Coleção pessoal de Edugomes
Saudades
Rosa Pena
Ando com saudades de café com pão, de namorados dando beijinhos no portão, de pedir bênção a pai e mãe, (Deus te abençoe), do sinal da cruz que fazia quando passava na frente da igreja, de ver um varal cheio de roupa com cheiro apenas de sabão, de ver alguém sorrindo enquanto lava a louça com bucha vegetal, de sentir respeito pela policia, de cantar o hino Nacional com mão no peito e lágrimas nos olhos, de acreditar que o Brasil ganhou a Copa do Mundo porque jogou direito, de saber que o Zezinho filho do porteiro não vai morrer de dengue e que Maria feirante poderá ter um filho médico. Saudades de homens que usavam apenas o assobio como galanteio.Fiu-fiu!
Morro de saudades do tempo em que um presidente de uma nação era o mais respeitado cidadão do país.Que cadeia era lugar só de ladrão. Acho que andaram invertendo a situação.
Ando com saudades de galinha de galinheiro, de macarrão feito em casa com tempero sem agrotóxico, de só poder tomar guaraná em dia de festa, de homens de gravatas, de novela com final feliz, de pipoca doce de pipoqueiro, de dar bom dia à vizinha, de ouvir alguém dizer obrigado ao motorista e ele frear devagarinho preocupado com o passageiro. Saudades de gritar que a porta está aberta para os que chegam. Um saco destrancar tanto papaiz.
Saudades do tempo em que educação não era confundida com autenticidade. Hoje se fala o que quer, em nome de uma "tal" verdade e pedir perdão virou raridade.
Ando com saudades de ver no céu pipas não atingidas pelo efeito estufa.
Saudades das chuvas sem acidez, que não causavam aridez. Saudades de poder viajar sem medo de homem bomba, de ser recebida com pompa em outra nação.
Atualmente reina a desconfiança no coração.
Sinto muitas saudades do rubor das faces de minha mãe, quando se falava de sexo totalmente sem nexo.
Hoje ele é tão banal que até eu banalizei.
Acho que a maior saudade que tenho é a saudade de tudo que acreditei.
Para minha filha não poderei deixar sequer a esperança. Hoje já não se nasce criança.
Livro PreTextos/rosapena
2003
ps: Mais uma crônica dessa autora vagando na net sem autoria!
Nascente e foz
Rosa Pena
Vida-transição-vida
Solta a voz!
Você permanece entre nós.
John Winston Lennon (Liverpool, 9 de outubro de 1940)
inteiro
Rosa Pena
O fruto eu saboreio
em metades.
Um planeta vejo
por cidades.
Na Bíblia
procuro verdades.
Quando sinto
saudades?
Quero você inteiro
Irmãs de criação
Rosa Pena
Saudade e solidão
Coloridas com a mesma tinta
Distintas só pelas sombras
Que uma na outra pinta.
Insônia
Rosa Pena
Ah! Esse cobertor
não tem jeito!
Falta calor
descubro os pés
para cobrir o peito.
Ah! Esse lençol.
Em cima dele se faz amor.
Não importa qual é a cor.
Droga! Apenas eu.
Desenho de uma solitária flor.
Que horas são?
Tem lua ou sol?
Ah! Essa cama que balança
de maneira anormal,
mas bem que agüenta a dança,
calçada numa lata de Nescau.
Ah! Esse colchão esbugalhado.
Bem que podias estar
bem no meio!
E eu me acabando
no recheio.
(março de 2003)
PEDRAS AOS PASSARINHOS
(Djalma Filho)
- para Rosa Pena -
2006
por que me fizeste assim maior que sou?
Sou teu igual,
existo para ser teu amante,
morador não nômade
toda consciência de qualquer existência é árdua,
ultrapassa os limites da banalidade e
de quem sempre anda acomodado num amor água com açúcar
[tipo: nem fede nem cheira]
daquele que pensa
que todos os dias da semana serão eternos Domingos
sem dorme ou acorda,
como se as noites e os dias não fossem moradores do relógio,
daquele que tem tudo
e acha muito fácil viver de renda
[sem compromisso]
enquanto há o paciente trabalho da conquista.
para ser teu morador,
caguei suando
qual passarinho que comeu pedras pela estrada;
para ser teu morador, fui de tudo um pouco:
bailarino do Bolshoi, bêbado de birosca, kardecista, apunculturista,
jogador de futebol, moreno, alto, louro, sarado, ativista, artista,
barítono do Barbeiro, estrangeiro, pentelho, halterofilista,
representante farmacêutico, escritor de notas frias,
locutor da Voz do Brasil, autor de tele-novelas,
sósia do Frank Sinatra, assistente social,
solidário no câncer, mineiro, canalha,
e tudo mais que foi possível.
por que te fiz assim maior que és?
És minha igual,
existes para ser minha amante,
moradora não nômade
Ah, passarinha - sei -
também comeste comigo as pedrinhas desta estrada.
Sem vergonha de ser feliz
Rosa Pena
A paz finalmente invadiu o meu coração.
Vejo o quanto Deus tem me dado. E como por vezes esqueci de dizer obrigada.
Olho o sol e sorrio. Será que de longe eu vejo melhor?
Relembro o ontem tão perto e agora distante. O lançamento de meu livro novo, tantos amigos, minha família tão linda ao meu lado e eu me prendendo em duas ou três pessoas que não conseguem ver esse sol que se expõe só para quem tem olhos pra vê-lo.
Penso em meus ídolos, penso sem pretensão alguma que talvez eu já tenha virado uma referência para alguns. Se assim for , lógico que vem cobrança. Eu tenho que aprender a conviver com ela, ainda que por vezes ela machuque, mas merthiolate é incolor e nem arde mais. Passo um pouco nas antigas feridas e sigo agradecida a Deus e bem atrevida nas letras, na vida.Quanta coisa vou ter pra contar quando voltar pro meu lar.
Minha filha antes deu viajar disse-me: Mãe você é o maior barato.Só isso já vale um fã clube.
Vou de Mãos Dadas com Drummond e com quem mais quiser me dar a mão.
A vida é bonita , é bonita, é bonita . Você sempre teve razão Gonzaguinha.
Muito sem vergonha de ser feliz é bom demais.
Lisboa 2 de maio 2007
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Mãos Dadas
Carlos Drummond de Andrade
Não serei o poeta de um mundo caduco;
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
Ao Maitre com carinho
Rosa Pena
Um beijo apenas.
Sem gelo ou limão.
Adoçado com ternura.
Quente, por favor!
Um abraço misto
da saudade do ontem
com a vontade do hoje.
Grelhado na chapa
de seu coração.
Depressa, meu amor!
Estação sem flor
Rosa Pena
Um cão sem dono.
Em plena primavera
Eu outono!
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H2OMEM
Rosa Pena
Calor, frio, sede, fome.
Excesso e escassez !
Difícil um guri virar homem.
A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.
Jean-Paul SartreArte no céu
Rosa Pena
Sedas nas varetas
O menino fora da cruz
Risonho!
Rabiolas rodopiam no céu
Arco-íris de papel
Sonho!
