Henrique de Shivas

76 - 100 do total de 102 pensamentos de Henrique de Shivas

Ser justo é decerto praticar um bem à medida que se exige praticá-lo, porém, se não há motivos para agir, muito pouco para justo ser, portanto: ser justo é, antes de tudo, um ato munido de motivos.

Um homem que, imprevidente, age sem lançar vista sobre os demais, e inclusive, usa os demais para atingir uma dada meta, não é de todo injusto, pois que, fazendo tudo para o que ambiciona ter, faz justiça consigo mesmo.

De fato, um homem justo não o é nunca plenamente, pois que em algum momento pratica um mal mesmo sem o perceber, e disso se conclui que é menos culpado quando age assim do que se o agisse conscientemente.

Ora, saber ao certo o que é preciso fazer para justo ser não é de todo possível, pois que o homem sempre ignora algo que lhe escapa, portanto, o homem, mesmo ambicionando ser justo, só o conseguirá de modo bastante limitado.

O Símio Online

Observo atentamente a reação dos símios-contemporâneos quando submetidos a provocações online; seu comportamento é algo de fácil determinação.

Na maioria das vezes o reflexo de suas emoções se difunde em seus profiles, sendo possível perceber como se sentem y, além disso, como reagem a uma determinada-sensação estimulada por uma provocação previamente metodizada.

Em suma: é possível estudá-los à distância y emitir um juízo sobre sua personalidade.

À medida que se excedem, ou seja, que reagem a estímulos-variados, mais se explica y se torna evidente aquilo que tentam, sobretudo, esconder: que são, de fato, símios-pensantes comedores de bananas.

Alguns desses símios pousam para as câmeras de fotografia acopladas em seus celulares (y em outros aparelhos afins) y fingem-se altivos para os outros num ato que julgam ser dotado de muita racionalidade y discernimento.

Outros sorriem para as câmeras, registrando seus dentes, sua felicidade momentânea ou fingida, y, por vezes, o mais absurdo: dizem ser dotados de qualidades que eles próprios ignoram; como se quisessem ser estrelas a qualquer custo ou comer a melhor banana sem laborar.

De fato, um estudo como esse não poderia passar despercebido, ao contrário, merece suprema atenção y discernimento.

O homem é uma criatura-racional, mas sua razão é impotente diante de sua animalidade.

Porque pensa, julga-se o melhor de todos os animais, tornando deus a sua própria semelhança.

Mas parece que de nada vale tanta racionalidade y tanto intelectualismo, pois (não se pode duvidar) comportam-se como verdadeiros animais selvagens; aprisionados em suas próprias jaulas – produto y resultado de sua própria engenhosidade-intelectiva – em vão se debatem y se martirizam.

Daí ser fácil estudá-los em suas gaiolas naturais, assim como se faz com macacos de laboratório; porém, como todo animal – carece-se ter muito cuidado y diligência: muitos deles são ferozes y violentos y podem morder o profissional... li muitos livros desses símios e me parece que nada de útil se pode tirar deles; vi suas construções espetaculosas, seus templos sagrados, suas nações altivas, suas Europas y Américas, y tudo me pareceu sem futuro y sem valor.

O que chamam y denominam de beleza (y outros termos absolutos inúteis), o que pensam em ser y o que fazem, o que construíram y o que pensam em construir, ah, tudo isso me pareceu um retrocesso y uma involução.

E quando me perguntam nas ruas se eu concordo com o “progresso”, com a “evolução humana”, fico pasmo: y penso de que modo eles concebem essas opiniões y as tomam como verdadeiros dogmas dignos de fé.

Todos esses termos, y mil outros, tornaram-se verdadeiros deuses para o homem, y é mesmo causa de toda decadência-humana.

Então ma acusam de mil maneiras, dizendo ser minha opinião sem nalgum fundamento, y eu lhes replico dizendo que: “a sua reação contra a minha tese revela o íntimo de suas almas”, ou seja, a conclusão! – são tão vaidosos a tal ponto de não serem capazes de lançar ao lixo suas próprias teorias, opiniões y chulos-argumentos.

Uns se dizem cultos (y acham isso o máximo!), outros, inteligentes, outros ainda urgem ser poetas ou filósofos, mas todos, no final, são farinha do mesmo saco: escravos do pensamento y da fabulação-racional, mulas da racionalidade ou operários do raciocínio: crêem que são verdadeiros deuses quando, em verdade, não passam de meros símios-pensantes presos nas jaulas que eles próprios criaram para se proteger de sua própria loucura-interior.

(Livro: Do Inútil à Escola dos Chimpanzés;
Estudo sobre os Símios Pensantes)

Aquilo que o bem nos faz enquanto estar-se perto ou longe, e o mal, sem que nos murmure igualmente, é o amigo, sem dúvida, ou o amor: a elevar-se, cintilante, de seu oceano blue.

Possuir não é mais do que um elo que o verbo estreita entre um e outro. Quando a força que une a dois não provém de um verbo que se estreita: é o próprio amor que os une e os possui.

O que encontro enquanto sozinho ando pelas ruas, ou quando passo pouco tempo comigo e isolado: é o criminoso trabalhando em mim o ato que o contenta.

De todos os sentimentos, a vingança e o ódio são os únicos que não podem andar separados. Saber usá-los é próprio de um gênio.

O passado me comove à medida que eu penso em seu valor, naquilo que o faz ter sentindo para mim. Talvez, o passado seja tudo aquilo que me restou e, contudo, aos poucos, leva-me – junto a ele! – para o fundo do seu esquecimento.

Joga-se o tempo no lixo todas às vezes que deixamos de agradar a nós para agradar os outros.

Perdemos a razão todas às vezes que deixamos de ser céticos.

O que adianta ser corajoso e não fomentar a coragem? Ser forte e não nutrir-se de músculos? Ser bonito e, por dentro, deixar-se sórdido e lamacento? E, ainda por cima, ser poeta e não amar a lua? Quem não exige de si próprio o melhor de si mesmo não merece viver.

Para onde eu vou nem eu sei. Levei tempo para entender que tudo é possível.

Odeio gente que não está preparado para dar tudo de si, para ser o melhor em sinceridade, para ser o melhor como amigo e, acima de tudo, dar-se por inteiro com suas qualidades e porcarias.

Quem não exige de si próprio o melhor de si mesmo não merece viver.

A vida é feita de adeuses.

A experiência é mãe das grandes lições.

Os que gozam da Verdade e de sua Luz
– vivem a Retidão.

Com Coragem diante do Obstáculo (a Dor)
– abrir uma trilha em meio à Escuridão.

Suportar é Ser Forte:
– não ter medo de perder.

O resultado de uma vida onde a pretensão do homem pelas coisas materiais é maior do que o desejo de contribuir é a pobreza, o esquecimento, a morte. Porque só vivem na eternidade os que constroem, assim como só colhem deliciosos frutos os que antes semearam diligentemente.

Pelo caminho da metáfora o homem compreende a essência. Pela via do conceito, a superfície – o problema.

A sabedoria não passa de um estado onde o homem se sente tomado pela lucidez.

“O que é” e “o que significa” não passa de uma questão de nomes, se não vive o homem dentro de si “a experiência de si mesmo”. A experiência do homem consigo mesmo – tantas vezes revelada nas tradições religiosas do mundo – é a experiência do silêncio.

Anterior  1 2 3 4 5   Próxima