Pontes de Miranda

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Há um grande amor que é a mais perfeita forma de sabedoria: amar em outrem a sua própria beleza.

Quem se contenta em ler lei é um louco, um criminoso que o código esqueceu de enquadrar.

"A morte cria outras grandezas,
porque a morte não faz iguais - desfaz.
Não nivela - destrói.
Todos deixam de ser,
e ainda assim (suprema ironia),
nem todos deixam de ser a mesma coisa;
uns deixam de ser grandes, - outros, pequenos".

Quando algum dia deixarem de existir as "posições", ricos e pobres sentirão saudades: os grandes porque o não seriam mais, e os pequenos porque o queriam ser.

Não emendes a "tua" frase, nem lhe dês formas alheias. As boas idéias surgem como os cristais: com os seus contornos. Se a vais limar à pedra da tua vontade, perderá o brilho, a extravagância e as luzes. Deixa-a como está: mais vale o coral bruto do que o diamante falso que se lapida.

O que ri vulgariza-se. Para que o riso não degrade é mister que encubra a ironia, atenue a frieza da serenidade, ou seja a flor vermelha e fresca que absurdamente se interpõe entre ramos e frutos de Sabedoria e de Tristeza. O Sábio não ri, senão quando em tudo que lhe vai na alma o menos importante é o riso.

Já não nos satisfaz, a nós, homens contemporâneos, a justiça transcendental das teocracias, nem, tão-pouco, a justiça abstrata, vaga, irreal, da filosofia racionalista, que chegou ao auge na Revolução e inundou o mundo. Porque esta é vazia como os princípios em que se funda e pode encher-se do bem e do mal, do justo e do injusto, indiferentemente.
Queremos nós justiça concreta, social, verificável e conferível como fato, a justiça que se prove com os números das estatísticas e com as realidades da Vida. E a esta sòmente se chega pelo caminho das verdades científicas - penosamente, é certo, mas a passos firmes e de mãos agarradas aos arbustos da escarpa, para os esforços do avanço e a segurança da escalada.

Sempre incoerentes. Os homens: vivem a exigir da mulher o que não exigem a si mesmos. - fidelidade. Uma de duas: ou julgam as mulheres superiores a eles, pois que as consideram capazes de algo além do homem; ou têm por virtude inferior a fidelidade. Em todo caso, ninguém os compreende.

O maior argumento que se invoca e se sustenta contra o orgulho é que todos têm de acabar no mesmo campo-santo. É a unidade social dos cemitérios. Mas nisso há ilusão; dizer que todos acabam iguais é mentira ou impostura; a morte não faz iguais, - desfaz; não nivela, - destrói. Todos deixam de ser a mesma coisa: uns deixam de ser grandes, - outros, pequenos.

A sociedade inutiliza homens porque praticam pequenos crimes, atentados superficiais, pequeninas misérias. Para que neutralizar, pela violência das leis, tais indivíduos? Os mais dêles possuem virtudes raras, que talvez façam falta à organização geral. Foram produtos reais - quiçá necessários: e só a artificialidade política os excluiu da luta do cadinho infernal da vida quotidiana. Quisera lembrar aos organizadores e aos reformistas o "auch das Unnatür-lichste ist Natur" de Goethe e o que sabiamente dizia Mme de Rémusat: "On n'est jamais uniquement ce qu'on est surtout".

O maior descobridor é o que pode dizer, depois de haver naufragado na vida comum: "achei-me!". Efetivamente, nada mais difícil do que ser batel perdido... e encontra-se, a seu "eu", no alto oceano da vulgaridade.

Chega o homem ao grau definitivo de superioridade quando pode elevar-se acima da sua própria fé.

Felicidade
Para seres feliz basta que possas dizer: sou homem forte, porque me sinto capaz de ser indiferente a todas as conseqüências do meu orgulho.