Coleção pessoal de breguedo
Uma puta fala de tudo ao seu modo, um político fala pelos cotovelos e enrola a língua nas pernas, o poeta não fala de tudo, nem enrola a língua nas pernas, mas sua língua é aquela que entra no bordel e na tribuna, como aparato do homem brilhante e do ser mais simples.
Sidiney BreguêdoO amor tem uma missão. Pense em todos os grãos de areia da praia, o amor precisa juntá-los. E se você acha isso absurdo, é porque ainda não conheceu o amor.
Sidiney BreguêdoMorrer de estudar uma idéia, dormir e acordar com ela, como se fosse a coisa mais importante com a qual encontraste, este é o grande momento do poeta.
Sidiney BreguedoDesprezar o poder que existe nas mãos de homens sem expressão, pequenos homens, como servidores públicos, policiais, pais, ou mesmo presidiários, ignorando a microfísica do poder, certamente é a forma mais fácil de deixar o país cair em desgraça, já que este poder aparentemente microscópico invade a casa dos homens mais simples.
Sidiney BreguêdoOs operários passam o dia no trabalho, trabalho pesado, e quando chegam em casa vão ver novela e aguardam na mão o prato de comida, antes de irem para cama dormir. Mas o intelectual não, este não desliga, nem mesmo depois do trabalho. É no correr da longa noite que repassa suas idéias mais preciosas. Veja um homem com grandes olheiras e saiba: ali tem um intelectual.
Sidiney BreguêdoTentam arrumar significado para tudo, até para um beijo. Ora, um beijo é a forma que o ser humano achou de namorar olhando estrelas no céu da boca.
Sidiney BreguêdoOs filósofos sempre acreditaram que pensar não é uma atividade, por isso conseguiam ficar horas fazendo isso sem se cansar, quando o homem tornou o pensamento forma rudimentar de trabalho, o cansaço se apossou do intelecto humano. Talves seja por isso que as grandes ideias surgem nos lugares mais inusitados e no trabalho nos falta inspiração.
Sidiney BreguêdoNenhum tempo é todo o tempo que eu preciso. Minha vertigem se esconde na esquizofrenia do nada e é o alento que me faz pensar, se nada sei do que não aprendi, tampouco posso acreditar naquele conhecimento que veio dos outros.
Sidiney BreguêdoEu vi de tudo! Foi o que me disse um cego na fila do INSS.
Sidiney BreguêdoFAXINA NO FIM DO LIVRO
Uma faxina na casa alivia a alma
Que dorme na inconsciência do medo.
Quão suja está esta ideia
Murmurando silogismos tristes
De heróis mortos.
Ainda escuto estórias de um poeta
Lutando na guerra de canudos.
Seus papiros estraçalhados
Comandando as tropas
No cair da noite,
No regar do vinho.
Nenhuma verdade será dita
Na poesia.
Poesia é mentira escatológica
Murmurada na caverna
Da alma.
Onde maravilhosas
Sementes de plágio
Naufragam na contaminação
Vermelha do sangue.
Tem que ter cor!
Letras pálidas
Não trafegam pela multidão.
Afirmem o sim,
Neguem o não,
Poesia boa é a que causa explosão.
A que mata gente,
Sem compromisso com a verdade.
Um turbilhão de insetos
Procura entrar por teus olhos,
A paisagem noturna
Parece a imensidão de águas
No centro do mar.
Deixa sair os bichos da carne!
Um velho aposentado,
Apodrecendo no sofá da sala,
Se prepara para ser poeta.
Poeta é o que já foi
E será,
Como as águas evaporadas
E condensadas em chuva
Do mar.
Tamanha dor do mundo
No coração do vagabundo
Crucificado do lado de cristo.
Sem palavra,
Solto ao horror esferoide
Do grito sempre vivo no seu ouvido.
E o que lhe dizem os anjos?
Seus arranjos têm lógica?
Não é fácil suportar as letras nos olhos
Quando a grama verde
Se comunica com os pés.
Abre-se branco um horizonte esparramado
Onde cavalos coloridos
Estudam lições do marxismo.
Neste miolo de algazarra, meu pai,
Senhor e menino,
Em sua carroça de bois,
Busca areia no riacho
Enquanto pajeio os sapos
Nas margens plácidas.
O que me contam eles
É digno de respeito:
A verdade dos reis
Aberta como conceito.
São descendência da nobreza,
Voltarão como voltou Cleópatra
Postos a mesa.
Não importa,
Meu pai não percebeu a importância
Daqueles seres.
Nem dos poetas,
Notáveis reis do insignificante.
Uma áurea de insônia
Acompanha cada um desde que nasce.
Faz uma faxina,
Lata de goiabada não entra no museu.
Guerra de almofadas e pesadelos,
Faz os melhores textos
Quem não tem zelo.
AS BOLAS BRANCAS DE ALGODÃO
Dois senhores se encontram no corredor do hospital. Carregam maletas pretas de médico. Nenhum deles se importa com o fato de estarem vedando a passagem das outras pessoas.
“Pedro, que prazer enorme vê-lo!”
“Fala Alcides!”
“Tem ido ao teatro de bolso?”
Era de lá que se conheciam, na faculdade de medicina foram apenas por orientação dos pais. Um virou clínico geral e o outro cardiologista.
“Você ainda tem aquele fusca que comprou do promotor?”
“Claro, é com ele que vou ao teatro de bolso.”
“Outro dia encontrei a Marli, lembra dela? Estava no cachorro quente com um brutamontes, lá próximo do teatro.”
“Ela sempre gostou desses trogloditas.”
“Mas é gostosa pacas, um dia ela pediu para examiná-la e me mostrou os peitos.”
“Examinar nada, ela tentou dar para todo mundo.”
De repente o alto falante do hospital ecoou: “Doutor Pedro, queira se dirigir ao consultório dois.”
“É para você.”
“Esse povo enche o saco. Estou atrasado só duas horas!”
“É.”
Logo a telefonista chamou o outro, pois o paciente já estava na mesa de cirurgia. No entanto ele deu de ombros. O paciente que espere, pensou, a causa era nobre, tinha muito tempo que não via o amigo.
Conversaram durante um bom tempo, soltaram boas gargalhadas e nem sequer perceberam o povo que passava os olhando. Eram como grandes navios balançando no cais. Ali, eram impassíveis. Como no filme do diretor Joseph Sargent, sabiam ser quase deuses. A experiência lhes mostrava que a realidade era um teatro de bolso.
“Imagina que esses dias li na Bravo uma história do Chico Picadinho e lembrei-me de você.”
“Como assim?”
“O cara é quase um cirurgião.”
“Não é aquele cara que fica lembrando Kafka na prisão e que está lá por ter esquartejado uma bailarina austríaca?”
“Isso, a Margareth Suida.”
“Mas o crime foi aqui em São Paulo.”
O outro questionou a comparação absurda, mas acabou por rir do humor negro do amigo.
Depois daquela hora a telefonista os chamou por meio dos microfones por diversas vezes sem sucesso. Estavam no mundo pessoal e intransponível do seu olimpo próprio, de onde os reles mortais não os podia tirar.
Cansados de ficarem em pé, ali no corredor, entraram na primeira sala que encontraram. Na verdade era a sala de sindicância do hospital, onde tinha um confortável sofá. Com a proporção do conforto estenderam o assunto por outros tempos. Os servidores da sindicância, constrangidos, saíram da sala. Todavia, os dois não perceberam isso, e muito menos, a insistência daqueles que os chamavam para o trabalho.
“Olha só, passou uma hora do nosso horário.”
“É, então vamos embora.”
Saíram da sala passando pelos servidores da sindicância que aguardavam lá fora.
“Sim, vamos embora, depois anotamos as horas extras.”
O ódio? O que é o ódio? Ele é calendário sem fim dos dias intermináveis, a mão que arde na brasa da burrice.
Sidiney BreguêdoCada discurso é a construção de um muro psicológico, quando vou a reuniões e palestras fico observando o povo em geral, cada um encima de um muro, e na sociedade toda as pessoas sentadas nos mais vagabundos, nos mais deteriorados, se torturando em arames e cercas elétricas, mas satisfeitos com a verdade dos outros. Alguém já disse: "pare o mundo, quero descer!"
Sidiney BreguêdoPALHAÇOS DE FUNDO ROSA
Bolas negras
Dum universo que não se alcança,
A maça podre da esperança
De que colinas seja o caminho
De quem avança
Para a guerra
Sem carinho.
Berram salgados homens de cor,
Coloridos com aquarela
Desistem de fazer amor.
São poucos
Nos dias de hoje
Com sangue na foice
Atravessando a cidade.
Do outro lado está
A pasta da caridade.
Toma tua colher de veneno,
Os mais brutos
Usam rosas
Como assinatura de tenazes
Vontades desacordadas.
Ceilândia 2011
http://www.clubedeautores.com.br/book/47398--PALHACOS_DE_FUNDO_ROSA
Surfar na língua, ficar molhado pelo cuspe do guri original, que jogou biloca, que caçou pardal e tisil somente para olhá-los brincar e voar juntos. Ah, surfar na língua, quem dera, na língua com suas enormes ondas, em tempos de mudanças tão drásticas, onde tiram do vovô o chapeu e deste o acento.
Sidiney BreguêdoEscrever sobre tudo. Destruir a própria intimidade, esta é a missão dos bons poetas. Falar do mundo paralelo, interior e real que sucumbe à sabedoria popular.
Sidiney BreguêdoVER DESPIDA UMA MULHER
Ver uma mulher despida
Tem certa arte.
É preciso voltar no tempo
Para ter a sensação
De a roupa escorrendo
Por seu corpo.
Não só isso.
É preciso ser selvagem
Como nas cavernas
No fim da terra e das eras.
Ser primata
Com olhos de fogo.
E a temperatura do corpo
Deve ser sentida
Por um faro animal.
Antes de tocá-la
É necessário
Sentir os versos
Desprendidos da carne,
Sempre vermelha,
Carregada de sangue.
Ver uma mulher despida
É um prêmio.
Os seios felizes,
Soltos, representando
O coração pulsante
E cheio de sentimentos.
Os olhos,
Como sempre ficam,
Beirando o chão.
A timidez do momento
Com cheiro de capim seco.
Poros eufóricos
Dizendo
Do amor fantástico.
Ceilândia 2010
http://www.breguedoartista.blogspot.com
Queria escrever uma onomatopéia sobre o amor. Silenciosa, sutil, mas verdadeira e forte. Seria minha obra definitiva. As poesias todas não falariam como seus sons.
Sidiney BreguêdoBEM PERTO DE AMANHECER
Não há no meu coração porta.
Na subida ao céu
Corvos loiros entram
E saem sem se preocupar.
Não hão de ficar presos
Em meus sentimentos.
Deitado para dormir
Pareço morto,
Já que estou no céu.
Como errante
Que chegou sem malas.
Visita rápida
E uma olhada no pai.
Sua barba
Ainda explica as eras,
Mas seu silêncio
Ainda não me diz
Nada.
http://www.breguedoartista.blogspot.com
Pensem no amor como uma visita ao paraíso, mas não para regozijo próprio e sim para limpá-lo.
sidiney breguêdo