Edgardo Xavier

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Duelo



À carne expectante
anuncio o meu corpo
em trovoada de sentidos
Há dores
cheiros
gemidos
na tua terra queimada

Na promessa de redenção
crestam-se os lábios
E as chagas

É tempo amor
Sangra-me a sede mais feroz
e mistura a tua noite
ao meu veneno

A cor do Amor

A cor do meu amor
É difícil de encontrar
Tão lenta
É a ternura que gasto
No acto sublime
De beber-te

A cor do meu amor
Deixa marcas no teu corpo
Vestígios frescos de mim
E a imperiosa vontade
De saber-te
Saciada
De dedos
Sexo
Segredos

Quanto aos beijos
Mordem-se
Ao compasso dos desejos
Doces
Como pitangas
A rebentar de sumo

Afecto

Recupero-te
na febre do tempo que arde
como a ternura
mansamente

Sou como pedra jacente
na melancolia dum lago
expectante

Na minha boca
a tua sede
Incendeia a madrugada

Ai tanto caminho andado


Ai tanto caminho andado
Tanto tempo
Tanto fado
Tanta pedra no meu prado
Tanta cinza
Nas minhas nuvens de Maio

Ai tanto caminho andado
Em silêncio
Em agonia
Antes de ter-te a meu lado
A partilhar o telhado
Na minha terra bravia

Ai tanto caminho andado
Na monda dos meus trigais
Sede de Agosto e papoilas
Água fresca
Céu aberto
Riso aceso
E a tua boca tão perto

"Por inteiro"

Tomo-te no pensamento
por inteiro
e tenho-te cativa no corpo
meu avesso de alma

Bebo-te
como um veneno ou um licor
apaixonadamente

Nada do que é teu se desperdiça
ou se perde nos caminhos
da memória

Nunca o amor
passou sem que o visse
a rasgar-me o peito
ao som da tua voz
palpável

Escrevo-te a luz
no silêncio da manhã

"A música vem de ti"


A música vem de ti
promessa ainda demorada
na luz do tempo
no pó da estrada

A música vem
e chegam também
a urze e o azul
que te precedem

Serás flor na aurora branda
emoção de um lírio por dizer
pedra
corpo
verde e água
na tua boca calada
antes de acontecer

A música vem de ti

Conta-me


Conta-me
Do teu vestido verde
Seda pura
Corte liso
Conta-me
Do que é preciso
Para que vistas luar
E sombra
Pele e luz.

Em Silêncio

Amar-te em silêncio
E estar só
Não é ser forte,
É queimar a alma
Devagar
Como brasa sob cinza

Á revelia do olhar
O desejo queima
E acorda o corpo
Para um destino
De fogo
Ou de mar

E sou crista de onda
Ou céu de prata
E a lua é só uma lata
Sem valor
Sempre que estás comigo

Só então me reconheço
Como um pedaço de ti
Que recusa a independência

Sou livre sempre que voas!

Pausa

Vem e traz o ar de posse
As certezas e a intimidade
Sê a estátua de carne
Neste momento de silêncio
Muda e quieta
Como uma boca pousada
No meu sono


Traz-me de ti
O tudo e o nada
Do abandono
E acampa no trevo
Acre e macio
Deste corpo em festa

Depois, vê o que resta
Da minha fome e do cio
Retoma a tua gesta
Deixa-me vazio

Pelas Mãos te Sei


Pelas mãos te sei
pelos dedos te leio
formas e vazio
luz e esteio
corpo
sede
raiva
e os olhos magoados
de claridade agreste

Espessos os lábios
presas as palavras na garganta
e o teu olhar
a ditar estes silêncios de veludo
Mudo também é o som da noite
imenso jardim de estrelas
e passos sem destino

Basta saber que me esperas
à esquina de qualquer hora
Basta-me sentir a vida
como um sopro leve no rosto
e provar o mosto
do teu vinho
rubro e aceso
com sabor de vida
ao jeito da idade

Homem
menino
velho
destino
e o tempo a tecer rugas e mágoas
a gerar fontes
onde choramos
os amores perdidos
na calma podre das seivas
Petrificadas

Perto

Risco o teu nome na areia
Ao silêncio dos reflexos
Sais-me dos dedos
Mas é na boca que me deixas
O sabor a rosas que há em ti

Sei de caminhos e ruas
Sei de tempestades
Sei de corpos e cidades
Mas a ti amor
Só te adivinho

Contigo
As ausências
São a pausa desejada
Tu é que trazes
Estrelas e luar
À minha noite fechada

Amanhã quando vieres
A este pedaço de céu
Que iluminas
Estarei do outro lado
Da circunstância
Ao alcance do olhar

Se

Se corro
Cega-me a pressa
Para a verdade dos lírios
Se abrando
Fico-me pela delícia
Dos delírios
Em que morro
Nos teus braços
Devagar

"Vens de longe! "

trazes distância no olhar
e o peso do exílio
vens de longe
para o peito que te acolhe

na ilha onde moro

Sais do escuro
e trazes o silêncio
tacteias-me
dedo, mão, asa, pedra
e o grito
geme a entrega
incondicional

Todos os nomes


Todos os nomes na tua boca
Sibilam como nortadas
Alisando a copa dos carvalhos

Todos os nomes te deixam
Com o brilho da luz mais pura
Mas ficam como cicatriz antiga
No peito ferido de memória

Todos os nomes num sabor de sal
Amor, serenidade e vazio
Meu prado verde iluminado
A flores e silêncio
Meu Inverno de palavras
Meu estio sem frutos maduros
Meu horizonte sem ti

"Tragédia"

Tragédia em todos os actos
é quando sem ver o azul
repetidas vezes
descreves negro
sentes noite
e não percebes o aroma
das camélias
que se escondem no breu
Como eu

"Lisboa"

Lisboa
Reflexo doce do Tejo
Caminho de luz coada
De encontros
Com água
Azul
E pedras da calçada
Gente e brumas
Cheiros e mágoas
Lágrimas de um tempo que se esgota
Penoso
Quando nos afastamos
E nos esquecemos
De amores
Barcos
E gaivotas

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