Coleção pessoal de solitaria543
Onde o Santo punha o pé
nasciam rosas
e o povo lamentava
que não fizesse o mesmo com batatas.
Não sei como dizer-te
Que a minha voz te procura
Do fundo rubro
Do abismo…
Não sei…
Sem eufemismo…
Sem pudor…
Sem amor…
Talvez...Não sei…
Com cálices,
Nos lábios,
De uma loucura
Lúcida.
Vermelha, como
A rosa - sangue
Que desfolho,
No peito macio
Deste apelo.
Instante
A vida é essa luz
No teu rosto
é esse brilho
Inconstante
Dos teus olhos
Na penumbra.
Essa paixão
Esse instante fugaz.
A vida é só isso
é só isso
Nada mais.
"A música vem de ti"
A música vem de ti
promessa ainda demorada
na luz do tempo
no pó da estrada
A música vem
e chegam também
a urze e o azul
que te precedem
Serás flor na aurora branda
emoção de um lírio por dizer
pedra
corpo
verde e água
na tua boca calada
antes de acontecer
A música vem de ti
"Por inteiro"
Tomo-te no pensamento
por inteiro
e tenho-te cativa no corpo
meu avesso de alma
Bebo-te
como um veneno ou um licor
apaixonadamente
Nada do que é teu se desperdiça
ou se perde nos caminhos
da memória
Nunca o amor
passou sem que o visse
a rasgar-me o peito
ao som da tua voz
palpável
Escrevo-te a luz
no silêncio da manhã
Vai amado.
Busca por onde quiseres,
com quem quiseres,
como quiseres,
o prazer.
Até mesmo,
aquele prazer que um dia alguém apelidou de amor.
E, se por acaso te cansares e,
do compromisso que um dia nos uniu te lembrares,
se desejares, volta.
Serei a que conforta.
Não saberás da dor,
da saudade,
das lágrimas sentidas que tua ausência causou.
Não me olhes assim
Não me olhes assim
Não olhes
que fico trémula e temo
que os meus olhos ceguem
e apenas te sigam
em caminhos da noite
Tenho medo de ver-te
só pela rota dos dedos
na lisura do teu corpo apetecido
Não me olhes assim
Não olhes
Vilma Nunes- Edgardo Xavier
Ai tanto caminho andado
Ai tanto caminho andado
Tanto tempo
Tanto fado
Tanta pedra no meu prado
Tanta cinza
Nas minhas nuvens de Maio
Ai tanto caminho andado
Em silêncio
Em agonia
Antes de ter-te a meu lado
A partilhar o telhado
Na minha terra bravia
Ai tanto caminho andado
Na monda dos meus trigais
Sede de Agosto e papoilas
Água fresca
Céu aberto
Riso aceso
E a tua boca tão perto
Afecto
Recupero-te
na febre do tempo que arde
como a ternura
mansamente
Sou como pedra jacente
na melancolia dum lago
expectante
Na minha boca
a tua sede
Incendeia a madrugada
A cor do Amor
A cor do meu amor
É difícil de encontrar
Tão lenta
É a ternura que gasto
No acto sublime
De beber-te
A cor do meu amor
Deixa marcas no teu corpo
Vestígios frescos de mim
E a imperiosa vontade
De saber-te
Saciada
De dedos
Sexo
Segredos
Quanto aos beijos
Mordem-se
Ao compasso dos desejos
Doces
Como pitangas
A rebentar de sumo
Duelo
À carne expectante
anuncio o meu corpo
em trovoada de sentidos
Há dores
cheiros
gemidos
na tua terra queimada
Na promessa de redenção
crestam-se os lábios
E as chagas
É tempo amor
Sangra-me a sede mais feroz
e mistura a tua noite
ao meu veneno
Espuma
A única certeza permitida
é não ter a certeza de coisa nenhuma.
Quase tudo na vida
não passa de espuma.
O que define o certo e o errado
ou a virtude e o pecado
não se aplica ao amor.
Este sai do coração
e não lhe interessa a razão,
seja qual for.
O que é como quem diz:
quanto mais inquieto, mais feliz.
À Espera
Ainda um dia hei-de contar-te as espantosas
coisas de que me lembro quando fico à tua espera
horas e horas, cada vez mais vagarosas,
e tu não chegas, meu amor, e tu demoras
mais do que a minha paciência. Quem me dera
aquele tempo em que era sempre primavera
e assistia indiferente à passagem das horas.
Mas, quando chegas, só me ocorre esquecer tudo
e ter-te uma vez mais como quem tem o mundo.
Ilusão
Apenas é real o que é sonhado.
A nossa imaginação
é que faz o que vemos e tocamos.
Seja qual for o lado
por que se encare a questão,
só existe o que arrancamos
do fundo do coração.
Tudo o mais em que teimamos
não passa de ilusão.
De Viagem
Se eu deixar de aparecer e não souberes de mim,
sê paciente, espera
e não te inquietes a pensar no fim.
Eu hei-de renascer na Primavera
como a folhagem do jardim
e a luz que se derrama na cidade
de Lisboa ao respiro da liberdade.
Escusas, pois, de vir bater-me à porta
ou de deixar mensagem
no telemóvel, que eu fui de viagem
e o resto não importa.
Nevoeiro
Entre o cais de partida e o de chegada
deste mistério a que chamamos vida,
olhando em volta não se vê mais nada
que o nevoeiro da despedida.
Mal se nasce, inicia-se a contagem
do que temos de deixar
ao longo da viagem.
São contas de sumir, não de somar,
mais de perder do que de achar.
Mas não se tira vantagem
do que lançamos ao mar
e para se ser livre e ser inteiro
importa ousar romper o nevoeiro.
Palavras
Palavras que se dizem ao ouvido
quando nos queima a febre do desejo
e só ganham sentido
se sairem dos lábios como um beijo.
Palavras murmuradas no calor
da mútua entrega
a deixar claro que o amor
nunca sossega.
Palavras revestidas de veludo
para afagar a vida
e que no meio da corrida
são elas próprias quase tudo.
Trono
Pus-te num trono, que é o lugar onde
deve estar quem se ama, esse lugar
da alma que, sendo íntimo, não esconde
a aparência de altar
de uma igreja singular.
Mas, como a crença é sempre vacilante
e não se pode ter por adquirida,
hás-de saber que nada nos garante
que eu fique a venerar-te toda a vida.
Espelho
Como quem, debruçado sobre o espelho
do lago, que uma leve brisa agita,
de súbito descobre que está velho
e, por mais que se mire, não acredita
no olhar que do outro lado o fita,
assim me achei perante ti, ao fim
de tanto tempo sem curar de mim.
Espanto
Vive ignorante da própria beleza
como se no olhar
não transportasse o verde-azul do mar
e em seu redor a natureza
não corasse de espanto ao ver passar
quem assim tem cabelos de luar.
E porque a sua fala é um violino
ecoando na lonjura
entreguei-lhe o meu destino
e morro aos poucos de ternura.
