Coleção pessoal de RafaelSorano
Duas coisas para as quais não há limite: para a maldade humana e para a imbecilidade humana. Todos os dias podemos ser um pouco mais maldosos e um pouco mais imbecis.
rafael soranoTocá-la com meu olhar
Vê-la com meus dedos
Ouvi-la com minha boca
Cheirá-la com meus ouvidos
Contorná-la nos inversos sentidos
Em sentido contrário
Rematerializando o subjetivo oculto
De mulher subjeto
Precisamos do absoluto e do nada porque o intermediário não satisfaz nossa necessidade de coisa alguma e de tudo.
rafael soranoEsconjuntado
Vontade de avessar o feito
desestruturar o acaso
emendar o impedido
Verdadeira dor de todos os erros
inexato sentido do sentimento
do amor derrotado no acuo
Vazia via outrora plena
de largas promessas não declamadas
em transe experimentadas
Saudade de uma lacônica presença
da veemente vida vivida com ardor
ora morta pela cólera
Desvalimento do perdão
inerente martírio do não realizado
desperdiçado na implacável ausência
Aceito indulgente a despedida
conformado com o que me pertence
a dor doída do desunido
Liturgia Diária
Não me importa que conheça outras pessoas
Quero que conheça todas as que queira
Me importa que nessa liberdade
Todo dia siga elegendo a mim
No traslado à vida de casal
Defendo a eleição diária
Creio que habite nisso, na verdade
O espírito da relação
Não creio em frases como “para toda a vida”
Creio no trabalho que implica ser casal
Que é diário
E que um nunca saiba se no outro dia será igual
E nesse mistério
Na confirmação diária
Está para mim o segredo do amor
Duradouro
Sólido
Embora pareça exatamente o contrário
Não suporto obrigações
Nem que ninguém as tenha comigo
Quero é que adore estar comigo
Não que seja um acordo
Cadê Você
Quero te ver
Quero te ter
Quero te sentir
Só minha
Só teu
Só nosso
De mais ninguém
Quero te beijar
Quero te acariciar
Quero te amar
Quero te fazer gozar
Quero você
Você
Amaldiçoada Incerteza
Quem sabe um dia os corpos celestes se descuidam e nos experimentamos.
Hoje, rios caudalosos, montanhas, dúvidas, quilômetros de estradas sinuosas nos arredam.
Como essa conexão censurada pode conformar-se? Confirmar-se? Exaurir-se?
Não sei... sabe?
Teme?
O que ficaria para trás?
E o que nos poderia vir?
Serão esses os estímulos... ou as hesitações? As hipóteses?
É aflitivo como a profusão de vida pode ser pior que a escassez.
A incerteza como ventura é a certeza da propensão.
A vida é uma só?
Quantas podemos viver em uma?
Qual valerá? Todas?
Dúvidas! Duvidas?
Sem Você
As noites são longas e as madrugadas são frias
O corpo dói
A alma cansa
O sentido se esvai na inexistência do motivo
A vontade acua
O gesto recolhe
O reencontro refugia a esperança
A incerteza do instante
De Beijos loucos de paixão
Aflige
As tardes são lentas e os dias são quietos
Houve quem pensasse que nunca chegaria ao fim de tão grande. Eles mesmos pensaram. De certos que estiveram, nunca mais se olharam de verdade. Aquele olhar que enxerga dentro, no fundo d´alma. O tempo passara e já não eram eles. Desfigurados, indeterminados, não sabiam quem eram. Na história que viveram, cada um se tornara coisa sem importância de ser, de ver. Esqueceram até quem foram para ser do outro. Como que fundidos num, um não foi sem que o outro fosse. E foram, então, juntos, além. Os sonhos eram únicos, assim como mesmos eram em si. Não conseguiram saber onde um queria e o outro não. Indignaram-se, querendo, que uma porção pudesse não querer. Deixaram de querer para quererem. Quiseram tanto mais do que quereriam. Ou menos, outras vezes. Assim, sem se reconhecerem insatisfeitos, indivisíveis, viveram sós. Decompondo-se, viveram combinados, fatalmente compostos. O tempo passara e já não eram eles. Não eram eles. Contornara-se um outro no lugar. Renderam-se ao outro como se dispuseram à disposição um do outro. Chegara o tempo quando o outro, esse sim, se tornara a quantidade exata deles. Naquele tempo, ainda pensaram que não chegaria ao fim de tão grande. De tão grande, não se contiveram em nenhum. E insistiram mais. Estruturara-se na fragilidade deles um outro que não era ninguém, que anulara os dois. Não se viram e não se sentiram até que não se tiveram por completo. Não se tinham há muito. Nem sabiam mais o que era ter. Nem pensaram nisso. Só reconheceram e tiveram e eram um outro. O outro que se tornaram sem eles.
Rafael Soranoreconhecimento ao favor do amor
Obrigado por existir
Por aceitar sua existência
Por me emprestar sua presença
Por me amar
Sou-lhe grato por tudo em mim
Pelo que me permite sentir
Pela delicadeza do que sente
Por consentir te amar
Agradeço-lhe a entrega
Ter vencido as dores
A coragem de suportá-las
Por coabitarmos a superação
Sou-lhe agradecido pela gentileza da fatalidade
Sou-lhe grato pela promessa do que há de vir
Obrigado por existirmos juntos
Por irmos além
