Fernando Pessoa (Bernardo Soares)

Encontrados 7 pensamentos de Fernando Pessoa (Bernardo Soares)

Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente.

Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.

Atendo a tudo sonhando sempre;

fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos;

mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei.

Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu;

mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra...

Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste.

Não há sossego - e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter.

A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos,

Mesmo eu , o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge.

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam.

Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa.

Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poeta românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico.

Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.