Fábio Sexugi
O Big Brother é um Big Self. E, caso assinasse o pay-per-view, Sartre atualizaria sua afirmação: 'o inferno somos nós mesmos'.
Parafina
De vez em quando
minha fé resmunga
reclamando
Inconstância súbita
me questiona
me põe em dúvida
me indaga
Mas meu pavio
não se apaga
segue aceso
e embora ileso
em chaga
Tenho medo de poucas coisas. Mas, a que mais me incomoda é a ameaça da velhice.
Não quero perder aquilo que mais admiro na juventude: a inquietação.
Deus permita que daqui uns tempos eu possa olhar para uma foto minha destes dias e dizer-me, sem peso na consciência, que mantive viva a inquietação: essência da juventude.
A juventude é inquieta. E é somente a inquietação da juventude que nasce aquilo que é belo, que é bom.
Só os jovens podem mudar o mundo.
Insônia
Céu lustroso
sem nuvem alguma
Um grilo ocioso
conta as estrelas
uma por uma
Da sacada
Quero escrever a palavra mais linda
e deixar pelos muros versos suaves
Quero entrar na casa da poesia
e da janela translúcida, intruso,
olhar o mundo além dos horrores.
Quero ver a vida, ainda intruso,
além da fachada, cinzenta, fechada.
Quero, da mesma janela poética,
coser saberes, gozar sabores,
olhar o mundo além das dores,
e escrevê-lo mais bonito,
embora limitado,
como senhor sem vassalo,
como rei sem castelo,
cavaleiro sem cavalo,
escrevê-lo mais belo,
já que só a beleza haverá de salvá-lo.
Brasilidade
Meu País de enredo inacabado:
uma prosa de Deus,
um poema do Diabo.
Alvorada em minha Pátria
No vasto solo do meu espírito poeta
Onde eu cultivo tantos sonhos e promessas
Ressoa o eco da canção da minha terra
Feito cantiga aveludada que dos ouvidos se aproxima
Feito poema à singeleza que transcende qualquer rima
Poema insigne que venera uma beleza sempre eterna
Canção amiga cantada em verso, musical língua materna
Ressoa em súplica que sobe em paz na alvorada
E se propaga aqui por dentro construindo uma morada:
Deus te salve, ó minha Pátria, meu quintal amplificado!
Que te acolha vaidoso como o Cristo em Corcovado
Que te benza sorridente aspergindo-te Iguaçu
Que percorra os teus caminhos, entre os quais, Peabiru
Deus te beije, jardim jovem, o horizonte majestoso,
E sopre um hálito de vida na bandeira que sustentas
E outro hálito de paz em quem hasteia-te orgulhoso
Que teu eco esteja sempre aos meus ouvidos qual canção
E esperança seja o sonho que se encontre em minha mão
Pois o som do teu hino pelas ruas do desterro
Estremece até a alma neste peito brasileiro
Visitantes recentes
O que querem insistentes
e que buscam [me perscrute]
os "visitantes recentes"
que vasculham meu Orkut?
E por que tal descaso
em me deixar só pegadas?
Se me visitam por nada,
o fazem só por acaso?
Quem serão esses vultos
que me deixam inquieto?
Serão amigos secretos
ou inimigos ocultos?
Miopia
Serão dez ou serão onze
os seus óculos de bronze?
Por favor ou por astúcia,
não reponham tal minúcia
na estátua que verseja.
Não permitam que ela veja
que a maldade que profana
ultrapassou Copacabana.
Cerejas enchem os olhos, não a barriga.
Quem vai a Roma não vaia Roma.
Peabiruta
Eu peregrino
dia por dia,
longa romaria
Eu peregrino
no pó, no espinho
durante o caminho
Eu peregrino
aspirando outros ares
da terra-sem-males
Eu peregrino
piso a terra laranja
que meu pé desarranja
Eu peregrino
e se às vezes me exalto
não prefiro o asfalto
Eu peregrino
em rastros inteiros
de outros romeiros
Eu peregrino
Faço irmão o destino
e irmãs as estrelas
e mesmo sem vê-las
Peregrino
Estiagem
O sol volta radiante
Leva a chuva lacrimosa
Deixa tudo como antes
Chuva
Nuvem densa no céu
A água que invade
são gotas de saudade
Tempestade gaúcha
Gotas errantes
imitam vanera
Caem dançantes
sem eira nem beira
Um vento criança
recorda sanfona
Fissura de dança
me vem logo à tona
Rituais e homenagens póstumas não apagam traições. Estátuas não compensam torturas. Letreiros luminosos em prédios edificados com grana pública não ofuscam isolamentos cruéis. Jardins no centro não limpam cusparadas. Isso não basta.
Construir um belo obelisco a pacifistas regionais não basta. É mísero! Insensatez! Para homenageá-los, seria preciso construir a paz e a justiça pela qual lutaram, e não monumentos apenas.
Não basta pregar uma placa para um militante idealista numa salinha. Isso é nada! Importa tirar do túmulo seus ideais, levar suas idéias adiante.
Não basta beatificar um mártir. É muito pouco. É preciso imitar-lhe a coragem, a perseverança e ajudar outros corajosos e perseverantes em suas lutas, para que não precisem conhecer o batismo de sangue.
Plaquinhas de bronze? Estátuas? Nomes de avenida? Tudo isso vale muito pouco.
Quero menos cruzes e mais Cirineus.
