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O tolo


Sou um apaixonado, “tolo”, que percebe o amor somente vindo de tua jactância, como um aroma adocicado que se impregna na leveza de uma alma pura, lanço as lanças contidas em meu peito e me desarmo por inteiro diante de tal beleza assim tão fascinante, a “beleza”, que encanta os sentidos de um ser imperfeito, porém tão apaixonado quanto um beijo, no qual o veneno faz libertar.
Como a fúria incontrolável de um amor nervoso, que se vai à imensidão profunda de um coração apunhalado por um punhal cruel, que sangra gotículas de desejo, sou tolo sim minha amada, pois somente em ti me sinto vivo, somente em ti, me sinto completamente completo, porque me torturas em teu desprezo? Seria este o meu preço? A recompensa de amar sem ser amado, como um cavalo alado que voa incansavelmente, seguindo a linha do horizonte, até congelar suas asas no gelar da angustia. Ah!! De quem seria a culpa? A tal culpa que os apaixonados inventam em seus devaneios, a culpa da loucura por um amor imperfeito, pois somente completo o amor se torna verdadeiro, somente ligado á dois elos o amor se fortalece, não há coração que suporte andar sozinho na escuridão de um caminho sem luz, é ser cego, pois a paixão também cega os olhos dos apaixonados, é ser mudo, pois o silêncio silencia a voz dos coitados, que amam sem serem amados, ah!! O amor em sua mais impetuosa forma, o amor que faz sangrar lágrimas de dor, como um oceano que inunda uma praia deserta e sem vida, onde o único sopro se eleva com as areias perdidas e esquecidas pelo tempo........
Sou mesmo um tolo! E serei eternamente tolo e apaixonado, o tempo não é capaz de acalentar um coração atormentado pela paixão, não!! Um olhar fulminante que feri com seu desprezo não pode acalentar nenhuma dor, amar é sofrer! Ah!! O amor sentido nas lacunas mais profundas da alma, a luz que dá vida ao sentimento, eis teu olhar, que finge não me ver, talvez aja algo a ser encontrado para que possa ser notado por um único momento, entrar em tua visão como um fantasma elétrico, como um raio gama que libera o absinto de sua essência, e assim ficar guardado em teu pensamento, tocar teu coração com o toque de minhas mãos mornas de desejo, senti-lo fremir por inteiro junto ao meu peito, nesse momento, não seria eu mais um tolo, seria sim o “homem” que habita teus mais secretos sonhos, os sonhos mais profundos que anseiam ser encontrados, como uma rosa que desabrocha no meio de uma tempestade, e com tal eletricidade, despedaça-se em sua mais pura fragilidade.Envolver-te nesta fantasia talvez seja covardia, covardia minha por ser assim tão astuto, meticulosamente argiloso e maquiavélico, e qual artimanha seria mais valiosa que uma fantasia? Fantasiar teus olhos virgens seria o mesmo que desvendar os segredos mais ocultos do amor, apresentar-lhe as cores de uma paixão arrebatadora e faze-la morrer mesmo estando viva, onde o prazer misturado á fantasia, fizesse-a estremecer inteiramente, como uma pequena colina que se desloca com um terremoto furioso, talvez á queimasse no fogo ardente de meus beijos, ah!! A fantasia, serias para ti como o libertar de uma alma aprisionada por uma vida sem amor, enclausurada pelo sofrer de paixões incompletas e deformadas, tenho a fantasia que queres minha amada, através de minha máscara vejo teus olhos, mesmo fingindo não me notar, anseiam por minha presença, se tenho má fama, não faça disto minha sentença, pelo menos uma valsa antes te tirar tais conclusões? Deixe-me segura-la ao meu corpo para que possas sentir o pulsar do meu coração, deixe-me segurar suas mãos, mesmo revestidas pelas luvas de cetim, quero sentir o umedecer de seus dedos, assim poderás concluir quem sou........

Sandro kretus

Ardente coração

No século XII, na França, um jovem cavaleiro, já cansado de suas intensas batalhas e
de suas longas caminhadas pelo mundo, declarou em simples palavras seu amor por
ela, que havia despertado nele, o mais voraz e puro desejo.


Chegará um dia em que eu irei naufragar em teus olhos e nunca mais subirei a
superfície.
Chegará um dia em que eu sentirei com o toque dos meus lábios o doce e delicioso
sabor da tua boca.
Chegará um dia em que eu descobrirei o teu corpo e farei com que o fogo que existe
em mim queime delicadamente o seu intimo, tocar-te-ei como se fosses uma dádiva
de Deus, e farei isso com tanto amor, que nenhum outro jamais fez, e nunca fará.
Chegará um dia em que tu estarás em meus braços, eu irei acariciar-te como se tu
fosses a mais bela e delicada flor, e farei com que todas tuas mágoas e teus temores
sejam esquecidos com um simples e quente beijo, irei protegê-la de suas sombras e
expulsarei teus demônios, para que tu possas ser livre e comigo poder voar.

A paixão que arde em meu peito, fulmina minha alma, e desperta em mim, o mais
feroz e faminto animal, que um dia irá lhe possuir, por traz desta imagem forte e
misteriosa de mulher, se esconde a mais sensível e frágil menina, na qual um dia irei
descobrir.
Não pode ser pecado o meu desejo, pois em varias batalhas muitas glorias eu
conquistei, não pode ser pecado o meu amor, pois em outras vidas muitas mulheres
eu já amei.
Ninguém pode condenar minha paixão, pois só tu minha bela, depois de muito tempo,
tocou com tanta leveza meu coração.
Espero ansiosamente por este dia, já estou cansado destes combates medíocres e sem
lógica, não luto por minha glória, mas sim pelo meu instinto,
até lá, quando todas as batalhas estiverem terminadas, irei ao teu encontro, e por mais
longes que estejas, eu a encontrarei.........

Sandro kretus

As flores de tuas mãos

Ninguém pode ver-te
Ninguém pode sentir-te como eu sinto
Ninguém pode sentir o toque de tuas mãos, porque agora entre nós só existe a chuva
Ninguém pode tirar-te de mim, pois meu amor é forte e profundo
Mesmo que ceguem meus olhos, poderei ver-te
Mesmo que silenciem meus ouvidos, ouvirei tua voz, porque sei que Deus mandou-
me um anjo, e mesmo sem assas, voaremos juntos no céu
Veja aquelas flores que nascem, cada uma delas guarda um segredo, e nas pétalas de
cada uma está escrito o teu nome
Ouça o vento que suspira por ti, em cada sopro meu coração se eleva junto com as
folhas perdidas e esquecidas de amor
Agora sinta meu amor, e veja que sou as flores que estão em tuas mãos
Veja que sou o vento que suspira em teu corpo
Veja que sou o homem que espera por ti, sem mesmo saber se um dia irá chegar.

Sandro kretus

Princesa japonesa

Se eu pudesse alcançar o sol nascente com minhas mãos de amor carente, eu chegaria até seu coração, na clareza da tua alma, que diz que tu és o sol iluminado do oriente.
Acredito minha princesa, que assim como o Deus Ebiso, tu não te entregas tão fácil ao amor, mas ensinas a amar. Eu seria capaz, antes mesmo da cerimônia do Joya no kane, de tocar o sino cento e oito vezes todos os dias, até minha voz ser levada até tua essência, eu seria capaz de dançar até o sol nascer, meu Odori apaixonado, pois assim como o Budismo iluminou o Japão, iluminarei seu dia, assim como a filosofia de Confúcio, que quando chegou, filosofou para as estrelas japonesas, declamarei mil poemas de amor, e deixarei meu Tanka, gravado em seu coração. Minha bela, eu não sou um samurai, talvez eu seja um simples Ronin, apaixonado de amor sem fim, que
vive para te proteger com sua Katana, na qual é usada somente para cortar as flores mais belas para seu Ikebana, sei que teus olhos negros escondem duas perolas do amor, na qual um dia irei encontrar, lutarei e vencerei para chegar até ti, e te
conquistar, te entregarei meu amor com a mais pura certeza, que tu és minha amada, minha princesa japonesa.

Sandro kretus

A última carta de amor

Valmy 19 de setembro de 1792

Amor, hoje está fazendo 2 meses que chequei ao fronte, e a saudade que sinto, atormenta meus sentidos, faz meu coração gritar incessantemente teu nome, Isabelle, calo-me com o silêncio que produz meu pensamento, e ao mesmo tempo, clamo por tua presença, sinto tua pela á minha, num desejo que devora por inteiro meu intimo, sinto falta da maciez de seus beijos, onde mergulhava meus lábios lentamente, saboreando cada sensação, entregando-me ao delírio do amor, Sinto falta de seus cabelos, que desciam sobre mim como um véu exuberante, quando nos amávamos intensamente, embriagados pela nossa paixão.

A distância me castiga de tal forma, que faz estes dias parecerem uma eternidade, não sei mais quem eu sou neste lugar inóspito, onde a morte se esconde em cada sombra, minha tropa está desfalcada, já estamos sem suprimentos, e a comida está cada vez mais escassa, este é o ultimo frasco de nanquim que me resta, talvez esta seja a ultima carta que lhe escreva.
Minha amada, todos os dias eu leio e releio a última carta que me enviastes, o perfume que deixastes nela, no qual o aroma se torna mais doce a cada linha, alimenta meu espírito, me faz relembrar dos momentos que passamos juntos, confesso-te, que muitas linhas já estão borradas, manchadas pelo pranto de minhas lágrimas, que brotam em meu rosto, me fazendo recordar de cada beijo e de cada abraço, das juras de amor que fazíamos, contemplando as estrelas de um céu generoso, que sempre presenteava-nos com as estrelas mais brilhantes, e fazia o sol despertar no horizonte como uma gigantesca rosa flamejante, nas doces manhãs em que acordávamos com nossos corpos entrelaçados, transpirados de amor. São estes momentos, Isabelle, que me faz beijar estas linhas, devotamente, não sei mais por quanto tempo irei suportar esta dor, e saber que esta dor me mantém vivo, me dá esperanças, o desejo de tocar-te novamente e tê-la por inteira em meus braços, é este desejo que me mantém vivo neste inferno impetuoso, lembra quando líamos o poema de Dante e ficávamos imaginando como seria o inferno? Pois este é tão inquietante quanto o descrito na divina comédia, se pelo menos houvesse purgatório, o único som que se ouvi aqui, são os gemidos de dor e sofrimento, lamentações e desespero, todos
estão morrendo, os que não morrem nas trincheiras, morrem pelas pestes que se impregnam neste lamaçal, entre uma tempestade e outra, uma vida se apaga, junto com o colorido dos céus, que desaparece subitamente, quando tomado pela fúria das batalhas, onde o barulho estridente dos canhões mistura-se com os brados dos trovões, que ao relampearem nos céus, refletem a silhueta da morte em todos os cantos, ás vezes eu tapo os ouvidos e fecho os olhos, neste súbito instante, eu vejo-te, Isabelle, sou capaz de ouvir a tua voz e sentir o toque de suas mãos, acariciando meu rosto, só percebo que não é real, quando abro os olhos e volto para este limbo, onde a morte embala as almas em um berço perpétuo. Nos últimos dias tivemos um lampejo de esperança, uma de nossas tropas vindas do norte, alojou-se aqui, apesar de famintos e cansados, cantam incessantemente o canto da revolução, aquela canção que ouvimos em Paris, Lembra? Estávamos em frente á Notre Dame, quando oexercito de Marsellha entrou na cidade, entoando-a bravamente, dizem que foi um oficial da unidade de Estrasburgo que a escreveu, ao menos alimentamos o espírito
incansável com este hino de esperança. Em meus olhos há uma cortina de sangue, estou cansado destes massacres, até quando durará esta luta? A cada dia chegam novos rostos, e os mesmos se vão, em questão de dias, quantos mortos mais? Estou
cansado de lutar, estou tão cansado meu amor, espero que o mensageiro consiga entregar-te esta carta, se não receber mais noticias minhas, não alimente esperanças, seja forte, sei que será difícil aceitar este propósito, mas não irei iludir-te, Isabelle, juramos contar a verdade um para o outro, não importassem quais circunstancias fossem, há três dias fui atingido no peito com um tiro de mosquete, fui surpreendido
quando voltava para o abrigo, um pequeno descuido que agora me custa a vida, a bala está alojada perto do coração, os remédios estão acabando e o médico teve de ir para o outro fronte, pois lá há muito mais feridos que aqui, entre eles um general, que precisa urgentemente ser operado, havia conseguido estancar o sangue, mas esta manhã o ferimento voltou a sangrar, uma febre tomou meu corpo há poucas horas,
acho que não tenho muito tempo, por isso quero dedicar cada segundo escrevendo-lhe estas notas, quero que saibas, que a dor que sinto em meu peito, que feri-me como um punhal cruel, não se compara com a dor da distância, a dor de não poder beijar teus lábios no meu último suspiro, que para mim seria como mil sois iluminando a escuridão. É com lágrimas nos olhos que me despeço, Isabelle, mas lágrimas de alegria, por saber que nosso amor atravessará os séculos, quando na última carta me dissestes, que carregavas em teu ventre, o fruto do nosso amor, senti-me, eu, o ser mais completo do universo, pela primeira vez eu entendi o significado da vida, me proporcionasse o momento mais glorioso que um homem pode ter.
Quero que diga a ele, ou a ela, que lutei e morri por nossa pátria, e honrei-a, até o fim, diga que não fui nenhum herói, mas que também não fui covarde, que a felicidade que senti, ao saber que seria pai, foi o sentimento mais nobre que tive em
toda minha vida.
Meu amor, que esta criança, este fruto que agora habita tua essência, de alguma forma, supra minha falta, e que todos os momentos que tiverem juntos, sejam de extrema felicidade e alegrias, obrigado, por agregar-me a tamanha virtude, só lamento estar longe dos teus braços e não sentir o ultimo afago do teu peito, saibas que neste momento, não sinto dor alguma, se pudesses ouvir, ouviria a canção corajosa que agora ressoa em toda a planície, como uma águia, que corajosamente lança-se ao céu, iluminado de esperança, os homens voltaram a cantar, sinto em meu âmago, que seremos vitoriosos, este sacrifício não será em vão, quem luta pela liberdade merece
ser coroado com a vitória.
Despeço-me, minha amada, deixando nestas frases meu ultimo adeus, que esta última carta sobreviva, estendendo-se nas cortinas do tempo, gravando em suas eternas linhas, a prova real, da existência do nosso amor.

Beijo-te com meu espírito, que agora se liberta, buscando encontrar a luz........

Sandro kretus