Marian Keyes - livro melancia

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Quinze de fevereiro é um dia muito especial para mim. É o dia em que dei à luz meu primeiro filho. E também o dia em que meu marido me deixou. Como ele esteve presente ao parto, só posso supor que os dois acontecimentos tiveram alguma relação entre si. Eu sabia que deveria ter seguido meus instintos. Era a favor do papel clássico, ou, digamos, tradicional, que o pai desempenha no nascimento dos seus filhos. Que é o seguinte: tranque-o num corredor do lado de fora da sala de parto. Não deixe que entre, em momento algum. Dê-lhe quarenta cigarros e um isqueiro. Instrua-o a caminhar até o fim do corredor. Quando chegar a essa feliz posição, instrua-o a dar a volta e retornar ao local de onde veio. Repita, se necessário.

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Sei que o marido dela é italiano, mas realmente não vejo nenhuma probabilidade de que ele mate o casal. É garçom, não é um mafioso; então, o que vai fazer? Envenená-los com pimenta do reino? Fazer com que entrem em coma, após tantos boa noite senhores? Ou atropelá-los com o carrinho das sobremesas?

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Sustento que nos apaixonamos imediatamente. Ele não sustentou nada do gênero e disse que eu era uma tola romântica. Disse que demorou pelo menos trinta segundos para se apaixonar por mim. Os historiadores discutirão.

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E lamento dizer isso a você, mas vou ter de usar uma porção de clichês aqui. Não vejo nenhuma maneira de escapar disso.
Tenho vergonha de contar-lhe que eu andava nas nuvens. E lamento mais ainda ter de lhe dizer que me sentia como se o tivesse conhecido durante toda a minha vida. E vou agravar as coisas, contando ainda que achava que ninguém me entendia do mesmo jeito que ele. E, como perdi toda a credibilidade com você, também posso dizer que não sabia que era possível ser tão feliz. Mas não vou forçar a barra contando-lhe que ele me fazia sentir segura, sexy, inteligente e meiga. (E, lamento, mas realmente devo dizer-lhe que achava que havia encontrado minha outra metade e agora eu era inteira, e prometo que vou parar por aqui).

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Depois de algum tempo, fomos morar juntos. Depois de um tempo um pouco mais longo nos casamos. E, alguns anos depois, decidimos ter um bebê, afinal, meus ovários pareciam estar prontinhos, os espermatozóides dele não registraram nenhuma queixa a respeito, meu útero não levantou nenhuma objeção e, então, engravidei. E dei à luz uma menina.

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Quem é o encarregado aqui? Gostaria de me queixar da minha vida. Claramente, pedi uma vida feliz, com um marido amoroso, para combinar com meu bebê recém-nascido, e que falsificação grotesca era aquela que me ofereciam?

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Soube, então, que a vida não respeitava circunstâncias. A força que atira em nós os desastres não diz: “Bem, não darei a ela aquele caroço no seio antes de pelo menos um ano. É melhor deixar que se recupere primeiro da morte da mãe.” A vida simplesmente vai em frente e faz o que tem vontade, sempre que tem vontade.

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Abri meu armário e recuei, com a repugnância que meus vestidinhos me davam. Não havia dúvida a respeito. Todos falavam de mim. Eu quase podia vê-los acotovelando-se e dizendo: “Olhem para ela, vejam seu tamanho. Será que pensa, honestamente, que elegantes e pequenos tamanhos P, como nós, caberiam em qualquer corpo tipo caminhão, na faixa do GG, como o que ela está arrastando de um lado para outro? Não é de admirar que seu marido tenha fugido com outra mulher”.

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Você, simplesmente, tem de passar por tudo isso. É só o que pode fazer. Não tente entender, você enlouqueceria.

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Mas não era nenhum consolo. Porque eu me sentia como se estivesse no inferno. E compará-lo com o inferno de outra pessoa não diminui em nada a dor do meu. Desculpe a metáfora sanguinolenta, mas, se estão serrando a perna de uma pessoa com uma serra de arco enferrujada, ela não se consola com o fato de que a pessoa na cela ao lado está sendo pregada numa mesa a marteladas.

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Ele era parte de mim. Se meu braço caísse do meu corpo, eu não diria: “Deixe que fique assim, no momento certo ele voltará, se for esse o caso. Não adianta forçar as coisas. Talvez você só consiga afastá-lo.” Afinal, era meu braço, e ele fazia muito mais parte de mim do que qualquer braço velho. Eu precisava muito mais dele. Amava-o muito mais. Simplesmente não podia viver sem ele.

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Você está querendo me dizer: “Tenha um pouco de amor-próprio”. Mas acho que percebi que meu casamento importava mais para mim do que o meu amor-próprio. O a-mor-próprio não mantém você aquecido à noite. O a-mor-próprio não escuta você no fim de cada dia. O a-mor-próprio não lhe diz que prefere fazer sexo com você do que com Cindy Crawford

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Era como tentar empurrar uma cavilha redonda num buraco quadrado. Ou usar sapatos nos pés errados. Desagradável, desconfortável e quase certamente fadado ao fracasso.

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Sempre que encontrava uma pessoa magra, que gorjeava: “Ah, mas sou mesmo uma tola, simplesmente me esqueço de comer”, eu a olhava com mal disfarçada frustração e amargura, sentindo-me pouco glamorosa, inchada e bovina. Que sorte a dessas filhas da puta, pensava eu, como é que alguém pode esquecer-se de comer? Eu tinha apetite — que coisa fora de moda e vergonhosa.

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Se você deixa de ter alguém ou alguma coisa, sente sua perda e, depois, passado algum tempo, preenche o buraco que ficou em sua vida, a ausência, aos poucos, fica cada vez menor e, afinal, desaparece. Há um sentido na dor. Há um motivo e uma direção para ela.

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Mas eu não ganharia nada em sentir ciúmes. E o pior é que o ciúme era causado por mim mesma. Era minha própria imaginação que me provocava a dor. Era o equivalente emocional a eu pegar uma navalha e dar um grande corte em meu braço, em meu estômago ou em minha perna. Ciúme era automutilação. Tão doloroso e inútil quanto. E eu sentia a dor não porque algo acontecera comigo, mas porque deixara de acontecer. Por que algo que acontecia entre duas outras pessoas e não me envolvia absolutamente me feria tanto? Ora, que droga, eu não sabia. Só sabia que feria.

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Provavelmente, ainda choraria todas as noites, antes de dormir, durante o próximo século inteiro. Mas não estava mais aleijada pela minha perda. Meus tornozelos tinham sido quebrados pelo bastão de cricket da infidelidade e traição. Isso me jogara no chão, arrebentada, e me deixara ali deitada, arquejando de dor, incapaz de me levantar. Mas estava apenas machucada. Muito, na verdade. Mas, ao contrário das primeiras impressões, nada estava quebrado. Agora, eu tentava dolorosamente ficar de pé, vendo se ainda podia caminhar. E, embora mancasse muito, descobri, para minha alegria, que podia.

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Um homenzinho que aparece sempre em minha cabeça, segurando um letreiro em que proclama: “O Fim Está Próximo”, naquele dia proclamava: “A Vida É Mais Do Que Apenas Divertimento”. Ele trabalha para o “departamento” da minha consciência. Eu o detesto. Esse miserável filho-da-puta. Aparece sempre com seu letreiro e estraga as coisas para mim, especialmente quando estou fazendo compras e ele proclama coisas como: “Você Já Tem Quatro Pares de Botas” ou “Como Justifica Você Um Gasto de Doze Libras Com Um Batom?” Ele arruína minhas compras. Ou deixo de comprar o artigo em questão. “Desculpe”, gaguejo, enquanto a balconista pára e coloca os sapatos de volta na caixa, fixando em mim um olhar assassino. “Mudei de idéia.” Ou então compro mesmo, mas me sinto tão culpada que todo o prazer desaparece.

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Meu lema era: “Sempre deixe para amanhã o que está programado para hoje. E se puder evitar fazer isso até a próxima semana, então ainda melhor.”

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O que pensam que isto é? Uma história de Mills e Boon, a dupla Água com Açúcar? Sinto muito, mas se esse é o tipo de roteiro no qual estão interessados, então sugiro que leiam um livro diferente.

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Não, ele me entregou a toalha e dei em meu cabelo alguns esfregões não muito fortes. Não queria terminar com ele todo arrepiado e secando em ângulos engraçados. Com toda franqueza, preferia pegar pneumonia.

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— Ah, é mesmo? — murmurei. Espirituosa e graciosa, assim sou eu. Sou a Genialidade e a Resposta Pronta em pessoa.

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Minha cabeça estava cheia de Adam, Adam, Adam. Da mesma maneira como os camareiros do Titanic estavam mais preocupados com os cinzeiros não esvaziados do bar do que com o enorme buraco do lado do navio, que deixava entrar milhões de litros de água, eu também estava preocupada apenas com o que não tinha importância, e ignorava, assim, o que era vital. Algumas vezes, é mais fácil dessa maneira. Porque, embora eu não pudesse fazer droga nenhuma com relação ao enorme rombo, ainda estava ao meu alcance esvaziar um cinzeiro. Bela analogia.

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Mas me sentia tão vazia e solitária. Triste e solitária e todas as outras emoções que se enquadram no gênero “Perda”, subespécie “Rejeição”.

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Eu não ouvira a expressão “Ato Antinatural”, com a idade de doze anos, mas, se tivesse ouvido, eu a abraçaria como a uma irmã que não se vê há muito tempo. Senti vontade de chorar pela criança inocente que eu era, pela idealista menina de doze anos que eu fora um dia. Mas, ao mesmo tempo, não sabia o que estava perdendo

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