Coleção pessoal de carolinapires
Tenho divergido constantemente das minhas próprias vontades. Pensara eu que jamais me envolveria novamente em tais perversidades, aquelas que por tempos, arrastaram-me pelos cabelos, braços, pernas (arranhadas). Queria mas não podia (é impossível existir amizade, sem desejo, entre um homem e uma mulher) e em poucos minutos mergulhou no cheiro do real, quiçá fossem meras fantasias, mas foi palpável (e como). Essa história não terá um fim tão cedo. A fome, de fato, não consegue conter o desejo da carne vermelha pela carne branca.
Carolina PiresQueria que olhasses na minha cara e me falasses mal. Anda, vá em frente! Eu agüento! Livre-se logo de todo esse peso e rancor que carregas sobre as costas por minha causa. Bata nas paredes, quebre as portas ou desconte toda tua raiva, com força, em mim. Prometo não reclamar. Mas pelo menos, depois disso tudo me olhe, mas olhe no fundo dos meus olhos com toda aquela intensidade que um dia me possuiu devorando-me com uma única tragada. (E os tragos me fazem lembrar de ti, uma ironia e tanto.) Eu ao menos gostaria que entendesses esse meu infinito todo vulgarmente conhecido como minha vida.
Com todo o meu amor um pouco torto,
Carol.
... Essa notícia não me fez nada bem e por isso peço que me esqueças até que eu esteja suficientemente bem e te procure espontaneamente, o que garanto que irá demorar. E desse suco espero não beber nem mais um gole sequer, ele já está amargo demais pra mim.
Carolina PiresOs relógios não colaboraram comigo e eu me senti incapaz de seguir os mesmos compassos que tuas pernas. Nossos metrônomos estão em tempos diferentes; o meu, sempre mais ansioso, frenético, inquieto, impaciente. Não agüentei. É difícil ficar sem manter contato, sem sentir nossas línguas permutando. Teu contrabaixo deitado em minha cama ocupava teu lugar, mas não me saciava a fome daquele todo desejo que fizeram minhas costas suarem, como ontem pudesses perceber. Ele ali, afinadíssimo e eu morrendo de saudades dos teus acordes destoantes tocados em minha pele com tua composição de delicadeza e canibalismo à flor da pele. Obrigada por voltar, meu corpo já estava sentido frio.
Carolina PiresE de lágrimas definharei, pois nada terei para hidratar-me senão minha própria gota salgada. A ti que tanto pertenço, desvaneço como um raio em lampejos de azul e branco, em que o branco és tu e o azul ainda não tem nome, entre a tempestade nesse bosque escuro onde me sinto só. Eu tenho medo do escuro. Sem ter outro remédio percebi que minha vaga existência sempre se resumiu a simples ideia de nãoprecisardeninguém e é incrível como com o passar do tempo tudo isso começa a me perturbar, involuntariamente. Quantas gotas escorrem pela janela; eu sou uma delas: chuva fina e gelada que arrasta consigo todos os problemas do mundo, mas eu ainda fico, enraizei aqui para atormentar-te, ainda sofrerás muito por minha causa, meu bem. E não é porque quero, apenas o faço e quando menos percebo, estou a perfurar-te com minha adaga que acabei de afiar. Meus pés giram e saltitam por aí. De pele escura, para pele escura, não faço mais contraste. Do que me foi branco, só quero o sonho, do que me é escuro, quero os olhos abertos, bem abertos. Mas não é, nada é, esses são apenas os pensamentos que vão e veem, aniquilando-me. Quero que permaneça em ti, aquele meu velho perfume suave, aquele qual aromatizou todos os seus lençóis e fronhas de travesseiro; aquele perfume acabou e não é metáfora, infelizmente. Hoje sou de outros aromas, mais intensos, e eles andam residindo em outras fronhas, mas é tudo por acaso e sabes que o acaso sempre me foi de grande agrado. O acaso e o ocaso - devo confessar. Você que nada de poesias apreciou, hoje de técnicos escritos vive, mas aviso que Vinícius de Moraes tem dormido em minha cabeceira todas as noites e tem sido uma ótima companhia. Meus últimos versos são cruéis, eu sei, mas já era hora e eu espero não acordar amanhã arrependida. Teu sorriso e teus braços ainda me sustentam, és minha base e se daqui saíres, de mim não sei o que será. Tua pele clara, não se encontra mais arranhada por minhas unhas carcomidas pelo meu nervosismo irrefreável, encontra-se lisa e eu, crespa.
Carolina PiresMudar de ar
Mudar de pensamento
Mudar de carne
Mudar de blog
Mudar de tudo.
Mudar.
...
Talvez, digerir.
Indigestos: http://www.carolinapirescampos.blogspot.com
Dom. 4 out. 2009
08h00 - Aquele rodízio de carnes não mais me satisfaz. Prefiro À la carte. 09h42 - Mas eu ainda uso aqueles mesmos velhos lençóis com teu cheiro de fumo, conhaque, menta, sangue e esperma. 10h10 - Línguas de mesmo sabor e textura... Não há atrito! 10h23 - golfeipiegas. 11h03 - Preciso vestir minha nudez. 11h28 - aqui.nada.pulsa.nem.teu.sexo 12h02 - Encontro-me, mais uma vez, emaranhada com as pernas de outro. 12h34 - Mãããe! Acabou minha borracha! 13h01 - sorrio. 13h15 - queria parar de ser tão eu. 13h43 – Toca telefone, toca! 14h02 – Alô?! 14h33 - várias gotas de um suor cítrico. 15h06 - pus-me a roer a unhas. 15h32 - Não te vejo em expressões. 15h34 – Dança. 15h35 – zouk. 15h37 - Corpo. 15h39 – Pele. 15h42 – roupas ao chão. 15h44 – Escrivaninha. 15h45 – [censurado] 18h31 – é,vocêsediluiudentrodemim. 19h27 - Sou toda tua. De front, de lado, de costas... 20h14 – Minhas unhas, suas costas. 20h23 - não te vejo em desejos; encontro-me em vontades. 20h25 – telefone. 20h38 – Fome. 21h13 - você me cai em doses homeopáticas. 21h33 – você me soa mudo. 21h46 – estremeço.arrepio. 22h02 – Transpiro amargo. 22h17 – transpiro.veneno.em.gotas. 22h34 – pernas bambas e muita fome. 22h49 – bye bye. 23h01 – sinto e não sinto a tua falta. 23h59 – várias golfadas de gosto amargo. 00h00 – boa noite, mãe.
Essa minha cara, meia-cara, cara fria, cara à tapa, talvez fosse isso que merecesse. Sinto-me incapaz de proferir o que há de mais ingênuo, sinto-me, também, covarde ao entregar os pontos, ao abrir os olhos e ver que não consigo manter-me de pé sem uma terceira perna, fazendo-me então um tripé estável. Sinto falta de ser arriscada, pelo menos eu podia caminhar, fosse para frente, para trás ou para os lados nos meus momentos de perplexidade. Acontece que com essa terceira perna não há locomoção. Eu tento, tentei, mas sou cristal que se encostar... Vivo num mundo onde o tudo é inconstante e o nada se tornou totalidade.
Ah! Eu detesto ser melodramática.
A pele inquieta, gélida, passa a sentir falta de ter um corpo másculo sobre este feminil, agora, frígido que só. Espera-se não ser esquecida por entre grandes tragos de vinho branco nesse tempo ameno que aí, longínquo, abraça. A mão suada tramando fios de cabelo e o calor de dentro embaçando o vidro do carro com o frio de fora; Desenhos. Saudades, e não se esperava por.
Carolina PiresA infâmia nunca me dá as caras. Talvez fosse pelo fato de ter uma grande dosagem de álcool diluída em pouco sangue, os corpos já não respondiam tanto por eles próprios, o instinto, a impulsão era muito maior do que se possa imaginar. O ambiente dessa vez estava realmente resumido em sudoreses e não havia janelas abertas capazes de impedir tal... Luxúria. A famosa saída à francesa, tornou-se alemã, brusca e deixou claro aos mais íntimos, o ar, a pretensão estampada em ambas as faces, afinal há tempos os corpos não se encostavam tão impetuosamente. - Desculpe, não pude controlar, era mais forte que eu. Parece até que após tirar certo peso das costas, a trama tornou-se muito mais pulsante. – Espera-se que o tal peso, não resolva dar as caras novamente, diz-se, por fim, que o recado fora compreendido. Dessa vez não houve tempo para troca de olhares, era sexo sem perdão mesmo, a tara, desequilíbrio, era maior do que se podia manipular, afinal, as mãos andavam bem melhor ocupadas do que para quaisquer tentativas de controle próprio – pelo visto, ambas as peles não queriam mandos da razão, exalávamos aquilo tudo e nada parecia poético. O odor característico perseguiu-me noite adentro, nem meu soutien fora poupado de, os cabelos então... Eles sim, diziam tudo, cada fio, detalhe por detalhe; o desejo por ti, assim, da cabeça aos pés. Pé ante pé, caminho a casa com astúcia.
Constatação do dia: Hoje é dia de lavar as roupas.
Me procure sem motivo aparente e faça tempestade em copo d’água. Me apavore, me enlouqueça e me envolva numa suposta pretensão. Me instigue, me irrite, invente motivos para pensar que pode ser e depois me alucine parecendo dizer não. Fuja. Passe dias, noites, horas ao meu lado e me conforte. Me acalme, me anime, me faça rir. Depois desapareça, me esqueça, me critique, me hipnotize. Confunda. Se declare, me rejeite, me difame, me oriente e eu, gramaticalmente incorreta, continuarei incoerente, desconexa, envolvida. Procurar-te-ei em tudo, em todos. Não te encontrarei, não saberei quem és. Imaginarei minha vida envolvida, enrolada nos teus braços, nos teus olhos. Em filmes, músicas, pássaros e copos de uísque barato eu me trancarei, esquecer-me-ei, afogar-me-ei. Um, dois, três, quatro modos de loucura. Às vezes cinco, muito gelo e um gole. Entorpecerei logo. Aí, devassados, vestiremos a nudez, compartilharemos o mesmo teto por uma noite, saborearemos o melhor vinho: fel. Transmitiremos calores incansáveis, incessantes e adormeceremos exaustos apenas sabendo que o inferno é o máximo. Depois fingirei que nunca te conheci e te encararei no meio da pista. Dançarei contigo como se tivéssemos dezoito anos e ficarei contigo, transarei no primeiro encontro. Esquecerei tua nobreza e me insinuarei para ti, seduzir-te-ei e enfim te terei novamente aqui.
Carolina PiresTalvez fosse pela não-falta-de-tempo contida no meu dia, mas hoje eu me arrumei. Arrumei-me para ti, unicamente, e nem sequer obtive olhares, enquanto eu, como de costume, reparei em cada detalhe. Ah! Havia uma sobrancelha mais desalinhada que a outra, pensei em arrumar, mas te vi tão apaixonado, envolvido nas cordas do contrabaixo... Resolvi não incomodar, afinal, admiro cada dissonância de tuas cordas. Imãs de pólos iguais, repelindo, repelindo, repelindo. Quem me dera se fosse pela ausência de beleza e curvas neste corpo cansado, antes fosse. Talvez eu esperasse um algo a mais, mesmo sabendo que prometi pra mim mesma, não planejar mais nada, mas como estou cansada de saber, meu relógio segue outros compassos, sempre adiantados e fora do ritmo. Dessa vez eu não esperava nada mesmo, juro. Só de pensar que os corpos podem pulsar novamente na mesma batida do jazz ao fundo de toda cena... Sei que quando os corpos descobrirem que estão diante de uma aproximação um tanto mais intensa que carnal (eu falo de fome, canibalismo), o tempo não terá conseguido cessar o magnetismo e se eu falar com um ar modesto, tenha certeza de que estarei fingindo.
Carolina PiresNão uso meu rompimento de ligamentos do tornozelo como real motivo para meu desequilíbrio, quem me dera se fosse. Recordo-me daquela noite em que fugi para teus braços. Tua cama está cheia de histórias a contar. Acho que esqueci algumas palavras por aí. Cheguei a casa para redigi-las e nada me veio em mente, mesmo sabendo que bolei contos de mil e uma noites enquanto tramávamos a cena. O fato é que sinto falta da tua cama e dos teus lençóis surrados e digo que é uma pena ainda não teres vindo aqui gastar meus lençóis novinhos com cheiro de loja. Sinto muito, eu não queria ter dito isso, mas escrevo à caneta e usar corretivo deixa o caderno tão feio...
Carolina PiresTrês noites. Colados. Umbigo com umbigo. Agora sim, meus lençóis tiveram o prazer imensurável de sentir teu corpo castanho roçando neles. E não só eles tiveram esse prazer, diga-se de passagem...
Carolina PiresEu choraria se burlesco fosse, gargalharia se nefasto fosse. Como dizem, é triste olhar nos olhos de quem tu amas sem nada poder fazer. Bato palmas e sorrio, ingenuamente. Jatos viscosos, obtusos; engulo, digiro, defeco. Assim, crus e nus.
- Ah!... Nu. Nu e aqui dentro, pulsando. Tua nudez descorada que tanto contrastou com a minha ausência de ornatos indigesta. Sinto fome.
O batom que corava suas roupas brancas em vermelho, hoje reside na gola de outra camisa e o meu perfume nos pêlos de outra carcaça, aquela qual me sacia de todo. A pele é branca, dessa vez fria, de velos dourados e olhos límpidos. Acho que apenas mudamos nossas identidades, não (?).
Saudade, fogo; silêncio, verdade. Vício. Um viajar na madrugada de sombras violeta sem palavra-espelho. Deserto. Amarela era a rosa. A sola da sandália na água do rio do bosque de árvore e poeira, muita poeira. Mescla morte, guerrilha e neve. Você?
Carolina Pires- Aquele rodízio de carnes não mais me satisfaz. Prefiro à la carte.
- Mas eu ainda uso os mesmos velhos lençóis com teu cheiro de fumo, conhaque, menta, sangue e esperma.
Os últimos devaneios não me caberiam assim tão épicos líricos. A cada gota que me faço, desfaço-me em migalhas, aquelas quais espalhei pelo chão para saber o caminho de volta a casa, regressar não vem ao caso. De cretinices em cretinices aquelas quais diluo-me em prazeres impudicos fodidos e mentirosos de outrem, encontro-me cheia de más intenções e discursos vazios - a felicidade cheira a shampoo barato. Chamaria plenitude se vago não fosse o emaranhar das línguas de mesmo sabor e textura - sabe, não há atrito. Desconfio que só ele ame minhas insanidades e as aprove e desfrute como se fossem saborosas feito mel. - Não me julgues assim, não podes desejar-me tão apaixonada. - Estive a pensar nisso “minhas últimas utopias ainda me batem forte a cara” e quando menos percebi, estava a criar peixe nos olhos. Recordo que enquanto dormia eu desenhava palavras de amor invisíveis no corpo dele. Eu o tocava naquele espaço grandioso que era meu futuro na constelação de pintas de seu ombro. Mas ele não entendia os meus signos. E de repente eu não me basto, há tempos nos despedimos sem tom de fim. Faz alguma diferença eu tentar explicar? Preciso de mim, dele, de nós, não sei, preciso. De nós, aquele nós que nunca foi a gente. Eu, então, faço-me inverno, declaro-me Sibéria.
Carolina PiresUm dicionário torna-se taciturno e estúpido quando posto ao lado de um silêncio de tantos significados em meio a sudoreses escorrendo pelas paredes nossas. Declaro ter cansado de amar, seja em primavera, verão, outono ou inverno; é desgaste físico e emocional, sabe? Fácil seria apenas uma troca de olhares, um sinal, uma cama de casal, – talvez nem disso precise - luzes apagadas e ponto, deixar que a fantasia tome conta de todo espaço. Não se precisa de letras, sílabas, palavras ou até mesmo frases, basta um puxão de cabelo, uma mordida na orelha que tudo estará dito. Não seríamos obrigadas a confiar em palavras de fregueses quaisquer, daquele tipo que fala, fala e nada exerce. O ato apenas, pode ser frio, mas é só de início e tenha certeza que ele é muito mais sólido, tangível, mais simples. Depois só nos resta alvorecer após compartilharmos uma cama, ou tapetes, ou um chão frio, e darmos adeus. Seria ortodoxo talvez, mas com certeza, muito mais saboroso, muito mais satírico.
Carolina PiresAs flores da invernia encobrem as ruas em rubro e rosa e nem sequer escuto mais o crepitar das folhas de outono. Eu te amei em ventos de maio, mas te odiei em cores de verão. Em primavera a pele desbotada te vestia tão mais desejável... Hoje é inverno e eu delicio outros doces, dos mais confeitados, aquele tipo que alimentam os olhos, engordam o corpo, mas não matam a sede da boca seca.
Carolina Pires