Coleção pessoal de deborahpensa

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Se eu quero um amor?
Quero, sim, por quê não?
Mas não me venha com esses
de bichinhos de pelúcia,
vinhos caros e bombons.
Quero amor caco de vidro.
Amor ressaca de bourbon.

Não um amorzinho belo,
amor flores e arco-íris,
serenatas, violinos.
Se vier amor, que seja
concertina, amor tormenta,
tatuagens, overdrive.

Muito menos um amor
com flechinha de cupido.
Seja um amor violento,
um amor bala perdida,
um amor ponto cinquenta,
um amor roleta russa.

E nem me venha com essa
de amor de coração.
Um amor só me interessa
se for desses que se sente
como um soco no estômago
e, de resto, tão sutil
quanto um bom chute no saco

Deborah A.

quero estar
à beira do rio
que cai
dos teus olhos.

*

barulho
rasga pano,
lâmina,
espero você
até o último
cubo de gelo
derreter.

*

ele vira a esquina
batuca
a caixa de cigarros,
faz samba pra fumar.
do seu alto
caem sopros
de mulheres
que o adoram
feito um deus
de rua.

*

você
esquentou
aqui dentro
das minhas
roupas
de pele.

*

queria caber dentro de uma caixa,
queria que todas as minhas coisas
coubessem dentro de uma caixa,
queria ser pouco, queria ser menos,
mas já me espalhei tanto
que todo lugar me tem.

*

meu amor tá perdido,
pedindo abrigo,
café em copo americano,
pão de ontem.

*

pela rua
esqueço de fechar o vestido,
agora tudo parece tão besta
o acaso rasgando
meus panos
pele
muros de pedra
capas de discos.

*

escrevo
porque palavras são o que nos restam quando longe.
e longe tenho estado de mim.

Sinhá

quero secar você
do nosso suor
no meu varal.

sinhá

boiando
na água até o pescoço
corações afogados
pedem socorro
de boca na boca.

sinhá

eu estava dentro
de uma garrafa
e ele chovia
em mim.
torcia
seu corpo
cansado
que enchia
tudo em volta
até a boca.
mergulhada
no seu resto
seca do meu ar
fiquei ali
sem quase nada
de tudo
que ele levou.

cada vez que me olhava,
roubava um pouca minh´alma

Sinhá

Abre aspas, parêntes e teus braços.

Deborah A.

Tudo que eu não invento é falso

Manoel de Barros

Por pudor sou impuro.

Manoel de Barros

"Do lugar onde estou já fui embora"

(Manoel de Barros)

A voz de uma passarinho me recita.

Manoel de Barros

"As coisas muito claras me noturnam."

Manoel de Barros

Gosto de viajar por palavras do que de trem.

Manoel de Barros

"A palavra amor anda vazia. Não tem gente dentro dela."

Manoel de Barros

Onde eu não estou, as palavras me acham.

Manoel de Barros

Um fim de mar colore os horizontes.

Manoel de Barros

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Manoel de Barros

Sou livre para o silêncio das formas e das cores.

Manoel de Barros

Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas
mais que a dos mísseis.
Tenho em mim
esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância
de ser feliz por isso.
Meu quintal
É maior do que o mundo.

Manoel de Barros

Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.

Manoel de Barros

Power you have. Power to love. Power to kiss you. Love you, what should be more accurate.

Deborah Araújo
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