria543
Amor Ausente
Envolve-me amorosamente
Na cadeia de teus braços
Como naquela tardinha...
Não tardes, amor ausente;
Tem pena da minha mágoa,
Vida minha!
Vai a penumbra desabrochando
Na alcova
Aonde estou aguardando
A tua vinda...
Não tardes, amor ausente!
Anoitece. O dia finda...
E as rosas desfalecendo
Vão caindo e murmurando:
– Queremos que Ele nos pise!
Mas, quando vem Ele, quando?...
Desamparo
As lágrimas como fonte
rio aberto
pranto sereno
submersa a dor sangrada
nos mistérios do peito
na incerteza das mãos
na inclemência com que nos fustigamos
com palavras e uivos
Somos a fusão de corpos exângues
na avidez de um fogo
já extinto
Amor da palavra, amor do corpo
A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
Pensava que aqui vinha
espreitar o mar.
Descobri que venho apenas
para falar contigo,
para te olhar,
sentir e abraçar.
O mar e o céu unem-se
não em azul infinito
mas em cor de prata cinzenta.
Tu és uma dança de gaivota
uma brisa de vento em liberdade
és um aceno de fantasia
que me cativa o olhar.
Aposta a vida num momento
mistura gozo e tormento
no amor que só é eterno
porque dura todo o tempo
em que cegamos para os outros
Mar de estrelas
infinito constelado
e eu contigo a meu lado
homem
e nú
sedento como areia
num deserto
E a tua água tão perto
É pele
carne
aroma
e sabe-me a ti
És tu
na interioridade
da memória
a viver neste corpo
sem amor
a própria história
Porque me olhas
Porque me olhas
Voo sem medo
Por lugares que não sei
Ouso a altura
Nos teus braços
Meus miradouros do mundo
Meus caminhos de ir e vir
Meus Sítios de estar e de ser
Cinza e labareda
Flor, pó e pedra
E esta fome de distância
Esta sede de chegar
Ao âmago de ti.
Onde queres o negro da noite
Estojo das mais belas estrelas?
E o meu olhar a arder
Como lembrança de outros voos?
Diz-me de que fonte é a água
e o céu que te apetecem.
Conto-te
Conto-te
De uma chuva passageira
A oferecer jóias às flores
E a prender o pó à terra
Como quem acerta ou erra
Por que sim
Conto-te
De um instante
Preso nos teus lábios
Como fonte de palavras
e manancial de beijos
Um instante
A brilhar
Transparente
Como diamante lapidado
Só não te digo de ventos ou vontades
Nem de luz e claridades
Conto-te
Amor
Este peito em carne viva
Desejo
Quando nos descobrimos com sede
E nos bebemos
Quando famintos nos saciamos
Na lava que nos acende
Deixa que corram os sentidos
Nessa louca dança do viver
Deixa que o sangue também corra
Aos borbotões
Pelas nossas veias em festa
E antes que se acabe o que resta
Deste universo de sedes e corações
Ama-me outra vez.
Sei
Sei-te noite dentro
forma quente no escuro
corpo indiferente e vazio
estátua do que procuro
Sei de linhas e de voltas
bocados de um outro fazer
da maciez dos recantos
aos roteiros do prazer
Toco e logo te quebras
como pedra que se fende
a golpes de marreta
solta-se o corpo em festa
não há fome como esta
nem fogo que nos derreta
As Palavras
As palavras ganham asas
E é provável que voem
No azul, até ao infinito.
As palavras rasam a verdura
Dos prados e mergulham fundo
Em lamas espúrias.
Algumas, porém, anoitecem...
Como se uma ave
Me sangrasse na mão
Uma pedrada.
Violeta
Pressiono-te com o olhar
Botão de nada e roxo
Na fofura do verde
Mudo-te a luz
Mato-te a sede
E espero
Desejo
Quero
Que sejas já amanhã
A certeza
A cor
O aroma
A beleza.
E tu, amor, tardas
Demoras
Pedes tempo para a perfeição.
Para abrir a camisa
Anil e lisa
Do teu coração.
Hoje é o dia
Da euforia
Da aclamação
E tu, Flor
Com F grande e todos os estames
Quero que me chames
Com o teu grito amarelo
Ai música linda
Ai violeta ainda
Sem paralelo
Ao Toque Breve
Ardo ao toque breve do teu dedo
E o mundo estremece
Vai e volta
Desaparece
No sangue ao rubro
Do meu mármore jacente
Sou o homem
O adolescente
Que traz a força de um raio
E se desfaz em lava
Incandescente
Que vê na tua boca
Uma porta do paraíso
Pelas Palavras
Navego pelas palavras
Rio calmo
Voz de sempre
E corro da foz à nascente
Para sentir-te
É no limite que acontece
a mudança
que me transforma
de homem em criança
Água
Vento
E onda que estremece
Sóis são os teus olhos
ao cair da noite
sóis são os sons
que ardem nos teus lábios
quando me segredas o nome
O sol?
Existe quando não estás
Apolo
Vens do fundo desta noite
Como uma aurora vibrante
Trazes-me o sol e o tempo
Doces
Como mel a escorrer
Da memória
Vens do fundo desta noite
E do centro da glória
Lavar-me o olhar
De silêncios e deserto
Desperto
Sou a tua seara em flor
O teu azul do mar
O teu céu
Sou o Apolo que viaja
Nos teus olhos
Corre-me no sangue
a tua voz ardente
som de terra
queimada
a golpes de tempo
Corre-me no corpo
a força do lume
aceso
na seda breve dos teus dedos
descuidados
Não leio palavras nos teus olhos
mas vejo com a sua luz
um tempo de céu
um paraíso
um mar que me seduz
Não leio palavras nos teus olhos
leio a prata dos silêncios
e o barulho dos sentidos
É em ti que moro
e vivo
que visito os horizontes
águas
serras
montes
que trazes no teu olhar
Se tu és fogo
tempo
e luz
Eu sou o mar
Por coração uma pedra
e no corpo este vazio
Crescem a sede
e as mágoas
no parado deste frio
Se vens acordo
e esqueço
que o coração de pedra não sente
Volto a ser rio
