Irvin D. Yalom - Arthur Schopenhauer
Todo mundo sabe que a vida é uma sucessão de perdas, mas poucos sabem que uma das piores perdas que nos aguardam nas décadas finais é dormir mal. Julius sabia muito bem disso. Suas noites consistiam num leve cochilo que quase nunca chegava a um profundo e abençoado sono em frequência delta, interrompido por tantos despertares que ele muitas vezes temia se deitar. Como tantos insones, acordava achando que tinha dormido menos horas do que dormiu, ou que passou a noite acordado. Em geral, só conseguia se convencer de que tinha dormido revendo o que pensou à noite e percebendo que, acordado, não pensaria coisas tão
estranhas e irracionais.
Nada mais consegue assustá-lo ou emocioná-lo. Ele cortou
todos os milhares de fios da vontade que nos ligam ao mundo
e nos puxam para a frente e para trás (cheios de ansiedade,
carência, raiva e medo), num sofrimento constante. Sorri e olha calmamente para trás, para a ilusão do mundo, indiferente como um jogador de xadrez no final de uma partida.
Acredito piamente que o homem mais feliz é o que busca apenas a solidão
A alegria e despreocupação da nossa juventude deve-se, em
parte, ao fato de estarmos subindo a montanha da vida e não
vermos a morte que nos aguarda do outro lado.
"A vista do cume de uma montanha ajuda muito a
ampliar os conceitos. (...) tudo o que é pequeno some, só fica o que é grande"
É uma equação comprovada: quanto menos me relacionar com
as pessoas, mais feliz fico. Quando tentei viver no mundo, estava sempre inquieto. Meu único caminho para a paz é ficar fora do mundo, não querer nada, não esperar nada, fazer conquistas contemplativas e superiores,
— Também não me ofendeu — disse Philip. — Você e Schopenhauer têm algo em comum quanto à religião. Ele achava
que os líderes religiosos exploram a eterna necessidade que o homem tem do sobrenatural e tratam as pessoas como crianças deixando-as numa eterna ilusão, e não contam que escondem a verdade em alegorias.
Se você se interessa muito por filosofia, prepare-se para ser motivo do riso e escárnio de todos. Se persistir em seu interesse, saiba que essas mesmas pessoas depois irão admirar você. (...) E que, se por acaso der atenção a fatos externos, para agradar a quem quer que seja, fique certo de que arruinará seu estilo de vida
Quando eu tinha trinta anos, estava cansado e aborrecido por
ter de considerar iguais a mim pessoas que nada tinham a ver
comigo. Como um gato que, quando pequeno, brinca com bolinhas de papel porque acha que são vivas e parecem com
ele, assim me sinto em relação aos bípedes.
A única forma de um homem se manter superior aos demais é
mostrar que não depende deles.
Não conte a um amigo o que seu inimigo não pode saber.
Sempre que me misturo aos homens, fico menos humano
Schopenhauer disse que depois da morte seremos o que éramos
antes de nascer e tentou provar que só pode haver um nada.
Viva bem, lembrou a si mesmo, e tenha certeza de que vão sair boas coisas de você, mesmo que não perceba.
Mesmo sem motivo, sinto sempre uma ansiedade que me faz ver e procurar perigo onde não existe. Isso aumenta infinitamente qualquer aflição e faz com que a ligação com os outros seja muito difícil.
Embora apreciasse a conversa séria, ele raramente encontrava
companheiros de refeição que merecessem desperdiçar seu tempo.
Não devemos nos preocupar em como as coisas são, mas nos
maravilharmos por elas serem, por existirem.
Assim, foi o primeiro filósofo a olhar impulsos e sentimentos a partir de dentro, e pelo resto da vida escreveu muito sobre as preocupações interiores: sexo, amor, morte, sonhos, sofrimento, religião, suicídio, relações com os outros, vaidade, auto-estima. Mais que qualquer outro filósofo, ele tratou daqueles impulsos sombrios que ficam lá no fundo, que não suportamos encarar e por isso precisamos reprimir.
Schopenhauer me fez ver que estamos condenados a girar sempre na roda da vontade: desejamos uma coisa, conseguimos, desfrutamos um instante de satisfação que logo passa a tédio e seguimos para o próximo "eu quero". O desejo não acaba, seria preciso pular da roda da vontade.
Quer dizer anular completamente a vontade. Aceitar que nossa natureza mais íntima é uma luta implacável, que esse sofrimento está em nós desde o começo, e que somos condenados por nossa própria na tureza. Quer dizer que precisamos primeiro entender o nada essencial desse mundo de ilusão e depois procurar uma forma de negar a vontade. Schopenhauer fez evitando o mundo do desejo.
Quem ama sente uma enorme desilusão depois de finalmente chegar ao prazer. E, surpreso, vê que aquilo que tanto desejou traz o mesmo que qualquer outra satisfação sexual, e assim não encontrará muita vantagem em amar.
Podemos conhecer muitas coisas apenas através da razão. A geometria, por exemplo. Ou alguém pode ter uma experiência dolorosa e concluir a partir dela, ou pode olhar, ler, observar os outros.
