Coleção pessoal de schmorantz
Entardecer
Quando o sol cansado vai se pondo,
Uma réstia de sol caminha tranquila
Sobre os montes da ilha.
Declina-se o dia e um vento vago
Traz o cheiro de jasmins.
Sopram versos das flores,
Como ondas em prece ao entardecer.
Sopros da terra que em flor palpitam,
Exalando a vida e seus perfumes.
Sombras lilases vagueiam no céu,
A tarde declina no silêncio,
Esmaecendo-se suave e melancólica.
Da janela onde me encontro,
Os olhos acompanham as sombras
Desenhando-se nos montes.
Que me importa estar aqui nesta sala,
Onde o trabalho me prende ao chão,
Se minha alma cria asas e se arrebata
Na beleza do cenário, agradecida
Pelo terno abraço desta tarde...
Agosto
Domingo frio, quase agosto,
Os sinos anunciam a hora da missa,
Embalando as nuvens carregadas,
Que andam vagarosas no céu.
No ar sombrio da tarde
O toque do sino é melodia,
Enquanto a chuva fina
É uma pálida cortina.
Chega o agosto, cheio de frio,
Na rua silente, sem caminhantes,
A voz do sino é um soluço,
Misturado ao silêncio da tarde.
Bradam os ventos contra as pedras,
Revoltam-se as ondas do mar,
O olhar afunda-se para além da janela,
Numa complacente espera sem sentido.
Estaria o sino chorando,
Ou fazendo uma prece?
Divagações após a chuva
Ao anoitecer, gotas da chuva intensa
ainda brilham nas folhas e calçadas,
como notas poéticas a refletir as luzes,
que pouco a pouco vão surgindo nas casas.
Gotas vão sendo levadas pelo vento incerto,
como palavras descompromissadas que
tanto já foram ditas e desditas nesta vida.
As palavras voam pelas janelas e calçadas,
instáveis, insanas, descomprometidas
com a realidade, perdidas no tempo.
Só a poesia as recupera,
unindo-as através dos sonhos repetidos
no silêncio das madrugadas insones.
Das palavras ditas resta a poesia,
a vaporosidade de quem já viveu
e ouviu muito, mas
ainda tem capacidade de sonhar.
Palavras inventam-se nos poemas,
num fluir secreto, desdobrando-se como renda,
tecidas memórias de sonhos que
com a própria vida que se emendam.
Procura-se
A aurora desperta pelo azul do mar,
A quietude outonal que rasga o dia,
a vida que ressurge rara após noite escura.
Procura-se
a esperança que saiu voando sem rumo,
uma alma alada como pássaro,
que desapareceu entre o céu e o mar.
Procura-se
sonhos pássaros perdidos na névoa tardia,
ventos leves, leves como o pensamento.
Procura-se
uma chance, uma sorte, uma nova saída,
uma ilha, um pouco de paisagem,
um verso capaz de descrever o instante.
Remanso
Cismo a paz no silêncio do jardim,
apenas quebrado pelo chilrear de pássaros,
remanso da tarde que passa como brisa,
leve e cristalina, em paz comigo mesma.
A vida vai seguindo seu rumo,
segue este remanso lento, como rio
que corre sempre para o mar.
Vai na força da vida, amansando o coração,
como água que encharca a terra,
como asa veloz que atravessa o céu,
sem ruído, desfazendo-se em laços,
na nua aurora que cobre o poente.
Do remanso nascem as palavras,
tal como pássaros, nascem aladas,
aprendendo a voar em busca de sonhos,
falam da cor da flor, do gosto do amor,
numa rima vadia lanceada de ternura,
um poema ainda não dito a tecer vagas
incessantes de memórias de quem habita
entre o ontem e o amanhã de um dia iluminado,
luz indulgente que alumia a porta entreaberta
da poesia.
Vago Poema
Cheirando à areia e sal,
sou gaivota a sobrevoar o mar.
Sou mistério neste vazio,
Sou o tranquilo vôo das aves,
rumo à linha oscilante, mar e maresia.
Enquanto o vento no areal vai passando,
como as marcas desenhadas na areia,
somem as palavras da lembrança,
como rastros na maré cheia.
Íntima idéia, clara no pensamento,
que se perde em devaneios, e
na latência deste silêncio,
me alimento da poesia alheia.
Rio do tempo
A sisudez do tempo não esconde o cansaço,
o desassossego da alma, mas
o lamento das coisas dissolve-se em lembranças,
que ainda guardam a limpidez das águas da infância,
reparando conquistas e derrotas ao redor dos dias.
Memória serena como a dos rios
que seguem eterna viagem para o mar,
mar que também é pura vivência,
sentinela de sonhos,
a guardar os segredos do vento.
Rio e mar são preces a decantar o tempo,
na vigília da memória e das trilhas percorridas,
um ofício íntimo a experimentar maturidades,
que fio por fio vai tecendo um poema de vida.
Não há pranto que aqui se demore,
assim como não há felicidade perene,
mas a vida é assim, esta água cristalina
a escorrer no leito dos rios,
lavando as ruínas deixadas pelo caminho,
espelhando amor de diferentes quimeras.
Chuva de amor
Quando digo em segredo que te quero,
e um sorriso doce me encanta,
sou como o arco-íris na chuva ,
garoa fina que toca a pele,
gota singela a percorrer sem rumo,
como as gotas da chuva na janela.
Meu amor adormece aquecido,
chuva fria fica lá fora,
goteiras fazem serenata,
com o cinza da saudade.
Aqui dentro faz calor,
não existe tempestade,
chuva fria fica na calçada,
aqui dois braços abertos
e um sorriso me esperam.
Com licença,
o amor me chama.
Luz
Já tive presssa, mas hoje sigo devagar,
Não me importa mais ser a primeira,
mas a que sempre segue caminhando,
e nada quero da vida, a não ser esta luz
que escreve doces poesias na alma...
A tarde cai e o sol cria mil fulgores
que balançam no vai e vem das águas,
intensa luz como a há no teu olhar.
alimentando de cores esta infinitude.
Dúvidas
Não tenho mais muitos sonhos,
resumem-se às boas lembranças,
aos lugares bonitos por onde passo,
esperando que a serenidade do amor,
seja um ninho aconchegante de pássaros.
Minha alma anda cansada,
chorando em versos tortos suas dúvidas,
buscando a dor certa para as injustiças,
ditas e desditas em nome do amor.
Vivo num sonhar e esperar irriquieto,
casual na vida e na alma,
peito rasgado por sentimentos vários,
uma ira ou uma mulher que ama,
desconhecida força que invade,
mágoa verdadeira que fere,
quando o amor não é entendido.
Tenho um caminho inseguro,
cresce uma profunda incerteza,
protegida à sombra das palavras,
só preciso que segure longamente
a minha mão e me faça esquecer
que sou diferente do que me supôs ser.
Invento ao vento
Vento frio como acorde de violino,
rasga a madrugada de silêncio
arrepiando desalinhadas memórias.
Vento com chuva percorre a rua,
derramando-se sinuosamente,
ondulando cascatas de folhas,
abstrato corpo dançando,
que a noite vai devorando...
Por quem lamenta este vento,
inquieto visitante noturno,
que na janela vem bater?
Vento na pele arrepia,
agita sentimentos como folhas,
então invento o momento, o calor,
invento o prazer, a saudade,
invento palavras, um poema,
e todos os dias para amar você.
Descaso
Não costumo escrever sobre amor,
este amor de que falam os apaixonados,
minhas rimas são dispersas, inócuas,
desejos imersos em rimas dispersas.
Não tenho muitos sonhos,
mas invento meus versos,
perdidos versos que vagam sozinhos
fazendo um eco na solidão.
É uma estéril caminhada poética,
poemas invisíveis que ninguém lê,
monólogos que restam do dia a dia,
falando surdamente para mim mesma.
São versos distraídos de silêncio,
no descaso do nada querer,
mas se todo amor é um refúgio,
resta então uma esperança
para uma súbita poesia....
Amo
Amo o silêncio das tardes cinzas de outono
o desenho das aves gravados no céu,
amo andar por estes caminhos, entre árvores
a balançar na brisa que vem do mar...
Amo as horas paradas do tempo em
que o mundo parece ter estacionado numa praia,
onde as ondas fazem graça na areia branca.
Amo as tardes com suas aragens frias,
que buscam seu agasalho na alma,
amo o verde esperança das matas,
o azul pacífico das inquietas águas,
a natureza de tantas cores da ilha,
as mil cores imaginadas e vividas,
cores de doçura e de força,
numa prece que é pura natureza.
Invenção
Na minha janela espraia-se o Atlântico,
brilham as estrelas do Cruzeiro do Sul,
suspiram flores em suspensos campos verdes,
as árvores balançam ao sabor do vento.
Na minha janela tem o mistério
da noite espessa e uma lua ao acaso
inspirando a poesia,
o cinzento das tardes de outono,
o som das ondas que murmuram preces,
num choro inútil que enche de mágoa a
solidão da praia quase abandonada...
Sobre mim pousam os ventos,
sentimentos dançando ao acaso,
que importa se a noite se cansa
e é lento o dia,
sonhos nascem sem qualquer razão,
a vida é esta grande invenção...
Minha Ilha
Na ilha o mar é mais azul,
cenário feito por um mago,
uma sonho de águas claras,
onde o vento me diz
que aqui serei feliz....
Ancorada no azul da ilha,
tudo é detalhe, detalhe de amor,
como dois barcos na areia,
secretos amantes fora do mar.
Respirando o outono tropical,
caminho no verde musgo da trilha,
areia fina, mar azul, lua no céu,
e o vento vem me dizer
que aqui existe o amor...
Meu amor é esta ilha,
são os olhos brilhantes
do homem que me ama,
São as ondas do mar,
são os pássaros que esvoaçam,
são as caricias do vento,
esta é minha ilha, meu destino
a ilha do meu amor...
Chuva de Outono
Cai a chuva da nova estação,
calçadas vazias, molhadas,
carros que passam apressados,
cobrindo o asfalto de reflexos.
São as chuvas de outono,
encharcando a cidade.
Debaixo dos guarda- chuvas
as pessoas andam rápidas,
sombras humanas abraçadas,
enquanto folhas flutuam ao vento
morrendo afogadas no chão.
Por detrás das vidraças olhos
acompanham sombras na névoa,
chuva e outono adentram a janela,
enquanto na rua transeuntes anônimos
correm para algum lugar qualquer.
Cai uma clara chuva de outono,
mudando as vestes, as cores,
numa vontade de não sorrir do céu.
Há um vento varrendo a cidade,
ônubus lotados, trânsito engarrafado,
Aqui dentro, um sentimento a toa,
canta uma melodia abatida,
inquieta chuva, vento, vida...
Feito chocolate quente
Minha alma guarda memórias,
vira e mexe, volta a uma casa antiga,
traz saudade, perfume, fragrância
de um tempo que já foi infância.
Tempos marcados por ternura,
doces e muitas histórias a contar,
pássaros ligeiros que voaram,
e agora na memória vem se abrigar.
Saudades vivem nas tardes de chuva,
Nas manhãs descalças de sol,
lembranças caladas a bailar,
entre as árvores de um quintal.
Só os sonhos sobreviveram,
abandonados sentimentos órfãos,
que no peito agora batem e adoçam
o suave perfume que na casa vaga,
feito chocolate quente em noite fria...
Das Palavras
São difíceis as palavras,
nem sempre espadas,
nem sempre flores,
entrelaçadas são poesia,
disparadas são armas,
tristeza e melancolia.
Ás vezes amor, às vezes inferno,
vêm do fundo da alma,
explícitas ou veladas,
ressoam tristemente bêbadas,
às vezes verão, às vezes inverno.
Penetram clandestinas na alma,
como bordados feito à mão,
fogem quando mais se precisa,
São reais ou mera ilusão.
Palavras de amor não ditas,
são silenciosas reticências,
fugazes e sorrateiras,
levam poemas nas asas, mas
adormecem escondidas na mão...
Queria...
Queria falar do meu amor,
dos sonhos que tenho,
da tarde que agora vai,
do sol que se põe e da lua
que começa a surgir.
Queria fechar os olhos,
esquecer o relógio
me perder nas horas,
fugir do tempo e ficar assim,
contando as pétalas de uma flor amarela.
Bem me quer, mal me quer...
Queria falar da chuva que cai,
do vento que varre as folhas do chão,
das ondas encrispadas do mar,
do tempo que brinca com a solidão.
Queria, queria, queria...
Mas fiz-me doçura da pétala,
flor pequena em sua mão,
amor que acontece e se enraiza,
crescendo como flor no coração...
Pinheiros
Que magia tem estes velhos pinheiros
ouriçados pelo vento no alto das pedras?
Absortos, voltados para o poente,
agasalham pássaros em galhos ondulantes,
sossegam minha alma em verdes sombras
recortadas no azul de um céu sem fim.
Quanta poesia há no aparente abandono
dos pinheiros agrestes agarrados às pedras,
que em silêncio se elevam às alturas,
seduzidos pela luz mágica do sol?
Mansos pinheiros acenando à estrada,
ouvindo o bramir do mar logo adiante,
faz sentir esta poesia, esta alegria,
do sal que tempera sonhos, emoção,
sentimento vida, universo no coração.
Recostada à janela, enquanto sigo viagem,
os pinheiros me levam para perto do céu,
em algum lugar abre-se uma porta,
acolhendo criaturas e sonhos
na clara ternura do entardecer.
Instantes de felicidade sem motivo,
como poemas sem palavras
que se escreve no ar...
