Junqueira Freire

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Louco (Hora de Delírio)



Não, não é louco. O espírito somente

É que quebrou-lhe um elo da matéria.

Pensa melhor que vós, pensa mais livre,

Aproxima-se mais à essência etérea.



Achou pequeno o cérebro que o tinha:

Suas idéias não cabiam nele;

Seu corpo é que lutou contra sua alma,

E nessa luta foi vencido aquele,



Foi uma repulsão de dois contrários:

Foi um duelo, na verdade, insano:

Foi um choque de agentes poderosos:

Foi o divino a combater com o humano.



Agora está mais livre. Algum atilho

Soltou-se-lhe o nó da inteligência;

Quebrou-se o anel dessa prisão de carne,

Entrou agora em sua própria essência.



Agora é mais espírito que corpo:

Agora é mais um ente lá de cima;

É mais, é mais que um homem vão de barro:

É um anjo de Deus, que Deus anima.



Agora, sim — o espírito mais livre

Pode subir às regiões supernas:

Pode, ao descer, anunciar aos homens

As palavras de Deus, também eternas.



E vós, almas terrenas, que a matéria

Os sufocou ou reduziu a pouco,

Não lhe entendeis, por isso, as frases santas.

E zombando o chamais, portanto: - um louco!



Não, não é louco. O espírito somente

É que quebrou-lhe um elo da matéria.

Pensa melhor que vós, pensa mais livre.

Aproxima-se mais à essência etérea.

Morte (Hora de Delírio)





Pensamento gentil de paz eterna

Amiga morte, vem. Tu és o termo

De dous fantasmas que a existência formam,

— Dessa alma vã e desse corpo enfermo.



Pensamento gentil de paz eterna,

Amiga morte, vem. Tu és o nada,

Tu és a ausência das moções da vida,

do prazer que nos custa a dor passada.



Pensamento gentil de paz eterna

Amiga morte, vem. Tu és apenas

A visão mais real das que nos cercam,

Que nos extingues as visões terrenas.



Nunca temi tua destra,

Não vou o vulgo profano;

Nunca pensei que teu braço

Brande um punhal sobr'humano.



Nunca julguei-te em meus sonhos

Um esqueleto mirrado;

Nunca dei-te, pra voares,

Terrível ginete alado.



Nunca te dei uma foice

Dura, fina e recurvada;

Nunca chamei-te inimiga,

Ímpia, cruel, ou culpada.



Amei-te sempre: — pertencer-te quero

Para sempre também, amiga morte.

Quero o chão, quero a terra, - esse elemento

Que não se sente dos vaivens da sorte.



Para tua hecatombe de um segundo

Não falta alguém? — Preencha-a comigo:

Leva-me à região da paz horrenda,

Leva-me ao nada, leva-me contigo.



Miríades de vermes lá me esperam

Para nascer de meu fermento ainda,

Para nutrir-se de meu suco impuro,

Talvez me espera uma plantinha linda.



Vermes que sobre podridões refervem,

Plantinha que a raiz meus ossos fera,

Em vós minha alma e sentimento e corpo

Irão em partes agregar-se à terra.



E depois nada mais. Já não há tempo,

nem vida, nem sentir, nem dor, nem gosto.

Agora o nada — esse real tão belo

Só nas terrenas vísceras deposto.



Facho que a morte ao lumiar apaga,

Foi essa alma fatal que nos aterra.

Consciência, razão, que nos afligem,

Deram em nada ao baquear em terra.



Única idéia mais real dos homens,

Morte feliz — eu quero-te comigo,

Leva-me à região da paz horrenda,

Leva-me ao nada, leva-me contigo.



Também desta vida à campa

Não transporto uma saudade.

Cerro meus olhos contente

Sem um ai de ansiedade.



E como um autômato infante

Que ainda não sabe mentir,

Ao pé da morte querida

Hei de insensato sorrir.



Por minha face sinistra

Meu pranto não correrá.

Em meus olhos moribundos

Terrores ninguém lerá.



Não achei na terra amores

Que merecessem os meus.

Não tenho um ente no mundo

A quem diga o meu - adeus.



Não posso da vida à campa

Transportar uma saudade.

Cerro meus olhos contente

Sem um ai de ansiedade.



Por isso, ó morte, eu amo-te e não temo:

Por isso, ó morte, eu quero-te comigo.

Leva-me à região da paz horrenda,

Leva-me ao nada, leva-me contigo.

Soneto





Arda de raiva contra mim a intriga,

Morra de dor a inveja insaciável;

Destile seu veneno detestável

A vil calúnia, pérfida inimiga.



Una-se todo, em traiçoeira liga,

Contra mim só, o mundo miserável.

Alimente por mim ódio entranhável

O coração da terra que me abriga.



Sei rir-me da vaidade dos humanos;

Sei desprezar um nome não preciso;

Sei insultar uns cálculos insanos.



Durmo feliz sobre o suave riso

De uns lábios de mulher gentis, ufanos;

E o mais que os homens são, desprezo e piso.