Coleção pessoal de giovanap
É assim a vida, vai dando com uma mão até que chega o dia em que tira tudo com a outra.
José SaramagoMas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar.
Fernando Pessoa[...] Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda. E assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa íntima substância, faremos também descrições e análises, que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se viessem na tarde. Não é este o conceito dos pessimistas, como aquele de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde ele tecia palha para se distrair. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incómodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que apliquemos à obra que produzimos. Produzimo-la, é certo, para nos distrair, porém não como o preso que tece a palha, para se distrair do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se distrair, sem mais nada.
Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os
que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cômodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.
A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.
Fernando PessoaEu sempre te quis demais. Desejei-te além do devido e te amei mais do que tua alma de moleque podia suportar. E esse foi um dos erros cruciais que nos fez desmoronar. Eu era o excesso e tu eras a falta. Você não aguentou o furação que eu sempre fui. Mas tudo bem, não te culpo, amor. Eu deveria saber que tu não tinhas forças para me alimentar; mas de qualquer forma eu me peguei te amando tanto, tanto. Embora, hoje eu esteja bem sem você, não posso negar; eu sinto tua falta. Meio de leve, de um jeito meio rarefeito, mas sinto. E eu gostaria de te informar, que de qualquer forma, nosso fim já estava por vir. Não se culpe. Sei que tu sentes a minha falta também, assim como tenho conhecimento de que tu andas numa busca insaciável por gurias que te tragam nos lábios o mesmo gosto amargo de que eu levava nos meus. Mas passa. Hora ou outra tu irás se conformar. Porque, meu amor, quando eu quis ser fogo tu se contentou em ser brasa.
DesconhecidoA vida é feita de fragmentos de verdade e cada um escolhe a alienação que melhor lhe convém, visto que passaremos a vida toda buscando provar nossas crenças. Homens são todos cafajestes? Mulher gosta é de dinheiro?
Casamento é uma instituição falida? Romance é capítulo de livro de história? Amor é ilusão? Você é quem sabe. Você é quem sai na rua atrás de pessoas compatíveis com sua fé para validar sua realidade, se relacionando com malandros e interesseiras, firmando matrimônios fadados à bancarrota e fugindo de romances e do amor pela porta dos fundos. Se consola, um dia você esfregará na cara dos outros a exatidão sóbria que escolheu padecer.
É sofrido resistir à tentação de ser igual aos outros, de ansiar romances burgueses, de não coagular as feridas abertas pelos espinhos de um caminho que prometia uma paisagem botânica na adolescência, rendido em uma espécie de diabetes emocional. Não perder-se de si mesmo já é mudar o mundo e não é fácil acostumar-se em pavimentar a própria estrada com placas e leis com o próprio sobrenome.
A distância que separa um Martin Luther King, um Paulo Coelho, um Steve Jobs, um Chico Mendes, um John Lennon dos outros seis bilhões de pessoas é vasta, eu sei. Contudo, pode ser resumida em uma palavra: atrevimento. O mundo é de quem ousa, de quem ama alguma coisa, quem habita dentro do velho moço, a quem não perdeu o costume de matar as aulas inúteis.
Sério, nunca desista de seus sonhos. Desista dos sonhados por mim, pelo seu companheiro, pelos seus pais, pelo seu vizinho, pela televisão, pela Gisele Bundchen, pelo Selton Mello, pelo Barack Obama, pelo Ronaldo Fenômeno, pelo casal do Jornal Nacional. Desista dos sonhos dos outros.
Nunca dos seus, por mais bobos, românticos e impossíveis que pareçam.
Seu quarto, sua varanda, seu pensamento, que deveriam ser o lugar pra onde sempre se quer voltar é o primeiro do qual você quer fugir? Não confio em gente que não gosta da própria companhia. “Todo animal fraco anda em bando”, foi o que disse o narrador do Discovery Channel.
Gabito NunesSe o amor não é uma cartela com pequenas drágeas de paz, então não existe.
Gabito NunesMeu querido diário
Hoje, mais um dia perdido num mês qualquer, eu acordei com o ouvido sustenido e o rosto maldisposto pra escrever qualquer texto entupido de alegria supervalorizada, cheio de metonímias pras pessoas entenderem um cheiro, uma dor, uma mulher triste. Eu tô tão cansado dessa estrada com a lei que eu mesmo construí pra mostrar que o cotidiano tem algum sentido. Eu tô tão cansado de defender o amor que as pessoas não vivem só pra ter assunto.
Confesso - sem vergonha nenhuma da vaidade que me cabe tão bem - que a vista aqui do alto é deslumbrante. O ruim é que insisto tanto em olhar pra baixo. Minha vertigem - eufemismo pra enjoo - desse gosto denso e amargo de vitória manca tem me rendido boas e messiânicas olheiras.
Quanta sabedoria vejo nesses olhos, me falta dizerem. Me peça um conselho e eu vomitarei no seu coração.
Cansei de respirar boca a boca em tantos personagens na ambição vã de dar vida e nobreza aos sentimentos que as pessoas insistem em enforcar, abortar ou chutar todos os dias. Cansei de sorrir amarelo e fingir que o mundo me importa e sufocar no osso a vontade de mandar às favas as pessoas e seus erros e suas carências e suas manipulações e suas opiniões e suas mentiras e suas idiossincrasias. Pra ser sincero e gentil.
Eu não sei como fazê-lo voltar, não sei por que os homens traem, como conquistar uma mulher. Eu só sei viver do jeito que dá, sem purpurina ou close de final de filme. Se você soubesse que eu broxo. Se você soubesse que cada texto é uma crítica em falsete pra cada erro meu. Se você
soubesse que eu tenho uma cueca vermelha. Se você soubesse que eu acordo todo dia doendo pra trocar o refil do pulmão. Se você soubesse o quanto eu sou egoísta. Se você soubesse do pouco que me importo comigo mesmo. Se você soubesse que sou um cavalo que deixou o príncipe cair no caminho.
Eu tô tão cansado e tão sem assunto que, por um triz, não uso uma frase do Vinícius de Moraes entre linhas pra levantar geral. Eu tô tão cansado das pessoas acharem que um texto e um charuto na boca é uma grande revelação, uma prestação de contas, algo que eu não soube dizer, a epifania que vai afogar suas mágoas que já aprenderam a nadar de peito.
Eu tô cansado de agradar todo mundo em troca de uma coisa que eu não sei o que é, mas não paga meu desodorante de catálogo.
Sabe, meu computador parece feito de criptonita, minha capa vermelha anda meio murcha e me sinto incapaz de sobrevoar o céu cor-de-rosa em busca de mocinhas pra salvar. Mas faça-me um favor. Continue acreditando nas pessoas, no amor, em “caras como eu”, no Vinícius de Moraes e volte aqui amanhã se não for pedir muito. Prometo fazer o mesmo.
Homens são todos iguais?
Não li, não vou ler e não gostei da paródia literária “Beber, Jogar e F@#er”, onde o másculo escritor Andrew Gottlieb faz contraponto ao best-seller-clichê-de-mulherzinha “Comer, Rezar, Amar”, autoral de Elizabeth Gilbert. Que homens são de Marte e mulheres são de Vênus todos estamos carecas, o que me preocupa é a teimosa estereotipagem que produz pessoas em série como chinelos de dedo, quando a massificação anda tão demodê.
Quem já não ouviu falar que homem é tudo igual? E dá para tirar a razão?
O produto que vende mais são carros possantes, fotos de Scarlett Johansson e afins na carteira, bíceps definidos, disputas de machos-alfa na busca por saber quem bebe mais, quem possui mais opções na agenda telefônica, quem tem o pau maior ou mais grosso ou as duas coisas.
É o caminho mais curto para o sucesso, indicado a quem tem preguiça de ser diferente, que não vou mentir, dá trabalho. Na contracultura de Lenny Kravitz que espalhou só transar por amor, de Arnaldo Jabor que apenas sorri aos persistentes, ou de Luis Fernando Verissimo que jura preferir não ter deixado o útero, vem uma selva de “canalhas-padrão” lhe dando a impressão de habitar entre robôs de Spieldberg.
Bom, sendo verdadeira a premissa de cada um ter de fazer um pouquinho na luta vã por um mundo melhor, começo eu tirando meu time de campo da disputa pelo trono de rei da selva, que hoje pertence a David Beckham, Brad Pitt, José Mayer ou a uma pilha de amigos meus. Lá vem meu strip-tease:
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Beber. Eu bebo sim. Porém Martini com calda de cereja e dois exemplares da frutinha no copo. Meu agente literário me xinga, diz que escritor deve passar as noites no Bar dos Podres bebendo cerveja do gargalo e brindando feito viking. Macho man!
Jogar. Aposto na Lotofácil e participo de jogos de futebol. Bom, se marcar o alambrado e bater o queixo com o quique da bola classifica-me como futebolista, tudo bem. Mas eu gosto mesmo é de correr na rua de bermuda térmica e iPod, pra desespero do mesmo agente literário que jura que escritor deve ser gordo e escroto. Macho, pero no mucho!
Foder. Eu faço amor. Pra falar a verdade desgosto da palavra “foder” em temperatura ambiente e quem manda no meu pau sou eu, não o contrário. Já fiquei abstinente por dois meses e foi bom, descobri a arte de plantar girassóis. Já levei uma garota até o motel e atirei 50 reais pela janela, pois meu compromisso com a cultura machista me tapou os olhos para a total ausência de tesão. Sei exatamente o que dizer a uma menina na balada. Só não sei como. Certa feita, ensaiei uma frase sobre lábios de amora e quando vi estava falando que frieiras dá muito nos habitantes da Islândia. Tudo isso pra desespero do meu agente literário que me cobra depravação para chegar aos pés do safadão Bukowski.
Como se vê, para concorrer ao posto de Macho-Alfa, nada a declarar a meu favor. Para as leitoras que veem minha vida como “sexo, drogas e rock n’ roll”, lamento, grande parte dos meus dias é “carência, pacote de Bis e bossa nova”. Para os leitores que vêm até aqui na esperança de aprender a comer mais mulheres, recomendo-lhes consultar o para-choque do Zé Mayer.
Pronto, saí do armário. Quem é o próximo a tomar vacina de autenticidade? Ser um homem feminino quase não fere seu lado masculino, cara. Se precisar, pega na minha mão. Leão que imita leão vira macaco.
Amor não é paixão. Fazer sexo não é fazer amor. Ódio não é amor. Amor não é fogo, não é chama, não é amizade, não é casamento, nem compromisso. Amor não é namorar, não é chorar, não é beijar, não é desejar, não é saudade. Amar não é estar-se preso por vontade. Não é servir quem vence o vencedor.
Amor não vai. Amor é o que fica. Amor é resto. Amor é o que sobra do que foi supracitado. Amor não é onda, é o mar. É o companheiro que não abandona depois que todas as fervorosas sensações se foram. Paixão, ódio, saudade, sexo, casamento, desejo são como trens. Amor é estação.
Se é da natureza terráquea dar valor demasiado ao que não possui, Freud que explique. A questão é evitar experimentar uma das dores que mais dói: a de não ter destinado valor suficiente ao que não se tem mais, quando se tinha.
Gabito Nunes“Você é um dos melhores motivos que eu tenho para me manter longe de eventos que possam abortar meu viver”.
Gabito NunesSem essa de fazer besteiras às pencas por confundi-las com felicidade, isso é credencial pra ser imbecil. O certo e o errado nascem pra todos. Nada de mostrar meus dentes tortos e urrar na fuça alheia a maior injustiça sobre o cio da terra: a mediocridade.
Gabito Nunes"Veja bem. Não tô dizendo que superei, as feridas estão comigo, servindo de baliza pra reconhecer esse lado quente e fresco das coisas. Mas eu preciso ir, não posso falar contigo agora. Tenho pressa de apertar o play. Dá licença? Então sai debaixo da minha sacada. E da próxima vez que sair na chuva, vê se antes aprende a se molhar."
Gabito NunesGarotas são loucas, se fossem vendidas em frascos, viria rotulado: contém 1 drama.
Gabito NunesHá um amplo fosso de aleatoriedade e incerteza entre a criação de um grande romance – ou joia, ou cookies com pedaços de chocolate – e a presença de grandes pilhas desse romance – ou joia, ou sacos de biscoitos – nas vitrines de milhares de lojas. É por isso que as pessoas bem-sucedidas em todas as áreas quase sempre fazem parte de um certo conjunto – o conjunto das pessoas que não desistem.
Leonard MlodinowAinda bem, meu anjo, que você me deixa chorar. Eu sou forte, mas tenho tanto medo do dia em que eu não me aguentar em meus próprios pés. Eu sou rápida em questão de fugir deste destino rígido e tenebroso. Ainda bem, meu querido, que você não fecha os olhos para minhas feridas, porque quer queira ou não, elas estão aqui - pulsando, flamejando, martelando em minha carne fina que se desmancha aos poucos. Todas as vozes acham bobagem, que tolice, que tolice, menina, pensar assim em tristezas profundas, pensar assim em finais tão bruscos. Eu me sustento. Ah, amor, queria ficar eterna em seu abraço. Se a morte fosse assim, quente, aconchegante, jovem com alma idosa, eu seria feliz. Se sua promessa fosse possível, eu seria borboleta e não teria medo de mostrar voo em apenas um dia, depois cairia com as asas flácidas. Mas o escuto, meu bem, presto atenção em cada palavra que sai dessa boca bonita e confiante, e você está certo. Eu sou dançarina, mesmo em duas faces, em dois cubículos tão opostos - dançarina gótica e dançarina rosa. Seus olhos que pousam tão penosos em meu choro me reconfortam, são uma chamada de compreensão a qual eu nunca tive. Não houve falhas, só reconhecimentos. Também não haverá futuros, só hojes. O agora se repetindo dia após dia, porque tem uma letra de música que eu não lembro, mas que dizia que o amanhã não existe mesmo. Então, anjo, eu durmo, você me aperta em seu peito, sinto seu coração tão vivo, e tão leve, e tão inteiro, e tão amado, descanso sorrindo. Assim, com aquele sorriso que você mais gosta, puro, essência.
zaluzejos.tumblr.comTu, que agora me tens aos pés, cuida bem do meu coração. Tu, que faz tempo olhaste para mim com olhos de marujo, com vontade e coragem para navegar em todas as minhas incertezas, vê lá em que mar nadas. Mas vê e não volta atrás, pois a água sem ti perderia o sal, os corais, a espuma. O mar desvira, entendes? Tu não queres que todo esse universo e essas vidas que cabem em mim desfaleçam, queres? Sei que jogo uma responsabilidade tremenda em tuas mãos, falando deste jeito, mas foi isso o que procuraste, foi esse o que preço que eu cobrei para me entregar - como se eu fosse capaz de não fazê-lo caso tu te recusaste a pagar. Encontra-me em teus mais belos sonhos, em castelos ou camas desforradas, tanto faz, sou muito tua. Mas venho com lições, discursos, ladainhas, além de ternura. Já venho te pedindo cuidado (e prometendo o mesmo). Tu sabes, um coração é quebradiço, frágil, escorregadio, fraco. Um coração em mãos é risco de morte, amor, risco de morte.
zaluzejos.tumblr.com