Ricardo Coiro

Encontrados 5 pensamentos de Ricardo Coiro

Se fosse seguir com rigor os ensinamentos dos filmes pornôs, provavelmente eu seria entregador de pizza ou limpador de piscina e assim, consequentemente, receberia um boquete a cada entrega ou a cada piscina lavada. Meu saco estaria inchado de tanto ser deliciosamente estuprado por mulheres siliconadas, sedentas por uma surra de pau mole e exímias engolidoras de espada. Tudo seria simples, daria quatro lambidas carpadas giratórias no clitóris das minhas parceiras e as veria rasgando a parede com as unhas e girando os olhos como num ato de exorcismo. Eu teria vizinhas estupidamente gostosas, exibicionistas e sempre prontas pra uma sessão de sexo descompromissado em troca de uma xícara de açúcar. Se eu acreditasse nos contos do Sex Tube, acharia que fazer sexo anal é tão fácil quanto encaixar uma peça de lego, independente do tamanho do meu pau, que naturalmente seria da medida de uma beringela transgênica criada em Itu. Minha namorada teria inúmeras amigas devassas e estaria sempre disposta a transformar cada flagra de traição minha em um delicioso Ménage à Trois, que logicamente terminaria com meu sêmen transformando-se em hidratante facial para duas lindas mulheres. Broxar? Nem preciso comentar que isso nem existiria, afinal, eu seria um ator pornô e não um homem.

A realidade é que somos tão e somente homens e não precisamos viver nas sombras desses seres superpirocudos e estereotipados, que não habitam apenas os cenários lubrificados dos filmes pornôs, mas também povoam as novelas, a literatura, o cinema e desde a nossa infância funcionam como falso parâmetro de masculinidade e desempenho sexual.

Temos de ir além do ideal criado pela mídia em torno do macho com bolas de touro, afinal, mesmo sem nunca entendermos com certeza o que as mulheres querem, precisamos da convicção de que elas não gostam do sexo robótico à La britadeira e nem acham gostoso quando tem suas cabeças empurradas para baixo como quem faz uma imensa laranjada durante o boquete.

Precisamos parar de tentar aprender algo útil com os galãs Hollywoodianos, incapazes de fazer algo além de explodir carros, distribuir tiros e perceber no último segundo do filme que escolheram a mulher errada.

Chegou a hora de mudar o foco, parar com essa fixação pela dureza dos testículos indestrutíveis do Chuck Norris e enxergar de verdade o que há em nossas mulheres.

Qual o problema de repararmos no corte de cabelo dela, mesmo que ela só tenha cortado 2 dedos? Ou na nova cor de esmalte, no vestido que ela comprou no começo da semana já pensando na noite de sexta ou na lingerie ultra sexy, que só deveria ser despida em meio a uma salva de palmas. Tudo isso talvez possa parecer insignificante para James Bond quando a meta principal é salvar o mundo, mas nunca para nós machos reais, verdadeiros super homens, quando queremos atingir nosso não menos importante objetivo – dar prazer estremecedor a nossas parceiras e metralhá-las com balas de tesão.

A verdade que não nos ensinam na escola nem nos filmes pornôs é que as preliminares começam bem antes do sexo oral e que antes mesmo de rasgar a calcinha de nossas mulheres podemos excitá-las com sutilezas disfarçadas de bombons surpresa, elogios originais, educação sem moderação, portas abertas e que com isso, criamos aos poucos uma bomba G, que no fim da noite, com ajuda de muito suor e dedicação, culminará em uma intensa e real cena de gozo – assim, o fingimento continuará como ato exclusivo das atrizes pagas pra isso.

Ricardo Coiro

Proibido Ser Morno

Hoje acordei cheio de vontades, engasgado com meus tantos anseios. Ainda na cama desejei ser um galã à moda antiga e quem sabe enviar uma carta apaixonada para bem longe, só pelo prazer de esperar ansiosamente por uma resposta construída com palavras imprevisíveis. Abri os olhos com a ânsia gritante de recrutar amigos, dos mais sem vergonha, e fazer com eles minha primeira serenata, dessas que começam com pedra atirada na janela e terminam em aplausos solitários e lágrimas caindo de surpresa sobre o parapeito do meu peito, água derramada pela mulher descabelada, que envergonhada mostraria todos os dentes num sorriso impossível de ser guardado para mais tarde.

Hoje despertei arrependido pelas tantas portas de carro que deixei fechadas, com medo de ser cavalheiro em demasia, de fachada, a ponto de parecer mal-intencionado num mundo que atropelou tanta gentileza do passado. Acordei sem conseguir engolir as muitas vezes que cheguei à casa dela de mãos vazias, quando o que mais queria era ter sido portador de um buquê com rosas bem tagarelas, que infelizmente deixei caladas, intocadas na vitrine da floricultura.



Hoje chorei por ter perdido os versos que a vida me obrigou a esquecer antes mesmo que eu pudesse escrevê-los em algum guardanapo de boteco, SMS etílico ou no coração alado de alguma mulher que por ao menos uma noite foi inteira minha. Hoje sorri quando me vi no espelho e em meio à minha barba escura percebi um solitário fio branco, a prova irrefutável de que estou envelhecendo, aprendendo a perder tudo que tenho para quem sabe um dia, poder ensinar algo sobre ganhar o que me falta.

Hoje comemorei com fogos de artifício e champagne as minhas incontáveis derrotas, as inúmeras vezes que passei longe do pódio e nem ao menos pude estimar o peso daquele troféu. Celebrei os gols praticamente feitos que perdi em cima da linha do pênalti, os socos dos quais não fui capaz de esquivar e principalmente, as vezes que subestimei meu adversário e felizmente percebi minha falta de modéstia enquanto superestimava-me. Aplaudi esses tantos tombos com a certeza de que foram eles que me lecionaram o sabor perigoso da vitória e todo o risco presente nas medalhas de ouro que carregamos no peito, como se vestíssemos uma armadura dourada de orgulho.

Hoje cantei Sinatra no banho e sem me importar com meu desafino fiz do xampu microfone, como se pelado eu trajasse chapéu e gravata borboleta, mais que isso: como se de dentro do meu box de vidro transparente eu pudesse enxergar o mundo todo do meu jeito, “My Way”, feito de muita poesia e folhas em branco, prontas para receber a tinta fluorescente dos meus insaciáveis desejos.

Hoje acordei fervendo, com febre de viver e uma incendiária certeza: para abrir os olhos de verdade, não é permitido ser morno. Não importa com qual pé pisará primeiro quando resolver sair da cama e do coma, apenas pise forte e mantenha seus passos com fome, o mundo está ali para que você o devore já! Não espere tanta coisa esfriar.

Ser morno é caminhar em cima do muro, é esperar o tempo passar sem passar pelo tempo. Ser morno é segurar a cintura dela com a mão frouxa, é fazer sexo sem entregar-se até colocar fogo no colchão. Ser morno é desejar coisas medianas e saciar a vontade com coisas menores ainda. Ser morno é fazer striptease pela metade, penetrar pela metade e amar pela metade. Ser morno é estar sempre meia-bomba e não deixar nenhum estilhaço cravado no mundo. Por mais masoquista que pareça, prefira aquilo que queima e inevitavelmente marca – essas são as coisas que, no futuro, te farão olhar pra trás e constatar que a vida valeu a pena.

Ricardo Coiro

Só não entendo uma coisa: como é que tem tanta gente chorando e mendigando a presença de uma só pessoa, enquanto o mundo está repleto de tantas outras? Superlotado de bundas, mamilos, saias, pernas e porque não nobres corações? Você realmente acha que essa pessoa, que não lhe quer mais, é a melhor do mundo? A mais interessante? A única? Vou repetir: estima-se que o planeta Terra hoje possui aproximadamente sete bilhões de habitantes.

Então, dá próxima vez em que sofrer ou brigar por alguém que não vale a pena ou que não está nem aí para você, faça as contas. Verá que existem muitas outras possibilidades deliciosas por aí e provavelmente não verá mais motivos para desperdiçar lágrimas e continuar economizando tantos sorrisos.

Ricardo Coiro

As mulheres querem um homem capaz de desferir tapas firmes nas nádegas delas, um macho que não tenha mão de alface na hora de puxar-lhes os cabelos em pleno ato libidinoso, mas querem que esse mesmo selvagem sexual, tenha a delicadeza necessária para não atropelar os sutis sinais desferidos diariamente por elas.

Ricardo Coiro

Ela não era minha. E nunca será. Ela não era de ninguém. E nunca será. Aquilo estava mais do que claro. Freud podia explicar. Eu também. Bastava olhar para ela. Ela exalava o perfume da liberdade. Libertava-se, de mim e do mundo, a cada verbo inserido no papo. Quanto mais dizia, mais virava ela e me revirava. Olhava-me como se quisesse prender a minha atenção. E prendia, pois a cada vez que me fazia não desviar o olhar, sentia-se ainda mais livre e poderosa. Ela não era minha. E nunca será. Ela, apesar de já ter tentado ser de outro (a), hoje, felizmente, é apenas daquelas que buscam inspiração. Ela, apesar de já ter aceitado os mais dolorosos acordos, agora, sem dúvida, anda de acordo apenas com ela. Ela nunca foi minha, e nunca será. Aliás: nem dela ela sabe se é. Já que é de Gêmeos, bipolar, multipolar e poetiza.

Ricardo Coiro