Coleção pessoal de celsocolunista

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Espumas flutuantes

É quase meia-noite. Por que o sono tarda?
Chegada é a hora, daqui, desta mansarda,
Olhar o firmamento, em sombras embebido,
E receber das ruas constante alarido.

Monótono murmúrio, mais uma vez repita
A velha cantilena de um laço de fita,
Mas, por ter retomado o verso centenário,
Irão meus detratores chamar-me de plagiário?

A ânfora sagrada repleta até a borda
Entorno com cuidado. O líquido transborda.
E afogado em néctar, aos poucos esqueço
Aquela dor que um dia virou-me pelo avesso.

Perdido na saudade daquela criatura,
A mente se rebela, protesta, esconjura.
Mas rende-se covarde à sombra que levita,
Fantasma do passado com seu laço de fita.

Abafam os meus passos espessa alcatifa,
Espio Sherezade à frente do califa,
Contando o sonho louco de um jovem colegial,
Que viu na Messalina a aura de vestal.

O tempo foi trazendo a doce acalmia,
O sono se aproxima da ânfora vazia,
E no mais lindo verso de púrpura escarlate,
O caos da amnésia, debalde se debate.

Pois outros são os tempos. Mas vejo a figura
Menina com seu laço de Vênus imatura,
Tu, náiade perversa, eu, um cabuletê.
Teu corpo é espuma cobrindo o Tietê.

Alexandru Solomon

Finalmente, a exemplo do que acontece nos últimos quilômetros da maratona, o triunfo da vontade sobre o que a ela se opuser

Alexandru Solomon

Criticar um artigo é fácil, expor a insatisfação com sua mansuetude, democrático.

Alexandru Solomon

Tempos modernos.

Acerca de um plágio. (Moacyr Scliar sendo plagiado)
Poeta engajado refém de estranho rito,
Pode ser que se lembre que alguém tenha dito
Não ser nada bom se iludir por presságio,
Muito menos tentar triunfar com um plágio.

Presenciamos de fato escassez de idéias.
Muitos tentam, então, se valer das alheias.
Desempenho papéis que ainda não tive.
Eu que era escritor, me tornei detetive...

Veja bem, aprecie esse meu desconforto.
Outro dia, vagando pelos cais do porto,
Eis que chega um barco com dois tripulantes,
Mas lembrei, sem querer, ter já visto isso “antes”.

Lá no bote avistei um rapaz e uma fera.
Só que ainda distante não sabia o que era.
Meu olhar atreveu-se a flanar até lá
E notou na coleira: “made in Canadá”

Fato estranho, comum nesses tempos que correm.
As idéias circulam. Quem disse que morrem?
Ter escrito primeiro nem vale a pena,
Eis que chega um outro e rouba-lhe a cena.

Não contente com esse pequeno estrago,
Esse outro, que pesca nas ondas do vago,
Pai adotivo dessa bela história,
Reivindica direitos à fama e à glória.

Discutamos se aquilo era uma pantera,
Qual seria de fato a raça da fera,
Se o outro sairia a pé ou de maca,
Ou pior, se a pantera no fundo era vaca?

Se era mesmo um felino, então como fica?
Se era onça, pantera ou jaguatirica.
Se o palco era um barco, um bote ou jangada,
Caso haja barulho será ele por nada?

No meio de tantas refregas pungentes,
Defendemos os frangos, quebramos patentes.
A OMC se alça, sublime guerreira.
Para , enfim, decidir de quem é a coleira.

Moral

Para as fábulas sabemos, só importa a moral
Para autores, se lhes falta, o estrago é parcial.
Lauréis se conseguem, é mais fácil hoje em dia,
Pois se falta a primeira, mostram a segunda via.

Alexandru Solomon escritor fábula

O que acontece com nossa Via Láctea que tanto inspirou os poetas?

POEIRA DE ESTRELAS

Nesse mundo de loucuras, ficar sério? Impossível
Pois há sempre um demônio, o prazer indescritível
De brincar com a palavra , com algum duplo sentido
E por isso há tantas brigas,tanto coração partido.

Caminhando pela praia,silenciosos lado a lado
Ele a olha embevecido, totalmente fascinado.
Mas enquanto suspirosa, ela só enxerga a lua.
O malandro a seu lado sonha já em vê-la nua.

Por acaso prepararam para ele uma vaia?
Não se apressem; a donzela também é da mesma laia.
O suspiro é fingido, e é falso seu recato.
Nesse ponto, eles pertencem ao mesmo sindicato.

É um jogo sem aposta. Nunca há um vencedor
Derrotado , arranhado, só o deus do amor.
Ao flechá-los, malicioso, quis torna-los um casal.
Só desperdiçou as flechas .Pobre Eros, deu-se mal.

Jura amá-la para sempre? Que pergunta sem sentido!
Na riqueza , na pobreza? Questionário divertido!
Qual seria o resultado de tão tola indagação?
Que eu saiba é tão raro que a resposta seja não.

E com o passar do tempo, dão adeus ao romantismo.
Ela só pensa em compras, ele, só no reumatismo
Não se fala mais na lua, nas estrelas, no amor
Pra poeira de estrelas, hoje tem aspirador.

Alexandru Solomon escritor

Versos aleatórios

Nada contra tudo isso que está aí. Se a oposição mantiver o tom reverencial, tudo indica que D.R. será a presidenta – a palavra existe, só falta o detalhe das urnas. Se os debates girarem em torno que quilowats, Erlangs, e toneladas de minério, se a ética for jogada para escanteio, se a subserviência a tiranetes de opereta não for contestada, teremos a oportunidade de vivenciar mais uma volta do parafuso. O programa 1 assustou, o programa 2 já veio mais light, o terceiro é a tranquilidade cor-de-rosa. Uma versão ad usum deplphini – nos tons adocicados empregados para não chocar os herdeiros. Será o fim do mundo? Claro que não! É possivel encontrar uma solução melhor? Claro que sim!

RIBAMAR & Cia

Omelete, é sabido, não se faz sem quebrar ovos.
Mas depende do regime, se melhoras há pros povos.
Quando as gemas vão sumindo, fale-se então às claras
Se sumiram, é preciso descobrir quem são os caras.

Nesse mar de acusações brilha forte um pop-star
Senador, ex-presidente – o famoso Ribamar
Seu currículo impressiona – um orgulho da Nação
Cometeu uns pecadilhos, mas faz jus ao perdão.

Nomeou alguns parentes. E daí, qual é o mal?
Calem-se os que criticam esse nosso imortal!
Recebeu em sua conta um dinheiro indevido?
Ora, ele é inocente. Claro, por não ter sabido.

Um bom pai nunca reprime as proezas do seu filho,
Confusões, se é que houve, nunca foram empecilho
Para que toda família abrilhante a Nação.
Nunca houve Boi-barrica; cale-se o Estadão!

Chega de papo furado, nada de atos secretos.
Ora, querem que a plebe dê palpites em decretos?
Chega de aleivosias, só critica quem não vê;
Está tudo sob controle, contratamos a GêVê!

Não é justo profanarmos esse ser imaculado
Quem denigre essa figura enlameia o Senado.
Puro golpe das elites, da imprensa alcoviteira.
Lula logo esclarece: Isso não foi bandalheira.

Diz o “guia luminoso”: Pelo tudo que eu sei
Não nasceu outro prodígio semelhante ao Sarney.
Uma linda trajetória, ele opôs-se ao terror.
Vem dos áulicos o mantra: Só o Lula é melhor!

O IBOPE imbatível prova é do seu talento
Logo, o oitenta e cinco vai passar de cem por cento.
O que fez em dois mandatos impressiona o mundo inteiro.
Nunca antes como hoje é preciso um terceiro.

Como isso é complicado, é preciso inovar
Encontrar novo caminho para se perpetuar.
Reunidos decidiram, Lula e a sua hoste:
Se não der o semi-deus, vamos eleger um poste.

Para tanto lá vem Dilma de passado agitado
“Iniciemos a campanha” – é política de Estado!
Para tanto é preciso cooptar o Parlamento.
Carpe diem, ou por outra, esse é nosso momento!

Com o Power point a postos e com números brilhantes
Com a Dilma a tiracolo ilustrando o nunca antes
Quem da bola se a campanha foi um pouco antecipada.
Paguem-se algumas multas, isso não vai doer nada!

Criticar e lançar farpas, ora, não passa de tara.
Quem falou sabe das coisas, afinal ele é “o cara”
Atacar o 'inatacável' que orgulha o Maranhão?
Um herói um monumento. É um ídolo pagão.

O Pelé estava errado. O povão sabe votar.
Prova disso?Severino, o Renan, o Ribamar
Para não falar no Jader e outros tantos fichas-limpa!
O adjetivo é obsoleto, a escolha é supimpa!

As blasfêmias que circulam são produtos da zelite
Portadora de doença incurável: denuncite.
Mas o KIT PT a postos é o escudo do Sarney
UNE, CUT, caras-pintadas são mais fortes que o “Cansei!”

Falta apenas um detalhe, não enxerga quem for tolo
O detalhe? A cereja que vai coroar o bolo.
Poderemos, em outubro, eleger a mãe do PAC
Ela é o novo Lula, falta só o cavanhaque.

Alexandru Solomon

Desespero provisório

Ser caniço, ser pensante, enfrentar tormenta
Até onde, até quando,coração agüenta?
Aprender com os seus erros, sim, mas até quando?
Sempre tatear em volta, sempre ir tentando?

Para onde seguirá, alma insensata,
Se a jóia cobiçada não passou de lata?
Um momento de amor com penar se paga.
Para a praia tanto faz que será da vaga.

O tributo pagarei, ano após ano.
Vitimado pelo meu colossal engano.
Cambaleio ao caminhar, sem querer, aderno
Só me resta constatar: nada é eterno.

Cabisbaixo integrar o rol dos vencidos,
Fortunados por deixar de ser iludidos.
Até quando lamentar minha triste sina
Verter lágrimas sem fim em cada esquina?

O regalo que restou, brinde postimeiro
Foi não ser original. Não fui o primeiro.
É melhor me conformar :É assim a vida
Voam horas de prazer, sobra a ferida.

Vendaval ou aquilão, o caniço agüenta
O desânimo passou. A poeira assenta.
Sei que há de me chamar com voz doce :Venha!
Só me restará pegar uma nova senha.

Alexandru Solomon empresário escritor.

Chico Buarque

Sempre foi a mais bonita das meninas dessa sala.
Não, não é do Chico Buarque, é daquele que vos fala
Que, por sua conta e risco, admirava as melenas
Da menina encantadora, que não era de Atenas.

Para ela declamava os poemas de Neruda,
Era um sinal dos tempos, uma “paixonite” aguda.
Comentavam toda hora a Geni, a Carolina,
Mas um dia, a Roda viva afastou-o da menina.

Despedida lacrimosa cheia de “não me abandone”,
Procurou diversas vezes conversar por telefone.
Inspirado na Maysa ou, ainda, no Jacques Brel,
O contato se manteve, só que via Embratel.

Com o tempo, declinaram duração, ardor, freqüência
E, com o passar da banda, conformou-se com a ausência.
Corroída pouco a pouco, desabou a construção.
Amanhã foi outro dia, apesar do coração.

Muitos anos se passaram, numa festa do colégio,
Encontraram-se de novo. Dissipado o sortilégio.
Passearam em silêncio pelo pátio da escola,
Recordando os bons tempos, quando lhe passava cola.

Procurava ver no rosto da senhora corpulenta,
Entre rugas, o sorriso, o encanto, a pimenta,
Que haviam desertado sem sinal de compaixão.
Ocorreu-lhe: “Para ela é a mesma sensação?”


Conversaram mais um pouco com colegas de outrora.
Nada mais fazia a ponte do “então” e do “agora”.
Cabisbaixo, afastou-se sem que ela o notasse.
Caminhando, só lembrava a mais linda da sua classe.

Por instantes, a lembrança cativava por inteiro
Parecia-lhe ouvi-la a cantar Pedro Pedreiro
A imagem se turvava , apesar de obsessiva.
Era tudo a vingança da maldita roda viva.

Relembrava os momentos do passado esquecido
E o trauma do encontro com o grande amor perdido.
Vítima de uma lembrança que um dia o deixou louco,
Prisioneiro de uma frase “partir é morrer um pouco”.

Uma farsa do destino, um embuste traiçoeiro
O instante revivido não valia o primeiro.
Um abraço, um beijo morno e a viu se afastar
Uma lágrima a segue , um suspiro: Vai passar.

*Do livro ´´Desespero Provisório``, Ed. Edicon

Alexandru Solomon

Um traço que não se completa

Não precisa ser das trevas testemunha ou rival.
O seu caminhar na folha o comprime, o esconde
Na procura desvairada do mas como? Quando? Onde?
Pode ser que sua busca se complete afinal.

No começo foi guiado e submisso se manteve,
Ignorando a espera que apenas alucina.
Foi preciso mais de um sonho, foi um rosto de menina,
Para que o sofrimento se derreta como neve.

Escorado na memória, percorreu desfiladeiros
Onde o monstro esquecimento encolhia-lhe o passo.
Para a alma apaixonada o talento foi escasso.
Foi no choro, no soluço, encontrar seus companheiros.

Prisioneiro de um gesto ou refém de uma saudade,
Assumiu o compromisso de fazer jorrar do nada
O mistério aveludado das feições da amada,
Pois no sonho se confundem a mentira e a verdade.

Hesitante no percurso, feito barco à deriva,
Foi dos olhos presa fácil, resistência abandonando.
O mistério, o sofrimento, por ainda estar amando,
Mantiveram ilusória a imagem sempre viva.

Que importa o trajeto quando arde na lembrança
A fogueira esfomeada de anseio e acalanto
A mistura de magia devaneo e espanto
Que ao projetar a alma, esqueceu a semelhança?

Nota do editor: O poeta nos oferta sua men­sagem por meio de versos sensíveis, participantes e aber­tos à porosidade de um mundo atroz que nos cir­cunda.

*Do livro ´´Desespero Provisório`, Editora Edicon.

Alexandru Solomon esritor

O livro vermelho das senhoras "comme il faut".

Para que atormentar-se? É melhor falar às claras.
É sabido que o mundo resumido está em Caras.
Basta ler de cabo a rabo o que consta da revista
E abandonar pra sempre o enfoque pessimista.

Nada há mais importante do que estar sempre malhada
Desse jeito, a idade será sempre derrotada.
Para bem viver a vida, ao diabo a seriedade.
Vale só a boa forma, derrotar a gravidade.

Pitanguy e outros magos são os deuses do momento,
Uma lipo, uma drenagem, lá vem o emagrecimento
Doutor Atkins nos quilinhos foi baixando o sarrafo
O milagre é visível; incomoda só o bafo.

Ao sorrir, eventualmente, aparece uma ruga
O remédio necessário é champanhe e Beluga.
Importante, sobretudo, não ceder ao assomo
E por isso é necessário contratar um bom mordomo.

Para escargots, querida, use sempre a engenhoca
Se escapulir um deles, não se livra da fofoca.
Mesmo se estiver trajada com o mais belo Chanel,
Sobrará maledicência, malharão seu coquetel.

Note bem, não se esqueça a idade é aziaga
Atualizada sempre, não mais vista Balenciaga!
Por você ser jóia rara, que ridículo seria
Esconder seu solitário e usar bijuteria.

Ah, Natura, Boticário isso vale pra a plebe.
Dê à sua empregada; porque ela não percebe,
E daí que a Natura já se vende em Paris?
Falta ainda um bocado pra chegar a Ysatis.

Bronzeado é saúde. Dá um brilho peculiar
Pra fugir do melanoma, use protetor solar.
Clinicas de alto nível minimizam seu tormento.
Para as praias, substituto. Centro de bronzeamento!

Pode ser que de repente se encante com Botox
Só que o Botox nivela, como a máquina Xerox.
Um detonador de rugas, em verdade, ele é.
Justificará as compras Rue Faubourg Saint Honoré

Mesmo lá, não se entusiasme. Claro, é melhor que Sack´s.
Se o dinheiro ficar curto, mande pro Brasil um fax
Solicite um reforço, não é um deslustro não.
O constrangedor seria comprar em liquidação.
O difícil, como sabe, é fugir à tentação.
Mesmo que as invejosas falem em ostentação
Se Paris não a atende, veja o mapa da mina.
Sempre há alternativas na Condotti ou Frattina

Enfrentar tantos problemas é um peso desmedido
E por isso, desde sempre, inventaram o marido.
Que resolverá seu drama, emitindo logo um cheque.
Percebeu que na escolha não há vaga pra moleque?

Fuja sempre da pobreza; e descarte o namorico.
Nada a ver um proletário. Viva o marido rico.
Pode ser que, mesmo pobre, ache graça num amante.
Dê-lhe então, banho de loja no “Mendigo elegante”

Muitas vezes, seus problemas dificultam-lhe o dia
Mas é tola a inquietude, parta já pra terapia.
Viva sempre o momento: Carpe diem, não hesite
Com o Psi dando luz verde, você vira dinamite.

E esqueça-se de Luma, e do caso do bombeiro
Foi só pra chamar manchete, esse idílio no chuveiro.
Seja sempre objetiva, escolhendo novo amor.
Mas se um bíceps a fascina, pegue um estivador.

Digo-lhe: seja prudente. Se não sabe, eu explico.
Aí mora o perigo, que se chama mexerico.
Espalhado por amigas ou por qualquer um que seja.
E já sabe o motivo. Farão isso por inveja.

Não se apegue em demasia, o perigo é total,
Curta, mas sem exagero, caia logo na real.
Fraquejar, perder controle, não se usa hoje em dia.
Para esquecer o gajo, corra pra academia.

Um leg press, ou um haltere, ou aquela plataforma
Passe uma boa hora, para garantir a forma.
Quero ver se, em seguida, bem suada, com calor.
Não irá mandar às favas esse tal estivador.

Finalmente, já curada, após esse acidente,
Sobra um certo vazio, a lhe atormentar a mente.
Tente então uma leitura, Schopenhauer, Jorge Amado
E, se entrevistada, diga: Eu adoro o Machado.

Ao dizê-lo, não se esqueça, fale em tom de brincadeira
Ajeitando seu cabelo, valorize a pulseira.
Para íntimos, amigos, mesmo para conhecidos.
Diga que às vezes sonha ser a Flor de dois maridos.

Alexandru Solomon

Os pássaros que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá, costumava dizer o empalhador.

Alexandru Solomon

De grão em grão, aumenta o desfalque.

Alexandru Solomon

Às vezes lamentamos que a justiça seja cega e a imprensa não seja muda.

Alexandru Solomon