João Batista do Lago

Encontrados 5 pensamentos de João Batista do Lago

Autocídio

morro-me a cada instante
da desesperada dor da fome
morro-me em cada semblante
que se consome
no desesperado desabrigo
morro-me nos olhos
da criança abandonada
morro-me na juventude drogada
morro-me no pai sem trabalho
morro-me no filho sem atalho
morro-me na mãe
que se morre na família
morro-me na falta da floresta
morro-me quando se morre
o lago,
o riacho,
o rio e o mar
morro-me, enfim,
quando Pandora morre-se
(...e de tanto me morrer a cada instante
morro-me na palavra que se morre!)

João Batista do Lago

Vulcão

O espaço é o meu corpo
talhado de aventuras.
Nele está tatuado toda marca
da esperança desesperada.
O tempo é o meu corpo
rio caudaloso e turvo.
Nele está singrante toda dor
da desesperada esperança.

João Batista do Lago

EU E O TEMPO

Sou, pois, o avesso
Do avesso
No regresso do tempo
Sou, pois, sempiterno
Puras recordações
Das ilusões dos tempos
Sou, assim,
Ternura dos ventos
E dos tempos
E sem o tempo do ser
Sou o ser do tempo
Na eternidade do eu

João Batista do Lago

FANTASIAS
(Para uma amiga muito especial)

Ó fantasias que escondem
minh'alma pura, que me revelam
diante do meu eu-espelho, que me
segredam toda impura no
sacrário de um altar jamais revelado:
hóstia de essência imaculada,
refém da mandala sagrada.
Sei! Sou fiel depositária do
sonho desvelado, do
gozo nunca sentido, da
esperança macabra do falo que não fala a
linguagem do meu corpo em brasa,
corpo que se arrasta entre os lençóis da casa e que
voa nas fantasias d’uma ave sem asas.

João Batista do Lago

JOÃO BATISTA DO LAGO
Nasceu em 24 de junho de 1950, em Itapecuru Mirim, Maranhão.
Se considera um poeta “surracionalista”
(palavra cunhada pelo filósofo Gaston Bachelard),
ou seja, “tal qual no surrealismo utilizo as palavras como objeto para alcançar o objetivo de uma ‘experienciação’ para uma nova realidade experimental, sacando-a do campo da simples epistemologia e introduzindo-a no campo daontologia pura; (...) isso sugere a desverbalização da palavra em si, de si e para si, o que significa a desconstrução do discurso da palavra ou do texto homófono, para constituí-lo e fixá-lo como ‘sujeito’ do discurso substancial, real e concreto”.
Outra paixão:
o jornalismo - profissão exercida há mais de 30 anos

João Batista do Lago