Biografia de Luiz Fernando Veríssimo

Luiz Fernando Veríssimo

Luiz Fernando Veríssimo - Filho do escritor Érico Veríssimo, nasceu em Porto Alegre em 26 de setembro de 1936. Viveu parte de sua infância nos Estados Unidos, pois seu pai era professor na Universidade de Berkeley, e por isso concluiu o secundário na Roosevelt High Scool em Washington, onde também se apaixonou pelo jazz. Em 1956, já de volta ao Brasil, começou a trabalhar no departamento de arte da Editora Globo de Porto Alegre. De 1962 a 1966 morou no Rio de Janeiro, onde casou-se e teve três filhos. Em 1967, de volta a Porto Alegre, começou a trabalhar no jornal Zero Hora, onde conseguiu a sua primeira coluna, que tratava de futebol, e também torno-se redator de uma agência de publicidade. De 1970 a 1975 foi colunista do jornal Folha da Manhã, voltando ao Zero Hora neste último ano. Lançou seu primeiro livro em 1973, que foi bem recebido pela crítica. Em 1979 publicou Ed Mort e Outras Histórias, uma sátira aos policiais noir, e que foi transformado em um filme. De 1982 a 1989 publicou uma página de humor na reista Veja, e, nesse último ano, passou a escrever uma coluna dominical para o jornal O Estado de São Paulo. Lançou a coletânea A Comédia da Vida Privada com grande sucesso em 1994, vindo a tornar-se especial de televisão. Seu grupo de jazz criado no ano seguinte já tem quatro CDs gravados.

Publicações:

Cronicas e Contos:
O Popular (1973, ed. José Olympio)
A Grande Mulher Nua (1975, ed. José Olympio)
Amor Brasileiro (1977, ed. José Olympio)
O Rei do Rock (1978, ed. Globo)
Ed Mort e Outras Histórias (1979, ed. L&PM)
Sexo na Cabeça (1980, ed L&PM)
O Analista de Bagé (1981, ed. L&PM)
A Mesa Voadora (1982, ed. Globo)
Outras do Analista de Bagé (1982, ed. L&PM)
A Velhinha de Taubaté (1983, ed. L&PM)
A Mulher do Silva (1984, ed. L&PM)
A Mãe de Freud (1985, ed. L&PM)
O Marido do Doutor Pompeu (1987, ed. L&PM)
Zoeira (1987, ed. L&PM)
Noites do Bogart (1988)
Orgias (1989, ed. L± relançado em 2005 pela Objetiva)
Pai Não Entende Nada (1990, ed. L&PM)
Peças Íntimas (1990, ed. L&PM)
O Santinho (1991, ed. L&PM)
O Suicida e o Computador (1992, ed. L&PM)
Comédias da Vida Pública (1995, ed. L&PM)
A Versão dos Afogados - Novas Comédias da Vida Pública (1997, ed. L&PM)
A Mancha (2004, ed. Cia das Letras, coleção Vozes do Golpe)

Antologias:

O Gigolô das Palavras (1982, ed. L&PM)
Comédias da Vida Privada (1994, ed. L&PM)
Novas Comédias da Vida Privada (1996, ed. L&PM)
Ed Mort, Todas as Histórias (1997, ed. L&PM)
Aquele Estranho Dia que Nunca Chega (1999, Editora Objetiva)
A Eterna Privação do Zagueiro Absoluto (1999, Editora Objetiva)
Histórias Brasileiras de Verão (1999, Editora Objetiva)
As Noivas do Grajaú (1999, ed. Mercado Aberto)
Todas as Comédias (1999, ed. L&PM)
Festa de Criança (2000, ed. Atica)
Comédias para se Ler na Escola (2000, Editora Objetiva)
As Mentiras que os Homens Contam (2000, Editora Objetiva)
Todas as Histórias do Analista de Bagé (2002, Editora Objetiva)
Banquete Com os Deuses (2002, Editora Objetiva)
O Nariz e Outras Crônicas (2003, ed. Ática)
O Melhor das Comédias da Vida Privada (2004, Editora Objetiva)
Mais comédias para ler na escola (2008, Editora Objetiva)

Novelas e Romances:

Pega pra Kapput (1978, ed. L± com Moacyr Scliar, Josué Guimarãese Edgar Vasques)
O Jardim do Diabo (1987, ed. L&PM)
Gula - O Clube dos Anjos (1998, Editora Objetiva, coleção Plenos Pecados)
Borges e os Orangotangos Eternos (2000, ed. Cia das Letras, coleção Literatura ou Morte)
O Opositor (2004, Editora Objetiva, coleção Cinco Dedos de Prosa)
A Décima Segunda Noite (2006, Editora Objetiva, coleção Devorando Shakespeare)
Os Espiões (2009, Editora Objetiva)

Relatórios de Viagem:

Traçando New York (1991, ed. Artes e Ofícios; com Joaquim da Fonseca)
Traçando Paris (1992, ed. Artes e Ofícios; com Joaquim da Fonseca)
Traçando Porto Alegre (1993, ed. Artes e Ofícios; com Joaquim da Fonseca)
Traçando Roma (1993, ed. Artes e Ofícios; com Joaquim da Fonseca)
América (1994, ed. Artes e Ofícios)
Traçando Japão (1995, ed. Artes e Ofícios; com Joaquim da Fonseca)
Traçando Madrid (1997, ed. Artes e Ofícios; com Joaquim da Fonseca)

Cartuns e Quadrinhos:

As Cobras (1975, ed. Milha)
As Cobras e Outros Bichos (1977, ed. L&PM)
As Cobras do Verissimo (1978, ed. Codecri)
O Analista de Bagé em Quadrinhos (1983, ed. L± com Edgar Vasques)
Aventuras da Família Brasil (1985, ed. L&PM)
Ed Mort em Procurando o Silva (1985, ed. L± com Miguel Paiva)
As Cobras, vols I, II e III (1987, ed. Salamandra)
Ed Mort em Disneyworld Blues (1987, ed. L± com Miguel Paiva)
Ed Mort em Com a Mão no Milhão (1988, ed. L± com Miguel Paiva)
Ed Mort em Conexão Nazista (1989, ed. L± com Miguel Paiva)
Ed Mort em O Sequestro do Zagueiro Central (1990, ed. L± com Miguel Paiva)
A Família Brasil (1993, ed. L&PM)
As Cobras em Se Deus existe que eu seja atingido por um raio (1997, ed. L&PM)
Pof (2000, ed. Projeto)
Aventuras da Família Brasil (reedição - 2005, Editora Objetiva)
O Arteiro e o Tempo (infantil; ed. Berlendis & Vertecchia; ilustrada porGlauco Rodrigues)
Poesia Numa Hora Dessas?! (poemas; 2002, Editora Objetiva)
Sport Club Internacional|Internacional, Autobiografia de uma Paixão(2004, ed. Ediouro)

Acervo: 23 frases e pensamentos de Luiz Fernando Veríssimo.

Frases e Pensamentos de Luiz Fernando Veríssimo

Paquerar é bom, mas chega uma hora que cansa! Cansa na hora que você percebe que ter 10 pessoas ao mesmo tempo é o mesmo que não ter nenhuma, e ter apenas uma, é o mesmo que possuir 10 ao mesmo tempo.

Nessas horas sempre surge aquela tradicional perguntinha: Por que aquela pessoa pela qual você trocaria qualquer programa por um simples filme com pipoca abraçadinho no sofá da sala não despenca na sua vida?

Luiz Fernando Veríssimo

Era uma vez... numa terra muito distante...uma princesa linda, independente e cheia de auto-estima.
Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo era relaxante e ecológico...
Então, a rã pulou para o seu colo e disse: linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito.
Uma bruxa má lançou-me um encanto e transformei-me nesta rã asquerosa.
Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo.
A tua mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavar as minhas roupas, criar os nossos filhos e seríamos felizes para sempre...
Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria, pensando consigo mesma:
- Eu, hein?... nem morta!

Luiz Fernando Veríssimo

Os tristes acham que o vento geme;
Os alegras acham que ele canta

Luiz Fernando Veríssimo

A aliança


Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.

Ele estava voltando para casa como fazia, com fidelidade rotineira, todos os dias à mesma hora. Um homem dos seus 40 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de um cassino em Samarkand, com diamantes nos dentes, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele encostou o carro no meio-fio e preparou-se para a batalha contra o macaco, não um dos grandes macacos que o desafiavam no jângal dos seus sonhos de infância, mas o macaco do seu carro tamanho médio, que provavelmente não funcionaria, resignação e reticências... Conseguiu fazer o macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o pneu e já estava fechando o porta-malas quando a sua aliança escorregou pelo dedo sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um passo para pegar a aliança do asfalto, mas sem querer a chutou. A aliança bateu na roda de um carro que passava e voou para um bueiro. Onde desapareceu diante dos seus olhos, nos quais ele custou a acreditar. Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou no carro e seguiu para casa. Começou a pensar no que diria para a mulher. Imaginou a cena. Ele entrando em casa e respondendo às perguntas da mulher antes de ela fazê-las.

— Você não sabe o que me aconteceu!

— O quê?

— Uma coisa incrível.

— O quê?

— Contando ninguém acredita.

— Conta!

— Você não nota nada de diferente em mim? Não está faltando nada?

— Não.

— Olhe.

E ele mostraria o dedo da aliança, sem a aliança.

— O que aconteceu?

E ele contaria. Tudo, exatamente como acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no asfalto. O chute involuntário. E a aliança voando para o bueiro e desaparecendo.

— Que coisa - diria a mulher, calmamente.

— Não é difícil de acreditar?

— Não. É perfeitamente possível.

— Pois é. Eu...

— SEU CRETINO!

— Meu bem...

— Está me achando com cara de boba? De palhaça? Eu sei o que aconteceu com essa aliança. Você tirou do dedo para namorar. É ou não é? Para fazer um programa. Chega em casa a esta hora e ainda tem a cara-de-pau de inventar uma história em que só um imbecil acreditaria.

— Mas, meu bem...

— Eu sei onde está essa aliança. Perdida no tapete felpudo de algum motel. Dentro do ralo de alguma banheira redonda. Seu sem-vergonha!

E ela sairia de casa, com as crianças, sem querer ouvir explicações. Ele chegou em casa sem dizer nada. Por que o atraso? Muito trânsito. Por que essa cara? Nada, nada. E, finalmente:

— Que fim levou a sua aliança? E ele disse:

— Tirei para namorar. Para fazer um programa. E perdi no motel. Pronto. Não tenho desculpas. Se você quiser encerrar nosso casamento agora, eu compreenderei.

Ela fez cara de choro. Depois correu para o quarto e bateu com a porta. Dez minutos depois reapareceu. Disse que aquilo significava uma crise no casamento deles, mas que eles, com bom-senso, a venceriam.

— O mais importante é que você não mentiu pra mim.

E foi tratar do jantar.


(Do livro "As mentiras que os homens contam)

Luiz Fernando Verissimo

Bom mesmo

Tem uma crônica do Paulo Mendes Campos em que ele conta de um amigo que sofria de pressão alta e era obrigado a fazer uma dieta rigorosa. Certa vez, no meio de uma conversa animada de um grupo, durante a qual mantivera um silêncio triste, ele suspirou fundo e declarou:
- Vocês ficam ai dizendo que bom mesmo é mulher. Bom mesmo é sal!
O que realmente diferencia os estágios da experiência humana nesta Terra é o que o homem, a cada idade, considera bom mesmo. Não apenas bom. Melhor do que tudo. Bom MESMO.
Um recém-nascido, se pudesse participar articuladamente de uma conversa com homens de outras idades, ouviria pacientemente a opinião de cada um sobre as melhores coisas do mundo e no fim decretaria:
- Conversa. Bom mesmo é mãe.
Depois de uma certa idade, a escolha do melhor de tudo passa a ser mais difícil. A infância é um viveiro de prazeres. Como comparar, por exemplo, o orgulho de um pião bem lançado, o volume voluptuoso de uma bola de gude daquelas boas entre os dedos, o cheiro da terra úmida e o cheiro de caderno novo?
- Bom mesmo é o cheiro de Vick VapoRub.
Mas acho que, tirando-se uma média das opiniões de pré-adolescentes normais brasileiros, se chegaria fatalmente à conclusão de que nesta fase bom mesmo, melhor do que tudo, melhor até do que fazer xixi na piscina, é passe de calcanhar que dá certo.
Mais tarde a gente se sente na obrigação de pensar que bom mesmo é mulher (ou prima, que é parecido com mulher), mas no fundo ainda acha que bom mesmo é acordar na segunda-feira com febre e não precisar ir à aula.
Depois, sim, vem a fase em que não tem conversa. Bom mesmo é sexo!
Esta fase dura geralmente até o fim da vida, mesmo quando o sexo precisa disputar a preferência com outras coisas boas (“Pra mim é sexo em primeiro e romance policial em segundo, mas longe”). Quando alguém diz que bom mesmo é outra coisa, está sendo exemplarmente honesto ou desconcertantemente original.
- Bom mesmo é figada com queijo.
- Melhor do que sexo?
- Bom...Cada coisa na sua hora.
Com a chamada idade madura, embora persista o consenso de que nada se iguala ao prazer, mesmo teórico, do sexo, as necessidades do conforto e os pequenos prazeres da vida prática vão se impondo.
- Meu filho, eu sei que você aí, tão cheio de vida e de entusiasmo, não vai compreender isto. Mas tome nota do que eu digo porque um dia você concordará comigo: bom mesmo é escada rolante.
E esta é a trajetória do homem e seu gosto inconstante sobre a Terra, do colo da mãe, que parece que nada, jamais, substituirá, à descoberta final de que uma boa poltrona reclinável, se não é igual, é parecido. E que bom, mas bom MESMO, é nunca mais ser obrigado a ir a lugar nenhum, mesmo sem febre.

Luiz Fernando Veríssimo