Coleção pessoal de edmilsonlourenco
"Flores"
Te trago flores,
não me pergunte de que tipo,
são flores, de muitas cores,
a cada dia te trarei nove, novas,
me livrei de bala perdida,
fui atingido por uma amor perdido,
hoje acho flores, todos os dias,
te cato flores, umas compro,
outras tomo emprestadas,
passo o braço por sobre muros,
rego as flores, não as embalo,
nenhuma embalagem é mais bonita,
que suas roupas de cores fortes,
umas com detalhes pontiagudos,
como as pontadas agudas que sinto,
e lembro que tenho que arregar, comprar,
ou roubar flores para te mandar,
todas que puder, um mar das azuis, verdes,
um céu com arco-iris das coloridas,
faço até maldades para ter tuas flores,
espanto os beija-flores,
me firo, afasto abelhas, roubo seu mel,
te mando flores doces, comestíveis,
em cada uma de suas pétalas um, dois, três milhôes de amores,
sou teu, todo seu, eu e minhas milhares de flores...
Te mando flores...
"Eu sabia"
Eu sabia, tinha certeza de tudo,
sabia que o terceiro degrau da escada é menor que os outros,
então eu pisava de lado,
que se chovesse muito, tinha que por uma panela atrás do sofá,
ao acordar corria para fechar as cortinas,
se o portão não abrisse dava um tapa no controle,
que a porta da frente tem que forçar para cima,
no controle da tv os numeros 5 e 7 estão falhando,
a direção do carro puxa para esquerda,
a boca de trás do fogão não acende,
duas das quatro cadeiras estão bambas,
o travesseiro dele é maior que o meu,
de manhã tinha que ter cuidado para o cachorro não invadir a casa, ar em 19º,
se chegassemos ás 06:00 eu tinha que acordar ás 07:00,
a coca tinha que ser com muito gelo,
o filé especial com muito molho,
o café dele mais frio que o meu,
a sopa com pimenta que aprendeu comigo,
o bife na manteiga que aprendemos juntos,
dentro do shopping eu sempre me perdia,
eu andava, ele corria,
não precisava pedir nada, bastava olhar, o outro entendia,
falávamos língua dos gestos, mesmo tendo nossos olhos,
tinhamos razão para isso, tantas vezes ficamos cegos, por egos,
fazia cara feia porque eu só escolhia roupa de marca, mas, no fundo sorria. Eu via.
Eu sabia que você me amava, você sabia que eu te amava,
poderia ter sido mais fácil, motivos tinhamos para nos orgulhar, um do outro, fomos tolos, somos tolos,
nos atacamos, um com a mão na garganta do outro,
o folêgo acabando, o sentimento morrendo,
se encolhendo, até que chegou o dia.
"Sobras"
Acabei de afiar a faca,
para te mandar essas linhas tortas,
não precisa entender,
sou desse jeito, doido,
desvairado, peco, confesso,
vivo buscando essa coisa que chamam amor,
paixão ou silêncio que muitas vezes fala,
sei que é impossível entender,
chegar tão perto da linha de chegada,
e tropeçar, sentir que tudo se escorre entre os dedos,
sobram as sobras, os restos, o gosto de beijo,
as digitais na pele, o cheiro na roupa,
tudo rápido, acelerado,
sem tempo de se entender,
agora resta sentar num canto,
fechar os olhos e lembrar de você.
"E fujo"
Eu quero latir em teu ouvido surdo,
morder esse teu rabo sujo,
saltar nesse abismo profundo,
te abraçar e me tornar imundo,
pular o muro do confinamento,
me misturar com você, cão sarnento,
rolar em uma cama de musgos,
travesseiro de pedra,
beber teu sangue e não chá de ervas,
assaltar uma adega,
baixar a porta até o joelho,
eu entro todo, entro inteiro,
te inundo, te afogo,
e fujo...
"Esquecer"
E foi de tanto acreditar,
pensar, falar, pedir, ouvir,
e depois de todos esses anos,
chegar a isso, acordar ver um estranho no espelho,
a cada dia um personagem diferente, ausente,
que lembra da família, mas, não telefona,
nem escreve cartas, diz que os ama, baixinho,
nem ele próprio ouve, aquelas confissões que doem,
porque não se concretiza, é pensada,
ensurdecedora e muda, só o confessor sente,
ninguém mais ouve, sentir que coisas boas que faziam sorrir,
hoje doem, cortam, ofendem, atinjem com força,
uma mistura de coisas, uma escuridão,
daquelas que você está só em casa, falta energia,
corremos até as gavetas, reviramos tudo,
buscando a vela, tinhamos certeza que acharíamos a luz,
mas nos enganamos, estamos nas trevas,
escolher um canto do quarto, sentar,
se encolher, se esconder, rezar para amanhecer,
ou simplesmente esquecer...
"Esperança"
Pode ficar com sua esperança.
Não me ofereça, ela não me interessa.
A dor passa, o medo acaba,
as drogas perdem seus efeitos,
o amor trai.
A esperança...
Esperar que o tempo volte,
que exista segunda chance,
que o perdão, perdoe,
que o câncer tenha cura,
que o sol sempre brilhe,
que foi tudo um pesadelo,
que o sonho irá voltar,
que o erro foi engano,
que foi amado,
que foi perdoado,
que perdoo,
que a fé faz milagres,
que a morte não é o fim.
A morte liberta,
a esperança mata.
"Junho"
Me desculpa junho, mas, não te mentirei,
estou cansado, chato, na verdade,
e até não deveria, és tão feliz para a maioria,
e logo eu, que em um dia teu, nasci, não tenho tanta alegria de ti,
não estou tão afim de pular fogueira,
sentar em mesas fartas de comidas e mentiras,
de sorrisos sem sentidos.
Será que expressam real alegria?
Não se preocupe comigo, essas lágrimas que rolam não são tristeza pura, tem um doce-meio-amargo,
um sabor de nostalgia, não irei soltar balões,
prefiro guardar meu ar para minhas emoções,
que por serem minhas, ninguém as vê,
a dor é minha, a alegria distante também,
e por aparentemente que pareça estar plantado como suas espigas, as que morrem secas no sertão, não estou,
há tempos não sentia o que sinto,
hoje observo que nem todos os milhos são amarelos,
estou mais vivo e ardente que suas fogueiras.
Celebro sim, minha chegada nesse plano,
sem muitos planos, seguindo, indo,
parando para observar o que passava despercebido,
que estava tão na cara, ou simplesmente estava fingindo enxergar, ao ver suas bandeirolas coloridas,
me deixava entrar nesse mundo fictício,
e esquecia que o meu muitas vezes estava cinza,
ou ainda esteja, mas, agora percebo que gosto sim do colorido, mas, não tenho medo algum do preto e branco que me é necessário, siga feliz por seus trinta dias de vida no ano,
que ao mesmo tempo te faz infinito, você renasce a cada ano,
te usam para enganar muitos tolos que morrem a cada minuto,
agora entendo por que em alguns dias choras tanto.
"Choro"
Quando ele morreu muitos o criticaram tanto.
"Ele chorava muito"
"Era muito alienado"
"Foi um tolo"
Andando por entre os que o velavam,
seu neto de treze anos, prendia o choro,
não podia envergonhar seu vô, pensava ele.
A noite foi passando, a maioria foi embora,
a vontade de chorar aumentava,
o nó na garganta, dóia, mas,
ele segurava, saía, entrava,
fixava seus olhos nas velas,
olhava a coroa de flores,
sentia seus olhos se afogar,
apertava os dedos, sua tia o abraçou,
alisou seus cabelos, chegou a sentir
que não aguentaria, prendeu o fôlego,
fez muita força, secou a garganta,
respirou profundamente, fez um riso falso,
se desvencilhou de suas mãos,
foi para o portão, parou na calçada, sentou-se,
passou um bom tempo lembrando de seu vô.
Ouviu uma voz o chamando, entrou, lhe entregaram um envelope
com seu nome escrito, seu vô não tinha o esquecido,
dentro, um bilhete.
Netinho,
Não tenho herança para deixar para você.
Um velho tolo que sou, ainda vou te pedir um favor,
estude muito aprenda com a ciência, mas nunca perca a fé,
pedras existem, quando tropeçares, te levantas, nunca perca a esperança,
desilusões doem, mas o amor é sublime, por isso as enfrente sempre,
o sorriso é a paz da alma, mas o choro é a prova que você está vivo.
O nó em sua garganta se desfez...
"Sempre"
Sempre te amei, te amo há séculos,
te amava antes de existir,
te amava antes de você nascer,
te amava antes de nossos destinos se cruzarem,
te amava antes de meus olhos te verem,
te amava quando você me aceitou,
te amava quando te encontrei,
te amava quando eu te pedi,
te amava quando você quis me amar,
te amava quando você não queria,
te amava quando você sorria,
te amava quando me fazia chorar,
te amava quando você terminou,
te amava quando você amou outro,
te amava quando eu tentei amar outro,
te amava quando você dizia me amar,
te amava quando você dizia me odiar,
te amava mais quando tentei te odiar,
te amava quando me engasgava dizendo não te amar,
te amava para poder viver,
te amava para poder morrer,
te amarei quando renascer...
"Amnésia"
Apagar você do calendário,
queimar tuas lembranças do diário,
rasgar as notas do rádio,
cobrir de ácido teu nome sobre minha pele,
devolver tuas lembranças,
esvaziar os armários,
riscar os discos,
quebrar a caixa de música,
afogar o romance,
virar tuas fotos a parede,
partir a cama ao meio,
jogar os travesseiros fora,
quebrar os perfumes,
tomar litros de amnésia,
lembrar de não lembrar de você...
"Todo seu"
Como uma criança em tua porta,
me acolhe, me escolhe,
estou pronto para ser seu,
me cuida, me ama,
me chama de teu,
tira minha roupa,
beija minha boca,
me faz teu romeo,
se sou um pecado,
aceita o errado,
se torna ateu,
eu peco contigo,
divido perigo,
eu sou todo seu...
"Outro momento"
Sinto que meu inverno interior está acabando,
a brisa, agora, traz consigo esperança,
a linha do equador está sendo refeita,
o calor começa a descongelar meu iceberg,
ele já começa a bater novamente,
saí da hemodiálise, meu fígado,
voltou a funcionar, com meu sangue correndo,
todos os órgãos saem do ócio,
os rins filtram os líquidos,
não escorro apenas pelos olhos,
meus poros jorram, o desejo incendeia,
passei muito tempo sentado vendo o mundo se mover,
estava paralisado, como se estivesse no meio de uma praça,
todos passeavam com seus pais, seus filhos,
irmãos, amigos, amores, amantes,
uns de perto, outros de longe,
os balões, os brinquedos do parquinho,
os bares dos profanos, a igreja dos insanos,
os que choravam, os que sorriam,
os que andavam, os que corriam,
mas, todos se moviam, apenas eu,
do lugar não saia, quanta inveja tinha dos indecisos,
que subiam no ônibus, não sabiam onde sentar,
longe dos velhos, perto dos jovens,
com alguém do lado, ou simplesmente sozinho,
em dias de chuva os que corriam para não se molhar,
os que andavam devagar se permitiam regar,
nos domingos de sol tantos indo a praia,
nos sábados de luar os casados, os amantes,
os fiéis, os traídos, não importava, se moviam,
enfrentando suas alegrias, tristezas,
os que viam a realidade, os que sonhavam a fantasia,
com ignorância, ou sabedoria,
sem entender muita chuva no verão,
o eclipse que escurecia o dia,
muitos sem poder ver com os olhos,
enxergando com a ponta dos dedos,
outros com olhos sem ver nada a um palmo de seu nariz,
uns com dificuldade de andar,
mas multiplicam seus dons e são um grande exemplo,
nos ensinam como passear sorrindo e acontencendo pela vida,
eu, e outros tantos com duas pernas e travados,
crianças que crescem rápido,
adultos que sempre são crianças,
os que se matam todo dia, se fazendo chaminé,
os que vivem tanto amando seu homem ou mulher,
os que acreditam em milagres saindo da missa se benzendo,
os que esquecem a fé, mas, são a prova de que milagres existem,
todo tempo que fiquei nessa praça, vi tudo, perdi um outro tanto,
estava plantado, agora limpo minhas raízes, não mexerei apenas meu tronco,
serei todo movimento, todos os sentimentos, alegria, sofrimento,
hoje vivo outro momento...
"Making-off"
Vamos encerrar essa conversa.
Estou indo agora te ver,
Já vivi muito esperando você aparecer,
esqueça o making-off, fique como está, irei como estou,
não se preocupa com figurino, perfume,
com o que vamos comer, eu quero teu cheiro, tua carne,
meu prato principal é você,
a sobremesa será nossos pedaços,
que jorrarão, o doce de sua boca,
prometo nunca enjoarei,
pode enterrar esse punhal que guardas embaixo do travesseiro,
de agora em diante você não precisará usá-lo,
temos que esvaziar nosso baú de guardados,
tudo que não serve mais joguemos fora,
a partir de agora somos um,
dois corpos, um espírito,
muitas opções, um caminho, minha escolha já fiz,
a certeza é que nunca estará sozinho.
Não precisa desligar o telefone, pode vir abrir...
"Vida nova"
Meu dezembro agora é em maio,
meu chão são as nuvens,
depois de tanta chuva em minha cidade,
você aparece, me aquece,
teus raios batendo em minha janela,
vou abrir meu champanhe,
agora com você, meu maio,
não é ano novo, é mais,
é vida nova, estou todo prosa,
se for sonho, por favor não me acorda,
sonha comigo, vamos de mãos dadas,
vem pra minha sacada,
vamos escolher juntos que estrada seguir,
sem medos, dúvidas ou receios,
me entende, te ligo toda hora,
não para saber coisa alguma,
quero apenas te ouvir, saber que está bem,
meu bem, te quero, te espero...
Estou aqui...
"A privada"
Falar "os livro" não está errado,
não vejo preconceito linguístico,
preconceituar a sociedade,
é o Estado que deveria zelar pela igualdade,
lançar livros em escolas públicas
que nunca serão usados em escolas privadas,
isso é privar uma parte, diferenciar ambas,
e dizer para a sociedade que nosso caminho é a privada.
"Cavalo marinho"
Amanhã, com sol ou chuva irei a praia,
vou lavar minha alma,
montar em um cavalo marinho,
cavalgar o atlântico,
mergulhar dentro de uma concha,
me presentear com um pérola,
catar estrelas para meu céu,
cantar com as sereias,
salvar Iemanjá, receber sua benção,
resgatar minhas alegrias,
abrir minhas velas, navegar sem medo,
enfrentar as tempestades, vencê-las,
encontrar os tesouros que mereço,
virar as tristezas ao avesso,
ir de braços abertos
até a linha que leva
muito além desse horizonte...
Me desculpe. Me perdoe.
Por tantas vezes que cego, tive raiva.
Quando deveria ter tido pena.
"Borboleta"
Essa borboleta gigante que entrou pela janela da sala,
pousou sobre a parede, está aqui,
não foi mais embora, não que eu a veja sair,
sua presença trouxe esse gato branco enorme,
que fica olhando para ela, armando o bote.
Ou será que a está admirando como eu?
Com seu colorido, uma rosa na boca que a alimenta,
balança suas asas em um balé perfeito,
sem medo algum, tem segurança no seu espaço,
eu não tenho coragem de expulsá-la,
a admiro, sua força, sua cor, seu brilho,
ela me falou que só sai a noite,
para que não a vejam,
sei que sou o único a vê-la,
a senti-la, a tê-la, essa beleza imensa,
dentro de minha casa, em minha vida,
me lembrando que temos que renascer,
aceitar a metamorfose sem medo,
aceitar as mudanças, abraçá-las,
para que possamos continuar voando,
sem medo do gato, as vezes ele arma o bote,
mas outras, está apenas admirando...
Esse sonho é todo meu...
"Falou"
Eu te amo. Dizia o coração dele.
Eu amo os outros, todos os outros. Dizia seus olhos.
Nada no mundo é melhor que estar com você, ao seu lado me sinto seguro, sinto o calor de quem ama, você cuida de mim, beija minha boca, me dá prazer. Falou sua boca.
Tenho que conseguir enganá-lo, sem machucá-lo, se bem que acho isso impossível, mas, nem ligo, sei que ele irá ficar triste, mas, depois lhe dou uns beijos, choro forçadamente, finjo estar arrependido, ele me perdoa, sempre perdoo. Falou seu pensamento.
Me dá muito prazer passear em você, conhecer cada curva sua. Falou sua mão direita.
Estou morrendo de saudade daquele cara, não lembro o nome dele, nem sua cor, nem de seus olhos, tô tentando lembrar, não consigo, tudo bem, lembro de todos, de qualquer um. Falou sua mão esquerda.
As vezes amo estar andando com você, nas ruas, nos lugares, aqui em casa, nossos pés juntinhos, se enroscando de madrugada. Falou seus pés.
Gosto muito de aventuras, te deixo em casa, por aí, mas, gosto mesmo de estar cercado de pessoas, muitas, todas em minha volta, elas me elogiam, sou querido por elas, as vezes, geralmente, descubro uma ou outra, todas, com uma mentira aqui, alí, sempre, mas, eu gosto. Falou seu ego.
Estou perdido, como pude chegar nisso, o que eu faço agora, destrui tudo, perdi tudo. Falou seu reflexo.
Eu deveria, admitir, falar, aceitar meus erros, mas, não farei isso, vou tentar de outro modo, sei que irei achar, sempre encontro uma saída, vou pensar, sei que vou conseguir, não posso aceitar meus erros. Falou sua covardia.
Até quando você irá me afogar. Falou seus olhos.
"Taiwan"
Que tenhamos coragem de admitir,
assim como temos de negar,
tirar as mãos da boca,
deixar que as palavras saiam inteiras,
e não escorridas pelos cantos,
ter coragem de ouvir a música toda,
mesmo que tenha que se segurar
na ponta da mesa, para conseguir ir até o fim,
não quebrar o braço da vitrola,
para depois ter que engessá-lo com esparadrapo,
e para iludir adorná-lo com um laço de cetim,
deixar a foto no porta retrato,
e não picotada, e guardada,
dentro de um livro manchado de lágrimas,
não mudar de canal quando ver o comercial,
que nos fazia se olhar e sorrir,
o que muda comprar tenis de taiwan,
perfume da frança, celular da china,
se o sonho está em um esquina logo ali,
de que adianta apagar o número da agenda,
se da mente nunca irá sair,
para que tanta pose de forte,
e quando ficar sozinho, seu norte sumir,
de que serviu ensaiar palavras, frases feitas,
se a real vontade é gritar...
Como chegamos ao fim?
