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VESTÍGIO


Dizei-me qual fora a dor que te formara,
ou se apenas és feito de sonho e ilusão...

Ventos ásperos de tanta indelicadeza,
alma de muitas luas e de muitos luares,
estrelas feitas de longitude e de frieza,
por que há tão rude e tão severo coração?

Por que existem tão ilusórios lábios?
E por qual motivo, tão triste boca?
Dizei o segredo mais longe dos sábios:
tristeza e pensamento – quando entenderão?


Dizei-me qual fora tua árdua finalidade,
e por onde é que teus passos se vão...

Clebson Moura Leal

VÓRTICE

Tua boca sempre guardará a doçura das névoas,
e por vós, sempre as nuvens se perguntarão...

E quando fizer ano da tua partida imensa,
todos os mares, em dois, assim se repartirão,

na busca pelo teu sonho profundo e etéreo,
que ficara no mundo por causa do teu coração.

Mas o segredo do teu sonho nada entende:
nem água, vento, onda, pérola ou embarcação.

E ele ficará no andar dos tempos e dos ares...
Depois todo mar se fechará, guardando tua ilusão,

até então que o mundo não seja mais mundo,
nas ondas eternas, onde os silêncios navegarão.

Clebson Moura Leal

EXPIAÇÃO

A tua memória nasce como a água,
e corre pela pedra monótona da vida.
Só as folhas que te tocam não sabem:
tu és só distância longa, sem medida.

E tudo que vai por ti, não tem destino.
Apenas bruma beijar-te-á, minha criança.
E tudo que te ama, conhece do teu fado...

(Só eu que ainda te tenho na esperança).

Clebson Moura Leal

AREIA

Hoje mesmo, se viestes a mim chorando,
quão delicadamente eu então lhe abraçaria...
Mas a tua presença é frágil duna ao vento
e em minhas mãos levemente se desfaria!

A brisa que finalmente assim lhe levaria,
sopro de alma longínqua e calada
iria retirando-te de perto de mim:
leve, sem voz, sem tom, sem nada.

Clebson Moura Leal

DESLUMBRAMENTO

Se ainda houvesse uma oportunidade
queria ser uma estrela de muito brilho:
assim poderia testemunhar o teu sono,
e conseguiria ver fechar os teus olhinhos...

E do alto do peso da minha saudade,
alumiando inutilmente o céu do teu leito,
oh, mas como doce contemplar-vos-ia!...
sonhando que dormes junto do meu peito.

Então se ouviria uma voz de noite,
dentro do frio, do meu lábio doloroso:
minha canção que já se perdeu do teu nome,
mas que não soube esquecer do teu rosto.

Clebson Moura Leal

Idílio IX

Os sonhos vão, pela noite das planícies,
procurando o sentido das tuas palavras:
bem altaneiros, sem alcance, ausentes,
no igual anacronismo que não te acabas...

A noite ainda carrega o teu sorriso,
e carrega teu rosto tão tristemente!
E a lágrima que chorastes também...
Tudo de ti vai no vento dos orientes,

só minha memória é que te mantém.

Clebson Moura Leal

TREVA

Tento segurar meus sonhos
bem dentro da minha mão:
mas eles são tão dolorosos!,
- e por tristes ventos se vão...

Só o nome da lágrima fica,
permeando a tristeza chegada.
E a lágrima que cai dos olhos
mata toda esperança inventada.

Vão os sonhos, e vão tão leves!
Não fica nem a luz dos olhares.

(Ó vento, tudo é tão doloroso,
sob os passos que caminhastes...).

Clebson Moura Leal

PASSAGEM

Foi do meu rosto que caiu uma lágrima,
em que hoje, brilha uma estrela penosa:
pensando tanto no teu rumo distante,
lembrando tanto na tua face custosa...

Tão docemente caiu todo o sonho:
tanto tempo embalado à minha dor,
e nunca mais agora o recomponho!...

Lágrima e sonho, oh, tanto engano!
E longe corria o tempo na lembrança,
suspirando o seu próprio desencanto.

Clebson Moura Leal

CONTEMPLAÇÃO

Mesmo que se passe muito tempo,
de mim nada assim vai apagar-lhe :
as marés irão carregando si próprias,
o vento nem terá essa vontade.

E não poderei impedir de nenhuma forma
se me esqueça da minha tristonha feição.
Estarás indo para longe do mundo,
onde talvez todos os sonhos estarão...

Tentarei encontrar a estrela efêmera
para o teu esquecimento no meu coração,
que brilhará o teu passado numa memória
que estará longe da humana compreensão...

(Mas meu coração doerá só de lembrar
que os meus remotos olhos tão dolorosos,
estes nunca mais lhe contemplarão...)

Clebson Moura Leal

DELICADEZA

Passarão por nós
ventos tão delicados,
com tanta delicadeza!

Mas estes nem moverão
as nossas pálpebras
de tanta incerteza.

E mesmo que esperemos
horas, dias, semanas, anos,
nenhum segundo se passará.

(Todavia chegará um tempo
em que sei que vossa vida
começará suave a repousar.

E sem que eu saiba a causa,
vossos olhos muito calmos,
aliviados e brandos se fecharão.

E ventos de muito longe,
pela minha tristeza
delicados passarão...)

Clebson Moura Leal

ASTRONOMIA

Vós vindes dos tempos mais antigos que se formam,
antes mesmo da formação da Constelação de Órion.
Astrolábio, sextante, quadrante, balestilha, o que significarão?
Nenhum instrumento astronômico compreende
o teu sagrado ângulo ou a tua divina localização.

E não importa quanto tempo se passe...
Vós sempre sereis uma das estrelas na amplidão:
só que o mundo humano não compreenderá da tua vida,
como nunca soubera realmente da tua representação.

E assim será do teu destino corpo celeste na elusiva noite
dormindo numa simplória e longínqua constelação:
e eu morrerei de tristeza, sem ter visto-te nunca,
em nenhum longo céu onde soubera a solidão.

Clebson Moura Leal

TORMENTA

A felicidade, forte ventania,
oh, tão rápido ela passava!
(Os olhos humanos caíam,
e todas as lágrimas rolavam...).


O sorriso se fora para sempre,
mas a tristeza ainda continuara!


Já tu, passaste junto da felicidade...
E a tua lembrança, que eu amava,
era um sopro de uma meiga alegria,
dentro de uma tempestade tão brava!

Teu corpo se fora em mil ventos,
mas dentro do peito eu te perdurara.

Clebson Moura Leal

OLHAR

Eu não sei se mereço que incline os teus olhos,
eles ainda tão antropológicos, em minha direção:
eu, que sou todo pensamento, dúvida e tristeza,
nem tenho esperanças mais na tua observação!

Além da efemeridade, além dos mistérios do tempo,
minha alma habitará sonhos que não compreenderão:
e minha vida tão sofrida, e meu corpo tão enfadonho,
acabarão na tua dureza, e ao teu olhar se humilharão...

Contudo, o meu amor, sem forças nem significado,
procurará noutras mil vidas a tua antiga bondade...
E o tempo voltará numa branda lágrima de tristeza,
e a imaginação trará tantas auroras de saudade!

E por todos, e por ti e por mim, somente amargura,
as estrelas ir-se-ão apagando pequenas e claras.
O silêncio removerá a lágrima, e o vento e a lua:
só ficarão as tristonhas estrelas das tuas palavras.

Clebson Moura Leal

QUÍMICA

És como o mercúrio vais me matando aos poucos.
E assim como ele, teu peito pesa como a ausência,
e tens, assim como a mim, um doloroso destino.
(Destino de morrer na tristeza sem causa...).

Indago-te: depois de se passarem muitos anos,
qual será o verossímil peso de nossos corações?
E qual será o motivo pela nossa derradeira,
tão triste pelo mourejo, lágrima alcalina?

Tu és como o mercúrio entre minhas pálpebras,
e por isso, irei morrer no lábio salgado da amargura...
E tua boca sobre a lua não terá nenhuma resposta.
E tua mão sobre o sonho denso, não terá definição.

Clebson Moura Leal

FEVEREIRO

A ventania veio com delicadeza de névoa,
indistinta em como os anos haviam sido...
Mas ela tinha tanto amor em seus passos,
e tinha tantas flores na orla do seu vestido!

Só que o orvalho do jardim não resistira,
e caiu triste com ânimo de um moribundo.

A ventania derrubou o orvalho triste...
E ele era a pequena lágrima do mundo.

Clebson Moura Leal