Sidiney Breguêdo

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Só o coração tem cordas que amarra

A linguagem da internet é uma linguagem pasma, pontuada, sem ter ponto nenhum. O poeta disse: Deus me proteja da linguagem da net.

Se todos os homens se juntassem em um só, e respeitassem a si próprio, a natureza não precisaria defender-se com fogo e água.

O grito do povo pode romper a intimidade do governante e causar uma insônia de mil anos.

Não tenham medo deste monstro chamado conhecimento, ele não vem para levar ninguém, ele vem para ficar.

Se todo o céu caísse de uma vez, talvez o homem ficasse mais feliz com suas teorias. Não existe razão para acreditarmos, depois de conhecermos a arte dos políticos brasileiros em demônios piores.

As salas do cérebro são quentes, chegam a fritar tudo que tem na cabeça do povo leigo. Uma leitura não faz mal a ninguém, pois é ela que é o ar condicionado possível nesta seara. Todavia não adianta sair lendo aleatoriamente qualquer placa pelas ruas. O que se deve ler, na verdade, é o alimento para a alma, aquilo que te trás calma ou levanta questões relevantes.

Não tenho dúvida de que duvido de tudo.

Todos os escritores escrevem para o homem, o poeta escreve para Deus.

Eu não penso, eu dispenso.

A ILHA

Sou uma ilha de couve-flor,
Regado
Pelo jardineiro do amor.
Sou tenro,
Espero os navios encalharem,
Sinto suas âncoras no meu pé
E grito
Pela solidão de uma mulher.
O Céu pastoso trespassado pelo sol
Não percebe as belezas que tenho,
Mas eu tenho coco e pau,
Faço feliz quem chegar agui.
Tenho sombra
Para dar segurança a uma mulher.
Minha terra
Tem tesouros banais
De piratas e moleques.
Sou uma ilha,
Dentro de mim,
Córregos correm dos esgotos
Da civilização
E pássaros alardeiam
Uma canção.
As mulheres todas
Querem ser salvas
De mim.
Sou uma ilha...

A LÍNGUA

vamos maltratar esta língua.
Vamos começar a frase com
O pronome oblíquo,
Pontuar as letras com cocô de rato.
Vamos descumprir todos os tratos.
Precisamos ignorar a norma culta,
comer sem descascar essa fruta,
Porque assim, de fato,
Vamos nos alimentar.
Vamos esquecer os pontos, as vírgulas,
Vamos cortar à mão mesmo,
Sem tesoura.
Devemos fazer algo que não seja
Tão reto...
Vamos esquecer o correto.
Vamos assassinar a professora
Que chamávamos de tia.
Escola da ditadura
Não pode ditar a nossa cultura.
Vamos fazer o texto sem
Assinatura.
Letras podres ou maduras,
Que importa?!
Nossa língua,
A do povo,
Já está toda torta.
Essa é a nossa lei e o nosso lugar!
Vamos falar tupi com sotaque nordestino,
Isso vai soar bonito
Como o som de um violino
No ouvido europeu.
Vamos ignorar o tempo e o verbo.
Vamos retirar do vovô o chapéu.
Vamos chamar mundo de mundéu
E mundano de soberano.
Ao poder com o povo,
Porque o único poder que conheço
É o da língua.

BEIJO NA MÃO

Beijo sua mão
Porque nela toquei primeiro.
São as mãos que unem a todos
Num aperto de trégua ou desespero.
Pode ser paz ou guerra,
O derradeiro suspiro.
Beijo sua mão, porque é um gesto bonito,
Foi com ela que depois corri seu umbigo.
Foi com ela que te disse adeus.

O amor é como tudo e como nada, nos sufoca sua presença, mas sua falta nos mata.

O Supremo Tribunal Federal é a casa de todos os brasileiros, entretanto tem regras absurdas, queria entrar lá com minha simplicidade como os índios brasileiros fazem.

Esse negócio de gênio não existe, o que existe é uma porção de pessoas comuns se deliciando com a coragem de quem pegou os livros para ler.

Eu gostaria de acordar deste sonho que é vida.

Qualquer um pode escolher caminhos, mas poucos conseguem atravessá-los.

Só conheço uma linguagem entendida por todos: a do corpo. Pois é o corpo que ocupa os espaços vazios entre as várias línguas faladas no mundo.

Não tentem decifrar um analfabeto, vocês não vão conseguir.

Escrever é tão simples quanto falar, mas as responsabilidades implicadas no ato de escrever são uma barreira quase impossível de se ultrapassar quando somos falantes descuidados.

A TRISTEZA ME ENCONTROU DENTRO DO ESPELHO


Entrarei no espelho para calar-me,
Enforcado em minhas tranças
De arame.
O vendedor de quiabos
Penteia seu cabelo e diz meu nome.
Saímos todos do corpo
Para brincar de ciranda na infância.
Crianças gordas ficam
Entaladas no balanço.
Ainda há esperança que meus livros
Se livrem dos cadernos de arame.
Na lembrança,
O escoteiro Pedro morreu
Aos sete anos de derrame.
A dança das formigas
Quem é que vai acompanhar?
Elas beijam na boca,
Não usam roupa
E carregam folhas para almoçar.
Dentro do espelho,
O deus inseto
Pediu para ser meu neto.
Comecei a envelhecer...
Amarelas bolas verdes cercaram
Meus olhos.
Odorosas mariposas beijaram
Minha boca,
E no gosto das suas: rosas!
Rosas como a minha mãe,
A tua mãe!
Eu um antropóide esferóide,
Arabesco medonho do realengo.
Minha mãe me diz
Que sou um dengo.
Dengo, dengo tristonho,
Grudado na lâmpada dentro do espelho.
Inexorável meus anos se passam.
O deus inseto
Agora é meu neto.
Mel brota do meu pênis
E o banheiro da minha casa
É uma festa de cigarras.

ACIDENTE NA AVIAÇÃO

Boi, boi, boi,
Boi da cara preta
Pega essa caixa preta
Para a gente saber
O que aconteceu
Com o air buss.
Aquela gente está
Debaixo do mar
Entre a França e o Brasil,
Então, não guarde segredo,
Podem estar vivos
E com muito frio.
Dentro do seu berço
Alguém pode nascer de novo.
As tuas verdades
Causam ânsia e pavor.
Boi, boi, boi,
Boi da caixa preta
Salva essa gente.
Mostra para a marinha
O novelo de linha
Que leva aos
Sobreviventes.

CONTRADIÇÕES


Contradições são coisas reais
Hoje estamos vivos
Mas somos seres mortais.
A borboleta é tão linda voando,
Já foi lagarta também se arrastando.
Contrário ao sol é a lua
Fora de casa
Estou na rua.
É tudo tão perfeito
Nesta contradição que transforma a vida
No meu peito
Em paixão.
Caio no choro de felicidade,
Escuto um chorinho na vitrola
Dos anos setenta
Em um cd pós moderno.
Vejo os pássaros que a criança rabiscou
Em seu caderno
Saírem a voar.
Sujos de tinta, mau feitos.
Sorrirem felizes.
Perfeita contradição que os fez.

GRIPE SUINA


A minha tosse
É mais forte que a tua,
A minha tosse
É crua.
Se o governo
Não cuidar
Vai matar nossas
Crianças
Mas também
Seus marajás.
Viagem ao Paraguai
Não trouxe só bugigangas,
Veio lembrança do México.
Mexerico feito
Nos laboratórios americanos
Quis fazer
A américa latina
Entrar pelos canos.
Essa é mais uma
Dos americanos!
Essa é mais uma
Dos americanos!
Essa é mais uma
Dos americanos
Que tem como
Bode expiatório
O povo mexicano.

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