Coleção pessoal de alinediedrich
Cúpido, cupins e afins
Nem era questão de ser certo ou errado. Mas de simplesmente ser.
Um carro velho que expirava muito dióxido de carbono. Velocidade abaixo do permitido naquela via rápida. Ainda ouvia fitas de um velho rock and roll. Óculos escuros para evitar o sol de frente no final da tarde. Cabelos que balançavam com o vento gelado do inverno. Finalmente noite para libertar a energia acumulada o dia todo como se fosse bateria recarregável. A pista, uma boca bem desenhada, olhar sedutor e qualquer corpo bastavam.
Um estúpido - como diria a música - cúpido que causava buracos feito cupins na madeira. E uma paixão por alguém depois por algo, para preencher aqueles espaços vazios uma vez por semana. Dez lances de flechas erradas. Mais de mil recordações.
Sintonia fina. Garçom, por favor, dois copos de atitude. As luzes cansavam a visão. O barulho, antes música, depois apenas e ensurdecedor barulho que irritava os tímpanos. Nada tão bonito que não pudesse esquecer, exceto seus sapatos de salto comprados especialmente para ocasiões como aquela, então levados em mãos e largados no mesmo carro – calhambeque – num momento de completo delírio causado pelo etílico das bebidas. Achou-se Cinderela. E foi na busca por achar-se que tantas vezes se perdeu.
Cinderela de profundas olheiras. Cara borrada pela maquiagem comprada na farmácia. Corpo suado. Enfim, só. De frente para ela mesma num reflexo confuso que sugeria ser mais bonito do que realmente era. As fotos espalhadas pelas paredes pareciam sorrir. Pareciam. Acessórios de camelô. Decoração barata. Moradora de apartamento de um canto pobre da cidade.
Ainda assim habitante do mundo e um mundo que habitava nela. Como todo mundo. Amiga dos versos, das poesias tortas, das músicas dançantes, dos cupcakes e dos gostos amargos do amanhecer. Passagem pelo hospício. Mas para quem foi dado o direito de julgar? E como chamar alguém de louco – de louca no caso dela – na era do politicamente correto? Pensamentos viraram questionamentos que careciam de respostas para todo o sempre. Despiu-se. Despiu a alma também como um atentado violento ao pudor.
__ Louca. Crazy. Crazy. Crazy!
Dizia para si mesma como tapa na cara em frente o espelho.
Transtorno obsessivo compulsivo foi o último diagnóstico. TOC. Toque. Vícios? Possuía muitos. Principalmente os de linguagem.
__ Perdoe-me pelos mal conjugados verbos.
Desculpou-se em oração.
E depois, sem fôlego para mais uma dança e cansada por não conseguir parar de pensar, deitou-se. Adormeceu. Sonhou e encontrou um mundo distante do seu. Mesmo assim eloquente. E o relógio mais compulsivo e transtornado então despertou.
E despertou. E despertou...
Habitante do mundo e um mundo que habitava nela. Como todo mundo.
Aline DiedrichAmigos dos versos, das poesias tortas, das músicas dançantes, dos cupcakes e dos gostos amargos do amanhecer...
Aline DiedrichO guardião da caverna de cristais
Parecia uma criança diante a mão de quase 30 polegadas do homem gigantesco e monstruoso, uma aberração, parado em sua frente e pronto para atacar. ELE, apesar de alto e forte, lembrava mesmo o menino pequeno e frágil que era no dia em que fizeram dele o guardião da caverna de cristais.
Recuou. Se pudesse se refugiaria lá dentro. Mas os soldadinhos que, apesar de nanicos, estavam armados “até os dentes” já cercavam o local. Mal intencionados eram todos em sua volta, prontos para ferir aquele corpo escultural e desmanchar um sorriso que deveria ter sido moldado.
Seus olhos (por hora azuis, por hora verdes) avistaram ELA correr contra o vento, perder-se na plantação e desaparecer no horizonte. ELE Explodiu. Explosão de luz. Caíram humilhados os soldados e o gigante gargalhou glorificando-se, apesar de não ter feito nada para aquilo acontecer.
Distante, do alto da montanha, depois de outra explosão, ELE refez-se. Como uma Fênix que renasce das cinzas. Avistou lá embaixo: os nanicos derrubavam a caverna e o homem monstruoso lapidava com as próprias e grandes mãos os cristais que restavam, porque queria ostentar nos dedos os anéis de tamanho brilho que agrediriam quaisquer retinas atrevidas e curiosas.
Então ELE encontrou ELA. Pularam no riacho de água cristalina, sob os raios intensos do sol da manhã. E ELE ainda temia essa história de ELA transformar-se em cristal ou em gente quando desejava, e pediu para não mais petrificar-se para não correr o risco de virar enfeite.
___ Mas quem nunca se sentiu uma jóia por ser venerada ou uma bijuteria pelo menosprezo, como se fosse fácil medir o valor das coisas?
Perguntou ELA, e ainda confessou que temia essa história de ELE virar pó (como se nem tivesse ossos) e depois ressurgir (recompor-se) estonteantemente bonito e mais preparado.
___ Mas quem é que não se recompõe sempre para o amanhã?
Em todo caso o que ELE e ELA fizeram não foi fugir e desistir dos cristais, foi apenas uma saída estratégica para proteger o que havia de mais preciosidade naquele bizarro lugar: a vida.
De repente aquela pedrinha pequena, escondida e desacreditada, sustentava todo concreto...
Aline DiedrichMudar o mundo material é fácil, basta ter os recursos. Desafiante é ajudar a transformar um mundo que existe dentro de cada um de nós...
Aline DiedrichPara jogar ele apenas necessita, sempre, recompor-se para o amanhã – futuro incerto –, porque seu corpo precisa força, a mente consciência e o coração... O coração é outra história.
Aline DiedrichMas e daí? É só mais um jogo. Só mais um jogo da vida. E nela, na própria essência da existência, tudo se ganha: a infinita descoberta, a paz das coisas mais simples e o prêmio maior chamado APRENDER... E isso não há dinheiro que compre, não há pódio que eleve, não há pedra que forme um castelo maior...
Aline DiedrichPara o bom jogador não existe partida encerrada, apenas intervalos, alguns blefes e mal elaboradas tacadas ou chutes... Escolha sua modalidade. Sem regras, número de participantes ou torcida enfurecida, neste - exclusivamente – jamais existirá um perdedor, porque se trata do jogo da vida!
Aline DiedrichPodemos construir algo enorme, mas são as pequenas ações que transformam. Temos muito para oferecer: um afeto, um afago, um sorriso são suficientes num lugar cuja principal carência é de sentimento de humanidade.
Aline DiedrichPensou: “Que mundo é este? Tem bandido que vira mártir, herói que não é bonzinho e vilão com desculpa boa”.
Aline DiedrichA felicidade não é egoísta, porque ela depende do estado de espírito do outro!
Aline DiedrichNão seja o que mundo espera de você, mas o que você espera do mundo...
Aline DiedrichUm brinde às nossas loucuras
Não sabia a diferença entre herói e vilão, porém sua tendência sempre foi escolher o personagem preferido depois de a saga acabar. “Torço para quem ganha”, dizia ele. Pirralho com vocação para mudar o mundo, mas suas ideologias baratas de banca de gibi ou locadora eram abafadas pela sociedade de gente grande.
Seja médico ou advogado, o pai dizia. Jogador de futebol era escolha boa também para enchê-lo de orgulho e de grana. Mas perna de pau e distraído, o máximo que conseguiria era virar o estádio de ponta de cabeça, acusar o próprio cliente no tribunal ou transplantar órgãos errados na mesa de cirurgia.
Então cresceu. Doou para a biblioteca a coleção de quadrinhos e foi trabalhar no escritório do pai que ficou satisfeito, enquanto ele refletia: a felicidade não é egoísta, porque ela depende do estado de espírito do outro?! Que nada! Descontente estava!
Empurrou o teclado. Triturou papeis rubricados. Assassinou contratos. Pensou: “Que mundo é este? Tem bandido que vira mártir, herói que não é bonzinho e vilão com desculpa boa”.
Olharam para ele assustados com medo de uma chacina. A secretária abaixou-se. Outro se escondeu embaixo da mesa. Enquanto o menino (ainda um menino, apesar de homem feito com barba mal feita) levantou-se, tirou o terno, jogou a gravata no lixo e disse:
__ Algumas canções desconhecem acordes. Histórias precisam de escritores nas mal traçadas linhas da vida. E tantos beijos ainda não foram roubados. Há muita coisa para ser feita. Esquentar a cabeça é perda de tempo!
Depois foi internado. Dado como louco. Lá passou todos os anos escrevendo e compondo umas músicas boas. Seu único tributo era tributo aos poetas.
Não seja o que mundo espera de você, mas o que você espera do mundo...
ELA podia ir aonde queria
Já havia passado dos 20 anos e experimentado um pouco de tudo: desde venenos doces até os mais amargos beijos. Não era mulher. Não era menina. Era simplesmente ELA: uma garotinha, um pivete, ser de outro de mundo, mente suja e cometia alguns dos sete pecados, mas incapaz de ferir alguém.
Admitia sua vocação ao heroísmo, porém preferia não salvar o mundo. Apenas aproveitava o dom que possuía para aventuras no planeta habitado por gente de todo tipo na perfeição dos defeitos de cada um.
Sempre voltava de lá e conversava com conterrâneos – os seres da Terra. Passava por todos os continentes. Tinha cidades de sua preferência. Gostava mesmo de visitar o Brasil - do norte ao Sul. Respirava muito ar empoeirado: um vício de vida urbana.
Suas viagens aconteciam no primeiro dia do mês de acordo com um calendário especial que acompanhava fases da lua, estações, dias de chuva ou de sol, astros, bola de cristal ou qualquer coisa parecida.
Era bom ser terráquea e morar lá. Melhor que morar lá era voltar sempre que queria.
E toda vez perguntavam o mesmo:
__ Como você consegue?
__ Todo mundo pode.
Dizia ELA.
E depois fugia do interrogatório (daqueles de pouca imaginação) como uma vilã de Contos de Fadas... Porque ser princesinha não tinha menor graça. Muito menos beijar sapo.
Grandes realizações, já foram pequenos sonhos. Porém, existem poucos momentos na vida que um sonho vale mais que uma realização. Então se tornou mais forte e preparada para enfrentar monstros ou fantasmas que surgissem em sua frente, porque nenhuma arma é capaz de matar aquilo que nasce, cresce e vive na imaginação.
Aline DiedrichNenhuma arma é capaz de matar aquilo que nasce, cresce e vive na imaginação.
Aline DiedrichGrandes realizações, já foram pequenos sonhos. Porém, existem poucos momentos na vida que um sonho vale mais que uma realização.
Aline DiedrichSonhar é como acordar para a vida. De resto... Somente utopia.
Aline DiedrichO relógio que não contava as horas
Cidade grande. Prédio do centro. Carros que não paravam de buzinar e nem respeitavam o dia do rodízio. “Quem faz rodízio é pizzaria” dizia ele, “e de pizza o País já está saturado”, enquanto observava da janela do apartamento (apertamento) o movimento na rua, o empurra-empurra de pessoas na calçada, e até mesmo as crianças que brincavam na pracinha ali perto.
Queria sair. Caminhar no meio da baderna. Ser um pouco baderneiro. Se sentir artista de rua e ganhar dinheiro no chapéu. Mas nada disso seria possível, porque ainda era visto como um ser de outro mundo, e assustava gente por onde passava: se tratava da pessoa que andava para trás.
O mais esquisito de tudo, acredite caro leitor, é que seu corpo era perfeito (perfeito dentro dos padrões): fotogênico não tinha igual, bem vestido, voz estonteante e se expressava como ninguém. De que adiantava ser tão bonito se não poderiam ver tamanha beleza, exceto alguns amigos próximos e seus familiares?
Tentava, sozinho, se impulsionar. Se jogar para frente sem ajuda dos outros. Mas nada! Sempre voltava ao ponto de partida como se uma força maior e surreal o puxasse pelos braços – ou pés, não se sabe explicar – e o fizesse ficar parado, sentado e elegante diante um espelho bem grande.
Conta a lenda que não quis mais alimentar-se, no entanto, passou a viver de ar e logo desistiu de seu propósito mal sucedido. Foi nesta noite que adormeceu ali mesmo e quando acordou se sentiu tão feio. Desarrumado. Despenteado. Fedorento. Possuía a pior das anomalias: não sabia andar para frente.
Então entendeu: precisava se desprender de preconceitos, enxergar o belo que habita por trás do físico e conhecer a alma. Precisava evoluir para deixar de ser como aquele relógio velho e enferrujado que apenas ocupava espaço na parede da sala.
Já havia passado da hora de ajustar os ponteiros.
